Bom dia, Giuseppe Garibaldi
Tenho por hábito conversar todas as manhãs com Giuseppe Garibaldi, o herói de dois mundos. Em tempos de pelejas políticas das grossas, nada melhor do que os conselhos do velho general. Garibaldi tecla de sua casa em Caprera, na Sardenha.
– Bom dia Sr. Garibaldi. E esse verão que se encaminha pro fim?
– Acho ótimo, o verão é a pior estação para as guerras, sobretudo pelos mosquitos
– Os mosquitos atrapalham?
– Não ajudam. Mas guerra é guerra, não podemos nos entregar assim por causa dos insetos. Os insetos, aliás, precisam ser mortos e esmagados, sobretudo aqueles que lutam pelas dinastias e contra a unificação dos estados nacionais. Só falei sobre os mosquitos para ser tão banal quanto a sua pergunta sobre o tempo
– Eu só quiser ser amenamente introdutório
– Amenizar a introdução é coisa de francês
– Bem… vamos falar de política?
– Logo, que preciso regar minhas orquídeas
– O Sr. tem acompanhado essa coisa de quebra de sigilos fiscais e montagem de dossiês no Brasil?
– Tenho, sem dúvida alguma. A política brasileira sempre me interessou depois que estive aí. Gostei tanto do seu povo que até trouxe um exemplar comigo pra Itália, a Anita, que infelizmente está em Roma
– Não acredito que esses senhores de partidos políticos sejam anjinhos, e nem me espanta a quebra de sigilos em um país onde as coisas funcionam como funcionam (não funcionando), mas o senhor não acha que essa brigaiada toda desvia a atenção dos eleitores daquilo que realmente importa?
– Não, não acho. Eleitor não sabe o que realmente importa, é preciso dizer a ele, se necessário, com a força das armas. O povo só está certo quando escolhe a coisa certa, entende? O povo votar em massa no candidato que apoiamos é sábio e democrático, é a coisa certa a ser feita. O povo eleger um candidato que odiamos é manipulação e falta de amadurecimento político, logo, é errado. Política é metafísica. O que é real? O que é irreal? Não existem respostas prontas para essas questões. Temos que dá-las por decreto.
– Mas e a questão dos dossiês?
– Eu, como bom revolucionário, preciso ver para crer. Jamais acreditei que um inimigo estivesse morto em um campo de batalha: fui lá e enfiei a espada na jugular. Vai me avisar que está morto por tele-mensagem? Pra mim, esses dossiês não existem
– Então está todo mundo discutindo sobre o nada?
– Não é “discutir sobre o nada”, jovem, e sinto o tom de deboche nos seus dedos. A questão é que o PSDB teve lá seus sigilos quebrados. Primeiro, va detto que sigilo e segredinho é coisa de francês. Segundo: o Serra anda acusando o PT de ter feito essa coisarada toda. Tem provas disso? Não tem
– E como fica?
– O PT arranjou a maneira mais sábia de rebater uma versão fantasiosa e sem provas como a do PSDB
– E qual foi?
– Criou outra versão, igualmente fantasiosa e sem provas. Acho que o Lula anda lendo “A Arte da Guerra”, o que é um espanto duplo.
– O Sr. acredita que essa coisa de dossiês vai afetar a eleição?
– Meu filho, dossiê vende na padaria? Dossiê tem IPI reduzido? Dossiê dá frio na barriga igual a brinquedo da Disneylândia? Acorda pra cuspir, jovem. As pessoas estão pouco se lixando pra dossiê. Dossiê é igual a faculdade de comunicação: todo mundo já ouviu falar, acha que é uma coisa importante, mas ninguém sabe pra quê serve
– (telefone, já volto)
– Vou botar um Coldplay
– Tá aí?
– Tá aí? (tou achando Coldplay meio coisa de francês, mas a Anita gosta)
– Opa, desculpa. Era minha mãe, queria saber em quem votar
– Sua mãe deve votar com a consciência dela, e não pedir seus conselhos. Você é um péssimo conselheiro. Alguém que sabe o significado da palavra dossiê e entende suas implicações não pode jamais estar em sintonia com o povo brasileiro
– Eu disse pra ela viajar e esquecer essa bobagem de eleições
– Pois veja como você não sabe nada. Eu percorri a Itália toda na Expedição dos Mil para dar às pessoas o direito de votar, e você, em um telefonema, quer destruir a história de pessoas como eu. Diga para ela votar no Lula
– O Lula não está concorrendo, Sr. Garibaldi…
– Não? Mas que merda de país vocês se tornaram! Dá licença que vou lá cuidar das minhas orquídeas. Toma juízo.
– vlw
– flw té +



















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