Senador Bayh abandona o navio

Fabricio Pontin | Estados Unidos 16:10 | 17/02/2010

Estariam os democratas em apuros?

Bem, vamos pensar juntos aqui. Primeiro, o Ted Kennedy morre. Daí, em uma sequência de opções erradas sem precedentes, os democratas conseguem perder um “seat” em um dos estados mais liberais do país. Mas tudo bem, tu pode analisar isso via uma série de fatores. Minha hipótese é que a leitura da eleição em MA como um referendo do governo Obama foi um equívoco e não compreendeu coisa alguma dos processos de voto e de interesse. Neguinho em MA não tinha qualquer motivo para se levantar da cadeira e ir votar se fosse um liberal. Se ele fosse um conservador? Do ponto de vista ideológico ele tinha vários motivos para levantar a bunda da cadeira e ir votar. Eleitores conservadores foram votar, eleitores liberais não viram motivo para isso. Não é o fim do mundo.

Só que no início da semana passada o John Murtha morreu. John Murtha era um democrata em via de extinção. Do tipo que conseguia dialogar com a base blue-collar de forma direta na região mais conservadora de PA. Pennsylvania, vocês sabem, é um estado complicado. Históricamente tende a ficar no meio campo, e no cenário onde os liberais tendem à imobilidade (caso de qualquer cenário onde um liberal está na casa branca), os conservadores ganham uma vantagem operacional enorme. Pois bem, perder um lugar em PA pode não parecer grande drama. Mas pode ser um fator decisivo para preparar o terreno para a eleição de 2012. Os Democratas não conseguem ganhar sem a Pennsylvania e os teabaggers tem demonstrado uma capacidade de mobilização grande – não tão grande quanto a Fox quer te convencer, é claro.

Daí, esta semana o Senador Bayh abandonou o navio. O Senador Bayh é uma liderança democrata em ascensão. Ao contrário do Murtha e do Kennedy, ele não era um velho que ocupava um lugar historicamente associado ao partido democrata. O Bayh foi fundamental na campanha de Obama, tão fundamental que Obama venceu em Indiana – coisa que pouquíssima gente pensava possível. O Nate Silver, no FiveThirtyEight, fez a simulação do que o Bayh simbolizava em termos de valor para o partido. Adivinhem? Ele é imprescindível para o mid-west. O buraco que ele deixa no senado é grande, mas em termos estratégicos, no longo termo, ele pode indicar uma incapacidade do governo Obama em lidar com o centro do partido democrata – um gap de liderança. Em vários sentidos isso é parte de uma tendência na liderança do Obama, no tratamento com o congresso, que vem levando muita gente a comparar o Obama com outra grande liderança do partido democratico que surgiu como resposta à uma guinada conservadora. O nome desta liderança era Jimmy Carter.

Depois de um ano, Obama parece estar sendo consumido pelo próprio partido. Mas, para um presidente impopular, os números deles são surpreendentemente bons. Parece que o público – fora da guerrinha ideológica – não vincula estes abandonos e perdas ao Obama – ainda. Resta saber se e como a próxima eleição vai ser intepretada como um referendo. Ela não precisa ser um referendo. A dinâmica de uma votação para congresso e uma votação para presidente é completamente diferente em um contexto onde o voto é optativo. Mas isso não importa no fim das contas, e este é o dado para acompanhar este ano: como os números do Obama vão evoluir conforme o congresso voltar para a normalidade 54%-46% que vai ser lida como uma anormalidade, um referendo do Obama – que se beneficiou pelo referendo de Bush em 2008 que colocou ele em uma situação de vantagem com poucos precedentes na história recente dos Estados Unidos. Uma vantagem que não foi aproveitada pelos congressistas democratas norte-americanos, que não entenderam o mandato que ganharam ou o tempo que o mandato duraria.

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