O combate de Villa Soldati

Maurício Boff | Argentina 10:06 | 12/12/2010


Cenas de uma guerra portenha.

Poderia ser um thriller adolescente de questionável bom gosto: o heróico combatente revolucionário que enfrentou o status quo para fazer o bem, mudar o mundo e ganhar a mocinha no final das contas. Mas a realidade é sangrenta. Carros apedrejados; árvores e pneus em chamas; palavrões; agressões; assassinatos; preconceito contra os imigrantes de países limítrofes; vista-grossa policial; e o uso político do caos e da tragédia. Cenas de uma guerra anunciada há alguns anos por essas bandas sul-americanas.

A situação na região do Parque Indoamericano, há 12 quilômetros da zona rica de Buenos Aires, piora desde a terça-feira, quando um grupo de pessoas decidiu ocupar um prédio do complexo popular em Villa Soldati, bairro de gente humilde na capital argentina. Os conflitos somente aumentaram. De um lado, moradores de classe média baixa que passarão os próximos anos pagando a moradia popular que conseguiram receber do governo portenho; do outro, pessoas ainda mais pobres: imigrantes bolivianos e paraguaios – em sua maioria – acampados em uma área pública equivalente a 130 campos de futebol do Barradão e que decidiram ganhar a vida em terras argentinas, buscar mais oportunidade de trabalho e desenvolvimento pessoal e o velho movimento social que escutamos por aí em todo o mundo.

Como mediadores, a vontade política que, sabemos, flutua como o vento. Resultado: o quarto morto havia sido contabilizado na sexta-feira e o quinto pode ser assassinado a qualquer momento, apesar da momentânea trégua.

Buscar explicação apenas para o que acontece em Villa Soldati é restringir um problema que se verifica em outros aspectos do cotidiano portenho. Façamos uma espécie de zoom out e, assim, mexamos a varinha mágica que ajuda a analisar o complexo mundo argentino de fora. Vejamos juntos, portanto, e tentemos concluir alguns pontos.

O chefe do governo portenho, Mauricio Macri, é postulante ao cargo da presidente Cristina Fernández de Kirchner à frente da Casa Rosada. Quer comandar o país e deverá enfrentá-la nas eleições de 2011. Se ganhará é outra história. A julgar apenas pelos seus comentários, pode-se dizer que faz política para as elites.

Obviamente, toda possibilidade de atacar politicamente um ao outro é um ato para movimentar as milícias dos dois lados. Macri disse na quinta-feira que a culpa da disputa em Villa Soldati era de “todo o avanço da imigração ilegal, onde se escondia o narcotráfico e a delinquência”, Cristina disse na sexta-feira “não quero que a Argentina integre o clube dos países xenófobos deste planeta” durante a comemoração do Dia Internacional dos Direitos Humanos. Quem ganha? Eles. Quem perde? A turma da Villa Soldati e de tantas outras bandas.

A presidenta Cristina Fernández de Kirchner levanta a bandeira do Peronismo. Ok, Kirchnerismo. Pro que queremos, não muda muito nossa argumentação. Jogo de cena pra lá, jogo de cena pra cá, digamos que dialoga com as massas. É “mulher do povo”, pensa, apesar dos boatos de que o casal Kirchner aumentou (e como!) seu patrimônio depois que assumiu o governo em 2003 com o falecido ex-presidente Néstor Kirchner (1950-2010). Mas tem feitos importantes no sua trajetória como mandatária nacional, como a luta pelos direitos humanos, mas, no momento, esse também não é nosso foco.

O preconceito na Argentina não é pequeno. O país é, sem dúvida, o que mais recebe imigrantes entre os sul-americanos. Em especial, quem chega a essas terras vêm dos países limítrofes em sua maioria. Hoje, 70% dos imigrantes residentes aqui são da Bolívia, do Perú e do Paraguai, principalmente. Gritos de “voltem para seus países” são escutados em Villa Soldati e em muitos outros lugares.

Entre bolivianos, estima-se o considerável número de 1,8 milhão de pessoas para um país com uma população total de 40 milhões de habitantes. Na sexta-feira, a embaixadora da Bolívia na Argentina, Leonor Arauco, exigiu publicamente que Macri pedisse desculpas. Se vai responder é mais uma vez dessasa histórias de conto de fadas.

Você pode dizer que o CQC não é parâmetro para assuntos sérios (entendo sua preferência pelo Diarinho), mas o vídeo abaixo ilustra uma realidade assustadora.

Em tempo: a Lei de Migração argentina (Ley 25.871, de 2010) está indiscutivelmente entre as mais avançadas do mundo. Foi sancionada pela atual presidenta e faz parte da militância política iniciada pelo seu marido, o falecido ex-presidente. Para simplificar, mudou o status de invasor para o imigrante ilegal – em teoria – para, hoje, serem recebidos pelos braços da República – em teoria, sem dúvida.

Mas, não, por toda a sociedade argentina. Na sexta-feira, em Villa Soldati, uma senhora que preferiu o anonimato disparou, sem medo: “Esse espaço é nosso. Não podemos viver sem a área verde [do Parque Indoamericano, onde centenas estão acampados]. Aqui, são favelas por todos os lados. Eles que saiam daqui. Este país não é dos bolivianos, mas dos imigrantes italianos e espanhóis que chegaram antes”, dizia. Ok.

Agora, pergunto-me se não seria de fazer justamente o caminho inverso do que prega parte da população? Nações como os EUA não utilizaram o mecanismo da imigração para gerar uma população economicamente ativa capaz de realizar feitos tecnológicos notáveis e ser uma massa interna capaz de fazer girar a roda do consumo? A imigração mexicana, por questionável que possa ser, não foi – ou vem sendo – fundamental?

E quanto à Europa, cada vez mais envelhecida? Terá sistema de previdência que sustente uma população apenas de idosos? É claro que há critério para tudo, mas não seria a chance da Argentina aproveitar essa onda de imigrantes para crescer ao invés de atacá-la?

"Heil" | Foto: Sandra Hernández/GCBA (18/06/2010)

Logo, olhemos um pouco a história recente do país. Especialmente, o fim do regime “1 peso, 1 dólar”, o chamado Plano da Convertibilidade, que nasceu para controlar a hiperinflação e que se foi extinguindo, aos poucos, a partir da recessão de 1998 até a crise econômica de dezembro de 2001. O default das dívidas externas pública e privada significou que o país, simplesmente, não tinha dinheiro para pagar o que devia.

Hoje, o cenário é diferente. Como a economia segue se recuperando, o caixa público arrecada mais impostos. Néstor Kirchner, inclusive, negociou o pagamento do que o país devia ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e, internamente, a população argentina se deu conta da importância de não gastar tudo o que recebe, uma atitude oposta a dos anos da convertibilidade.

Sem dúvida, há medo de que anos sombrios regressem. É comum ouvir relatos como “aos 40 anos, sentir-se um inválido sem ter emprego”, ou a afirmação “é duro ter um filho e pensar que ele não terá um futuro”. Desde a década de 70, muitas cabeças pensantes deixaram a Argentina por motivos de repressão e por também querer buscar uma vida melhor. Parte dessa população foi substituída por imigrantes da região, sendo muitos gente humilde do campo. Relacionar a tragédia social e econômica com a leva migrante é uma dessas infelizes soluções que a varinha mágica nos apresenta.

Ah, mas há a violência, a criminalidade, o narcotráfico… Culpam a base humilde quando, pergunto-me, mais uma vez, se essa ação marginal não é consequência dos próprios erros sociais?

Para encerrar – porque esse texto está longo demais – tento entender qual seria o limite da intolerância, mas não encontro resposta. A estupidez, não tenho dúvida em afirmar, seria sanada com o entendimento de que a solução passa por uma ação conjunta além das divergências políticas e econômicas. Ganhariam todos. Quer dizer, se ganhariam todos, não haveria especialidade e o homogêneo infringiria os conceitos liberais de maximizar o que cada um faz melhor…

Oh, céus. Deixe pra lá. Curta seu domingo.

Obituário de um ministério populista (e a sobrevida de seus herdeiros)

Gabriel Brust | França 12:20 | 16/11/2010

Duas palavrinhas mágicas se tornaram o estopim mais frequente de discussões na imprensa e nos cafés das universidades na França ao longo do governo Sarkozy: identidade nacional. Promessa de campanha do então candidato da UMP, trazer essas duas palavrinhas mágicas para o tabuleiro era ponto fundamental para se discutir uma terceira palavra ainda mais safadinha, a imigração. Foi com esta política farejadora de votos de direita que Sarkozy criou, em 2007, o pomposo Ministério da Imigração, da Integração, da Identidade Nacional e do Desenvolvimento Solidário, falecido no início desta semana com pouca repercussão e quase nenhuma lágrima da viúva. Mas deixando herdeiros saudáveis e prontos para seguir seu legado.

Na prática, com a dança dos ministros e ministérios empreendida por Sarkozy e seu mais forte do que nunca primeiro-ministro François Fillon, a “imigração” voltou a fazer parte do nome de outro ministério, o do “Interior, de Ultramar, das Coletividades Territoriais e da Imigração”. A famigerada “identidade nacional” que, segundo a esquerda francesa e mesmo alguns integrantes da direita, dava uma conotação xenófoba à questão da imigração, desapareceu. Mas pouco há de simbólico na extinção do ministério e desse remanejamento. Ele apenas confirma o que sempre se soube: a criação da pasta se deu por motivos eleitorais, para ir ao encontro da crescente – e justificável – inquietação dos franceses com a questão da imigração. O problema é que, passados quatro anos de sua implantação – e um verão de 2010 intenso em combate a imigrantes romenos e búlgaros da comunidade cigana –, tudo leva a crer que a tática não funcionou. O eleitor de esquerda continua a ver Sarkozy como o diabo, o de direita não parece ter se comovido com a ação do governo e a popularidade do presidente nunca foi tão baixa.

Mas as políticas de imigração do governo Sarkozy, mesmo que agora com menos visibilidade, não devem mudar. E dois nomes de confiança do presidente, consolidados na reforma ministerial que expurgou do governo muita gente ao longo desta semana, nos levam a crer nisso. A viúva da pasta, o ministro Eric Besson, ganhou poder com a reforma, e foi alçado à área de Indústria e Energia. E em sua primeira entrevista afirmou que carregar a questão da identidade nacional “não foi nenhuma cruz” e que a assume “perfeitamente”. Mas talvez o sinal mais claro de que a política não muda é que a imigração foi parar logo na pasta de Brice Hortefeux. Expoente direitista da UMP, Hortefeux geriu a pasta da Identidade Nacional no início do governo, antes de Besson, entre 2007 e 2009. Para se ter idéia do brilhantismo de Hortefeux, basta dizer que ele foi condenado, em junho deste ano, em primeira instância, por “injúria racial”, após largar uma piadinha maldosa na cara de um militante de seu próprio partido, de origem magrebina: “Quando tem um só deles tudo bem. O problema é quando estão em bando”, falou, abraçando o jovem aos risos (vídeo abaixo). Enquanto não é condenado definitivamente, o amigo de 30 anos de Sarkozy segue firme no governo.

Hortefeux sacaneia o argelino aí em cima com tanta naturalidade que parece nem ter idéia do contexto político em que vive hoje, uma França em que tudo vira acusação de racismo, seja quando há racismo (no caso do próprio Hortefeux claramente), seja quando não há. A questão racial serve ao discurso político permanentemente, e mais um exemplo surgiu esta semana, com o lançamento da Carte Musique, uma espécie de “bolsa-mp3”. Pois é, o governo que o pessoal da Sorbonne chama de ultra-fascista-neoliberal-direitista-destruidor-do-Estado acaba de criar MAIS uma subvenção estatal, desta vez uma ajuda para incentivar os jovens a comprarem mais música mp3, e não piratearem. Uma das propagandas que estão na TV traz um jovem negro ouvindo hip hop, usando roupas não muito diferentes das de seus ídolos (vídeo abaixo). O deputado Nicolas Dupont-Aignan não teve dúvida em chamar o anúncio de racista, denunciando que ele mostra “um jovem negro como um idiota fingindo de pseudo-rap”. “Os jovens do nosso país, seja qual for sua origem, não são idiotas de circo”, completou o deputado.


Spot carte musique Rap
envoyé par culture-gouv. – Clip, interview et concert.

Enquanto isso, no meio-oeste…

Fabricio Pontin | Estados Unidos 14:57 | 26/08/2010

Ontem, na porta de um dos pubs aqui de Carbondale, IL:


(clica para aumentar)

Traduzindo:

A partir de 18 de novembro de 2010
PESSOAS VESTINDO QUALQUER UM DOS SEGUINTES ITENS DE VESTIMENTA NÃO SERÃO ADMITIDOS NO RECINTO:

- Roupas largas de qualquer tipo
- Boné com aba reta
- Qualquer boné não utilizado com a aba para frente ou para trás
- Bonés com etiquetas ou adesivos visíveis
- Calças baggy, rasgadas ou de cintura muito baixa
- Camisas ou tops largos;
- Bandanas e do rags

OBRIGADO POR SUA COOPERAÇÃO
A DIREÇÃO


ay, y’ll


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