O Zio Orco
Todo mundo conhece o Zio Orco. Zio é a palavra em italiano para ‘tio’. Os ‘gringos’, como são conhecidos os descendentes de italianos no Brasil, têm, na maioria das vezes, uma coleção de Zio Orco na família.
O Zio Orco é um ser humano de modos rudes e beligerantes, mas acredita não falar palavrão. Quando quer xingar alguém, usa a tática do mangione: come pedaços das palavras de modo que elas não machuquem ‘assim tanto’. Em vez de mandar para aquele lugar (onde estaria sua mãe, a mulher que lhe pariu), Zio Orco solta um “apaput!”. Em vez de mandar receber predicados pela porta dos fundos, Zio Orco grita “atomano!”. E assim vai.
Zio Orco acredita que assim limita o dano de seus xingamentos. Bobagem. Quem ouve um ‘apaput’ sabe exatamente que está sendo mandado para a puta que pariu.
Uma de minhas constatações culturais sobre a Itália está justamente no compêndio dos palavrões. É inigualável xingar alguém em italiano, sobretudo com algumas notas de sotaque romano ou napolitano. Os italianos, no entanto, não falam palavrões, ao contrário do que quer a lenda contada no Brasil. É raríssimo ouvir qualquer xingamento por aqui. Quando discutem, discutem e basta. Podem passar horas (mesmo) em um arranca-rabo, mas duas regras sociais são estabelecidas: se trata a outra pessoa sempre por ‘você’, usando o ‘tu’ somente se isso for consentido; não se baixa o nível a ponto de mandar a outra pessoa ‘paput’.
Isso vale de modo geral — há as óbvias e humanas exceções.
No Brasil, se ouve palavrões de modo natural ao longo do dia: em filas, nas ruas, em órgãos públicos e privados. Pessoas indignadas por motivos justos ou injustos perdem a linha facilmente. No trânsito nem se fala: a normalíssima violência começa nas palavras. Dizem que o trânsito de Roma é um caos, e é; mas um caos civilizado. Jamais vi um motorista xingar o outro com palavrões mesmo após ter sido vítima da mais profunda barbeiragem ao volante. As pessoas não são ‘melhores’, são só mais pacientes e educadas. Parou na minha frente para que alguém desça do carro? Tudo bem. É só TRÂNSITO, afinal, e não A Guerra dos Últimos Dias.
Ontem, em uma caminhada, José Serra foi agredido. Pensei muito antes de usar a palavra ‘agredido’, mas foi isso o que aconteceu: uma agressão. Não defendo isso em nome de José Serra, um político menor e sem merecimento de 1% de meu apreço. Defendo pelos mesmos motivos que jamais concordei com os métodos do Zio Orco.
Pessoas que apoiam a candidatura Dilma ou pessoas que simplesmente enxergam ‘frescura’ no ‘teatro’ encenado por Serra após a agressão dizem que foi “apenas uma bolinha de papel“. Poderia ter sido um barbante. Um clip. Uma pena. Não existe ‘mais agressão‘ e ‘menos agressão’. A quantificação técnica, nesse caso, é defesa de militoide. Serra estava caminhando na rua com seus correligionários quando um grupo contrário à sua candidatura tumultuou tudo. E jogaram um objeto nele. Ponto. Isso é uma agressão, é a invasão do espaço privado e pessoal de um ser humano sem seu consentimento e com motivos intimidatórios. Ou a bolinha de papel, ao ser desdobrada, trazia uma mensagem de amor e esperança?
É óbvio e cristalino que Serra usou isso a favor da campanha. Fosse ele do Mundo dos Puros não estaria ali fazendo… campanha [Bom Dia, Vida Real].
Quantificar uma agressão, no entanto, é como desprezar o poder das palavras. Talvez seja incorreto falar em processo civilizatório, mas minha impressão pessoal é que uma sociedade é mais ‘civil’ e respeitosa quando os limites estabelecidos são respeitados — e quando nos importamos com eles. Dizer que “é apenas uma bolinha de papel” é apagar a linha que separa a sua individualidade do mundo. Amanhã, se baterem no seu carro e for “só um arranhão” você vai abrir mão de pedir ressarcimento dos danos? Se lhe empurrarem e você tropeçar e cair no chão vai aceitar a desculpa de que o empurrão “foi bem fraquinho”? Se alguém cuspir em você vai levar na boa o papo de que “foram só umas gotinhas de nada”?
O Zio Orco entende muito bem disso.
– Mas eu não disse “Porco Dio”, eu disse “Orco Zio”, defende-se ele.
Ah, tá. Então tá tudo bem.
Tags: agressão, bolinha de papel, José Serra, PSDB, Zio Orco
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– Bom dia Sr. Garibaldi. E esse verão que se encaminha pro fim?
– Acho ótimo, o verão é a pior estação para as guerras, sobretudo pelos mosquitos









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