A hora em que os PIGS torcem o rabo

Leandro Demori | Itália 15:19 | 02/05/2010

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mentira

[Economia aos domingos -- dia chato merece assunto à altura]

Em tempos de siglas aglutinadoras de nações, a menos famosa delas é, hoje, a mais importante para essa caixinha de surpresas desagradáveis chamada economia global. PIGS: Portugal, Italy, Greece and Spain, os países da comunidade europeia em perigo iminente. Há ainda a versão PIIGS, onde se pode incluir a Irlanda. Ou, nos últimos tempos, PIIIGS, com espaço também para a Inglaterra. Analisemos os PIGS com a Itália, opção pessoal por conta da enorme dívida pública aqui da Bota.

Um dos PIGS está em crise profunda, a Grécia. A maioria das pessoas no Brasil não está entendendo nada [ninguém se importa, afinal] do que está acontecendo por lá. Vamos tentar dar algum sentido às coisas.

Dos 4 PIGS, 3 são importantes parceiros comerciais do Brasil: Itália, Espanha e Portugal. Além de pesarem na balança de importação e exportação, Itália e Espanha, por exemplo, têm investimentos gigantescos no Brasil: FIAT, Pirelli, TIM, Telefônica, Santander… Uma crise nesses países similar àquela grega seria catastrófica, sobretudo por que não se pode pensar na Europa de forma descentralizada: por aqui, mexeu com um, mexeu com todos. É o preço da moeda única. A crise grega é uma crise de todo o bloco europeu. Todos devem abraçar os PIGS.

Dê uma olhada neste mapa, elaborado pela Eurostat, a Comissão Europeia responsável por explicar o continente em números.

Deixe o mouse parado na Grécia — dívida pública de 115.1. Isso significa que o buraco em caixa é 15% maior do que o PIB anual. Sendo bem professoral: a Grécia teria que pegar tudo o que arrecada em 1 ano e alguns meses para pagar o que deve. Obviamente isso seria impossível, pois o governo precisa pagar servidores, fazer funcionar as forças de ordem, hospitais, escolas etc. É claro que nem todas as dívidas são de curto prazo, mas a situação do país é tão catastrófica que não há mais dinheiro para nada.

Outro conceito é importante nessa conta, o “déficit”, que é o quanto um país gasta a mais do que arrecada. No caso grego, ter déficit significa aumentar uma dívida já impagável. Sabe o que fez a Grécia em 2009? Em vez de fazer sobrar dinheiro (superávit) para pagar suas contas e diminuir a dívida pública, o país ficou devendo quase 14% do PIB. Estão claros os motivos da implosão: finanças públicas totalmente descontroladas.


Sem escolha

Os rodeios de empresto-não-empresto-dinheiro feitos pelo bloco europeu são jogos de cena. Não tem querer. Em um bloco de moeda única, a falência de um país significa o enfraquecimento da moeda de todos, para início de conversa, com uma cadeia de consequências imprevisíveis. Qual seria a outra alternativa em relação à Grécia, chutá-la da zona do euro? Impensável. Fato é que a Comunidade Europeia divide esse imenso problema, que se soma ao pouco dinamismo das economias dos países aqui do velho continente. Enquanto os EUA projetam crescimento interessante para botar o pescoço fora d’água, a Europa se arrasta na casa do 1%.

E há a economia subterrânea
A Grécia, por exemplo, é suspeita de fraudar balanços para se adequar às regras e poder fazer parte da zona do euro. A Itália tem economia informal de sonegadores de imposto de renda que pode chegar a 15% do PIB nacional. É uma Grécia inteira correndo dentro da Bota. Esse dinheiro subterrâneo torna qualquer cenário engarrafado de incertezas.


O “G” dos PIGS é “pinto”

A Grécia é um país pequeno e pouco significativo nos balanços europeus. Não fosse da zona do euro, a preocupação seria bem menor. O problema são os demais membros da sigla. Espanha e Portugal, por exemplo, tiveram notas rebaixadas no mesmo dia em que os títulos da dívida grega foram declarados junk (lixo, em bom português brasileiro). Aparentemente, os mercados ainda confiam que esses países podem pagar suas dívidas, mas o estado falimentar grego serviu de alerta sobretudo para a Espanha, que até ontem era a vedete econômica da Europa e hoje está estagnada. É preciso poupar e crescer.

Portugal é maior do que a Grécia, mas não é um colosso econômico. Atualmente, se pensa que o país pode dar um jeito em suas contas públicas sem alarmar os vizinhos.

O caso da Itália seria, tecnicamente, desastroso, mas é um tanto diferente. Apesar de ter uma dívida pública de similares 115% do PIB como a Grécia [deixe o mouse sobre a península no mapa lá de cima], a Itália é grande demais para quebrar. É impensável, seria a ruína de todo o bloco europeu. Os 115% de dívida da Itália são, em euros, cerca de 7 vezes o valor da dívida grega. Paradoxalmente, a dívida maior é o grande álibi do país, pois talvez faltasse até mesmo dinheiro para socorrê-lo.

Além do mais, a Itália é um dos 4 países mais importantes em termos de indústria, agricultura e serviços do bloco. Deve mais, mas tem condições de se reerguer.


E agora?

A Grécia será “salva”, ao menos no curto prazo. No tiro longo, no entanto, as medidas necessárias para conseguir o empréstimo empobrecerão ainda mais o país, que tem 2 em cada 10 habitantes abaixo da linha de pobreza.

Para obter acesso ao fundo de até 135 bilhões de euros que evitariam a suspensão dos pagamentos das dívidas pelo governo, os gregos terão que baixar o déficit para 3,6% anuais até 2013. Como? Assim:

- Congelar salários do funcionalismo público
- Estancar novas contratações
- Cortar aposentadorias e pensões
- Aumentar impostos (álcool, tabaco e gasolina devem subir 10%)
- Frear investimenos

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