Sentando na mesa dos adultos
Constatação rápida: a imprensa americana está cagando e andando para a história da compra dos aviões.
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Assim: sabe a história que o Brasil estava criando um episódio diplomático porque insistia em comprar os caças franceses e blah? Pois é, ninguém se importa com isso no Pentágono. A Clinton não está dando o tour pela América Latina para pressionar a compra de material militar. Ela está dando uma banda pela América Latina para apresentar uma nova política externa para a região.
Parte disso é a constatação que a América Latina quer ter uma agenda internacional própria. Não que isso constitua, necessariamente, um problema. Mas, abre a cortina e Ahmadinejad aparece abraçado no Lulão e no Chavão.
Clinton começa a sangrar pelo nariz. O passeio do Ahmadinejad pela América Latina, sorrindo para as câmeras, saudado como líder legítimo de uma nação soberana, é o principal fator que motiva a viagem da Sra. Clinton. Afinal de contas, não interessa para ninguém que um dos países membros do Conselho de Segurança da ONU (ainda que membro não-permanente) possa permanecer neutro diante dos interesses atômicos do Irã.
O ponto da política externa brasileira é que o programa atômico iraniano tem a mesma função que o brasileiro, ou seja, é um programa pacífico voltado para a produção de energia limpa. Claro, a gente pode questionar aqui o quanto a produção de energia pode ser “pacífica” – me parece que isso exige um tipo de crença similar com a que acredita no interesse unicamente científico de mandar um míssil para a Lua.
Mas a diplomacia brasileira sustenta, por enquanto, uma neutralidade diante do programa nuclear iraniano. Assim como é neutra diante do regime cubano e ainda não lançou nenhuma nota de repúdio contra as FARC. Tudo bem, tu podes argumentar que é uma questão de consistência, já que o Brasil historicamente não toma lado em questões da chamada “soberania interna” e tu poderias argumentar que energia e defesa são questões de soberania interna.
Este posicionamento é muito compatível com potências como Luxemburgo, Mauritânia, Uruguai ou Trinidad e Tobago. Acontece que se tu estás na mesa com gente adulta é bastante possível que tu tenhas que se posicionar de forma mais assertiva do que “é, legal, eles nas deles nós na nossa, beijas!”. Por enquanto, o Brasil segue na posição confortável de dizer que não adianta sancionar o regime iraniano.
Esta posição, do ponto de vista americano, é totalmente inaceitável. E a Clinton esteve no Brasil justamente para tentar argumentar a necessidade de um discurso homogêneo por parte do Conselho de Segurança da ONU – e para mostrar uma mão amiga com relação ao Chile. Para a política externa brasileira poderia ser interessante tentar mostrar força e manter uma posição neutra. Seria interessante na medida que mostraria capacidade de resistir à pressão do Pentágono. Mas o problema é que daí a neutralidade é apenas retórica. Ao resistir à pressão de posicionamento contrário ao programa nuclear de um país que adota um discurso um tanto belicista quanto aos seus vizinhos, o Brasil não está sendo neutro.
Vale lembrar, o Brasil é o único país do BRIC (Brasil-Russia-India-China) sem a bomba nuclear. Também é o único país que permanece sem um posicionamento claro neste debate. Não quero fazer mais uma crítica barata da política externa brasileira ao indicar esta posição neutra, apenas constatar que os Estados Unidos parecem saber que a política externa brasileira condiciona o posicionamento dos demais países na América do Sul e o atual conflito político do governo norte-americano com o Irã pode escalar para um conflito militar rapidamente – e aí? Como fica a história? O secretário assistente da Hillary tem a declaração chave na Foreign Policy:
“While we’re cognizant of the fact that the Brazilian government has reached out to Iran and has been approaching the Iranians, it’s very much on our agenda to try to insist with the Brazilians that in their engagement with Iran, we would like them to encourage the Iranians, of course, to meet their international obligations,” he said, adding that the State Department views Brazil’s opposition to new sanctions as a “mistake.”
Ou seja: a gente sabe que o Brasil está falando com o Irã. A gente quer que o Brasil comunique nossa agenda para o Irã como nosso aliado. Seria um erro deixar de se comportar como um aliado dos Estados Unidos.
O recado é mais ou menos assim: olha, a gente tá deixando vocês sentarem na mesa com a gente. Mas mantenham em mente que na hora que vocês começam a derramar vinho caro no chão e falar babaquice, a gente vai botar vocês de volta na mesa com as crianças.
Isso tudo no contexto dos Estados Unidos retomando uma posição de multi-lateralidade e tentando resolver as coisas pela via das Nações Unidas. Seria uma oportunidade interessante para o Itamarati se colocar como parte de uma deliberação da ONU que fosse resultar em alguma coisa concreta – e pode ser uma má idéia ficar do lado “neutro” da história quando a comissão de energia atômica e o conselho de segurança da ONU parecem estar se movendo para realmente colocar o Irã na parede.
Tags: Brasil, Estados Unidos, Irã, ONU, Soberania
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