Serra merece perder (mas contratarei um pistoleiro de aluguel)

Leandro Demori | Itália 14:44 | 17/10/2010

No final dos anos 90, 14 dos 15 países da União Europeia eram governados pela esquerda. Hoje são apenas sete, e com uma Europa alargada; há mais países no bloco do que havia à época: 27. Para piorar, há governos de esquerda na Grécia, Espanha e em Portugal, países com economias destroçadas. O que aconteceu?

Não existem explicações simples para um post de domingo [ainda estou de pijama e não pretendo tirá-lo até segunda]. Ao menos não sou tão presunçoso quanto analistas políticos que orbitam por aí (ao final dos posts você tem a plena certeza de ter lido o sermão de um pastor evangélico). Duas macro razões podem ser descritas, entre um bocejo e outro.

Materialmente, perdeu-se e mão do Welfare State, a ilha de bem-estar social sonhada por aqui. O Estado deu muito e exigiu pouco. As pessoas não entendem e não têm obrigação de entender porque são, enfim, pessoas, mas o leite está minguando e não dá mais pra todo mundo ficar penduradinho na teta.

A briga na França é exemplar: a expectativa de vida ao nascer em 1980 (quando foi instituída a aposentadoria aos 60 anos) era de 73.7 anos. Hoje, é de 80.98 anos. Em 2050, deve alcançar os 84 anos. O governo queria alargar o pijama para 64 anos; como todo mundo chorou, reduziu o projeto para 62. Mesmo com choro geral, a lei deve passar. Precisa passar. Neste caso, a mudança de regras de um direito adquirido é fundamental para manter aquele próprio direito.

Mentalmente, a esquerda europeia esbanjou soberba, ‘subiu nas tamancas’. E pessoas não gostam de gente arrogante. Os operários, que antes votavam majoritariamente em partidos de orientação socialista, hoje votam na outra ponta, na extrema-direita, onde há partidos mais pragmáticos e menos retóricos. Ninguém quer ficar ouvindo político dizer o quanto ele (o político) é o bonzão.

Não por acaso, esse é um dos claros motivos pelos quais temos segundo turno no Brasil nessas eleições: a prepotência começava no alto e ia escorrendo pelas veias da militância. Se o segundo round serviu para algo (porque ainda acredito na vitória de Dilma) foi para baixar a bola do pessoal que já estava pregando o fim de todos os partidos que não assinaram o tratado da verdade única.

Discursos em que se fala mal dos ricos de modo hipócrita acabarão porque, um dia, no país imaginário desses senhores, seremos todos “ricos”. O discurso terá que mudar, e mudará, porque políticos, como bons papagaios de gaiola, repetem as frases que fazem a plateia sorrir. Polly just want a cracker e paga o preço que for preciso.

Até meses atrás, víamos uma disputa entre dois partidos de centro-esquerda no Brasil. Petistoides tinham dificuldades em defender como o PSDB (“um partido de direita”) tinha um presidente que pregava a descriminalização da maconha, por exemplo. E sim, isso é ponto fundamental para a definição — você jamais verá um partido ‘de direita’, conservador, defender coisas como essa. Jamais.

Além desse, outros preceitos do PSDB representados por boa parte de seus fundadores o colocavam na centro-esquerda do velho espectro de classificação de ordens políticas. Se você quer modernizar o que seria a direita (aka adaptar o conceito a seus inimigos) então chame-a de outra coisa.

Com o avanço da disputa eleitoral — e com o enorme esforço do próprio PSDB em fazer José Serra perder a eleição — o que se viu foi um festival de apatia e, depois, de desorientação política. Panfletinhos com a foto de Serra e uma frase de Jesus? Qual é? Serra se agarra ao catolicismo como se tentasse escalar um pau-de-sebo.

Dilma fez examente a mesma coisa, ou até pior, porque até ontem era ateia e hoje acredita muito em Jesus no coração. Fico imaginando o que ela está pensando de olhinhos fechados em fotos como essa.

A diferença entre ambos é que a campanha de José Serra se apegou somente a isso, ele parece não ter mais nada a oferecer ao Brasil. Talvez tenha, mas se nem mesmo ele próprio acredita nisso, não me peça para acreditar. Se no início da campanha eu tinha certeza de que ele era ‘o mais preparado’ (e ainda é), hoje isso pesa muito pouco na balança. A campanha, que deveria ter sido feito em cima dessas competências, não foi. [aqui vai um link mostrando São Paulo para os petistas que amam tanto falar de números ultimamente]

Os candidatos, ambos, são um desastre. Isso é ponto pacífico. Uma das coisas que mais me faz rir é ver as reações pós-debates, sobretudo de petistas (que são mais passionais, logo, mais engraçados). “Dilma deu show!!! !!!” | “Nossa gente ke emoçaum Dilma no debate!!!“. O parâmetro de ‘show’ e ‘emoção’ desse pessoal deve ser o Zorra Total. É nego que chora ouvindo uma piada do Ary Toledo, imagino.

Dilma não merece ganhar, mas Serra merece perder. E merece perder para ver se o PSDB acorda e areja seus quadros, volta minimamente a ser um partido com ares de século XXI como um dia acreditou ser.

Para manter a tradição que eu mesmo me impus desde 2002, vou abster go$toso meu voto. Serra merece perder e você será meu pistoleiro de aluguel. Se tudo ficar como está, Dilma vencerá e o PSDB, caso não capitule ao governo e não seja uma oposição tão inútil como nos últimos 8 anos, terá tempo para repensar o universo. E não votarei em Dilma porque tenho restrições profundas à sua candidatura — a começar pela falta de primárias para decidir o candidato em um partido que se promete democrático.

A principal força de centro-esquerda da Itália, o Partito Democratico, faz eleições internas onde todos os cidadãos italianos que possuem título de eleitor podem votar para definir quem será o candidato. Isso mesmo: é uma primária aberta aos italianos, e não somente aos militantes. No PT, nem isso. Se eu fosse filiado e deixasse parte dos meus ganhos no caixa do partido me sentiria um idiota útil.

Uma das frases clássicas no mercado de trabalho aqui na Bota é “mi manda papà” (“me manda papai”), que resume bem como são as relações de poder em um país que é descendente direto do Império Romano, onde a meritocracia não existia. Dilma subirá a rampa no dia da posse e, lá de cima, dirá ao brasileiros: “mi manda papà”, certamente com espaços de 10 segundos entre cada palavra. Desculpem se não consigo levar a sério toda essa gente.

O 20 de setembro é uma das mais importantes datas da história

Leandro Demori | Itália 13:36 | 20/09/2010

O Estado Vaticano, esse pequeno pedaço de terra cercado de muros que convive com Roma em seu entorno, já foi algo muito maior e mais representativo do que jardins, palácios e museus de uma Igreja.

Após o fim do Império Romano, uma encarniçada guerra entre povos do norte da Europa tomou conta da península — fatiada e distribuída ao norte e ao sul. A região central, no entanto, foi sendo lentamente dominada pela Igreja. Grosso modo (e não pretendo me alongar nesse episódio que pode ser consultado em outras e abundantes fontes) a faixa que se estende do Tirreno ao Adriático, de Ferrara a cidades ainda mais ao sul de Roma é considerada, a partir de 752, Estado Pontifício.

Nessas terras, o Papa possuía os poderes religioso e político, e usava ambos com tamanha maestria que levou seu Estado avante por mais de mil anos.

Os domínios papais no centro da Itália operavam de forma organizada e violenta.

Vivo perto dos Arsenais Vaticanos aqui em Roma, por exemplo, onde o exército da Igreja mantinha suas armas. Nas redondezas havia o porto de Roma, de onde chegavam e saiam mercadorias. O Estado Pontifício exportava ferro, grãos, vinho e pequenos objetos manufaturados; importava armas, ouro, espécies, mármores e jóias.

Foi uma potência política tão forte que chegou a fazer súditos oficiais importantes como o Reino da Inglaterra, o Reino de Portugal e a família Aragão da Espanha (que mais tarde dominaria o sul da Itália na tomada de Napoli).

Os papas escolhidos ao longo daquele tempo obedeciam a interesses muito mais terrenos do que os de hoje: eram de famílias ricas, influentes, direcionadas ao poder e aproveitadoras do espólio que o Império Romano havia deixado por aqui.

Estou lendo um livro chamado I papi e il sesso (Os papas e o sexo), escrito pelo jornalista Eric Frattini. É um livro importante para clarificar que os papas, ao longo da história, foram notáveis pedófilos, estupradores, assassinos, sádicos seviciadores de escravos e doentes mentais crônicos que usavam sem limites o poder que possuíam. Não é de hoje que os corredores da Igreja exalam podridão.

São inúmeros os trechos incisivos sobre sexualidade, muitos como esse:

O Papa Leão X, homossexual, tinha que andar de lado na cela do cavalo devido às úlceras anais das quais sofria, consequência de seus numerosos encontros amorosos pelas vielas escuras de Roma.

O contornos sexuais ajudam a entender as poucas luzes de uma época em que o Vaticano exercia poder direto sobre a vida e a morte. Nepotismo, corrupção e despotismo viveram momentos sem precedentes sob as ordens de papas. Com as chaves de Pedro nas mãos e uma população assustada no bolso, a canalhice exalava por todos os poros.

Benedetto IX era neto de Giovanni XIX, que por sua vez havia sucedido seu irmão, Benedetto VII, neto de Giovanni XIII; Giovanni XI era filho ilegítimo de Sergio III; Giovanni XIII era filho ilegítimo de um bispo; Paolo I sucedeu seu irmão, Stefano II; papa Silvero era filho de papa Ormisda; Innocenzio I era fruto de papa Anastasio I; Bonifacio VI era filho de um bispo; papa Romano era irmão de papa Martino e ambos eram filhos de um sacerdote.

Os trechos acima, de tradução livre feita por mim para este post, mostram a eterna festa de carnaval sádica e nepotista da Igreja ao longo dos séculos. Não existe pecado do lado de lá do Rio Tibre. Era quase uma família Guerra.

O Estado Vaticano atravessou toda a Idade Média e viu impérios importantes nascerem e morrerem antes de ser derrotado. O ocaso dos domínios papais aconteceu exatamente em 20 de setembro de 1870, em um evento que ficou conhecido como Presa di Porta Pia (Tomada de Porta Pia). A Itália estava unida desde 1861, mas faltava Roma, domínio papal protegido pelos próprios exércitos e por tropas de Napoleão III.

Em 4 de setembro de 1870, por causa da guerra contra a Prússia, o Terceiro Império francês cai. As tropas de Napoleão III se retiram de Roma e os unificadores veem a chance de atacar. O governo italiano tentou, antes, negociar. Diante das negativas do papa, o então Reino da Itália abriu um buraco de 30 metros no muro perto de uma das portas e ocupou a cidade. Era o fim do Estado Pontifício.

A derrota imposta ao Vaticano abriu uma crise entre a Sé e a Itália chamada Questão Romana, resolvida somente em 1929 por Benito Mussolini, que criou o Estado Vaticano.

O 20 de setembro, portanto, é uma das datas mais importantes da história da humanidade por conta da Tomada de Porta Pia e do fim da era das úlceras anais — somente atrás, em importância, é claro, da Revolução Farroupilha.

Pitagóricas VI

braziu.org 08:00 | 27/04/2010

- “James Cameron: ‘Vou levar uma carta dos índios a Obama’”. Política do calção da Adidas.

- “Indonésios que aumentam pênis são impedidos de servir o Exército.” Comiam de mais.

- “Sítio oficial ‘usa’ foto de atriz como se fosse de Dilma.” Deixa! Deixa!

- “Serra e Lula cochilam na posse do presidente do STF.” No ritmo do Judiciário. Faz $entido.

- “Grã-Bretanha pede desculpas por documento com ‘piadas’ sobre papa.” Maiores e melhores ‘brainstorms’ governamentais. Continuar assim.

- “Na TV, Ciro critica PMDB e PT e diz que Serra é um ‘perigo’ para o país.” Já votou na nossa enquete aí do lado?

- “Americanas exibem decotes em protesto contra clérigo iraniano.” Este Braziu apóia toda e qualquer manifestação desta vertente ideológica popular e revolucionária.

- “Vulcão na Islândia ajudou a conter gases poluentes.” Marina Silva humilhada por Eyjafjallajökull.

- “Brasil paga dez vezes mais por banda larga do que países desenvolvidos.” Parabén$ eterno.

- “Deputado quer voto com força do pensamento.” Giovani Cherini (PDT), presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, mostrando ao mundo a elevada con$ciência política do povo gaóchu. Será reeleito.

- “Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, desafia prefeitura do Rio em vídeo na internet.” Edir Macedo [dono do Braziu] sempre certo.

- “Justiça gaúcha absolve Google em caso de ofensa a internauta no Orkut.” Tico…

- “Justiça condena Google a indenizar padre apontado como pedófilo no Orkut.” … perdeu comunicação com Teco.

- “Gêmeo de presidente morto disputará Presidência da Polônia”. Lula xingando demais o atraso na clonagem humana.

- “Ministro da Saúde recomenda sexo para combater a hipertensão”. Faz $entido.

Pitagóricas III

Walter Valdevino | Brasil 17:08 | 18/04/2010

- “Papa se encontra com vítimas de abusos e promete justiça”. Cirurgia de reconstituição de hímen ou de pregas? Agora é tarde.

- “Pedreiro preso por assassinato de jovens em GO é encontrado morto”. Sequência sem limites de $uce$$o$ do tal de E$tado.

- “Marina se diz convencida de que irá para o 2º turno.” Não.

- “Garotinho diz que é pré-candidato ao governo do Rio de Janeiro”. Vencerá antes do primeiro turno.

- “Em evento do PMDB, Quércia ‘lança’ candidatura de Alckmin”. Bom padrinho político. Vencerá.

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