O nosso Garganta Profunda tem cara, nome e sobrenome
A corrupção na política brasileira se manifesta de diferentes formas, em diferentes graus e em diferentes esferas. Mas a única forma que realmente choca a população e, por consequência, desperta a atenção da imprensa para o absurdo da coisa é o roubo explícito, quer dizer, dinheiro público entrando direto no bolso do picareta. E tem que ter foto ou vídeo, claro. Sem enxergar o dinheiro, parece que ninguém se escandaliza, como prova o caso dos Aloprados em 2006, quando apenas a divulgação das imagens da grana petista (na foto acima) deu a real dimensão da vagabundagem.
E é provavelmente por isso que a reportagem levada ao ar na noite de domingo pela Rede Globo, sobre os vereadores que faziam turismo com verba pública, virou Trending Topic do twitter e manchete de jornal. Meia dúzia de vereadores de meia dúzia de municípios dos quais nunca ouvimos falar fazendo seu turismo cafona pelas Cataratas do Iguaçu renderam boas imagens de câmera escondida e depoimentos constrangedores dos picaretas, que devem ter feito o editor da matéria dar aquele sorriso de canto de boca irônico, entre uma baforada e outra, como se tivesse em mãos o seu próprio caso Watergate.
Não haveria aí nenhum problema, se o Watergate brasileiro não existisse de verdade desde sexta-feira e não estivesse sendo ignorado solenemente por este mesmo editor. A entrevista de Gerardo Santiago, ex-diretor do Previ, o Fundo de Pensão do Banco do Brasil, à Veja, desenha em traços fortes um escândalo possivelmente mais grave do que o Mensalão. O sujeito confessa que fabricava dossiês contra adversários do governo a mando do ex-presidente do fundo, o petista Sérgio Rosa, e descreve o Previ como “um braço partidário, um bunker de um grupo do PT, uma fábrica de dossiês”. Declara ele: “A Previ está a serviço de um determinado grupo muito poderoso, comandado por Ricardo Berzoini, Sérgio Rosa, Luiz Gushiken e João Vaccari Neto.”
A todos que consideram “esse papo de dossiê” uma besteira e ainda não atentaram para o absurdo que é um governo se prevalecer do acesso a dados sigilosos do cidadão para chantagear adversários, vai aí apenas um dos casos descritos por Santiago para ilustrar o “Escândalo do Previ”:
“Em uma sessão da CPI no fim de fevereiro de 2006, o deputado ACM Neto (DEM-BA) estava atacando o governo e perturbando a senadora Ideli Salvatti (então líder do PT no Senado). Então, ela perguntou a um grupo que a assessorava: “Ninguém aí tem nada que possa calar a boca desse moleque?”. Aí eu falei: ‘Senadora, contra o rapaz, não. Mas eu tenho uma munição pesada contra o avô, não serve?’. Ela começou a pular, a comemorar. Ligou para o Sérgio Rosa, e a coisa andou. O Sérgio enviou o dossiê para o gabinete dela. Duas semanas depois, estava tudo na capa da revista Carta Capital (a reportagem foi publicada na edição de 8 de março de 2006).”
Utilizei o caso Watergate como metáfora, mas o escândalo do Previ tem sim algumas características que remontam ao episódio que culminou com a renúncia de Richard Nixon. A diferença, no caso brasileiro, é que o nosso garganta profunda tem cara, nome, sobrenome e dá entrevistas! Ou seja, em tese, a pista está mais do que livre para que uma boa investigação da imprensa demonstre, como foi demonstrado no caso Watergate, que a máquina utilizada para perseguir e chantagear adversários serve diretamente e está a mando do governo – mesmo, é claro, que se camufle na burocracia partidária.
Obviamente, isso jamais acontecerá. É Diuma-dois-mil-e-déis-na-cabeça.
Mas então voltemos à comparação entre o caso dos vereadores turistas e ao escândalo do Previ. A ocorrência destes dois episódios praticamente ao mesmo tempo é excelente para percebermos como a democracia brasileira ainda está num estágio primário. Enxergar corrupção apenas no roubo de dinheiro e não no ataque às instituições e aos direitos fundamentais do cidadão – escancarado no escândalo do Previ e sistematicamente escancarado pelo governo Lula, como no caso do ministro que quebrou o sigilo bancário de um caseiro – demonstra o quão primitiva ainda é a nossa visão de honestidade. E não é apenas entre os Zé-bolsa-família não, é, lamentavelmente, entre editores e jornalistas que, na noite de domingo, viram mais manchete nas diárias de 120 reais dos vereadores turistas do que num caso que deveria derrubar qualquer governo de qualquer país sério.
É claro que é bem mais fácil posar de heroi denunciando meia dúzia de picaretas do interior profundo do que encarar um governo federal corrupto e imoral que tem 80% de aprovação popular.
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Tags: aloprados, Dilma, Gerardo Santiago, Ideli, mensalão, Previ, PT
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