Enquanto isso, no New York Times:

Fabricio Pontin | Estados Unidos 08:24 | 19/05/2010

O acordo [do Irã] de última hora anunciado nesta semana com os líderes do Brasil e da Turquia foi muito similar àquele alcançado com as grandes potências no último outono.

Mas, depois de quase um semestre,

O atual acordo deixa o Irã com muito combustível, não coloca qualquer limite no enriquecimento de urânio em alta densidade e permite que Teerã retome o combustível estocado na Turquia quando bem entender e sem qualquer compromisso de negociação.

O Brasil e a Turquia, no entanto,

estão ansiosos para ter um papel mais importante na arena internacional. E também estão ansiosos em evitar um conflito com o Irã. Respeitamos esses desejos. Mas assim como todo o resto do mundo, eles [Brasil e Turquia] foram feitos de bobos por Teerã.

Portanto, o Brasil e a Turquia

devem se juntar com as demais maiores potências e votarem a favor da resolução do Conselho de Segurança. Mas, antes disso, eles deveriam voltar para Teerã e pressionar os mulás na direção de um acordo confiável e iniciar negociações sérias.

Conclusão: bonitinho esse pedaço de papel que vocês conseguiram, agora voltem lá e arrumem um que preste.

Alinhamentos

Fabricio Pontin | Estados Unidos 17:10 | 18/05/2010

Não tem nada de errado em um país buscar independência diplomática.

Muita gente, e gente boa, tem interpretado este movimento do Itamaraty de querer dialogar com o Irã e com os Estados Unidos na posição de um ator com interesses independentes como uma tentativa de adquirir um “passe livre” na arena internacional. Para ficar nos termos das relações internacionais: o Brasil quer poder atuar em palcos diferentes, que normalmente estariam em conflito. Quer poder jogar pelo Flamengo e pelo São Paulo – ao mesmo tempo.

Já consigo ouvir alguém gritando “mas isso não é um jogo de futebol”. Talvez, pode ser uma comparação desastrada. De qualquer forma, podemos indicar que existem diversas atitudes com relação ao Irã na arena internacional (esta grande ficção). Vou dividir a coisa aqui, vamos pensar que tem atitudes negativas, atitudes neutras, e atitudes simpáticas. Pois bem, isso seria o que chamei ali no título de alinhamento, okey?

Nos últimos dias, a China e a Russia, que estavam em uma posição de neutralidade com relação ao Irã, se moveram para o terreno “negativo” ao apoiar as sanções capitaneadas pelo Pentágono. Tanto a Russia quanto a China são (ou eram) parceiros do Irã em algumas empreitadas econômicas. Com este novo posicionamento, o Irã precisa de aliados, e rápido.

Sobraram no terreno neutro uma meia dúzia de países que não importam. Não tem voz. Não apitam. Estes não servem. Mas o que me interessa é que a entrada do Brasil enquanto parcero comercial do Irã no comércio de urânio, junto com a Turquia, nos coloca na posição de ter uma atitude simpática com o país dos aiatolás.

Energia é uma questão militar. Então me poupem do papo-aranha de “fins pacíficos”. Alinhamento político-comercial em questões de energia é um alinhamento militar. É mais ou menos como ajudar um país a produzir mísseis, por exemplo. Portanto, não é exagero algum dizer que o Brasil escolheu um alinhamento militar-comercial com o país que mais rapidamente perde apoio na arena internacional.

Eu não sei quais são as razões do Itamaraty para isso. Cada vez mais o enriquecimento de urânio entra no discurso executivo brazuca. Mas, para o Brasil, qual é a vantagem de negociar com o Irã, especialmente no longo prazo?

A Turquia poderia alegar razões estratégicas-geográficas “O Irã fica aqui do lado!”, mas o Brasil não tem razões históricas ou contingenciais para fazer esse acordo agora. Quer dizer, só se a razão for querer aparecer e adquirir algum tipo de relevância.

A história não tá pegando muito bem. Duas colunas no Washington Post nos últimos sete dias resolveram sentar o cacete no governo brasileiro (aqui e aqui). Achei os argumentos bestas. Especialmente do segundo cronista, que acha um escândalo o Brasil “ignorar o brutal governo Iraniano”. Por favor, o maior parceiro comercial dos Estados Unidos é a China. Ninguém se importa com a brutalidade alheia.

O problema desta nova atitude da diplomacia brasileira é o alinhamento. Estamos ignorando aliados históricos e procurando novos aliados. Fico curioso dos benefícios para a diplomacia brasileira em mostrar simpatia por um barco que está afundando. O governo iraniano mal dá conta das pressões internas e agora vai virar um grande parceiro comercial-militar do governo brasileiro?

Claro, o Irã – mesmo se conseguir a bomba – não vai correr o risco de virar uma grande piscina de vidro ao atacar Israel. Mas este não é o ponto para o Brasil: enquanto o Marco Aurélio Garcia fala do “escândalo” das sanções externas, o Irã perde a neutralidade da China e da Rússia. Os ratos vão abandonando o navio iraniano, e o Brasil vai alegremente a bordo com toda sua bagagem diplomática – esperando poder pular de volta para o porto seguro dos aliados históricos caso a coisa fuja de controle. Mas cabe a pergunta: e se o porto seguro negar entrada, para onde vai a diplomacia brasileira?

Lula, o salvador do universo

Fabricio Pontin | Estados Unidos 00:41 | 13/04/2010

Lula, tomando as providências para ser levado a sério na arena internacional:
(via ZH/EFE)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva dirá em seu discurso de amanhã durante a cúpula de segurança nuclear em Washington que o terrorismo não deve servir como pretexto para impedir o acesso à energia nuclear com fins pacíficos.

ã.

Em seu discurso, divulgado por antecipação à imprensa pela delegação brasileira, Lula pedirá “a eliminação total e irreversível de todos os arsenais nucleares” como o único meio para garantir que armas nucleares não caiam em mãos erradas.

Como é que ninguém nunca pensou nisso antes, por deus? É uma solução tão… fácil!… Ah é, deve ser por isso que ela é uma solução completamente demente. Primeiro: Não garante porra nenhuma. A eliminação dos arsenais existentes hoje vai acabar com a tecnologia que permite o desenvolvimento de armas nucleares? Vai acabar com indivíduos dispostos a vender a sua “expertise” em construir bombas? Vai parar o desenvolvimento de programas nucleares voltados para a bomba – inclusive, esta distinção entre programa nuclear “pacífico” e “bélico” é meio que uma piada, né? Ou de uma hora para outra energia virou uma questão separada da segurança nacional e eu perdi o memo? Outra coisa: quem desliga o botão primeiro? Ou Lula vai se candidatar para apertar o botão que desliga todas as bombas ao mesmo tempo? Uma coisa meio Dr. Fantástico às avessas?

Ao mesmo tempo, Lula defenderá o desenvolvimento da energia nuclear como fonte de energia, assim como para pesquisa e aplicações médicas.

“As considerações relacionadas àsegurança nuclear não podem em absoluto servir como pretexto para dificultar o acesso à tecnologia nuclear com fins pacíficos”, dirá o presidente.

Cara, isso não faz o menor sentido. Tecnologia nuclear com fins pacíficos, tecnologia elétrica com fins pacíficos, tecnologia espacial com fins pacíficos, ou qualquer coisa parecida, é re-tó-ri-ca. Ou vocês acham que a corrida espacial foi sobre o sonho do homem em explorar o inexplorável? Ou que os Estados Unidos lançaram um míssel mirando um “x” na Lua , durante a mesma semana na qual o Irã endureceu o papo do programa nuclear, simplesmente para “achar água”? Ou que Itaipu foi contruída para garantir energia barata para o Brasil? Acordem para a realidade, faz favor.

O Brasil defende o direito do Irã de desenvolver a tecnologia nuclear, mas se opõe à fabricação de uma bomba.

Lula aproveitará o discurso para reivindicar a reforma do Conselho de Segurança da ONU, onde pretende conquistar um posto permanente para o Brasil, como forma de atualizar a gestão mundial da segurança nuclear.

Boa sorte tentando garantir um lugar no Conselho de Segurança com papo de destruição mútua dos arsenais nucleares. Diminuir os arsenais é parte de um interesse estratégico dos Estados Unidos e da Rússia, interesse este que inclusive pressiona o Irã, já que o acordo é claro: não utilizar armas nucleares só é sustentável para países que assinaram o tratado de não ploriferação e, de quebra, abre exceções para responder a ataques com armas químicas (detalhe: é “ataque”, não precisa sequer ser um ataque em território americano ou russo, apenas um “ataque com arma química”).

O Obama acabou de realizar os termos de uma proposta de ninguém menos que Ronald Reagan, que nos anos oitenta tinha sugerido diminuir os arsenais em 1/3, justamente por ter obtido inteligência do completo colapso do sistema Soviético de manutenção de bombas nucleares (por sinal, para a turminha do oba-oba que tá comemorando o pacifismo da posição do Lula: permitam que eu lembre que a gente não sabe onde foram parar algumas das bombas da ex União Soviética. Comofas para garantir o desligamento destas ogivas?).

Por sinal, vocês sabem que nem os Estados Unidos, nem a Russia, nem a China realmente precisam de armas nucleares para transformar o Nepal em uma grande planície, né? Então, calma na celebração de qualquer acordo de desarmamento.

Mas, de volta ao Lula, parece que [se]

“Persistem as estruturas e regras de 1945. A ONU está perdendo credibilidade”, afirmará o presidente.

Ok.

todas as cenas são do maior filme de todos os tempos, Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick.

É mesmo?

Fabricio Pontin | Estados Unidos 05:29 | 13/03/2010

Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais e mímico amador saiu com a seguinte declaração sobre a relação do Brasil com “dissidentes”:

“Nós nos relacionamos com o governo de Cuba, com o governo da Colômbia… não nos relacionamos com dissidentes nem em Cuba nem em outros lugares”

(via Folha Online)

Tá bom.

Mas, e aquela vez com o Irã?

O Brasil pediu ao Irã que “dialogue de forma respeitosa com dissidentes e minorias”, em seu chamado mais incisivo a Teerã até então. A declaração, feita ontem durante a revisão do país no Conselho de Direitos Humanos da ONU, foi elogiada pelos EUA e por organizações não governamentais, atentos ao poder de persuasão de Brasília sobre o aliado persa.

Ah, tá. Faz tempo, foi lá em Fevereiro.

Mas, ãã

E a manifestação de preocupação quanto à recente decisão de Israel de patrolar território palestino com assentamentos?

O Ministro Celso Amorim declarou em 10 de março, em entrevista coletiva no Palácio Itamaraty, lamentar a autorização para novas construções em assentamentos, especialmente neste momento em que as conversações entre israelenses e palestinos (ainda que indiretas) poderiam recomeçar.

Saiu ontem.
Não conta? Palestino não é dissidente, é isso? Entendo.

Mas, é engraçado, também saiu esta aqui ó:

O Governo brasileiro tomou conhecimento, com consternação, da recente onda de violência de fundo étnico-religioso que resultou na morte de mais de 500 pessoas na região ao sul da cidade de Jos, na Nigéria.

Ao apresentar suas sentidas condolências às famílias das vítimas e ao Governo da Nigéria, o Governo brasileiro faz um apelo em favor da convivência pacífica, da tolerância e da moderação. Manifesta, ainda, a expectativa de que as autoridades e a sociedade nigerianas lograrão superar o ciclo de violência inter-religiosa no país.

Conflito étnico-religioso não é um tipo de dissidência? Deixa eu ver no Houaiss:

dissidência
Datação
1836 cf. SC

Acepções
■ substantivo feminino
1 desavença, conflito
2 ato de separar-se (uma parcela de um grupo, agremiação, partido etc.) em virtude de divergência de opiniões; cisma, cisão
3 Derivação: por metonímia.
a parte que se separa do grupo


Quer dizer que… Itamaraty se manifestou sobre uma dissidência ontem?
Que puxa!
Eu fico imaginando, será que o nosso ministério das relações exteriores não tem algo mais concreto neste sentido? Algo para além destas manifestações escritas?

E não é que tem? Se chama “Assistência Humanitária Internacional”, no site deles tem a explicação:

Assistência humanitária é toda e qualquer ação que contribua, de forma imediata e eficaz, para minimizar o efeito de catástrofes naturais, conflitos armados ou convulsões sociais no exterior.

“Convulsões sociais no exterior”? Olha, que legal, o governo brasileiro tem uma iniciativa que se ocupa de contribuir “de forma imediata e eficaz” em caso de ebulição social. Como é o caso, por exemplo, de dissidências com um regime político! Quer dizer que o governo brasileiro não apenas reconhece dissidências, mas tem um programa desenhado para mediar este tipo de situação.

Tá, e agora?

Danou-se, é cubano!

Agora já era, né?

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