Preto matando preto

Leandro Demori | Itália 08:11 | 21/07/2010


Ilustração do Menezes, que faz isso pela simples busca da fama

A edição que recebo todas as manhãs do International Herald Tribune graças ao presente involuntário da americana que morava aqui antes de mim — e esqueceu de mudar o endereço da entrega — chama de roofers os jovens que formam uma das tribos da “subcultura” de Moscou. Os roofers passam os dias em silêncio, contemplando a cidade dos topos dos edifícios. Lá em cima, buscam algum tipo de paz perdida em meio ao caos dos mais de 10 milhões de habitantes da capital vermelha. Os roofers são invasores. Para entrar nos edifícios, testam combinações prováveis tentando quebrar as senhas das fechaduras eletrônicas predominantes. Em último caso, tocam em apartamentos aleatórios dizendo-se entregadores de qualquer coisa ou vizinhos descuidados que esqueceram a senha ou a chave.

É improvável que doa aos jovens russos de hoje serem mundialmente conhecidos por uma termo em inglês (o jornal sequer traz a palavra roofer em russo e diz que eles próprios se chamam assim). Certamente causa mais desilusão o fato de alguns novos roofers terem transformado a arte de se isolar em negócio: cobram de 13 a 80 dólares por pessoa para fazer um tour de invasões pelos prédios da cidade. Uma afronta.

Os roofers de Moscou fazem parte de uma minoria em extinção: a das pessoas que só querem ficar quietas no seu canto. E se incomodam quando são confundidos com vândalos ou arrombadores. Os roofers de Moscou não querem confusão, fama ou defender grandes ideais. Os roofers de Moscou sabem que só podem salvar o mundo deles mesmos e que isso exige dedicação extrema.

O exército do Sudão anuncia semanalmente uma lista de mortos como se fosse uma empresa dando satisfações aos acionistas. Darfur é hoje o centro da mais brutal das guerras humanas em curso. Ninguém se importa com Darfur porque defender ideais pelas redes sociais não é diferente de buscar inserção social: os atores e autores precisam ser minimamente conhecidos. É inútil entupir o Twitter de convocações que ninguém atenderá. Israel x Palestina, por exemplo, é hype e garantia de tornar seu perfil público mais “humano”. Darfur é furada, é só “preto matando preto”.

Antes de querer salvar o mundo dos outros deveríamos aprender a salvar o mundo de nós mesmos.

Receba por e-mail:

Arquivo