O Bagulhão, o Japonês, o Professor

Leandro Demori | Itália 14:27 | 28/11/2010

A máfia italiana tem mais de cem anos e deve parte de sua vitalidade a um mito fundador: a história de Osso, Mastrosso e Carcagnosso. Quer a lenda que os três cavaleiros espanhóis precisaram fugir da península ibérica após lavar a honra da família com sangue, matando o estuprador de uma de suas irmãs. Osso, Mastrosso e Carcagnosso teriam passado 30 anos na ilha de Favignana. Mais tarde, cada um dos três irmãos teria ido para uma região distinta da Itália e fundado sua própria ordem armada: na Sícilia, Calábria e Campanha, Osso, Mastrosso e Carcagnosso seriam os padrini de Cosa Nostra, ‘Ndrangheta e Camorra.

O fato de terem fugido da Espanha em nome da honra não é detalhe inócuo, mas artigo fundamental no mito fundador mafioso: até hoje, os membros dos clãs são chamados, não por acaso, uomini d’onore (homens de honra).

Os ritos de iniciação da máfia nomeiam os cavaleiros espanhóis até hoje — em sua honra são batizados locais tomados pelos clãs ou iniciados novos membros, os picciotti, primeiro ‘cargo’ da organização. Um livro fundamental para entender a dinâmica dos mitos fundadores da máfia com sua atualidade é Fratelli di Sangue, sob a pena de um dos maiores juizes anti-máfia, Nicola Gratteri.

Paz, Justiça e Liberdade. Esses são os mitos fundadores do Comando Vermelho, pai do tráfico organizado no Rio de Janeiro. Fundada na cadeia, a facção criminosa operava de modo amador já na década de 50, sobretudo dentro dos presídios. Nos morros, a venda de drogas se restringia à maconha, negociada por velhotas que arredondavam a aposentadoria de modo caseiro e semi-amador, dividindo os lucros com o crime.

Sempre morreu gente na favela, muito antes do crime começar a se organizar. A atenção da imprensa às mortes a partir dos anos 60 está diretamente ligada ao mito fundador do CV — como funeral de favelado não vende jornal, o surgimento de uma organização criminosa trazia boas histórias para contar. O tráfico desceu o morro em forma de papel e tinta.

O Gênesis não-escrito do Comando Vermelho se destinava a proteger os presos dentro da cadeia, muito antes de organizar a venda de toneladas de drogas fora dela. O CV surgiu para suportar um sistema carcerário cruel, ineficiente e caro que replica moldes até hoje, mais de meio século após a insurreição criminosa. A situação fora das grades é alimentada pela barbárie dentro delas.

Osso, Mastrosso e Carcagnosso do Rio de Janeiro são Bagulhão, Japonês e Professor, três traficantes da velha guarda que ainda dominam o imaginário coletivo do crime como fundadores do Comando Vermelho. Os mitos fortalecem a irmandade, a cumplicidade criminosa em cima da Santa Trindade de Paz, Justiça e Liberdade se mistura com dizeres bíblicos da mesma forma como São Miguel Arcanjo é usado para batizar novos membros das máfias italianas. É quando o crime deixa de ser crime e passa a ser um ato de fé.

Os bandos criminosos do Rio não podem ser equiparados à máfia italiana; são organizações pré-mafiosas, com comando e ordem, mas muito menos sofisticadas e disciplinadas do que Camorra, ‘Ndrangheta, Cosa Nostra, Sacra Corona Unita e outras. Traficantes estão há 50 anos nos morros cariocas e ainda usam chinelo de dedo, bermudões de praia; atiram mal e, o que é pior, ainda atiram. O que uma organização criminosa menos quer é o confronto. O ápice do crime é passar despercebido.

As cenas da última semana no Rio de Janeiro mostram que o crime nos morros não evoluiu porque jamais teve a necessidade disso. De mãos dadas com uma polícia historicamente corrupta e com governantes que fizeram incontáveis “tratados de paz”, os líderes do momento ainda fazem contabilidade em folhas de caderno e desfilam pelos morros armados com fuzis em motos importadas. Simbolicamente infantil.

O projeto inicial do Comando Vermelho era entrar em todos os buracos deixados pelo poder público, que são muitos, quase infinitos no Brasil. O CV é apenas mais uma prova de que máfias e organizações pré-mafiosas não são contra o Estado — a última coisa que querem é a guerra. Desejam fazer parte do Estado, ser ele onde ele jamais foi. É justo dizer que as UPP’s são parte de uma política socializadora dos morros, mas ingênuo pensar que são um fim em si. Simbolicamente, a perna do Estado que primeiro subiu o morro não foi a da educação ou a da dignidade, mas a das armas. E essa é, antes de tudo, uma guerra simbólica.

O crime no Rio age nas necessidades mais básicas: gás, remédio, cigarro, sabonete, brinquedos de natal, enterros, pequenas obras, ‘puxadinhos’. Não há nada aqui que o Estado não possa fazer. É bobagem achar que o tráfico substitiu o Estado; ele apenas tenta, e faz de forma esparsa e pouco eficiente, agindo do modo mais superficial possível nas necessidades individuais daqueles que pedem ‘arrego’. Não é uma política, é uma ação.

O Brasil perdeu muito tempo. Perder tempo é um esporte nacional. O tráfico já está na quarta geração. Mesmo que não tenha se tornado uma dinastia (justamente pela organização precária, o filho de Fernandinho Beira-Mar não terá qualquer garantia de ser um ‘poderoso chefão’ no futuro), o tráfico se tornou uma oligarquia, uma nobreza de havaianas.

A esperança para os jovens do Sul da Itália, além da máfia, é o exército, que paga menos e pode mandá-los para o Afeganistão. No Rio, nem o exército salva.

Daquele Comando Vermelho dos anos 50 só resta o mito. A morte prematura e as guerras internas pelo comando dos morros tornou o crime de entorpecentes uma roda gigante descontrolada, sem tempo para render homenagens ao passado. Na busca no youtube pela palavra “Falcão”, as mais importantes citações se referem a “futsal, cantor brega, dribles”. As imagens captadas para compor o excelente documentário “Falcão, meninos do tráfico” são secundárias. Asfalto e morro se unem na indiferença.

Comemore, brazileiro

braziu.org 22:19 | 27/11/2010

O leitor Andreas nos deu uma bofetada – e com razão. Provocou – e com razão. Nós pensamos em relatar impressões. Nós discutimos, mas e daí? Fizemos? “Matéria boa é matéria publicada”, já diz um velho ditado jornalístico. E mesmo que tivéssemos feito, convenhamos: isso mudaria alguma coisa? Quais as perguntas que realmente devemos fazer, mais além da perplexidade?

Não. Não mudaria muita coisa. A mudança depende de decisões fundamentais. Mas também o silêncio é a covardia. A intenção e a boa vontade são um espelho de um mundo que não existe. A verdade é dura, podre, suja e triste. O mundo é feio, mesmo que tentemos mascarar o horror.

Aqui, uma resposta à provocação como uma espécie de pedido de desculpas. Ao que escreveu o Andreas, mas – mais do que isso – ao conceito que nos atirou contra o rosto. Ser brasileiro, disse sem saber, é ter coragem de mostrar o que não somos, como no vídeo comercial acima.

Sejamos dignos e assumamos nossa desgraça.

- Equipe braziu.org -

Continue lendo… »

O caro Big Mac brasileiro

Gabriel Brust | França 18:34 | 15/08/2010

Oi, sou um sanduíche imperialista, mas você adora me comer la la

Há algumas semanas tenho ouvido um mesmo relato de amigos que voltam de viagem do Brasil, mais precisamente do Rio de Janeiro e de São Paulo: os preços em geral, por lá, estariam quase mais altos do que aqui em Paris – cidade notória por esfaquear o vivente até no preço do pão.

 O caderno de economia do Le Figaro da última quarta trouxe uma pequena reportagem confirmando este sentimento geral. “Le Brésil confronté à la surévaluation du Real” abre abordando essa comparação de preços: “Para um turista americano cheio de nostalgia, almoçar em um McDonald’s no Brasil é um choque. Apesar de saber que passaria as férias num país de economia dinâmica mas, mesmo assim, “em desenvolvimento”, ele terá que pagar US$ 4,91 por seu Big Mac no Rio de Janeiro, contra US$ 3,73 nos Estados Unidos”, descreve a correspondente Lamia Qualalou.

O valor do Big Mac brasileiro também fica absurdo ao lado dos vendidos na China (US$ 1,95) e Argentina (US$ 1,78), apontando para uma supervalorização do real estimada em 31% — o que significa, na prática, o mesmo nível de 1998. A reportagem do Le Figaro destaca, no entanto, que essa supervalorização não deve ter maiores consequências – ao contrário da crise de 98 – e que a eleição presidencial do próximo dia 3 de outubro não preocupa nenhum investidor. Mas aponta os vários calcanhares de aquiles que o país parece estar esquecendo, em especial a balança comercial, com péssimo resultado no primeiro semestre. Duas medidas recomendáveis para o país, afirma o Le Figaro, “são impensáveis em contexto pré-eleitoral”: política fiscal mais austera e queda na taxa de juros.

Ainda no assunto Big Mag, mas não mais incluindo o Brasil, a última edição da revista Vingtetun (um excelente calhamaço de jornalismo literário misturado com almanaque) traz uma comparação de quanto vale o trabalho pelo mundo, tomando como medida o preço do Big Mac. Alguns números:

  •  Em média, é preciso 37 minutos de trabalho para um cidadão do mundo ganhar o suficiente para comprar um Big Mac;
  •  Entre 73 cidades pesquisadas, através de 14 profissões, o ranking fica assim:

   Tokyo, Chicago e Toronto, sendo necessários 12 minutos de trabalho para se comprar um Big Mac

Londres, Los Angeles e Miami (13 minutos)

Nova York, Sidney e Hong Kong (14 min)

Copenhague (17 min)

Berlim (19 min)

Paris (20 min)

Moscou (21 min)

Madri e Roma (27 min, mas Demori compra em 50 segundos)

 A Vingtetun traz outros bons números sobre quanto vale o trabalho pelo mundo em tempos de crise. Mostro mais deles em um outro post.

Hoje me ensinaram uma palavra nova: “bunda”

Leandro Demori | Itália 11:08 | 04/08/2010


Eu cuido disso.”

Vídeo | Rizoma | Enchente de Verdade. Rio de Janeiro, Abril/2010

Leandro Demori | Itália 06:26 | 16/04/2010

Este Braziu não deixará que o afã novidadeiro da internet domine a manhã desta sexta-feira (de cinzas vulcânicas aqui na Europa). Postado no dia 7 de abril, o vídeo abaixo sobre as enchentes no Rio de Janeiro só não é mais velho e verdadeiro do que o desabafo do motorista no começo das filmagens (1 minuto e 10 seg).

Produção do Rizoma Blog.

Jamais esqueça: Olimpíadas no Rio? Tá tudo bem.

Deborah Secco FREE

Walter Valdevino | Brasil 12:29 | 04/03/2010

Do Lauro Jardim, no Radar on-line:

Deborah Secco denunciada com Garotinho e Rosinha

O ex-governador Anthony Garotinho e a mulher, Rosinha Garotinho, foram denunciados pelo Ministério Público do Rio de Janeiro por improbidade administrativa em inquérito que apura o desvio de cerca de 56 milhões de reais por meio de ONGs e empresas de fachada na época em que governaram o estado.

Mas a grande supresa da denúncia é presença do nome da atriz Deborah Secco entre os outros 86 denunciados. Deborah é filha de Ricardo Secco, que vinha sendo investigado pelas relações com a família Garotinho.”

Uma vergonha

Leandro Demori | Itália 16:04 | 27/02/2010

Segunda notícia mais lida da edição online do Times de hoje:

Me envergonho por todos os brasileiros. Amigo italiano me pergunta como pode uma coisas dessas no Rio de Janeiro.

“– Como pode? Hãn?”

Fiquei mal, nem soube o que dizer. Para uma cidade que vai sediar os próximos jogos Olímpicos, esse segundo lugar é uma vergonha.

Com o Chile campeão, só nos resta uma certeza: precisamos trabalhar melhor o grupo.

A prata é inaceitável.
Eu quero é ouro, Braziu!

Receba por e-mail:

Arquivo