Kelpers, Kosovo e Kristina, assim com K

Maurício Boff | Argentina 16:03 | 26/07/2010

Façamos um exercício de futurologia (sou péssimo com isso, mas cabeça-dura demais pra evitar): pense na criação da República Antártica dos Kelpers Unidos, na sua incorporação como membro do Mercosul e na instalação de uma Embaixada do que antes se conhecia por Ilhas MalvinasFalklands em Brasília.

Imagine que o governo brasileiro negocia com o governo kelper a assinatura de um tratado bilateral para o ensino do Português em Puerto Argentino Port Stanley por professores brasileiros, e do Inglês no Braziu para professores nacionais. Sim, minhas premissas são falíveis. Faltará professor de Inglês, mas isso não está em discussão.

Imagine que uma parcela razoável da classe média brasileira decida, então, viajar ao arquipélago para surfar big waves no Atlântico Sul ao invés de Bells Beach ou ao longo da Gold Coast, na Austrália. Seria muito mais “barato” competir com os leões-marinhos do que com os tubarões da Oceania.

Imagine praias lotadas, morenas de quina-pra-lua, guarda-sol multicolorido, mate-leão (no caso das Malvinas, quente) e biscoito Globo! Ah, pagode, samba e funk não faltariam pra movimentar o corpo e lutar contra o frio antártico. Corta essa de roquenrou.

A não inclusão no acordo de quiosques para venda de água de côco, milho verde e cerveja gelada à beira-mar mereceria panelaços em frente ao Palácio da Alvorada. Ah, sim.

A realidade é bastante diferente, mas a possibilidade de um arquipêlago independente no pé das Américas não deve ser descartada por completo desde o dia 22 de julho.

A recente decisão do mais importante órgão judicial das Nações Unidas, a Corte Internacional de Justiça (CIJ) – em que seis dos 10 juízes entenderam que a declaração de inpendência da ex-província sérvia de Kosovo em 17 de fevereiro de 2008 não violava a lei internacional, muito menos a resolução do Conselho de Segurança da ONU – indica uma nova rodada frente aos interesses da Argentina e do Reino Unido sobre as Ilhas Falklands/Malvinas.

Os juízes da CIJ, com sede em Haia (Holanda), que não se pronunciaram a favor da criação de um Estado kosovar, emitiram uma opinião consultiva sobre a situação da região de população albanesa e de maioria muçulmana que autoproclamou sua independência. Mesmo que a decisão não tenha efeito vinculante, a questão deixa em alerta Buenos Aires.

A presidente Cristina Kirchner reacendeu o debate sobre a soberania do arquipélago, pediu a mediação da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, e recebeu apoio dos seus pares latinoamericanos.

Kosovo tem a ver com as Malvinas, e o governo argentino estava atento a isso em 2008. Naquele ano, países como a Argentina e o Brasil não reconheceram a secessão de Kosovo, assim como fizeram outros 69 países dos 192 que integram a ONU. A decisão favorecia a Sérvia e o que restou da ex-Iugoslávia.

O argumento da Cancillería argentina é o de que o princípio da integridade territorial e do acordo entre as partes precisa ser respeitado, e que os kelpers não são habitantes originários das Malvinas. Eles são fruto da imigração de províncias da potência colonial britânica ao arquipélago.

O Reino Unido, defensor da causa albanesa-kosovar assim como a França e os EUA no Conselho de Segurança da ONU, defende que os habitantes das Falklands/Malvinas têm o direito a autodeterminação. A tese de que a independência do arquipêlago pode existir também se baseia no próprio entendimento dos juízes de que não é necessário um referendo para que a população legitime o direito de autoproclamar a independência.

Os kelpers nada têm de ingênuos: não se sabe a quantidade exata de petróleo que a região dispõe, e a potência latinoamericana o Braziu, inclusive, está atento.

O Estado argentino, que participou da opinião consultiva em Haya, deve se manifestar nos próximos dias sobre a posição dos juízes. Aliás, precisa. O governo norteamericano, por exemplo, partiu em defesa da tese de que a posição da CIJ não pode se aplicar a outros casos. Os negociadores internacionais argentinos devem reforçar o pedido de reintegração do território que perderam ao Reino Unido, em 1833. Só o tempo para resolver a questão.

Sabe as praias do Sul dos Estados Unidos?

Leandro Demori | Itália 21:54 | 17/06/2010

Rolando altas ondas.

[via obe]

Programa Braziu 006 no ar

braziu.org 07:30 | 05/06/2010

Mais um programa totalmente delícia da Braziu TV. Gravado na quinta (03). Pautas:

- China libera sites de sacanagem: chineses, com as mãos ocupadas, esquecem dos 21 anos do Massacre da Paz Celestial
- Israel x barcos de ativistas pró-Gaza: as banalidades da vitimização
- Vazamento de petróleo nos EUA: a maré negra inundará a Flórida. Obama assiste a tudo de cima do muro

Assista já e ganhe uma carteirinha exclusiva do Clube dos 2%!

Um desastre ecológico e econômico

Fabricio Pontin | Estados Unidos 18:00 | 01/05/2010


é bem pior do que parece

Vou tentar fazer uma cronologia do que aconteceu:

Dia vinte de março houve um incêndio na plataforma de exploração de óleo da Transocean, atualmente administrada pela BP, uma das maiores empresas de energia dos Estados Unidos. Esse incêndio, inicialmente, causou uma comoção geral pela morte de 11 operários.

Subsequentemente, começam os boatos sobre um potencial desastre ecológico. A plataforma estava obtendo algo como 8000 galões de óleo por dia e tinha 700.000 galões de Diesel na locação (para referência, um galão equivale a mais ou menos quatro litros).  Gradualmente, começam a falar sobre um vazamento, que seria facilmente controlado.

Entre os dias 24 e 26 de Março isso se mantém como a “posição oficial” da BP. Até que dia 27 tudo começa a dar errado. Alguém sugere botar fogo no óleo, o que prova ser uma ideia idiota. Enquanto isso, congressistas começam a fazer perguntas desagradáveis para a BP, tipo: “vocês podiam mesmo explorar óleo nesta região?”, “o risco desta naba já era bem claro, e vocês continuaram mesmo assim?”

Dia 28 a coisa atinge níveis apocalípticos para a região. O vazamento, inicialmente de 1000 galões/dia, é corrigido para 5000 galões/dia, e a BP admite que não consegue achar uma forma de parar o vazamento de material: ou seja, a mancha de óleo está fora de controle e ainda por cima está aumentando de tamanho.

Dia 29 o Obama faz uma declaração dizendo que 1) o governo vai mobilizar até o exército para tentar controlar a coisa e 2) a BP vai pagar pelos custos da bagaceirada.

Entre ontem e hoje a imprensa tem focado nas consequências desse vazamento para a região do Golfo do México, que já é a região mais pobre dos Estados Unidos. A consequência econômica do acidente é dramática: algumas regiões podem ter que ficar até 4 anos sem poder explorar a costa – inclusive para pesca. Em estados como Mississipi e Louisiana isso é mais um prego no caixão de uma economia que ainda não se recuperou do Katrina.

Do ponto de vista ecológico, a coisa não é nem um pouco mais animadora. O vazamento afeta o habitat de diversas espécies, algumas já ameaçadas de extinção. O golfo do méxico se beneficia muito de um tipo de turismo ecológico que pode ser diretamente afetado por este evento.

Enquanto a BP e a Transocean ficam brincando de transferir a culpa do vazamento, o governo federal é testado na resposta a um desastre ecológico com uma repercussão econômica enorme. O Obama deve ir para o sul ainda no final de semana para verificar a situação em pessoa.

Esse vazamento também retoma a discussão sobre a exploração de petróleo em alto-mar (off-shore drilling). Isso foi parte importante do debate sobre energia durante a campanha presidencial e o chefe do Republican National Committee (RNC, algo como o presidente do partido), Michael Steele, imortalizou a frase chefe da campanha na última reunião do partido:


Perfure, meu bem, perfure!

Já tem muito cronista por aqui gritando que tinham prometido que a exploração de óleo em alto mar era 100% segura e certamente não vai faltar gente dizendo que isso não prova coisa alguma e é um incidente isolado.

Como sempre, agora é esperar para ver como isso vai evoluir. Uma coisa é certa: os estados que ficam na costa do Golfo do México não vão conseguir se levantar sozinhos dessa história, e em tempos de vacas magras na economia isso pode significar um empobrecimento ainda maior da região.

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