Máfia wars
Há no Facebook um jogo chamado Mafia Wars. Nunca joguei, mas imagino que gire em torno dos clichês da máfia italiana: formar clãs, pagar por proteção, conseguir apoio no mundo do crime, traficar drogas, armas e informação. Se não for isso, deveria se chamar outra coisa (não que eu me importe).
O tráfico de drogas é hoje a atividade mais lucrativa da principal máfia da Itália, a ‘Ndrangheta. O faturamento anual dos clãs calabreses é de cerca de 44 bilhões de euros ao ano. A segunda atividade da ‘Ndrangheta é investir no “mercado formal”, na bolsa de Milão, em obras e contratos do governo. A porta de entrada para isso é o tráfico de informações e a compra de gente influente que possa aprovar os contratos.
A quebra de sigilo ocorrida dentro da Receita Federal com senhas e computadores de funcionários públicos é exatamente isso: tráfico de informação. A pilantragem foi confirmada e os envolvidos da ponta, identificados. São funcionários que podem ter agido até mesmo sem compensação financeira direta, por “amor” a uma ideologia ou a um partido. A banca paga com muitas moedas.
Não há comprovação material de que as ordens para quebrar os sigilos partiram do PT ou de qualquer outro partido da base aliada. O fato, até agora, é que os cidadãos que tiveram suas vidas fiscais invadidas de modo ilegal são ligados aos PSDB ou a figuras do partido. Pode ter sido um inside job? Alguém do próprio PSDB pode ter armado essa? Cada um acredita na teoria que quiser enquanto os fatos não vierem à tona.
O importante de tudo isso é que se trata de banditismo, e banditismo se combate com justiça. Os funcionários acusados de envolvimento são a ponta de uma operação suja que usou estrutura pública e dados sigilosos a serviço de alguém. O que precisa ser feito, agora, é seguir o rastro para encontrar o capo desse projeto de organização criminosa.
Aqui na Itália, mafiosos apodrecem na cadeia por um ato prisional administrativo chamado 41-bis: não podem usar telefone, receber cartas, ter contato direto com pessoas, votar. É similar ao regime Regime Disciplinar Diferenciado aplicado no Brasil, mas com uma diferença fundamental: não tem prazo de validade e é aplicado, inclusive, aos condenados à prisão perpétua. Para o Estado italiano, crimes de máfia estão no topo da cadeia criminosa.
Tem gente chamando a quebra de sigilo da Receita de Watergate brasileiro. Eu não seria tão otimista. No caso de Watergate, os mandantes (ou boa parte deles) sofreram condenações jurídicas e políticas irreparáveis. Nos levamos bem menos a sério do que isso. Se na Itália há a ‘Ndrangheta, no Brasil temos uma máfia ainda pior e mais aceita socialmente: a ‘Ndanada.
Tags: 'Ndanada, 'Ndrangheta, máfia, PSDB, quebra de sigilo, Receita Federal, Watergate
11 comentários











FeedBurner posts