O homem que faz pensar a Alemanha pós-crise
Com o futebol pragmático de sempre, a Alemanha goleou a Austrália por 4×0 esta noite, legando aos franceses, como de costume nos últimos tempos, uma inveja silenciosa. Não há nada de novo na objetividade alemã frente ao proselitismo inútil aqui destas bandas, mas o que mais espanta os franceses nesta ensolarada primavera europeia é que esta objetividade está mais uma vez transbordando para além dos campos de futebol. A Alemanha se recupera bem da crise econômica se comparada ao restante dos países da Europa ocidental, às custas de muitas medidas impopulares e que, ao contrário do que acontece na França, estão encontrando relativo apoio dos sindicatos e dos trabalhadores.
A mistura implementada pelo governo alemão é simples, mas suficiente para fazer com que seja acusado de “maquiavélico” por outros governos social-democratas europeus: redução de salários, redução de gastos públicos e nenhuma redução de impostos. As medidas não são de agora, o país vem se preparando para a crise desde a metade da década. Um símbolo dessa unidade nacional para se preparar para crise foi a negociação salarial da Volkswagen em 2006: nada menos do que todos os 100.000 trabalhadores de uma das maiores empresas nacionais aceitaram trabalhar mais horas sem ter nenhum reajuste salarial por isso. Tente imaginar isso na França ou mesmo no Brasil e dê gargalhadas.
Embora a previsão de crescimento para os dois países vizinhos não passe de 1,6% para este ano, a Alemanha apresenta alguns números invejáveis em relação à França nestes tempos de crise. A indústria daqui ainda não achou um meio de enfrentar a chinesa e amarga um déficit na balança comercial de 53 bilhões de euros. Nenhum desastre, você dirá, até ver os números alemães: 153 bilhões de euros de superávit na balança, com 36 bi exportados para a China em 2009, contra 7,9 da França. Quer dizer, se não nadam de braçada, também não perdem o sono os alemães com a atual crise.
Há uma nova Alemanha no ar, dizem os franceses, e que vai além dos números da economia. Como a que representar o abismo que separa os dois países está Richard Precht, o mais popular filósofo alemão da atualidade, um best-seller que usa camisa aberta, cabelo comprido, 45 anos com cara de 30. Nada mais francês do que um filósofo pop, você dirá mais uma vez. Só que Precht sabe colocar os franceses em seu lugar:
– É verdade que Badiou faz sucesso na França? – disparou ele em direção a um repórter da Le Point incumbido da de decifrá-lo. Prosseguiu: – Um maoísta? Vocês são loucos? Vocês não aprenderam nada com a história? Na Alemanha, um maoísta jamais será escutado.
A fala óbvia de Precht já seria suficiente para torná-lo o maior gênio da Europa atual, especialmente na terra da Sorbonne, o Campus do Vale francês em que Mao e Fidel seguem sendo nortes morais. Mas Precht foi além no ataque às farsas francesas. Sem pedir permissão ao repórter do Le Point, disparou contra o principal articulista da revista:
– E Bernard-Henry Lévy? Para mim ele é só um jornalista político talentoso.
Quanto ao seu próprio pensamento, bem, Richard Precht se orgulha de dizer que não é nenhum gênio, que fala de uma ética do cotidiano e que produz aquilo que seus conterrâneos mais querem: um pensamento prático, pragmático, útil para enfrentar a contemporaneidade. Cruza lições básicas de filosofia com questões atuais, como a cibercultura, a neurociência e os avanços da genética. Dessa forma, se tornou conselheiro de três dos mais altos dirigentes da Alemanha, com quem conversa a portas fechadas sobre a Europa, o capitalismo e a “alma do liberalismo”. Nas horas vagas, recusa três convites por semana para talk-shows populares – e aceita tantos outros.
– A necessidade dos meus compatriotas é imensa, e ninguém os responde. Eu sou um engenheiro do pensamento, eu desmonto os problemas e dou as ferramentas.
Objetivo como foi o ataque da seleção alemã esta noite, Precht acalenta seus conterrâneos em meio a uma crise que, por lá, parece já ter ares de passado.
Tags: alemanhã, Campus do Vale, Crise, Fidel, filosofia, França, futebol, mao, richard precht, Sorbonne, vokswagen
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