Serra merece perder (mas contratarei um pistoleiro de aluguel)

Leandro Demori | Itália 14:44 | 17/10/2010

No final dos anos 90, 14 dos 15 países da União Europeia eram governados pela esquerda. Hoje são apenas sete, e com uma Europa alargada; há mais países no bloco do que havia à época: 27. Para piorar, há governos de esquerda na Grécia, Espanha e em Portugal, países com economias destroçadas. O que aconteceu?

Não existem explicações simples para um post de domingo [ainda estou de pijama e não pretendo tirá-lo até segunda]. Ao menos não sou tão presunçoso quanto analistas políticos que orbitam por aí (ao final dos posts você tem a plena certeza de ter lido o sermão de um pastor evangélico). Duas macro razões podem ser descritas, entre um bocejo e outro.

Materialmente, perdeu-se e mão do Welfare State, a ilha de bem-estar social sonhada por aqui. O Estado deu muito e exigiu pouco. As pessoas não entendem e não têm obrigação de entender porque são, enfim, pessoas, mas o leite está minguando e não dá mais pra todo mundo ficar penduradinho na teta.

A briga na França é exemplar: a expectativa de vida ao nascer em 1980 (quando foi instituída a aposentadoria aos 60 anos) era de 73.7 anos. Hoje, é de 80.98 anos. Em 2050, deve alcançar os 84 anos. O governo queria alargar o pijama para 64 anos; como todo mundo chorou, reduziu o projeto para 62. Mesmo com choro geral, a lei deve passar. Precisa passar. Neste caso, a mudança de regras de um direito adquirido é fundamental para manter aquele próprio direito.

Mentalmente, a esquerda europeia esbanjou soberba, ‘subiu nas tamancas’. E pessoas não gostam de gente arrogante. Os operários, que antes votavam majoritariamente em partidos de orientação socialista, hoje votam na outra ponta, na extrema-direita, onde há partidos mais pragmáticos e menos retóricos. Ninguém quer ficar ouvindo político dizer o quanto ele (o político) é o bonzão.

Não por acaso, esse é um dos claros motivos pelos quais temos segundo turno no Brasil nessas eleições: a prepotência começava no alto e ia escorrendo pelas veias da militância. Se o segundo round serviu para algo (porque ainda acredito na vitória de Dilma) foi para baixar a bola do pessoal que já estava pregando o fim de todos os partidos que não assinaram o tratado da verdade única.

Discursos em que se fala mal dos ricos de modo hipócrita acabarão porque, um dia, no país imaginário desses senhores, seremos todos “ricos”. O discurso terá que mudar, e mudará, porque políticos, como bons papagaios de gaiola, repetem as frases que fazem a plateia sorrir. Polly just want a cracker e paga o preço que for preciso.

Até meses atrás, víamos uma disputa entre dois partidos de centro-esquerda no Brasil. Petistoides tinham dificuldades em defender como o PSDB (“um partido de direita”) tinha um presidente que pregava a descriminalização da maconha, por exemplo. E sim, isso é ponto fundamental para a definição — você jamais verá um partido ‘de direita’, conservador, defender coisas como essa. Jamais.

Além desse, outros preceitos do PSDB representados por boa parte de seus fundadores o colocavam na centro-esquerda do velho espectro de classificação de ordens políticas. Se você quer modernizar o que seria a direita (aka adaptar o conceito a seus inimigos) então chame-a de outra coisa.

Com o avanço da disputa eleitoral — e com o enorme esforço do próprio PSDB em fazer José Serra perder a eleição — o que se viu foi um festival de apatia e, depois, de desorientação política. Panfletinhos com a foto de Serra e uma frase de Jesus? Qual é? Serra se agarra ao catolicismo como se tentasse escalar um pau-de-sebo.

Dilma fez examente a mesma coisa, ou até pior, porque até ontem era ateia e hoje acredita muito em Jesus no coração. Fico imaginando o que ela está pensando de olhinhos fechados em fotos como essa.

A diferença entre ambos é que a campanha de José Serra se apegou somente a isso, ele parece não ter mais nada a oferecer ao Brasil. Talvez tenha, mas se nem mesmo ele próprio acredita nisso, não me peça para acreditar. Se no início da campanha eu tinha certeza de que ele era ‘o mais preparado’ (e ainda é), hoje isso pesa muito pouco na balança. A campanha, que deveria ter sido feito em cima dessas competências, não foi. [aqui vai um link mostrando São Paulo para os petistas que amam tanto falar de números ultimamente]

Os candidatos, ambos, são um desastre. Isso é ponto pacífico. Uma das coisas que mais me faz rir é ver as reações pós-debates, sobretudo de petistas (que são mais passionais, logo, mais engraçados). “Dilma deu show!!! !!!” | “Nossa gente ke emoçaum Dilma no debate!!!“. O parâmetro de ‘show’ e ‘emoção’ desse pessoal deve ser o Zorra Total. É nego que chora ouvindo uma piada do Ary Toledo, imagino.

Dilma não merece ganhar, mas Serra merece perder. E merece perder para ver se o PSDB acorda e areja seus quadros, volta minimamente a ser um partido com ares de século XXI como um dia acreditou ser.

Para manter a tradição que eu mesmo me impus desde 2002, vou abster go$toso meu voto. Serra merece perder e você será meu pistoleiro de aluguel. Se tudo ficar como está, Dilma vencerá e o PSDB, caso não capitule ao governo e não seja uma oposição tão inútil como nos últimos 8 anos, terá tempo para repensar o universo. E não votarei em Dilma porque tenho restrições profundas à sua candidatura — a começar pela falta de primárias para decidir o candidato em um partido que se promete democrático.

A principal força de centro-esquerda da Itália, o Partito Democratico, faz eleições internas onde todos os cidadãos italianos que possuem título de eleitor podem votar para definir quem será o candidato. Isso mesmo: é uma primária aberta aos italianos, e não somente aos militantes. No PT, nem isso. Se eu fosse filiado e deixasse parte dos meus ganhos no caixa do partido me sentiria um idiota útil.

Uma das frases clássicas no mercado de trabalho aqui na Bota é “mi manda papà” (“me manda papai”), que resume bem como são as relações de poder em um país que é descendente direto do Império Romano, onde a meritocracia não existia. Dilma subirá a rampa no dia da posse e, lá de cima, dirá ao brasileiros: “mi manda papà”, certamente com espaços de 10 segundos entre cada palavra. Desculpem se não consigo levar a sério toda essa gente.

A censura no Figaro, os aviões Rafale e o governo Lula na imprensa francesa

Gabriel Brust | França 19:22 | 06/10/2010


Brasil, Terreno fértil para empresas francesas“, diz o Figaro

Lembra dos Rafales, aqueles aviões militares fabricados pelos franceses que ninguém no mundo queria comprar a não ser o Lula? O presidente atropelou as Forças Armadas ao anunciar o negócio bilionário, por razões políticas, mesmo com todos os especialistas apontando os Rafales como a pior opção do mercado, verdadeiras sucatas voadoras. Lula voltou atrás, e a compra segue em suspenso. Pois os Rafales voltaram ao noticiário francês de forma meio enviesada. O caso é sobre o jornal conservador Le Figaro e foi denunciado pelo Le Monde, em solidariedade aos colegas jornalistas do concorrente. Senta que lá vem a história.

O Figaro é assumidamente a voz conservadora da França – mesmo que isso signifique, para os padrões franceses, ser tão de direita quanto o Frei Betto. Acontece que nos últimos tempos começou a haver uma debandada de importantes jornalistas, ao ponto de a SDJ do jornal (as SDJs são as associações de jornalistas que cada redação tem) abrir uma investigação para saber o que estava acontecendo. O objetivo era apurar as denúncias de que os jornalistas estariam trabalhando sob níveis excessivos de pressão do diretor de redação e da empresa proprietária do jornal no sentido de radicalizar a linha editorial. O proprietário do Le Figaro é nada menos que o grupo Dassault, uma holding gigante que atua em diferentes mercados – incluindo a fabricação dos aviões Rafale.

A principal reclamação dos jornalistas, segundo a investigação do SDJ, é a linha exageradamente favorável a Nicolas Sarkozy, o que estaria emudecendo inclusive outras vozes conservadoras do país. Um exemplo, segundo declarou um redator em depoimento obviamente anônimo, foi a declaração do papa Bento XVI criticando a política de deportação dos ROMS, um das obsessões de Sarkozy. O jornal teria ignorado o discurso do Papa, mesmo que a forte cobertura católica seja uma das tradições do Figaro.

O outro exemplo que surgiu nessa investigação – e agora chegamos finalmente aos Rafales – foi o de uma reportagem publicada no mês de junho que denunciava a compra de “materiais de segurança” israelense por parte dos Emirados Árabes Unidos. Acontece que o governo dos Emirados não gostou nem um pouco da reportagem investigativa do Le Figaro. E pior: estava em plena negociação para comprar uma meia-dúzia de Rafales e finalmente desencalhar o estoque da Dassault.

Baixou-se então uma ordem clara na redação do jornal — que foi fundado em 1826 e tinha justamente na cobertura internacional independente um de seus pilares –: artigos que envolvessem países com os quais a Dassault estava negociando os Rafales teriam que passar por uma leitura “sob a lupa”, antes de serem publicados. E, dessa forma, todos os artigos sobre Brasil, Líbia, Emirados Árabes e Suíça entraram na roda. Segundo jornalistas, pelo menos duas reportagens foram inteiramente censuradas no último mês de agosto. Nenhuma das duas envolve o Brasil. Já a página inteira dedicada pelo jornal a Lula no mês passado, intitulada “Como Lula Mudou o Brasil” (reprodução no fim deste post), um amontoado de mistificações e clichês, não sofreu, obviamente, nenhum retoque.

O episódio ajuda a explicar por que não se publica, na imprensa francesa, uma única linha verdadeiramente crítica ao governo Lula. De um lado, há a imprensa de direita, de Sarkozy e dos empresários, querendo vender seus aviões e quetais. Do outro, com a imprensa de esquerda, muda apenas a natureza do interesse, se tornando mais ideológico. Jornais como o Liberation e revistas as mais diversas, sedentos em ter um exemplo de sucesso esquerdista depois de seu fracasso retumbante administrando a Europa, costumam traduzir releases do PT e do governo brasileiro e publicá-los como sendo reportagens. Tente contar a qualquer francês que dois ministros da Casa Civil do governo Lula caíram por corrupção – fato provavelmente inédito na história da república – e que o serviço de saúde pública e a criminalidade urbana no Brasil nunca estiveram piores. Surgirá uma cara de espanto. Não será pela imprensa de seu país que eles ficarão sabendo disso.

Como Lula Transformou o Brasil“, na opinião do fabricante dos aviões Rafale

Por que votar?

Fabricio Pontin | Estados Unidos 16:44 | 02/10/2010

O Demori já colocou alguns argumentos dele aqui, mas eu queria deslocar a discussão um pouco. Eu não quero perguntar para vocês por que não votar, mas quero perguntar por que diabos alguém se dá o trabalho de levantar a bunda da cadeira e ir votar, tendo em vista que a possibilidade de fazer a diferença na eleição, ou, pior ainda, conseguir qualquer vantagem material no ato de votar, é próxima de zero (ou negativa).

A coleguinha ranhenta, ou, “a democracia não assoa o nariz”

Nesse domingo todo mundo que está no Braziu tem a obrigação cívica de ir votar. A tal da festa da democracia é uma festa organizada por uma menina remelenta que joga areia na tua cara segunda-feira se você não apareceu no domingo. Boa parte da população certamente preferia ir para a praia, passar a tarde com os filhos no parque ou ir para uma dungeon levar uns tapas da Sra. Pepperwhip do que ter que escolher entre o vampiro brasileiro, a caminhoneira da adamantium, a jardineira de Jesus e o vovô Simpson. Muita gente interpreta essa vontade de ir fazer alguma outra coisa como um desinteresse na classe política, uma alienação ou algum outro lugar comum daquele tipo que tu ouve teus coleguinhas de centro acadêmico repetindo para reclamar da falta de engajamento.

Na realidade, é espantoso que alguém se dê o trabalho de votar. Para início de conversa, o papo de que “todo voto importa” é de uma simplicidade argumentativa comovente. Não, não importa. A maior parte das eleições são disputadas entre dois candidatos com diferenças mínimas do ponto de vista ideológico, e a eleição de um ou de outro causa uma diferença mínima no governo futuro. Pensem na atual eleição no Brasil. O “coeficiente ideológico” (espaço para risos) entre os candidatos é tão pequeno que o último debate foi, de fato, uma disputa para ver quem se aproximaria mais de um governo do Lula, sem o Lula (percebam, estou colocando o Sr. Plínio como alívio cômico). Qualquer um procurando razões ideológicas para votar em x, y, z ou p saiu do último debate mais confuso do que entrou (e talvez deva revisar o universo, já que as ideologias deram tchau-tchau quando o muro de Berlim caiu).

Não vote

Em 1957 um economista norte-americano chamado Anthony Downs (Toni Downs, para os íntimos) escreveu um livrinho chamado uma teoria econômica da democracia. No livrinho, Downs desenvolve uma fórmula (na realidade, é um axioma, mas quero evitar falar difícil) para definir a racionalidade no ato de votar. É assim ó:

ff (p[VpX+{-VpY}]+[D-{C}])>0, then Vote.

onde

[Vpx+{-VpY}] é o índice de aprovação do voto em um indivíduo X comparado com o indíce de rejeição de um indíviduo Y. Chamarei este fator de pV daqui para frente.

D são os incentivos diretos e selectionados (sociais e econômicos) de votar (em geral, do ato de voto, não do voto em X ou Y e da rejeição de X ou Y, mas da implicação social de levantar a bunda da cadeira e ir votar)

C são os custos (sociais e econômicos) de votar, ou seja, as razões para ficar em casa.

Quando são somadas todas as variáveis e o valor é maior que zero, vai em frente e vota!

Traduzindo: eleitores que votam baseados em ideologia vão focar em pV. Para esses eleitores é realmente decisivo que o indivíduo X seja eleito e não Y. Inversamente, se eles não encontrarem motivos para votarem em X , eles simplesmente não irão comparecer às urnas. Isso pode ser decorrente de uma constatação de que muito embora o discurso ideológico seja ‘B” ou “C”, a prática é “A”, independentemente do discurso. Pode também ser decorrente de uma estagnação no discurso político que leva o indíviduo a não perceber qualquer valor distintivo na ideologia de X ou Y – isso pode ser bastante ilustrativo do cenário das eleições americanas, onde poucos eleitores se sentem motivados a irem votar por não verem grande diferença material entre as ideologias e práticas correntes de X ou Y: “it’s all smoke and mirrors” ou, “é muita semiótica” (cit Marlon, 2010 in conversa pessoal). Esse cenário de estagnação é um dos cenários mais desejáveis em termos democráticos.

Por quê? Porque ao contrário do que se pensa, ele não demonstra uma estagnação positiva, mas uma confiança no processo democrático. As pessoas podem votar, mas escolhem não votar por não sentirem uma diferença fundamental. O cenário atípico, aqui, implica em uma polarização radical dos indivíduos X contra Y. No cenário norte-americano, isso parece ter acontecido nas eleições de 2000 e 2004, no cenário brasileiro, isso claramente aconteceu em 1989, na França, o efeito Le Pen polarizou o eleitorado o suficiente para que individuos votassem em massa em Chirac, especialmente para evitar a eleição de Le Pen, que havia chegado no segundo turno devido à segmentação da esquerda francesa – e também pelo efeito ‘tanto faz’, que possibilitou que uma minoria de eleitores extremistas votassem em bloco, enquanto eleitores centrados votaram de forma segmentada ou ficaram em casa fumando.

Deixa eu dar um exemplo pessoal. Para mim, a próxima eleição no Brasil é optativa. Minha situação nos Estados Unidos me permite justificar o voto sem maiores problemas. Pois bem. Hoje, dadas as alternativas, eu prefiro o Serra. Mas vamos colocar isso em perspectiva, eu gosto do Serra só um pouco mais do que da Marina e um tantinho mais do que da Dilma. Eu realmente gosto muito mais do Serra do que do Ciro. Em termos racionais, os custos de ir até Chicago para votar, arriscar perder aula, perder tempo útil que posso gastar traduzindo e pesquisando, não justifica uma viagem desse tamanho. Agora, me pergunta de novo se eu iria até Chicago para votar no caso de ser uma eleição entre Marina ou Serra e o Ciro? Digamos, em um segundo turno entre Marina ou Serra e Ciro, eu vou até Chicago votar, porque não quero ter que olhar para minha sobrinha no futuro e ter que dizer que me omiti em uma eleição dessas. Esta eleição, como está, não me motiva em termos ideológicos ou pessoais a tirar minha bunda da cadeira (e percebam, minha justificativa para votar é completamente baseada na minha antipatia ao Ciro).

Pensando bem, melhor votar…

Gente que se comporta como eu acaba motivando os candidatos a jogarem com a polarização artificial do cenário, para motivar mais indivíduos movidos a ideologia a participarem da eleição (ou desmotivando a participação dos moderados), criando assim o efeito de “bloco” – política extremamente bem sucedida por Bush em 2004, que manejou o bloco conservador a votar com ele em massa, enquanto Kerry foi incapaz de motivar a base ideológica dos democratas o suficiente.

Socialmente, no entanto, verificamos uma pressão para o voto com base nos elementos D e C. Isso porque existe uma parte grande do eleitorado que não é motivada ideologicamente, mas por vantagens diretas no ato de votar. Os indivíduos moderados não procuram motivos ideológicos para o voto, mas vantagens em votar. Via de regra, esses indivíduos vão dizer “tanto faz”.

Daí a necessidade de incentivos materiais para tirar esses indivíduos da cadeira. Sejam eles através de campanhas (Rock the Vote!, por exemplo) ou de criação de mecanismos sociais de isolamento dos não-votantes: “a festa da democracia” ou “vote ou seja um alienado”. Outra forma de fazer isso é determinar a obrigatoriedade do voto, para obrigar os moderados a votarem – o que seria uma forma de evitar a influência direta de blocos. Nesse tipo de cenário, indivíduos votariam, simplesmente, por não gostarem das consequencias de não votar (tipo, pagar a multa), não pelas vantagens do ato de votar.

… no Tiririca!

Por isso que candidatos folclóricos fazem tanto sucesso no cenário brasileiro: Olívio Dutra, Sarah Palin e Garotinho são bons exemplos. Eles falam alto para certas bases ideológicas que vão votar sempre que estes indivíduos aparecerem. Isso é porque eles valorizam certos fatores de forma tão exacerbada, que os custos materiais de votar são obliterados pela vantagem pessoal “votei no meu camarada Olívio!”. Para as eleições de deputados, os candidatos folclóricos recebem mais votos porque o cara chega na urna sem saber o que diabos um deputado faz, como ele faz ou por que ele faz. Então vota no mais engraçado ou em alguém de quem ele “ouviu falar”.

Mas e a eleição de domingo com isso?

A eleição amanhã tem uma série de implicações relacionadas com o que eu escrevi aí em cima. Primeiro lugar, muitas pessoas irão para o litoral e “esquecerão” de votar. Aproveitar o feriado, para essas pessoas, é mais vantajoso do que votar (ainda que seja economicamente mais caro não votar, indivíduos preferem arcar com os custos e passear com a família). Essa parte da população, portanto, acaba constituindo um bloco que precisa ser “seduzido” a mudar de ideia. Um fator para prestar atenção é se as recentes denúncias contra o PT podem motivar essas pessoas a votarem contra a Dilma (uma aposta arriscada, já que existe uma grande possibilidade de ninguém mais dar a mínima importância para esses escândalos ou “é tudo um bando de ladrão mesmo, não faz diferença, vou prá praia beber ceva”).

Outra questão é o quanto indivíduos associam os benefícios sociais ao PT. Na formulazinha do Downs, isso entra nas vantagens econômicas de votar. Lembram quando o Lula olhou para o Alckmin no debate em 2006 e disse para a câmera “olha, o Alckmin quer tirar comida da tua boca”? Pois é, ali ele tava jogando com essas “vantagens”. Se pessoas o suficiente pensarem que ao eleger Dilma elas mantém as vantagens econômicas adquiridas no governo Lula, a eleição é decidida no domingo. Se essas vantagens econômicas não forem associadas diretamente a Dilma (“ah, mas a Marina também vai manter, e ela é da religião, vou votar nela”) poderemos ter um segundo turno entre Dilma e Serra (duvido muito que Marina consiga ir para o segundo turno, no entanto, o que pode ser uma má notícia para quem quer a oposição no poder).

Mais do que nunca, a eleição tá na mão da relação entre vantagens e desvantagens materiais em votar. Isso é um fator relativamente novo no Brasil, já que as eleições de 1989 até 1997 sempre focaram na rejeição de um candidato. Agora, as razões parecem ser estritamente econômicas (claro, a economia sempre foi fundamental, especialmente na eleição do FHC, que conseguiu se associar diretamente com à conquista de uma estabilidade econômica no país e ao aumento das condições materiais de vida. “O brasileiro está comendo mais frango”, lembram? Mas ainda assim, FHC se segurou tanto na estabilidade econômica quanto na rejeição de Lula, que sempre foi alta). O fator novo é a baixa rejeição de todos candidatos e a centralidade do atual presidente para a campanha (a popularidade do Lula, de uma forma ou de outra, pautou a eleição). Por enquanto, não sei se ainda tem alguma chance do Serra virar e desconfio que havendo um segundo turno podemos ter um “efeito Alckmin”, onde o candidato consegue ter menos votos no segundo turno do que no primeiro.

Uma última coisa: democracia só é reduzida ao exercício do voto por motivos retóricos. Quem quer que seja eleito, as coisas não devem mudar muito no país – até porque nem um desastre de proporções cósmicas tira o Senado e a Câmara do domínio direto do PMDB. Esse papo de “festa da democracia” no ato do voto é bobagem. Votar no candidato “menos” pior ou no candidato “mais escandaloso” ou “mais pra esquerda” não muda muita coisa, e talvez isso seja um motivo para a gente comemorar a entrada do Brasil no time das democracias “maduras”. Por outro lado, não dá para saber exatamente o que tá em jogo nessa eleição (e os últimos eventos no Equador podem servir como lembrete da facilidade com a qual voltamos para o status de uma república de bananas). Mas isso não é decidido só na hora de colocar o voto na urna, e associar política apenas com esse ato indica o quanto a gente ainda tem que amadurecer.

Clima Titanic. Bom dia

Leandro Demori | Itália 08:00 | 22/09/2010

Every night in my dreams I see you, I feel you.
That is how I know you go on.
Far across the distance and spaces between us
You have come to show you go on.

Near, far, wherever you are.
I believe that the heart does go on.
Once more, you open the door
And you’re here in my heart.
And my heart will go on and on.

Love can touch us one time and last for a lifetime.
And never let go till we’re gone.
Love was when I loved you, one true time I hold to
In my life we’ll always go on.

Near, far, wherever you are.
I believe that the heart does go on.
Once more, you open the door
And you’re here in my heart.
And my heart will go on and on.

You’re here, there’s nothing I fear.
And I know that my heart will go on.
We’ll stay forever this way.
You are safe in my heart.
And my heart will go on and on.

Gerador automático de frases do presidente Lula

Leandro Demori | Itália 09:16 | 16/09/2010

Aproveitando a fine$$e, diplomacia e postura de estadista (com olhos na ONU) do nosso presidente ao se dirigir ao DEM, este Braziu republica nosso fantástico Gerador automático de frases do presidente Lula. Basta tascar infinitamente ‘F5′ (também conhecido como “reload” ou “recarregar”) para obter uma nova e deliciosa frase clássica do nosso Imperador. Alfabetize-se!

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Precisamos extirpar o DEM. Mas sóbrios, companheiros!

Leandro Demori | Itália 10:49 | 14/09/2010

Da Folha:

Lula: ‘Precisamos extirpar DEM da política brasileira’

Em 2005, nas pegadas do escândalo do mensalão, Jorge Bornhausen, hoje presidente de honra do DEM, previra um futuro sinistro para o PT.

Bornhausen dissera: “A gente vai se ver livre desta raça por, pelo menos, 30 anos”.

Na noite desta segunda (13), num comício realizado em Santa Catarina, Estado de Bornhausen, Lula disse coisa semelhante sobre o DEM:

“Nós precisamos extirpar o DEM da política brasileira”.

(…)

“Não quero crer que esse povo extraordinário de Santa Catarina vá pensar em colocar no governo alguém de um partido que alimenta ódio…”

“…Alguém de um partido que entrou na Justiça para acabar com Prouni, como o DEM entrou…”

“…Nós já aprendemos demais, já sa sabemos quem são os Bornhausen. Eles não podem vir disfarçados carneiros. Já conhecemos as histórias deles”.

(…)

No plano nacional, o partido de Bornhausen é o principal aliado do tucano José Serra.

(…)

“Fico preocupado porque, quando eu ainda nem conhecia Joinville, vim aqui apoiar Luiz Henrique…”

“…Quando ele foi eleito governador, pensava que era para mudar o Estado. E ele trouxe de volta o DEM, que nós prescisamos extirpar da política brasileira”.

Mais tarde, na mesma Folha:

Em resposta a Lula, Paulo Bornhausen diz que presidente é ‘protótipo de ditador’

O deputado democrata Paulo Bornhausen respondeu na noite desta segunda-feira (13), por meio de uma nota, ao presidente Lula, que afirmou mais cedo que “precisamos extirpar o DEM da política brasileira”, durante um comício em Santa Catarina.

Segundo o filho do presidente de honra do DEM, Jorge Bornhausen, e líder do partido na Câmara, “para pronunciar o nome dos Bornhausen dentro de Santa Catarina, Lula tem que estar são e lavar a boca antes”, diz a nota.

O democrata classifica o discurso do presidente de “retórica nazi-facista” com a qual, segundo ele, “Lula tentou dividir o Brasil em dois países, de pobres e ricos”.

(…)

Paulo ainda afirma que Lula “não tem moral” por ser é um “acobertador contumaz da corrupção e grassa em seu governo e no seu partido”.

Para deputado, em resposta a “derrota que os Democratas lhe impingiram com o fim da CPMF, que também significou o malogro de seu plano bolivariano de conseguir um terceiro mandato, Lula vocifera contra o nosso partido e contra políticos honrados do nosso estado, com o intuito de incitar o povo contra nós – e mostra sua verdadeira face de protótipo de ditador”.

Na nota, Bornhausen chama a candidata à Presidência Dilma Rousseff (PT) e a candidata petista ao governo catarinense. Ideli Salvati, de “bonecas de ventríloquo — as duas estavam no palanque ao lado de Lula em comício realizado na noite de ontem em Joinville. “O catarinense devolverá suas ofensas derrotando suas candidatas e bonecas de ventríloquo. O catarinense vai, mais uma vez, confirmar porque o nosso estado é exemplo de desenvolvimento e qualidade de vida: porque aqui o PT nunca governou.”

Paulo Bornhausen, autor da nota, é filho de Jorge Bornhausen, ex-governador biônico da ditadura. Jorge, por sua vez, também é filho de político: Irineu Borhausen, ex-UDN e Arena, partidos que ajudaram a formar e sustentar a ditadura e que estão no poder desde antes da chegada de Cabral. Não espanta a desenvoltura de Paulinho Bornhausen quando fala sobre “projetos de ditadura” e “nazi-fascismo”. Opinião de quem conhece o assunto.

Briga cruzada

Leandro Demori | Itália 13:50 | 10/09/2010

Não, não é uma briga. É apenas a continuidade de uma discussão que começou lá no blog do Idelber Avelar (do qual quase sempre discordo) e que, por questões técnicas, decidi expandir para cá — seria impossível publicar os gráficos abaixo na caixa de comentários do blog dele.

Antes de ler, leia isso e isso e depois recomece daqui:

É atribuída ao jornalista americano Gregg Easterbrook a frase “torture os números e eles confessam qualquer coisa.” Não conheço o Gregg, mas a frase me será muito útil nas próximas linhas, assim como vem sendo útil às propagandas políticas do PT.

Números, assim como galãs de novelas, são bons motivos para um barraco. Então farei aqui o advogado do diabo, aquilo que somente dois (talvez um?) em cada dez brasileiros gostariam de ver: mostrarei números do governo Lula provando que foi uma mistura de governo ruim, governo comum, governo de continuidade em relação àquilo que o Brasil vinha fazendo na Segunda República pós-Sarney e governo de um país em crescimento em um mundo igualmente em crescimento.

Ou seja: a propaganda é muito mais colorida do que a vida real.

Escolhi, como fator comparativo, o bloco BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o Canadá (país “desenvolvido”) e a Itália — país onde vivo e que considero um bom fator de comparação com o Brasil em muitas áreas, não é tão superior quanto o Canadá e nem tão “em desenvolvimento” quanto o Brasil. Tem também Chile e Argentina.

Os dados são do Banco Mundial e você pode clicar em “Explore data” para ver os anos em detalhes.

Deixe o mouse em cima no nome dos países que ele entre em modo “destaque”.

Comecemos com o crescimento do PIB:


Há variações de subidas e descidas antes de 1999 em todos os países, mas um ponto de partida comum de retomada de crescimento é, veja só, 2002. Isso explica diversos números positivos que o Idelber citou e mostra que o Brasil não é essa Ilha Isolada da Prosperidade circundada de países em concordata. Estou aberto para ouvir a teoria de que Itália, Canadá, Índia e Argentina — só para ficar em alguns exemplos — retomaram seus PIBs por causa do PT.


Acima, o PIB per capita. Serve a explicação do próprio PIB, segue a mesma lógica.


Esse é o gráfico da inflação. Fica até difícil ler, dada a queda absurda conseguida pelo governo FHC. Não há fator comparativo, aqui é K.O. Não chorem.


Exportação de bens e serviços: vinha aumentando com boa saúde e gráfico estável desde 1998. Em 2004, caiu e estagnou.


Porcentagem da população com acesso à rede sanitária: vergonhosamente estável desde 1990. Para o governo FHC (neoliberal, feio e bobão e que ama torturar pessoas pelo prazer de vê-las sofrer), tudo bem. Mas o governo $ocial do PT mostra, nesse gráfico, um vergonhoso troféu de sonambulismo. Parabénzzzzz….ronc.


Nascidos e mães atendidos no serviço de saúde por pessoas que sabem o que estão fazendo [sou bom em resumir linguagem técnica]: méritos totais do governo FHC em manter o bom crescimento que vinha desde 1991 (olha Collor/Itamar aí). O pouco que faltava para chegar no ápice, Lula não fez.


Crianças imunizadas: FHC entregou pronto, não havia mais nada a ser feito.


Mortalidade infantil (um dos “pilares” das políticas sociais do governo Lula): gráfico contínuo desde 1990, nada de novo nos últimos 8 anos, nenhuma invenção da roda.


Estudantes que completam a escola básica: os anos FHC fizeram o Brasil entrar no time dos países que contam. Os anos Lula o gráfico mostra pra você.


Exportações de alta-tecnologia: crescemos nos anos FHC (repare o salto de 1995 até 2001, outro K.O. dos malvados neoliberais nos socialistas defensores da vida). Começamos a afundar ainda em 2001 e estamos abaixo do patamar de 1999.

O que esses gráficos acima mostra? O que você quiser.

Números precisam de contexto, ainda mais no caso de tentar explicar o processo pelo qual o Brasil passou nos anos pós-Sarney sem cair na discussão sobre o vazio. O governo Lula tem méritos gigantescos, assim como os têm FHC. São governos complementares em praticamente todas as áreas e discordo de quem acredita que os últimos 8 anos foram absolutamente superiores aos 8 anos anteriores. São situações econômicos totalmente diversas e incomparáveis, para o bem e para o mal, dentro de casa e fora dela.

E mais: há méritos do governo Collor/Itamar nesse processo, que convenientemente todos os lados da briga que ora estamos vendo preferem ignorar.

Uma questão de empatia, ou “Parabéns, Presidente Dilma”

Fabricio Pontin | Estados Unidos 17:18 | 09/09/2010

Enquanto a Dilma vai se consolidando com 50% nas pesquisas, resta ao PSDB olhar para os lados e tentar entender como é que a eleição foi perdida. Vou tentar dar um panorama da coisa, e tentar traçar a jornada que o PSDB protagonizou para conseguir fazer o papelão que deve ser confirmado na eleição de outubro.

Um candidato abandonado

Serra começou a perder essa eleição no momento em que Aécio Neves abandonou o barco. Aécio seria a escolha lógica de vice para o Serra, dando um contraponto um pouco mais carismático para a imagem sisuda do governador de São Paulo. No entanto, Aécio resolveu que abriria mão da candidatura à presidência, evitando se expor em uma chapa com alta chance de fracasso. Pelo contrário, ele resolveu se isolar em Minas Gerais e garantir uma eleição ao Senado – se colocando na linha de frente para a eleição de 2014.

Com isso, Serra se viu só em um partido famoso por ter muito cacique mas poucos índios. Logo, os potenciais candidatos a vice foram dando negativas à chapa tucana e o PSDB teve que inventar um candidato a vice completamente sem expressão política.

Claro, eu não sou imbecil o suficiente para indicar que o candidato a vice-presidente decide alguma coisa. Mas enquanto Dilma se aliava com o Michel Temer, oficializando o alinhamento entre PMDB e PT, Serra era obrigado a inventar uma coligação com o DEM no papel de principal coadjuvante.

Nesse momento, a eleição já estava desenhada. Ainda que Serra mantivesse uma liderança nas pesquisas, a popularidade do Lula, somada à baixa rejeição da Dilma, colocava um cenário difícil de ser revertido: as pessoas que não conheciam os candidatos estavam se decidindo, em uma proporção quase geométrica, pela Dilma. E em um cenário onde ninguém vota movido por ideologia, mudar esse tipo de tendência é extremamente complicado.

O idiota útil

Ciro Gomes tinha grandes planos para essa eleição. Até julho do ano passado, Dilma não parecia decolar nas pesquisas de voto, e Ciro parecia ser o “trunfo” para garantir o projeto político capitaneado pelo PMDB e por Lula (que é bem diferente do projeto político do PT, que a essas alturas pouco importa). Ciro poderia não apenas garantir um segundo turno contra Serra, ele poderia também ser o candidato de Lula no segundo turno (no eventual fracasso de Dilma).

Mas algo aconteceu no momento em que Lula resolveu que Dilma seria a próxima presidente do Brasil: a mulher do Lula começou a aparecer nas pesquisas e a inacreditável popularidade do presidente foi transmitida para a mãe dos pobres. Com isso, Ciro perdeu toda a utilidade. No espaço de um mês, de potencial candidato à Presidência, Ciro passou a candidato de fachada, para garantir Dilma no segundo turno. Em quarenta e cinco dias, o segundo turno era um fato com ou sem Ciro. Em dois meses, Ciro sequer aparecia como potencial candidato à vice em uma chapa capitaneada por Dilma. Depois de um ano, Dilma pode (e talvez deva) ganhar no primeiro turno. O que aconteceu no meio tempo?

Um peixe chamado Lula

Faz mais de dois anos que Lula não baixa da linha dos 60% de aprovação. Isso não tem precedentes no cenário democrático brasileiro. Não cabe aqui analisar os motivos da aprovação do presidente, nem questionar se a aprovação é merecida. Até porque fazer esse tipo de coisa é charlatanismo. Mas o fato é o seguinte: Lula é o presidente mais popular que o Brasil já teve (pelo menos desde que existem institutos para medir popularidade). Como é possível competir com a candidata de um presidente que chega a inacreditáveis 80% de avaliação positiva?

Serra é um homem inteligente e sabia que não poderia ganhar nesse cenário. Talvez a gente possa compreender o completo colapso da “plataforma eleitoral” (e haja aspas) do Serra a partir da constatação de que não havia muito o que fazer. O melhor era tentar levar a coisa até o segundo turno e esperar que alguma coisa (tipo uma foto da Dilma roubando comida de um bebê faminto no sertão sergipano) pudesse mudar o cenário.

Mais que isso, nem Serra nem Dilma tinham rejeição altas. Isso é um fator relativamente novo em uma campanha brasileira. Se a gente observar as eleições de 1989, 1994 e 1998 vamos perceber claramente que o candidato derrotado sempre teve uma rejeição muito alta. Quase sempre isso foi vinculado a imagem do Lula. Lula somente ganhou a eleição quando conseguiu deslocar a imagem de operário-combativo para o Lulinha-paz-e-amor. Nem Dilma, nem Serra precisaram se preocupar com esse fator. Apenas agora, no final da eleição, Serra está com 31% de rejeição. Em 1994, Lula nunca teve menos de 38% de rejeição. E em 1989 chegou a ter, no segundo turno, 42% (quase a mesma porcentagem que Collor tinha na espontânea, indicando que quase todos que votavam em Collor não votariam em Lula sob hipótese alguma). Da mesma forma, em 2000, o desgaste do governo Cardoso contaminou a campanha de Serra que, no início de Setembro, tinha 34% de rejeição — e nunca tinha ficado abaixo dos 30%. Nessa eleição, apenas agora algum candidato passou dos 30%, e me parece interessante que justamente o candidato de oposição tenha chegado primeiro nessa linha.

Como não fazer uma campanha

Vai ficar para a história o tamanho da burrada que o PSDB cometeu nessa campanha eleitoral. Serra tinha poucas chances, é verdade. Também é verdade que suceder um presidente com 80% de aprovação é uma tarefa inglória, e talvez Serra esteja mais interessado em garantir sua aposentadoria no Senado na próxima eleição (ao contrário de Ciro Gomes, me parece que a carreira política de Serra não acabou nessa eleição, ele ainda tem alta aceitação em São Paulo. Ciro cometeu suicídio político ao se incomodar com Lula e queimou todas as pontes com o PSDB no passado – e eu adoraria que alguém me explicasse o que diabos levou ele a mudar de domicílio eleitoral para São Paulo).

Mas nada explica a postura do PSDB nessa eleição. Não vou nem entrar na discussão barata sobre a postura da “grande mídia”. A questão aqui não é como a imprensa abordou ou deixou de abordar a candidatura do Serra, da Dilma ou da Marina (que, francamente, foi apenas uma distração para a classe média antenada, incapaz de perceber uma candidata extremamente fraca e bastante conservadora). A questão, isso sim, é como o Serra decidiu levar a campanha.

Sabendo que a derrota era praticamente inevitável, Serra tentou garantir um segundo turno, alegando “fazer um governo tipo o do Lula, mas sem aquele monte de petista”. Ao ver essa estratégia fazer água, o PSDB resolveu tirar da cartola uma meia dúzia de escândalos que ninguém entendeu, uma outra dúzia de argumentos com os quais ninguém se importou e uma série de críticas que só podem ser piada. Mais que isso, Serra decidiu engolir a tese segundo a qual a estabilidade econômica é merito do Lula, apenas para não ter que mencionar o nome de FHC (talvez por ter sido prejudicado por esse mesmo nome em 2002). Com isso, Serra protagonizou uma campanha sobre o nada.

O mais interessante disso tudo é perceber que a Dilma não existe. A Dilma é uma invenção do Lula, e é por isso mesmo que ela vai vencer a eleição. Restava ao Serra tentar salvar a própria pele em uma campanha com um resultado quase inevitável. Mas o medo de perder no primeiro turno tomou conta da campanha tucana, que passou as últimas semanas atacando a candidata de um presidente extremamente popular (e, claro, tentando atingir o próprio presidente no caminho).

Resultado: Serra tem menos votos hoje do que no ano passado em quase todas as simulações, e qualquer pessoa que entende o mínimo de eleição vai te dizer que quando um candidato começa a cair abaixo do “valor inicial”, ou a correr em uma velocidade mais baixa do que a do início da corrida, é porque o carro tá quebrado.

Bom dia, Giuseppe Garibaldi

Leandro Demori | Itália 08:34 | 06/09/2010

Tenho por hábito conversar todas as manhãs com Giuseppe Garibaldi, o herói de dois mundos. Em tempos de pelejas políticas das grossas, nada melhor do que os conselhos do velho general. Garibaldi tecla de sua casa em Caprera, na Sardenha.

– Bom dia Sr. Garibaldi. E esse verão que se encaminha pro fim?

– Acho ótimo, o verão é a pior estação para as guerras, sobretudo pelos mosquitos

– Os mosquitos atrapalham?

– Não ajudam. Mas guerra é guerra, não podemos nos entregar assim por causa dos insetos. Os insetos, aliás, precisam ser mortos e esmagados, sobretudo aqueles que lutam pelas dinastias e contra a unificação dos estados nacionais. Só falei sobre os mosquitos para ser tão banal quanto a sua pergunta sobre o tempo

– Eu só quiser ser amenamente introdutório

– Amenizar a introdução é coisa de francês

– Bem… vamos falar de política?

– Logo, que preciso regar minhas orquídeas

– O Sr. tem acompanhado essa coisa de quebra de sigilos fiscais e montagem de dossiês no Brasil?

– Tenho, sem dúvida alguma. A política brasileira sempre me interessou depois que estive aí. Gostei tanto do seu povo que até trouxe um exemplar comigo pra Itália, a Anita, que infelizmente está em Roma

– Não acredito que esses senhores de partidos políticos sejam anjinhos, e nem me espanta a quebra de sigilos em um país onde as coisas funcionam como funcionam (não funcionando), mas o senhor não acha que essa brigaiada toda desvia a atenção dos eleitores daquilo que realmente importa?

– Não, não acho. Eleitor não sabe o que realmente importa, é preciso dizer a ele, se necessário, com a força das armas. O povo só está certo quando escolhe a coisa certa, entende? O povo votar em massa no candidato que apoiamos é sábio e democrático, é a coisa certa a ser feita. O povo eleger um candidato que odiamos é manipulação e falta de amadurecimento político, logo, é errado. Política é metafísica. O que é real? O que é irreal? Não existem respostas prontas para essas questões. Temos que dá-las por decreto.

– Mas e a questão dos dossiês?

– Eu, como bom revolucionário, preciso ver para crer. Jamais acreditei que um inimigo estivesse morto em um campo de batalha: fui lá e enfiei a espada na jugular. Vai me avisar que está morto por tele-mensagem? Pra mim, esses dossiês não existem

– Então está todo mundo discutindo sobre o nada?

– Não é “discutir sobre o nada”, jovem, e sinto o tom de deboche nos seus dedos. A questão é que o PSDB teve lá seus sigilos quebrados. Primeiro, va detto que sigilo e segredinho é coisa de francês. Segundo: o Serra anda acusando o PT de ter feito essa coisarada toda. Tem provas disso? Não tem

– E como fica?

– O PT arranjou a maneira mais sábia de rebater uma versão fantasiosa e sem provas como a do PSDB

– E qual foi?

– Criou outra versão, igualmente fantasiosa e sem provas. Acho que o Lula anda lendo “A Arte da Guerra”, o que é um espanto duplo.

– O Sr. acredita que essa coisa de dossiês vai afetar a eleição?

– Meu filho, dossiê vende na padaria? Dossiê tem IPI reduzido? Dossiê dá frio na barriga igual a brinquedo da Disneylândia? Acorda pra cuspir, jovem. As pessoas estão pouco se lixando pra dossiê. Dossiê é igual a faculdade de comunicação: todo mundo já ouviu falar, acha que é uma coisa importante, mas ninguém sabe pra quê serve

– (telefone, já volto)

– Vou botar um Coldplay

– Tá aí?

– Tá aí? (tou achando Coldplay meio coisa de francês, mas a Anita gosta)

– Opa, desculpa. Era minha mãe, queria saber em quem votar

– Sua mãe deve votar com a consciência dela, e não pedir seus conselhos. Você é um péssimo conselheiro. Alguém que sabe o significado da palavra dossiê e entende suas implicações não pode jamais estar em sintonia com o povo brasileiro

– Eu disse pra ela viajar e esquecer essa bobagem de eleições

– Pois veja como você não sabe nada. Eu percorri a Itália toda na Expedição dos Mil para dar às pessoas o direito de votar, e você, em um telefonema, quer destruir a história de pessoas como eu. Diga para ela votar no Lula

– O Lula não está concorrendo, Sr. Garibaldi…

– Não? Mas que merda de país vocês se tornaram! Dá licença que vou lá cuidar das minhas orquídeas. Toma juízo.

– vlw

– flw té +

No ar | Live blogging: debate entre candidatos à vice-presidência do Brasil

Leandro Demori | Itália 10:10 | 24/08/2010

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