Ato contra tudoissoqueestaaí

Leandro Demori | Itália 15:59 | 23/09/2010

Entrei por curiosidade no site da Federação Nacional dos Jornalistas para saber se há algo sobre o “ato contra o golpismo mediático” de hoje. , obviamente.

A notícia divulgada pela Fenaj destaca que o “ato” é “pluripartidário”. A informação está correta na mesma medida em que é desonesta: vários partidos participam da manifestação, todos, no entanto, pró-governo. O “pluripartidário” quer dar um evidente tom de concordância popular; os 81% dos brasileiros que estão contentes com a imprensa discordam.

O site da Fenaj, mantido por jornalistas, faz jus à fama de tratar de forma desonesta a informação. A mentira dos outros, é claro, é sempre mais mentira.

Em outra época, os militares queriam calar a imprensa, e a União Nacional dos Estudantes junto aos partidos “de esquerda” — como se dizem esses do “ato” — pediam liberdade de expressão. Hoje, o Clube Militar realiza evento sobre a liberdade, e a militância revolucionária?

O manifesto de convocação do ato considera que a campanha presidencial no Brasil enveredou por um caminho perigoso. “Não se discutem mais os reais problemas do Brasil, nem os programas dos candidatos para desenvolver o país e para garantir maior justiça social. Incitada pela velha mídia, o que se nota é uma onda de baixarias, de denúncias sem provas, que insiste na ‘presunção da culpa’, numa afronta à Constituição que fixa a ‘presunção da inocência’”, registra o documento.

Não sei em que bolha de sobrevivência essa gente viveu nos últimos anos, mas no país que eu conheço as eleições sempre foram exatamente como são hoje: um festival de baixarias por parte dos candidatos, e outro festival de denúncias e matérias “bombásticas” por parte da imprensa. Para manter a tradição da edição desonesta que tanto diz combater, os organizadores do “ato” também divulgam um texto desonesto. Vai ver é piada interna.

A “manifestação” contra o “golpismo mediático” ocorrerá no auditório do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. A Fenaj e o Sindicato dos Jornalistas são apenas mais duas das associações bancadas pelo dinheiro estatal — ou seja, o seu — para defender o governo. A utilidade social ou para a classe dos jornalistas que a Fenaj ou os sindicatos representam é zero.

Tento renovar minha carteira de jornalista há meses, mas só quero fazer a carteira internacional, já que moro fora do Brasil. É impossível. Eu teria que fazer a nacional e, depois de pronta, a internacional. A grande jogada? Essa (email recebido do Sindicato dos Jornalistas do RS):

“Ola,
Tens que ter a carteira nacional na validade (xerox), e também a xerox da carteira internacional vencida, 01 foto 3×4 recente e fundo branco (foto para documento), estar em dia com as mensalidades e pagar 40 euros (cotação do dia).”

A sindicalização não é obrigatória, e essa informação foi omitida no e-mail. Não quero me sindicalizar e ajudar com minhas suadas liras a sustentar esses “movimentos sociais” que defendem bandeiras de acordo com o que quer a diretoria de plantão. Não ajoelho na mesma fé da Turma do Paletó na Cadeira. Sindicatos de jornalistas me parecem sempre algo como a Academia Brasileira de Letras: um bando de gente sem talento tentando aliar prestígio a benesses pessoais.

Custo para fazer a carteira nacional: “Não Sindicalizados – R$ 300,00″

Ou seja: primeiro você versa trezentinho no caixa da companherada, depois, mais 40 euros. Agora me explica:

1) no bolso de quem eu enfio a carteira nacional se ela é inútil para quem mora no exterior?
2) e por que motivo preciso fazê-la se o que me interessa é somente a internacional?

É gente assim que vai lá gritar e espernear contra a Mídia Má, essa gente honesta e cheia de boas intenções; proba a ilibada, sempre preocupada com algo maior.

Outra coisa lamentável de espisódios como esse dorme nas faculdades. Até 2002, os alunos eram formados por professores de maioria petista e/ou “de esquerda” que enchiam as jovens cabecinhas com o discurso de que o governo deveria ser tratado como “inimigo”, como algo a ser desvendado e exposto. Em tese, os aprendizes não deveriam se interessar por FHC ou por Lula, mas pelo Presidente da República e pelas instituições abaixo dele. Deveriam ser, na medida fiscalizadora — e não eleitoral — uma espécie de eterna oposição.

Hoje, com a companherada no pudê, os professores petistas continuam no mesmo lugar, e o que as faculdades mais criam é aluno com blog que defende o status quo. Formar peleguismo é o hype do momento.

Um estado sequestrado pelo banditismo sindical

Gabriel Brust | França 11:16 | 01/08/2010

O noticiário político deste domingo traz uma boa amostra do que o Brasil pode se livrar a partir do dia primeiro de janeiro de 2011. Não completamente, é verdade, já que depois de oito anos mamando no dinheiro público como nunca antes na história desse país, as organizações sindicais no Brasil se tornaram verdadeiras máfias oficializadas, que tendem a sobreviver às mudanças de governo.

É incrível como governos de esquerda conseguem ser previsíveis em sua miséria. Na Venezuela, Chávez segue à risca o roteiro rumo ao fracasso que todas as repúblicas de mesmo molde apresentaram ao longo do século 20. Escassez de alimentos nas prateleiras, racionamento de energia elétrica, empresas públicas destruídas pela invasão sindical, único país que terá encolhimento do PIB na América Latina, e, por fim, escolha do inimigo externo – EUA e Colômbia — para justificar toda a incompetência. Dá até preguiça comentar, de tão previsível.

No Brasil, o roteiro pronto fica por conta do poder dos sindicatos, engolindo o próprio Estado. Oito anos vertendo dinheiro de maneira incontrolável para bandidos, deu no que deu. O próprio governo começa a perder o controle sobre essa sub-casta que indiretamente (ou diretamente?) hoje governa o país, passando longe das boas intenções ou de métodos éticos para conseguir o que quer. A longo prazo, governo e sindicalistas tendem a se destruir mutuamente em sua guerra particular pelo nosso dinheiro. O filme é antigo e um eventual governo de Dilma será uma reprise sonolenta.

Mas vamos ao clipping de domingo, na República do Banditismo Sindical:

Na briga por cargos e poder na administração do presidente Lula, até o ministro Guido Mantega (Fazenda) foi alvo de um dossiê apócrifo que o próprio governo identifica como elaborado pela ala do partido egressa do sindicalismo bancário.

Amostragem extraída do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi) aponta irregularidades e pendências em, pelo menos, R$ 162 milhões repassados à CUT, à Força Sindical e a mais quatro entidades, por convênios. Desse montante, R$ 54,9 milhões são de repasses que sequer tiveram as prestações de contas analisadas pelos órgãos federais até o momento.

Entre 2006 e 2010, a variação patrimonial dos 56 deputados da bancada sindical na Câmara que são candidatos este ano foi de R$ 12,7 milhões – mais da metade desse valor (R$ 7 milhões) foi acumulada por apenas dez parlamentares. Encabeçando a lista dos parlamentares ligados ao movimento sindical que maior variação patrimonial apresentaram estão os deputados Geraldo Magela (PT-DF) e Luiz Sérgio (PT-RJ), que duplicaram suas posses, e Paulo Pereira, o Paulinho da Força (PDT-SP).Paulinho teve um crescimento de 493% em seu patrimônio nos últimos quatro anos de mandato.

Aumente meus impostos!

Fabricio Pontin | Estados Unidos 17:34 | 22/04/2010

Em Springfield, um grupo de indivíduos protesta contra os inevitáveis cortes no orçamento público com uma iniciativa bastante… única.

Quinze mil pessoas se reuniram na frente do Capitólio na capital de Illinois pedindo que o governo estadual aumente os impostos para evitar os sucessivos cortes em investimento, especialmente em educação.

Mas como diabos tu vai reunir uma galera destas em um local público para pedir aumento de impostos? Quem é que faz isso?

A resposta, no caso de Illinois, passa por compreender como funcionam as políticas aqui. Daí, vou precisar apelar para um pequeno interlúdio para dar uma idéia da coisa:

Existem dois tipos de Democratas. Os Democratas da costa leste e oeste, que tu identifica como o pessoal que vai para escolas de grande porte, tendem a ser partidários de programas sociais moderados mas não apoiam nenhum tipo de iniciativa mais agressiva na parte econômica. O exemplo clássico deste tipo de Democrata é o Kennedy: papa-Kennedy basicamente comprou um lugar no Senado para cada um dos filhos e depois elegeu o primeiro presidente católico da história dos Estados Unidos. Na base da grana e do apelo para as elites que financiaram a candidatura. O Clinton é uma história parecida. Foi nas melhores escolas, família tradicional na Georgia, estas coisas todas.

Os outros Democratas são os chamados Blue Collar. Pensa no Bruce Springfield, naqueles filmes em Detroit nos anos oitenta. Boa parte desta turma trabalha com construção e é vinculada com os sindicatos. As Unions até os anos 50 eram identificadas com a máfia, e foram a base da operação de um certo Al Capone que controlou o mid-west mais que qualquer governador por bons quinze anos. Até hoje os sindicatos comandam tudo por aqui. Os mafiosos, nem tanto.

Ok, fim do interlúdio.

Corta para Springfield ontem:

O protesto foi organizado pelos sindicatos que na realidade chegaram a pagar ônibus para pessoas do estado inteiro: a idéia é aumentar os impostos e salvar o sistema de educação de Illinois.

Duas coisas:
1) Illinois tá falido. Cinco ou seis governadores fracassados, com dois ou três processos de impedimento em um espaço de 6 anos, simplesmente acabaram com as finanças do estado. Illinois é basicamente ingovernável. O estado não tem mais grana para passar para as faculdades (o campus satélite da universidade onde eu estudo fica em Edwardsville, e recentemente teve que fechar quatro ou cinco departamentos porque não tinha mais grana para mantê-los abertos). Isso também é verdade para o sistema de educação básica: várias escolas estão demitindo professores e/ou reduzindo salários.

2) Os professores do sistema básico estão com o cu na mão: o estado está demitindo professores não apenas por uma questão orçamentária, mas por um critério de eficiência. Professores com um desempenho tido como insatisfatório estão sendo colocados para a rua e escolas que não retornam o investimento estão sendo implodidas. Com isso, os sindicatos acabam tendo um poder de barganha enorme: “vem com a gente que talvez tu não perca teu emprego”.

Daí a iniciativa: aumente as taxas e mantenha as escolas abertas. Claro, os sindicatos estão contando apenas uma parte da história – que é a do corte. Mas não contam que muitos dos professores que estão perdendo emprego não são vítimas de um furor orçamentário, mas de uma reforma no sistema de educação (que tem seus problemas específicos, diga-se de passagem, mas que não cabe falar aqui).

É importante ressaltar que Illinois não é mais um estado que varia entre democratas e republicanos nas eleições federais, mas que tem uma alternância forte nas eleições para governador. Com as eleições para governador na esquina, o candidato republicano já disse que não acha necessário aumentar taxa alguma.

Isso deixa os democratas em uma situação complicada:

Aumentar os impostos significa ganhar o apoio dos membros do sindicato que estão em Springfield. Mas pode significar perder votos em todas as partes do estado que não dividem o interesse do grupo que foi ontem lá. Não aumentar pode significar o colapso de parte do sistema educacional (que ainda é controlado por pessoas vinculadas com o sindicato), e uma posterior perda de votos vinculadas com o colapso da educação pública. Para os democratas é um caso claro de perda/perda. Não tem como obter um resultado satisfatório.

Isso somado com um governador (democrata) que acabou de perder o emprego por corrupção deve tornar a eleição estadual um tanto complicada para os Democratas.

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