Há sempre uma desculpa.
Sempre.
Quem aprende essa lição desde cedo tende a “se dar muito bem” na vida.
Não importa o que se faça ou deixe de fazer, sempre é possível dizer que choveu de mais ou que choveu de menos; que você não estava ali quando aconteceu; que já estava quebrado quando você chegou; que na real não é nada disso que sua mulher está pensando.
O balanço de agora [12:15 aqui na Itália] é de 182 mortos no Estado do Rio de Janeiro por causa das chuvas.
“Por causa das chuvas”.
Vejo políticos nestas fotos, abraçados e gozando de alguma espécie de momento xamânico — daqueles que garantem reeleição — e visualizo alguém na cama abraçado na amante sendo fuzilado pelos olhos da própria mulher. Imediatamente raciocino como o marketeiro da próxima campanha de um daqueles caras que elegemos na eleição passada: “não é nada disso que você está pensando, querido eleitor, é que choveu de mais”.
Prazer imensurável esse de afogar as responsabilidades.
Os 182 mortos no Rio são culpa da chuva. Simples assim. Pega alguns números ali no pluviômetro pra mostrar que nunca antes na história desta cidade, deste estado, deste país [que na verdade nunca antes na história desta sua vida miserável] choveu tanto quanto nos últimos dias. “Tá tudo bem”.
A maioria dos mortos foram soterrados em favelas. Gente que morre todos os dias, chova ou faça sol, simplesmente pelo fato de estarem ali. Se morassem em locais habitáveis, a última semana não passaria de um “deságio”, dias ruins, talvez sem poder sair de carro ou sem acesso à internet. Tivéssemos mortos — provavelmente teríamos –, seriam 182? Para com isso.
Mesmo depois de uma década de “governo popular” no Brasil (que veio depois de uma década de “governo neoliberal”) as pessoas continuam morando em encostas, em lugares inabitáveis, no barro pronto para despencar. É ano eleitoral e o que se vê é o mesmo velho e sonolento filme de sempre: bipolarização, Serra e Dilma, “tá comigo ou tá com ele?”, esquerda, direita, Pig. Desculpem se não consigo levar a sério essas discussões. É que temos 182 corpos para enterrar enquanto vocês brincam de política de jardim de infância.
“Tá tudo bem. Não é nada disso, querida.
Essas pessoas já estavam mortas quando assumi o governo”.