O Zio Orco

Leandro Demori | Itália 10:13 | 21/10/2010

Todo mundo conhece o Zio Orco. Zio é a palavra em italiano para ‘tio’. Os ‘gringos’, como são conhecidos os descendentes de italianos no Brasil, têm, na maioria das vezes, uma coleção de Zio Orco na família.

O Zio Orco é um ser humano de modos rudes e beligerantes, mas acredita não falar palavrão. Quando quer xingar alguém, usa a tática do mangione: come pedaços das palavras de modo que elas não machuquem ‘assim tanto’. Em vez de mandar para aquele lugar (onde estaria sua mãe, a mulher que lhe pariu), Zio Orco solta um “apaput!”. Em vez de mandar receber predicados pela porta dos fundos, Zio Orco grita “atomano!”. E assim vai.

Zio Orco acredita que assim limita o dano de seus xingamentos. Bobagem. Quem ouve um ‘apaput’ sabe exatamente que está sendo mandado para a puta que pariu.

Uma de minhas constatações culturais sobre a Itália está justamente no compêndio dos palavrões. É inigualável xingar alguém em italiano, sobretudo com algumas notas de sotaque romano ou napolitano. Os italianos, no entanto, não falam palavrões, ao contrário do que quer a lenda contada no Brasil. É raríssimo ouvir qualquer xingamento por aqui. Quando discutem, discutem e basta. Podem passar horas (mesmo) em um arranca-rabo, mas duas regras sociais são estabelecidas: se trata a outra pessoa sempre por ‘você’, usando o ‘tu’ somente se isso for consentido; não se baixa o nível a ponto de mandar a outra pessoa ‘paput’.

Isso vale de modo geral — há as óbvias e humanas exceções.

No Brasil, se ouve palavrões de modo natural ao longo do dia: em filas, nas ruas, em órgãos públicos e privados. Pessoas indignadas por motivos justos ou injustos perdem a linha facilmente. No trânsito nem se fala: a normalíssima violência começa nas palavras. Dizem que o trânsito de Roma é um caos, e é; mas um caos civilizado. Jamais vi um motorista xingar o outro com palavrões mesmo após ter sido vítima da mais profunda barbeiragem ao volante. As pessoas não são ‘melhores’, são só mais pacientes e educadas. Parou na minha frente para que alguém desça do carro? Tudo bem. É só TRÂNSITO, afinal, e não A Guerra dos Últimos Dias.

Ontem, em uma caminhada, José Serra foi agredido. Pensei muito antes de usar a palavra ‘agredido’, mas foi isso o que aconteceu: uma agressão. Não defendo isso em nome de José Serra, um político menor e sem merecimento de 1% de meu apreço. Defendo pelos mesmos motivos que jamais concordei com os métodos do Zio Orco.

Pessoas que apoiam a candidatura Dilma ou pessoas que simplesmente enxergam ‘frescura’ no ‘teatro’ encenado por Serra após a agressão dizem que foi “apenas uma bolinha de papel“. Poderia ter sido um barbante. Um clip. Uma pena. Não existe ‘mais agressão‘ e ‘menos agressão’. A quantificação técnica, nesse caso, é defesa de militoide. Serra estava caminhando na rua com seus correligionários quando um grupo contrário à sua candidatura tumultuou tudo. E jogaram um objeto nele. Ponto. Isso é uma agressão, é a invasão do espaço privado e pessoal de um ser humano sem seu consentimento e com motivos intimidatórios. Ou a bolinha de papel, ao ser desdobrada, trazia uma mensagem de amor e esperança?

É óbvio e cristalino que Serra usou isso a favor da campanha. Fosse ele do Mundo dos Puros não estaria ali fazendo… campanha [Bom Dia, Vida Real].

Quantificar uma agressão, no entanto, é como desprezar o poder das palavras. Talvez seja incorreto falar em processo civilizatório, mas minha impressão pessoal é que uma sociedade é mais ‘civil’ e respeitosa quando os limites estabelecidos são respeitados — e quando nos importamos com eles. Dizer que “é apenas uma bolinha de papel” é apagar a linha que separa a sua individualidade do mundo. Amanhã, se baterem no seu carro e for “só um arranhão” você vai abrir mão de pedir ressarcimento dos danos? Se lhe empurrarem e você tropeçar e cair no chão vai aceitar a desculpa de que o empurrão “foi bem fraquinho”? Se alguém cuspir em você vai levar na boa o papo de que “foram só umas gotinhas de nada”?

O Zio Orco entende muito bem disso.

– Mas eu não disse “Porco Dio”, eu disse “Orco Zio”, defende-se ele.

Ah, tá. Então tá tudo bem.

Serra merece perder (mas contratarei um pistoleiro de aluguel)

Leandro Demori | Itália 14:44 | 17/10/2010

No final dos anos 90, 14 dos 15 países da União Europeia eram governados pela esquerda. Hoje são apenas sete, e com uma Europa alargada; há mais países no bloco do que havia à época: 27. Para piorar, há governos de esquerda na Grécia, Espanha e em Portugal, países com economias destroçadas. O que aconteceu?

Não existem explicações simples para um post de domingo [ainda estou de pijama e não pretendo tirá-lo até segunda]. Ao menos não sou tão presunçoso quanto analistas políticos que orbitam por aí (ao final dos posts você tem a plena certeza de ter lido o sermão de um pastor evangélico). Duas macro razões podem ser descritas, entre um bocejo e outro.

Materialmente, perdeu-se e mão do Welfare State, a ilha de bem-estar social sonhada por aqui. O Estado deu muito e exigiu pouco. As pessoas não entendem e não têm obrigação de entender porque são, enfim, pessoas, mas o leite está minguando e não dá mais pra todo mundo ficar penduradinho na teta.

A briga na França é exemplar: a expectativa de vida ao nascer em 1980 (quando foi instituída a aposentadoria aos 60 anos) era de 73.7 anos. Hoje, é de 80.98 anos. Em 2050, deve alcançar os 84 anos. O governo queria alargar o pijama para 64 anos; como todo mundo chorou, reduziu o projeto para 62. Mesmo com choro geral, a lei deve passar. Precisa passar. Neste caso, a mudança de regras de um direito adquirido é fundamental para manter aquele próprio direito.

Mentalmente, a esquerda europeia esbanjou soberba, ‘subiu nas tamancas’. E pessoas não gostam de gente arrogante. Os operários, que antes votavam majoritariamente em partidos de orientação socialista, hoje votam na outra ponta, na extrema-direita, onde há partidos mais pragmáticos e menos retóricos. Ninguém quer ficar ouvindo político dizer o quanto ele (o político) é o bonzão.

Não por acaso, esse é um dos claros motivos pelos quais temos segundo turno no Brasil nessas eleições: a prepotência começava no alto e ia escorrendo pelas veias da militância. Se o segundo round serviu para algo (porque ainda acredito na vitória de Dilma) foi para baixar a bola do pessoal que já estava pregando o fim de todos os partidos que não assinaram o tratado da verdade única.

Discursos em que se fala mal dos ricos de modo hipócrita acabarão porque, um dia, no país imaginário desses senhores, seremos todos “ricos”. O discurso terá que mudar, e mudará, porque políticos, como bons papagaios de gaiola, repetem as frases que fazem a plateia sorrir. Polly just want a cracker e paga o preço que for preciso.

Até meses atrás, víamos uma disputa entre dois partidos de centro-esquerda no Brasil. Petistoides tinham dificuldades em defender como o PSDB (“um partido de direita”) tinha um presidente que pregava a descriminalização da maconha, por exemplo. E sim, isso é ponto fundamental para a definição — você jamais verá um partido ‘de direita’, conservador, defender coisas como essa. Jamais.

Além desse, outros preceitos do PSDB representados por boa parte de seus fundadores o colocavam na centro-esquerda do velho espectro de classificação de ordens políticas. Se você quer modernizar o que seria a direita (aka adaptar o conceito a seus inimigos) então chame-a de outra coisa.

Com o avanço da disputa eleitoral — e com o enorme esforço do próprio PSDB em fazer José Serra perder a eleição — o que se viu foi um festival de apatia e, depois, de desorientação política. Panfletinhos com a foto de Serra e uma frase de Jesus? Qual é? Serra se agarra ao catolicismo como se tentasse escalar um pau-de-sebo.

Dilma fez examente a mesma coisa, ou até pior, porque até ontem era ateia e hoje acredita muito em Jesus no coração. Fico imaginando o que ela está pensando de olhinhos fechados em fotos como essa.

A diferença entre ambos é que a campanha de José Serra se apegou somente a isso, ele parece não ter mais nada a oferecer ao Brasil. Talvez tenha, mas se nem mesmo ele próprio acredita nisso, não me peça para acreditar. Se no início da campanha eu tinha certeza de que ele era ‘o mais preparado’ (e ainda é), hoje isso pesa muito pouco na balança. A campanha, que deveria ter sido feito em cima dessas competências, não foi. [aqui vai um link mostrando São Paulo para os petistas que amam tanto falar de números ultimamente]

Os candidatos, ambos, são um desastre. Isso é ponto pacífico. Uma das coisas que mais me faz rir é ver as reações pós-debates, sobretudo de petistas (que são mais passionais, logo, mais engraçados). “Dilma deu show!!! !!!” | “Nossa gente ke emoçaum Dilma no debate!!!“. O parâmetro de ‘show’ e ‘emoção’ desse pessoal deve ser o Zorra Total. É nego que chora ouvindo uma piada do Ary Toledo, imagino.

Dilma não merece ganhar, mas Serra merece perder. E merece perder para ver se o PSDB acorda e areja seus quadros, volta minimamente a ser um partido com ares de século XXI como um dia acreditou ser.

Para manter a tradição que eu mesmo me impus desde 2002, vou abster go$toso meu voto. Serra merece perder e você será meu pistoleiro de aluguel. Se tudo ficar como está, Dilma vencerá e o PSDB, caso não capitule ao governo e não seja uma oposição tão inútil como nos últimos 8 anos, terá tempo para repensar o universo. E não votarei em Dilma porque tenho restrições profundas à sua candidatura — a começar pela falta de primárias para decidir o candidato em um partido que se promete democrático.

A principal força de centro-esquerda da Itália, o Partito Democratico, faz eleições internas onde todos os cidadãos italianos que possuem título de eleitor podem votar para definir quem será o candidato. Isso mesmo: é uma primária aberta aos italianos, e não somente aos militantes. No PT, nem isso. Se eu fosse filiado e deixasse parte dos meus ganhos no caixa do partido me sentiria um idiota útil.

Uma das frases clássicas no mercado de trabalho aqui na Bota é “mi manda papà” (“me manda papai”), que resume bem como são as relações de poder em um país que é descendente direto do Império Romano, onde a meritocracia não existia. Dilma subirá a rampa no dia da posse e, lá de cima, dirá ao brasileiros: “mi manda papà”, certamente com espaços de 10 segundos entre cada palavra. Desculpem se não consigo levar a sério toda essa gente.

Uma questão de empatia, ou “Parabéns, Presidente Dilma”

Fabricio Pontin | Estados Unidos 17:18 | 09/09/2010

Enquanto a Dilma vai se consolidando com 50% nas pesquisas, resta ao PSDB olhar para os lados e tentar entender como é que a eleição foi perdida. Vou tentar dar um panorama da coisa, e tentar traçar a jornada que o PSDB protagonizou para conseguir fazer o papelão que deve ser confirmado na eleição de outubro.

Um candidato abandonado

Serra começou a perder essa eleição no momento em que Aécio Neves abandonou o barco. Aécio seria a escolha lógica de vice para o Serra, dando um contraponto um pouco mais carismático para a imagem sisuda do governador de São Paulo. No entanto, Aécio resolveu que abriria mão da candidatura à presidência, evitando se expor em uma chapa com alta chance de fracasso. Pelo contrário, ele resolveu se isolar em Minas Gerais e garantir uma eleição ao Senado – se colocando na linha de frente para a eleição de 2014.

Com isso, Serra se viu só em um partido famoso por ter muito cacique mas poucos índios. Logo, os potenciais candidatos a vice foram dando negativas à chapa tucana e o PSDB teve que inventar um candidato a vice completamente sem expressão política.

Claro, eu não sou imbecil o suficiente para indicar que o candidato a vice-presidente decide alguma coisa. Mas enquanto Dilma se aliava com o Michel Temer, oficializando o alinhamento entre PMDB e PT, Serra era obrigado a inventar uma coligação com o DEM no papel de principal coadjuvante.

Nesse momento, a eleição já estava desenhada. Ainda que Serra mantivesse uma liderança nas pesquisas, a popularidade do Lula, somada à baixa rejeição da Dilma, colocava um cenário difícil de ser revertido: as pessoas que não conheciam os candidatos estavam se decidindo, em uma proporção quase geométrica, pela Dilma. E em um cenário onde ninguém vota movido por ideologia, mudar esse tipo de tendência é extremamente complicado.

O idiota útil

Ciro Gomes tinha grandes planos para essa eleição. Até julho do ano passado, Dilma não parecia decolar nas pesquisas de voto, e Ciro parecia ser o “trunfo” para garantir o projeto político capitaneado pelo PMDB e por Lula (que é bem diferente do projeto político do PT, que a essas alturas pouco importa). Ciro poderia não apenas garantir um segundo turno contra Serra, ele poderia também ser o candidato de Lula no segundo turno (no eventual fracasso de Dilma).

Mas algo aconteceu no momento em que Lula resolveu que Dilma seria a próxima presidente do Brasil: a mulher do Lula começou a aparecer nas pesquisas e a inacreditável popularidade do presidente foi transmitida para a mãe dos pobres. Com isso, Ciro perdeu toda a utilidade. No espaço de um mês, de potencial candidato à Presidência, Ciro passou a candidato de fachada, para garantir Dilma no segundo turno. Em quarenta e cinco dias, o segundo turno era um fato com ou sem Ciro. Em dois meses, Ciro sequer aparecia como potencial candidato à vice em uma chapa capitaneada por Dilma. Depois de um ano, Dilma pode (e talvez deva) ganhar no primeiro turno. O que aconteceu no meio tempo?

Um peixe chamado Lula

Faz mais de dois anos que Lula não baixa da linha dos 60% de aprovação. Isso não tem precedentes no cenário democrático brasileiro. Não cabe aqui analisar os motivos da aprovação do presidente, nem questionar se a aprovação é merecida. Até porque fazer esse tipo de coisa é charlatanismo. Mas o fato é o seguinte: Lula é o presidente mais popular que o Brasil já teve (pelo menos desde que existem institutos para medir popularidade). Como é possível competir com a candidata de um presidente que chega a inacreditáveis 80% de avaliação positiva?

Serra é um homem inteligente e sabia que não poderia ganhar nesse cenário. Talvez a gente possa compreender o completo colapso da “plataforma eleitoral” (e haja aspas) do Serra a partir da constatação de que não havia muito o que fazer. O melhor era tentar levar a coisa até o segundo turno e esperar que alguma coisa (tipo uma foto da Dilma roubando comida de um bebê faminto no sertão sergipano) pudesse mudar o cenário.

Mais que isso, nem Serra nem Dilma tinham rejeição altas. Isso é um fator relativamente novo em uma campanha brasileira. Se a gente observar as eleições de 1989, 1994 e 1998 vamos perceber claramente que o candidato derrotado sempre teve uma rejeição muito alta. Quase sempre isso foi vinculado a imagem do Lula. Lula somente ganhou a eleição quando conseguiu deslocar a imagem de operário-combativo para o Lulinha-paz-e-amor. Nem Dilma, nem Serra precisaram se preocupar com esse fator. Apenas agora, no final da eleição, Serra está com 31% de rejeição. Em 1994, Lula nunca teve menos de 38% de rejeição. E em 1989 chegou a ter, no segundo turno, 42% (quase a mesma porcentagem que Collor tinha na espontânea, indicando que quase todos que votavam em Collor não votariam em Lula sob hipótese alguma). Da mesma forma, em 2000, o desgaste do governo Cardoso contaminou a campanha de Serra que, no início de Setembro, tinha 34% de rejeição — e nunca tinha ficado abaixo dos 30%. Nessa eleição, apenas agora algum candidato passou dos 30%, e me parece interessante que justamente o candidato de oposição tenha chegado primeiro nessa linha.

Como não fazer uma campanha

Vai ficar para a história o tamanho da burrada que o PSDB cometeu nessa campanha eleitoral. Serra tinha poucas chances, é verdade. Também é verdade que suceder um presidente com 80% de aprovação é uma tarefa inglória, e talvez Serra esteja mais interessado em garantir sua aposentadoria no Senado na próxima eleição (ao contrário de Ciro Gomes, me parece que a carreira política de Serra não acabou nessa eleição, ele ainda tem alta aceitação em São Paulo. Ciro cometeu suicídio político ao se incomodar com Lula e queimou todas as pontes com o PSDB no passado – e eu adoraria que alguém me explicasse o que diabos levou ele a mudar de domicílio eleitoral para São Paulo).

Mas nada explica a postura do PSDB nessa eleição. Não vou nem entrar na discussão barata sobre a postura da “grande mídia”. A questão aqui não é como a imprensa abordou ou deixou de abordar a candidatura do Serra, da Dilma ou da Marina (que, francamente, foi apenas uma distração para a classe média antenada, incapaz de perceber uma candidata extremamente fraca e bastante conservadora). A questão, isso sim, é como o Serra decidiu levar a campanha.

Sabendo que a derrota era praticamente inevitável, Serra tentou garantir um segundo turno, alegando “fazer um governo tipo o do Lula, mas sem aquele monte de petista”. Ao ver essa estratégia fazer água, o PSDB resolveu tirar da cartola uma meia dúzia de escândalos que ninguém entendeu, uma outra dúzia de argumentos com os quais ninguém se importou e uma série de críticas que só podem ser piada. Mais que isso, Serra decidiu engolir a tese segundo a qual a estabilidade econômica é merito do Lula, apenas para não ter que mencionar o nome de FHC (talvez por ter sido prejudicado por esse mesmo nome em 2002). Com isso, Serra protagonizou uma campanha sobre o nada.

O mais interessante disso tudo é perceber que a Dilma não existe. A Dilma é uma invenção do Lula, e é por isso mesmo que ela vai vencer a eleição. Restava ao Serra tentar salvar a própria pele em uma campanha com um resultado quase inevitável. Mas o medo de perder no primeiro turno tomou conta da campanha tucana, que passou as últimas semanas atacando a candidata de um presidente extremamente popular (e, claro, tentando atingir o próprio presidente no caminho).

Resultado: Serra tem menos votos hoje do que no ano passado em quase todas as simulações, e qualquer pessoa que entende o mínimo de eleição vai te dizer que quando um candidato começa a cair abaixo do “valor inicial”, ou a correr em uma velocidade mais baixa do que a do início da corrida, é porque o carro tá quebrado.

Agora vai

Leandro Demori | Itália 12:05 | 06/09/2010

Relançamento da campanha nacional do PSDB em 3 etapas:

1. Serra chora ao citar o hino nacional

2. 58,4% dos brasileiros não sabem a letra do hino nacional

3. “Reunião na minha sala em meia hora”

Bom dia, Giuseppe Garibaldi

Leandro Demori | Itália 08:34 | 06/09/2010

Tenho por hábito conversar todas as manhãs com Giuseppe Garibaldi, o herói de dois mundos. Em tempos de pelejas políticas das grossas, nada melhor do que os conselhos do velho general. Garibaldi tecla de sua casa em Caprera, na Sardenha.

– Bom dia Sr. Garibaldi. E esse verão que se encaminha pro fim?

– Acho ótimo, o verão é a pior estação para as guerras, sobretudo pelos mosquitos

– Os mosquitos atrapalham?

– Não ajudam. Mas guerra é guerra, não podemos nos entregar assim por causa dos insetos. Os insetos, aliás, precisam ser mortos e esmagados, sobretudo aqueles que lutam pelas dinastias e contra a unificação dos estados nacionais. Só falei sobre os mosquitos para ser tão banal quanto a sua pergunta sobre o tempo

– Eu só quiser ser amenamente introdutório

– Amenizar a introdução é coisa de francês

– Bem… vamos falar de política?

– Logo, que preciso regar minhas orquídeas

– O Sr. tem acompanhado essa coisa de quebra de sigilos fiscais e montagem de dossiês no Brasil?

– Tenho, sem dúvida alguma. A política brasileira sempre me interessou depois que estive aí. Gostei tanto do seu povo que até trouxe um exemplar comigo pra Itália, a Anita, que infelizmente está em Roma

– Não acredito que esses senhores de partidos políticos sejam anjinhos, e nem me espanta a quebra de sigilos em um país onde as coisas funcionam como funcionam (não funcionando), mas o senhor não acha que essa brigaiada toda desvia a atenção dos eleitores daquilo que realmente importa?

– Não, não acho. Eleitor não sabe o que realmente importa, é preciso dizer a ele, se necessário, com a força das armas. O povo só está certo quando escolhe a coisa certa, entende? O povo votar em massa no candidato que apoiamos é sábio e democrático, é a coisa certa a ser feita. O povo eleger um candidato que odiamos é manipulação e falta de amadurecimento político, logo, é errado. Política é metafísica. O que é real? O que é irreal? Não existem respostas prontas para essas questões. Temos que dá-las por decreto.

– Mas e a questão dos dossiês?

– Eu, como bom revolucionário, preciso ver para crer. Jamais acreditei que um inimigo estivesse morto em um campo de batalha: fui lá e enfiei a espada na jugular. Vai me avisar que está morto por tele-mensagem? Pra mim, esses dossiês não existem

– Então está todo mundo discutindo sobre o nada?

– Não é “discutir sobre o nada”, jovem, e sinto o tom de deboche nos seus dedos. A questão é que o PSDB teve lá seus sigilos quebrados. Primeiro, va detto que sigilo e segredinho é coisa de francês. Segundo: o Serra anda acusando o PT de ter feito essa coisarada toda. Tem provas disso? Não tem

– E como fica?

– O PT arranjou a maneira mais sábia de rebater uma versão fantasiosa e sem provas como a do PSDB

– E qual foi?

– Criou outra versão, igualmente fantasiosa e sem provas. Acho que o Lula anda lendo “A Arte da Guerra”, o que é um espanto duplo.

– O Sr. acredita que essa coisa de dossiês vai afetar a eleição?

– Meu filho, dossiê vende na padaria? Dossiê tem IPI reduzido? Dossiê dá frio na barriga igual a brinquedo da Disneylândia? Acorda pra cuspir, jovem. As pessoas estão pouco se lixando pra dossiê. Dossiê é igual a faculdade de comunicação: todo mundo já ouviu falar, acha que é uma coisa importante, mas ninguém sabe pra quê serve

– (telefone, já volto)

– Vou botar um Coldplay

– Tá aí?

– Tá aí? (tou achando Coldplay meio coisa de francês, mas a Anita gosta)

– Opa, desculpa. Era minha mãe, queria saber em quem votar

– Sua mãe deve votar com a consciência dela, e não pedir seus conselhos. Você é um péssimo conselheiro. Alguém que sabe o significado da palavra dossiê e entende suas implicações não pode jamais estar em sintonia com o povo brasileiro

– Eu disse pra ela viajar e esquecer essa bobagem de eleições

– Pois veja como você não sabe nada. Eu percorri a Itália toda na Expedição dos Mil para dar às pessoas o direito de votar, e você, em um telefonema, quer destruir a história de pessoas como eu. Diga para ela votar no Lula

– O Lula não está concorrendo, Sr. Garibaldi…

– Não? Mas que merda de país vocês se tornaram! Dá licença que vou lá cuidar das minhas orquídeas. Toma juízo.

– vlw

– flw té +

Máfia wars

Leandro Demori | Itália 09:30 | 27/08/2010

Há no Facebook um jogo chamado Mafia Wars. Nunca joguei, mas imagino que gire em torno dos clichês da máfia italiana: formar clãs, pagar por proteção, conseguir apoio no mundo do crime, traficar drogas, armas e informação. Se não for isso, deveria se chamar outra coisa (não que eu me importe).

O tráfico de drogas é hoje a atividade mais lucrativa da principal máfia da Itália, a ‘Ndrangheta. O faturamento anual dos clãs calabreses é de cerca de 44 bilhões de euros ao ano. A segunda atividade da ‘Ndrangheta é investir no “mercado formal”, na bolsa de Milão, em obras e contratos do governo. A porta de entrada para isso é o tráfico de informações e a compra de gente influente que possa aprovar os contratos.

A quebra de sigilo ocorrida dentro da Receita Federal com senhas e computadores de funcionários públicos é exatamente isso: tráfico de informação. A pilantragem foi confirmada e os envolvidos da ponta, identificados. São funcionários que podem ter agido até mesmo sem compensação financeira direta, por “amor” a uma ideologia ou a um partido. A banca paga com muitas moedas.

Não há comprovação material de que as ordens para quebrar os sigilos partiram do PT ou de qualquer outro partido da base aliada. O fato, até agora, é que os cidadãos que tiveram suas vidas fiscais invadidas de modo ilegal são ligados aos PSDB ou a figuras do partido. Pode ter sido um inside job? Alguém do próprio PSDB pode ter armado essa? Cada um acredita na teoria que quiser enquanto os fatos não vierem à tona.

O importante de tudo isso é que se trata de banditismo, e banditismo se combate com justiça. Os funcionários acusados de envolvimento são a ponta de uma operação suja que usou estrutura pública e dados sigilosos a serviço de alguém. O que precisa ser feito, agora, é seguir o rastro para encontrar o capo desse projeto de organização criminosa.

Aqui na Itália, mafiosos apodrecem na cadeia por um ato prisional administrativo chamado 41-bis: não podem usar telefone, receber cartas, ter contato direto com pessoas, votar. É similar ao regime Regime Disciplinar Diferenciado aplicado no Brasil, mas com uma diferença fundamental: não tem prazo de validade e é aplicado, inclusive, aos condenados à prisão perpétua. Para o Estado italiano, crimes de máfia estão no topo da cadeia criminosa.

Tem gente chamando a quebra de sigilo da Receita de Watergate brasileiro. Eu não seria tão otimista. No caso de Watergate, os mandantes (ou boa parte deles) sofreram condenações jurídicas e políticas irreparáveis. Nos levamos bem menos a sério do que isso. Se na Itália há a ‘Ndrangheta, no Brasil temos uma máfia ainda pior e mais aceita socialmente: a ‘Ndanada.

Não gostamos dessas pessoas

Leandro Demori | Itália 11:46 | 26/08/2010

O delegado Protógenes Queiroz, herói nacional, é candidato a deputado federal pelo PCdoB. Você vai votar nele, não vai? Protógenes é um injustiçado por ter sido afastado das investigações contra Daniel Dantas: está sendo acusado de ter cometido uma fila de irregularidades durante as investigações, entre elas, grampos e quebras de sigilos bancários ilegais. Para seus defensores, tudo ilusão, e Protógenes não passa de um perseguido.

Há dois problemas na equação complexa da vida real (sempre a realidade complicando tudo). Um é de ordem legal e acaba transformando Protógenes no delegado trapalhão: além de ter abusado de seus poderes e ter agido, conforme o inquérito que o denuncia, de forma ilegal, ele pode ser o responsável por livrar a cara de Daniel Dantas de condenações. Os abusos cometidos pelo delegado, conforme as investigações, sujaram os processos contra Dantas. É uma lição importante que os defensores de Protógenes teimam em não aceitar: investigação ilegal não pode, não adianta chorar e bater as perninhas. Qualquer conversa gravada de modo ilegal, aos olhos da Lei, jamais existiu. E agradeça por ser assim.

Outro problema é moral: pessoas acham que está tudo bem o que ele fez porque “era contra o Daniel Dantas” — e provavelmente o perseguido delegado será eleito deputado por compensação cósmica (tiraram sua carreira de você, nós lhe daremos outra). Sabe aquela conversa de “a lei é igual para todos”? Besteira. Se for contra alguém que não gostamos ou que temos certeza que é um criminoso, todos os métodos — legais e ilegais — devem ser empregados. O problema é que para ter certeza de que alguém é criminoso você precisa… investigar de maneira legal. Complicado, mas simples. Na prática, a teoria é outra.

Com nome e sobrenome, os jornais noticiaram ontem que funcionários da Receita Federal vasculharam os sigilos fiscais de pessoas ligadas ao PSDB, a Serra e a FHC. Assim como no caso de Protógenes, são funcionários do Estado utilizando métodos ilegais para atingir “objetivos maiores”. Os fins justificam os meios, “não gostamos dessas pessoas”, tá tudo bem. O fato de terem divulgado os nomes dos responsáveis é uma dádiva e mídia gratuita: os quebradores de sigilos poderão começar a carreira de aspirante a deputado hoje mesmo — 2014 é ali.

Oito em cada dez brasileiros sustentam a popularidade do presidente Lula. Essas quebras de sigilos deveriam dar cadeia, gerar uma investigação profunda e implacável e, sobretudo, despertar perplexidade nas pessoas [fim do trecho utópico]. Todo mundo, até que a lei não mude, é protegido pelo mesmo direito que foi atropelado dentro da Receita [não, aqui é o fim do trecho utópico]. Acontece que as vítimas dessa pilantragem institucional são ligadas ao PSDB, o partido que quer tirar o PT do governo. São os “adversários”, os “inimigos”, os “caras a serem combatidos”. “Não gostamos dessas pessoas”, então tá tudo bem.

No ar | Live blogging: debate entre candidatos à vice-presidência do Brasil

Leandro Demori | Itália 10:10 | 24/08/2010

Aos detratores: o PSDB seria incapaz de tramar um complô

Leandro Demori | Itália 09:38 | 20/08/2010

Roberto Jefferson e seu twitter são uma excelente combinação. Roberto Jefferson, ontem:

A oposição não tem rosto. O PSDB nacional escondeu FHC. O PSDB regional esconde Serra. [aqui]

Lula surfa nas ondas do momento econômico construído por FHC. Mas o marqueteiro da campanha do Serra não quer que FHC apareca. [aqui]

O legado de Lula e dele. Não adianta os marqueteiros orientarem Serra para ser o sucessor de Lula. Ele fez o testamento para Dilma. [aqui]

Para você que viu todos os programas eleitorais e confundiu com a novela (e, por consequência, estranhou a ausência de Tony Ramos e não está entendendo mais nada): Roberto Jefferson era aliado de Lula, mas passou para a história como a pessoa que denunciou a existência do Mensalão. O Mensalão não é um bar fictício de Passione escondido em alguma esquina de São Paulo onde todo mundo fala italiano errado — é a compra de parte do Congresso Nacional. Com o Mensalão, o governo conseguiu aprovar os projetos que quis. Isso é tão grave que em alguns países (poucos, é verdade) daria cadeia. Mas no Brasil ‘ndanada e hoje, tantos anos depois, ninguém está nem aí.

Pelas tuitadas de Roberto Jefferson, um incauto que vive longe das pequenezas da política (98% da população do Brasil) pode pensar que ele é, ainda hoje, aliado de Lula. Mas não. Roberto Jefferson, a pedido de Geraldo Alckmin, apoia Serra. Mais frases de apoio:

Serra e responsável pela nossa dispersão. Nunca nos reuniu. [aqui]

Se o Gonzalez ouvisse um pouco os políticos, não poria no ar uma favela fake, nem o bobajol do Zé. [aqui]

Roberto Jefferson — “56 anos, advogado, Presidente do PTB, cantor amador e motociclista”, como se define em sua biografia no próprio twitter — é um aliado e tanto. “Quem precisa de inimigos com um amigo como esse?”, diz o jargão popular. O inimigo íntimo de Serra (os dois sequer se conhecem, segundo ele) é quem mais anda sentindo e propagando o cheiro de funeral da campanha tucana.

O PT fez “A Mídia” de sparring durante toda a sua história, e continuou a bater nela mesmo depois de entrar para o governo. É uma tática de sobrevivência e funciona porque, em geral, muita gente acha que a imprensa é um monstro mau, feio e bobão que se reúne todos os dias com o objetivo dominar o mundo.


“Os idiotas também votam, Pink. E são maioria

Desde 2009, nos primórdios da campanha, petistas e aliados dizem que o PSDB articula junto à imprensa um complô contra o governo. A julgar pelas tuitadas de Roberto Jefferson, a acusação é uma tremenda mentira. Para que exista um complô é preciso que ao menos duas pessoas estejam de acordo.

Reescrevendo a história

Gabriel Brust | França 13:29 | 13/08/2010

Petistas estão divulgando felizes como micos de circo uma edição – feita por eles, obviamente – do programa Entre Aspas, da GloboNews, com a participação de dois especialistas em pesquisas e estratégia eleitoral. Os participantes descem a lenha do início ao fim na estratégia tucana para chegar à presidência. Até aí, nenhum problema, os defeitos da estratégia do PSDB são, de fato, vários.

Mas o chocante é que alguns destes defeitos apontados pelos especialistas são pérolas da lavagem cerebral petista repetida à exaustão nos últimos anos tentando reescrever a história na marra. Mais ou menos como faziam os líderes do Partido em “1984” (download aqui), ao apagar nomes e retocar fotos em livros.

Nos blogs representantes do PICA (Partido da Imprensa Chapa-branca e Adesista), os petistas parecem celebrar o vídeo como a vitória final: a lavagem cerebral com a sua revisão dos fatos históricos foi tão bem feita que, finalmente, começa a ser repetida e reproduzida pelos especialistas de fora do partido. Em breve, a nova versão estará nos livros que serão utilizados em sala de aula. O trecho do programa que deixa isso mais claro é quando o cientista político Alberto Carlos Almeida solta esta:

“Na política, você precisa defender símbolos e ideias. O PT tem esses símbolos e ideias. O PSDB tem qual conjunto de símbolos e ideias pra ser defendido, pra você ir pra rua embandeirado e dizer ‘eu defendo isso’?”

Fiquei me perguntando: o que ele quis dizer com “o PSDB não tem bandeiras”? As bandeiras do PSDB estão todas, na prática, governando o país há 16 anos. São as bandeiras que elegeram o partido em 1994 e em 1998 e que podem ser resumidas na estabilidade econômica e no controle da inflação como pré-requisito para o crescimento e distribuição de renda.

As bandeiras do PT, defendidas por 20 anos e abandonadas no dia 1 de janeiro de 2003, eram outras: calote da dívida externa, revisão do plano real, fim do superávit primário, fim da lei de responsabilidade fiscal, reforma agrária radical, reestatizações da Vale e das comunicações, fim da autonomia do Banco Central e por aí vai – na prática, a extinção do conjunto de regras que permite controlar a inflação e dar condições ao país de crescer. A apropriação pelo PT das políticas do adversário chegou a tal ponto que o criador das políticas não pode mais reivindicar sua autoria para tentar ganhar a eleição. O PSDB estaria, por esta lógica maquiavélica, “roubando” ou “imitando” o que ele próprio criou.

Estamos vivendo um processo de inversão e “apagamento” da história no Brasil que faz com que nós, que estamos pelos 30 anos, que nem somos muito vividos, mas que acompanhamos a política dos anos 90, comecemos a nos perguntar: “Mas peraí… será que eu tô ficando louco? Será que o PT sempre defendeu isso, e era o PSDB que defendia o oposto?”.

É assustadora e orwelliana a psicologia a que o PT está submetendo o Brasil.

Receba por e-mail:

Arquivo