O despertar dos gringos

Gabriel Brust | França 08:44 | 15/06/2010

Um artigo publicado ontem no Wall Street Journal sobre a política externa brasileira dos últimos anos chama a atenção não só pela boa análise, mas por ser uma boa análise feita por um estrangeiro, e não só por ser sobre a política externa, mas por tentar decifrar quem é o atual presidente do Brasil escapando aos clichês ingênuos. Este não é, aliás, o primeiro bom artigo de Mary Anastasia O’Grady sobre o Brasil. Foi também de sua autoria o já célebre “Contenha seu Entusiasmo pelo Brasil“, publicado em abril, em que analisa a política econômica de Lula – herdada do governo anterior –, para concluir que “a melhor coisa que Lula fez como chefe-executivo do País foi não fazer nada”.

Quem acompanha a cobertura da imprensa internacional sobre o Brasil sabe que isso não é pouca coisa. A quantidade de bobagens que se lê na Europa sobre o país e, principalmente, sobre Lula, é enorme. Aqui na França, é 100%. Jamais li qualquer artigo realmente lúcido – não estou pedindo nem que seja crítico, mas simplesmente lúcido – sobre Lula. Para os franceses, o Brasil segue sendo o vale encantado de povo bom e selvagem e, neste contexto, a única figura política possível de surgir é a de um pajé caridoso e redentor, talvez com poderes sobrenaturais advindos da floresta. Se tivesse que resumir, diria que, na França, o filme de Fábio Barreto “Lula, o Filho do Brasil” teria sido levado mais a sério do que em Garanhuns.

De forma direta, O’Grady diz mais uma vez o óbvio na edição de segunda-feira do Wall Street Journal:

“O Partido dos Trabalhadores de Lula é de esquerda, mas não se deve confundir Lula com um aplicado bolchevique. Ele é simplesmente um político esperto, que veio das ruas e ama as limousines. Como primeiro presidente brasileiro do Partido dos Trabalhadores, ele teve de equilibrar as coisas úteis que aprendeu sobre os mercados e as restrições monetárias com a ideologia de sua base de apoio.”

A tese de O’Grady no artigo “Lula’s Dance With the Despots” (A Dança de Lula com os Déspotas, original aqui para assinantes e resumo traduzido aqui) é a de que a política externa se tornou uma moeda de troca do “político esperto” com a sua base mais radical. Para satisfazer à esquerda do partido, Lula entrega um setor importante nas mãos de um notório anticapitalista, Celso Amorim. Dessa forma, tem sido chamado a defender e exaltar os seus heróis, que são alguns dos mais célebres violadores dos direitos humanos do planeta.

Embora qualquer pessoa sensata lamente ver o Brasil nessa posição constrangedora a que Amorim vem nos colocando, a verdade é que a dança lulista com os déspotas tem pelo menos um lado bom: está finalmente abrindo os olhos do mundo para a miséria intelectual que há por trás do tão aclamado governo brasileiro. Aos poucos, os gringos vão percebendo o que qualquer brasileiro bem informado e com dois neurônios já viu há muito tempo: os últimos oito anos foram bons para o Brasil apesar de seu governo, e não por causa dele.

Mullah Abdul Ghani Baradar é capturado

Fabricio Pontin | Estados Unidos 12:36 | 16/02/2010

Quem?

Bom, uma forma fácil de responder seria dizer que o Sr. Baradar é o terceiro em comando no Taliban. Na frente dele só o Osama e o Mullah Omar. Ou seja, o líder operacional foi capturado no paquistão cerca de cinco dias atrás.

Isso vai significar, aqui nos Estados Unidos, o retorno de diversos debates. O primeiro deles, mais imediato, é o que fazer com Mullah Baradar? Este final de semana o ex-vice-presidente Cheney disse que ele apoiava o waterboarding. Entusiasticamente.

Em poucas palavras, ele teria dito acreditar que mesmo Bush era excessivamente piedoso com os terroristas. Então esperem logo as reações apaixonadas pedindo que as unhas do Sr. Baradar sejam arrancadas na tentativa de descobrir onde Osama descansa.

O outro retorno é o capital político da captura. É a primeira “conquista” de grande porte do governo Obama, primeira captura de album de figurinhas. Também pode ser uma consequência – não sou especialista militar, mas creio que pode ser lida assim – do recente surge no Afeganistão. Pois bem, tu podes me perguntar se isso vai abaixar o volume das críticas republicanas sobre a suposta mão leve de Obama no trato com as relações internacionais. A pergunta, eu quero acreditar que tu és uma pessoa inteligente, é retórica, claro. Não vai mudar nada. O discurso vai seguir o mesmo, e eu devo postar antes do final da semana algo saindo da boca de algum comentarista da Fox (talvez o Sr. Rove ou mesmo a Sra. Palin) condenando Obama por não estar pessoalmente no Afeganistão com uma faca multi-uso, uma faixa vermelha no cabelo e dizendo “escrotos” por entre os dentes enquanto metralha metade da população local.

Os ataques republicanos à conduta de Obama – que não é nenhum pacifista na política externa, bem entendido – vão continuar seguindo uma narrativa própria, que está preparando o debate político das eleições para o congresso, este ano, e já começam a esquentar os motores para a eleição de 2012. O interessante é que a captura e posterior tratamento do Sr. Baradar vai informar tanto a narrativa dos democratas quanto dos republicanos, independentemente do mérito da captura – ou dos erros da política externa americana em termos de inteligência e interrogatório.

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