São Paulo para os paulistas: “não se aluga aos nordestinos (nem aos cães)”

Leandro Demori | Itália 09:15 | 09/08/2010

Um dos movimentos políticos mais interessantes da Segunda República italiana se chama Lega Nord (Liga Norte). Já falei sobre eles aqui.

“Entre jogos de cena e cartadas televisivas focadas em problemas cotidianos, a força em ascensão em 2010 chama-se Liga Norte (Lega Nord), partido fundado em meados dos anos 90 com tons separatistas, xenófobos, racistas e homofóbicos e que hoje exerce função de segunda força mais importante dentro do governo de Silvio Berlusconi.

(…)

A Lega foi denunciada pela Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância por “uso intenso de propaganda racista e xenófoba”. Membros mais radicais do partido defendem posições duras como a expulsão de imigrantes e dizem que o homossexualismo é uma doença.

Membro fundador da Lega, Mario Borghezio é deputado representante da Itália no Parlamento Europeu desde 2001 e protagonista de primeira ficha de episódios extremos: já fez comícios raivosos declarando uma “cruzada de honra contra o Islã” enquanto parte da multidão reduzia a chamas a própria bandeira italiana cantando “vamos queimar a tricolor”, opondo a Itália à Padânia, país imaginário defendido pela Liga Norte, supostamente composto por regiões do norte e do centro da península.

[Texto completo aqui: Liga Norte ou “cruzada de honra contra o Islã” ou “homossexualismo é uma doença”]

Um dos comentários do post sobre a Lega gerou uma pequena discussão. Eis:

Bruno Maciel [ 16Apr10]

Não entendo tua insistência com essas matérias. Legal, a gente percebe que vc é um cara interessado e espirituoso, que aproveita a sua estadia por aí pra desenvolver toda sua ironia e verve política e jornalística. Mas, amigo…a gente está em eleições no seu Brasiu…who the fuck ta querendo saber da Liga Norte??? Ah…tenha paciência. Tenta uma vaga no cqc que eles estão a tua altura e talvez vc consiga pautas menos desinteressantes.”

Em uma de minha réplicas, respondi:

“Mas talvez tu não tenha percebido que a Lega Nord e o assunto imigração tenham mais a ver com a tua vida (e a de todo mundo) do que tu possa imaginar.”

Por esses dias, tivemos no Brasil a aparição pública do movimento “São Paulo para os paulistas“. O que eles querem? Emular o discurso da Liga Norte. Leia alguns trechos extraídos da petição do grupo brasileiro.

O Est de S Paulo nunca recebeu investimentos do Brasil. Sempre foi um país à parte. (…) Assim viu-se obrigado a se desenvolver sozinho. Investiu nas lavouras de café, construiu ferrovias e estradas, industrializou-se. Com seu próprio suor, investiu para ser o que é. Jamais recebeu dádivas do Brasil; ao contrário, foi o fornecedor de recursos. São Paulo não deve nada ao Brasil. Portanto, o usufruto desse trabalho deve ser para o Povo Paulista.


Cartaz oficial da Lega Nord

A São Paulo imaginária do movimento “São Paulo para os paulistas” é a Padânia brasileira. Roma Ladrona = Brasília ladra = discurso do “fizemos tudo sozinhos e temos que dividir com quem nada fez”. Coitadismo às avessas.

S Paulo recebe a incursão de pessoas de outros estados, que usufruem seus hospitais e escolas. Quem mantém estes serviços é o povo paulista, não é o povo brasileiro. Se há tratamento igual a quem de direito, e ao forasteiro, então há discriminação contra o primeiro. Se há igualdade de tratamento a quem possui direitos diferentes, então está havendo distinção entre pessoas. Portanto, S Paulo tem o total direito de priorizar paulistas.

Os prefeitos “leguistas” de Adro, Brignano Gera d’Adda, Morazzone, Palazzago e Tradate, no norte da Itália, teríam orgasmos por dias seguidos se entrassem em contato com a petição do movimento “São Paulo para os paulistas“. Eles pensam o mesmo: “a Padania tem todo o direito de priorizar os padanos”.

Tanto que os cinco honoráveis propuseram um auxílio econômico para aumentar suas respectivas populações: dinheiro mensal às novas mães, mas somente às italianas padanas, é claro — estrangeiras, mesmo que em situação regular no país, naturalmente excluídas da bolsa.

Segue o manifesto:

A partir da década de 60, com a chegada dos migrantes brasileiros – sobretudo nordestinos e mineiros – começa a degradação, com a construção de favelas, bairros irregulares e uma estrutura caótica de cidade.

O parágrafo acima é precedido por uma ode à cidade de São Paulo pré-migração dos “nordestinos e mineiros”. Qualquer historiador mais rigoroso apontaria erros históricos clamorosos, mas o que é a história se não uma imensa viagem ao redor do próprio umbigo?

Quem são os Paulistas ? São as pessoas cujos pais / avós industrializaram São Paulo, presenciaram a luta por uma Constituição. Lamentam-se ao ver as imagens pré-60 e a atual descaracterização. Pessoas que viveram em nosso interior, cultivando a autêntica Cultura Paulista. Os herdeiros da população anterior à inundação migratória.

Ou seja: os paulistas são italianos. Voto imediato por um regente enviado por Silvio Berlusconi e subjugo à Constituição Italiana.

A melhor parte, no entanto, vem nas “REIVINDICAÇÕES”:

34. Repudiamos que candidatos a quaisquer cargos políticos no estado e municípios, não sejam PAULISTAS, e com fortes raízes no Est de S Paulo.

36. Reivindicamos que: professores do ensino público, formadores de opinião e disseminadores de informação, nas áreas públicas, atendam aos mesmos requisitos acima. A preservação da identidade Paulista é direito do Povo Paulista. Direito que tem sido usurpado e negado. Não queremos mais o entreguismo de nosso estado nas mãos de poderes migrantes.

37. Da mesma forma, as vagas nos Concursos Públicos sejam destinadas prioritariamente a paulistas.

43. O Sotaque Paulista é nosso Patrimônio Cultural, em suas variantes diversas (ref XIII). O paulista olha ao redor e se vê o único. Um estrangeiro em sua própria terra! Com liguagem, cultura e valores diferentes. Repudiamos a descaracterização causada pelo excesso migratório. Repugnamos o “R” gutural, vogais abertas, as expressões “ôxe”, etc.

62. Assistimos nos noticiários: Estuprador de Ferraz foge para o Maranhão. Ex-jogador que asassinou esposa foge para a Bahia. Pedófilo de Catanduva era foragido de Pernambuco. Prefeito de Taboão da Serra suspeito de corrupção mora na Paraíba. De todos os crimes dos noticiários, freqüentemente há migrantes envolvidos. (ref XIV).

76. Reivindicamos a demolição do absurdo “Monumento ao Migrante Nordestino”, implantado no Largo da Concórdia, em ago/2010, um projeto da Sec da Cultura. (vide ítem 51).

82. Reivindicamos proteção ao nosso sagrado interior contra a descaracterização. Multas para empresas que contratarem temporários migrantes e não providenciarem a sua devolução.

90. Não se deve permitir que pessoas de outros lugares se apoderem do que é nosso. Se querem também, construam o seu. Cada um na sua terra. S Paulo deve cuidar dos seus pobres. E não dos pobres dos outros.

94. A oferta de empregos é estímulo para a migração. Diante disto, reivindicamos incentivos a empresas que priorizem paulistas.

Com um pouco de otimismo, muitos esperariam que alguém viesse à público durante a semana e dissesse que tudo não passou de uma grande piada. Isso não acontecerá. O movimento “São Paulo para os paulistas” conseguirá cada vez mais adesões, e movimentos semelhantes a esse surgirão e crescerão. Mais tarde, se tornarão partidos políticos — isso quando a imigração de sulamericanos em situação precária aumentar a sensação de perda de identidade.

Aqui na Itália, a Lega Nord tem comitês até mesmo nos estados do sul da península. Seria como ter um comitê do “São Paulo para os paulistas” em Recife, formado por gente local, algo inimaginável em outros tempos, sobretudo diante do grande boom econômico italiano dos anos pós-Segunda Guerra.

Naquela época, uma placa era comumente avistada nos edifícios do norte do país, onde a expansão industrial guiava a economia e magnetizava os habitantes do empobrecido sul em busca de melhores empregos: “Non si affitta ai terroni (nemeno ai cani)” (Não se aluga aos terrones, nem aos cães). “Terroni” ou “Meridionali” são as generalizações dadas aos nascidos no sul da Itália, assim como “nordestinos” ao nascidos no nordeste do Brasil, desconsiderando profundas diferenças entre estados.

O ponto central dessa discussão incipiente no Brasil é que não adianta espernear: faz parte da democracia, assim como faz parte dela dizer que “faz parte da democracia é o caralho”. E continua fazendo parte mesmo que possa infringir leis (para essas situações temos a Justiça). Aos incomodados, cabe uma direção contrária — buscar soluções menos cômicas, não necessariamente dentro de um movimento organizado — para não deixar que o “São Paulo para os paulistas” (ou mesmo o possível “São Paulo para os nordestinos”) sejam voz única na sala.

Who the fuck ta querendo saber“?

Talvez as pessoas erradas.

Liga Norte ou “cruzada de honra contra o Islã” ou “homossexualismo é uma doença”

Leandro Demori | Itália 13:05 | 15/04/2010

Se você perdeu o mais recente programa da Braziu TV (o “Braziu 004″, vídeos: bloco 1 e bloco 2) ficou de fora da dicussão sobre a Liga Norte (Lega Nord), partido polêmico aqui da Itália e força que mais cresceu nas eleições de março.

Escrevi hoje um texto para o Portal Terra explicando de forma um pouco mais aprofundada o que é a Lega e qual seu papel no cenário atual aqui da península. Colo ele na íntegra logo abaixo. Antes, porém, vai o vídeo que fiz na semana passada pro braziu 004.

No pé, textos da Lúcia Müzell (correspondente do Terra em Paris) sobre partidos extremistas na França e no Reino Unido.

“Acusada de xenófoba, Liga Norte duplica de tamanho na Itália

LEANDRO DEMORI
Direto de Roma

São quilômetros quase infindáveis os que separam as margens dos rios Volga, na Rússia, das do Pó, na Itália. Nos anos 60, no entanto, um nome aproximou as duas correntes: Palmiro Togliatti, secretário-geral do Partido Comunista Italiano (PCI), que em 1964 viu a principal cidade do Volga mudar de Stavropol-na-Volga – nomenclatura que trazia desde o século XVIII – para Togliattigrado, aos moldes de Leningrado e Stalingrado. A homenagem concedida por Moscou a Togliatti desenhava os ares políticos da época: a Itália era o ponto mais importante além da cortina de ferro, ligação focal entre o regime comunista Russo e a Europa ocidental. O PCI tinha, em meados nos anos 70, 35% dos votos na península mediterrânea. O posto de maior partido comunista do ocidente, contudo, durou pouco: mais precisamente até o assassinato do premiê Aldo Moro, atribuído às Brigadas Vermelhas, milícias ligadas à esquerda nacional. O crime fez o sonho vermelho italiano ruir – os votos evaporaram no ar da história.

Mais de três décadas após a efervescência ideológica daqueles tempos, o cenário da política italiana de hoje soaria como apocalíptico para a maior parte dos italianos se contado como previsão do futuro à época. O antigo Partido Comunista é voz praticamente desaparecida, afundado juntamente com o voto ideológico. Entre jogos de cena e cartadas televisivas focadas em problemas cotidianos, a força em ascensão em 2010 chama-se Liga Norte (Lega Nord), partido fundado em meados dos anos 90 com tons separatistas, xenófobos, racistas e homofóbicos e que hoje exerce função de segunda força mais importante dentro do governo de Silvio Berlusconi.

A votação alcançada pela Liga Norte nas eleições regionais de março sedimentou o poder do partido: seu eleitorado dobrou em comparação às eleições regionais anteriores, realizadas em 2005, saltando de 6% para 12,7%. Posicionada, inclusive, à frente do Popolo della Libertà (PDL, partido de Berlusconi) no Vêneto, pela primeira vez na história a Lega assume a liderança de uma região – e faz melhor: vence em duas, além do próprio Vêneto, seu berço eleitoral, leva também o Piemonte.

As palavras do secretário-geral e fundador do partido, Umberto Bossi, no pôr-do-sol da mais recente abertura de urnas falam por si: “A Lega é um tsunami”.

A ascensão do partido de Bossi causou arrepios em boa parte dos italianos e europeus. Motivos existem. A Lega foi denunciada pela Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância por “uso intenso de propaganda racista e xenófoba”. Membros mais radicais do partido defendem posições duras como a expulsão de imigrantes e dizem que o homossexualismo é uma doença. A fama de racista, xenófoba e homofóbica vem sobretudo dos discursos e posições de um nome em particular: Mario Borghezio.

Membro fundador da Lega, Borghezio é deputado representante da Itália no Parlamento Europeu desde 2001 e protagonista de primeira ficha de episódios extremos: já fez comícios raivosos declarando uma “cruzada de honra contra o Islã” enquanto parte da multidão reduzia a chamas a própria bandeira italiana cantando “vamos queimar a tricolor”, opondo a Itália à Padânia, país imaginário defendido pela Liga Norte, supostamente composto por regiões do norte e do centro da península.

Em setembro de 2007, Borghezio foi preso em Bruxelas em uma manifestação contra a “islamização” da Europa. Por conta de suas posições, o euro-parlamentar já foi agredido duas vezes. Em um delas, dentro de um trem, um desconhecido quebrou seu nariz com um soco.

Mesmo que não seja consenso entre seus pares, Borghezio continua a representar o partido no Parlamento.

Esquerda, direita, fascista?
Para entender a Liga Norte é preciso deixar na estante os velhos livros de teoria política. Ao mesmo tempo em que abriga extremistas acusados de xenofobia como Mario Borghezio, o partido defende posições historicamente consideradas “de esquerda”.

Estão em seus discursos bandeiras como direitos dos trabalhadores (estes, por sua vez, ligados aos sindicatos) e investimentos nos pequenos empreendedores a despeito das grandes multinacionais. “É um partido fortemente ligado ao território local, exatamente como era o Partido Comunista Italiano”, explica Maria Sofia Corciulo, professora de História das Instituições Políticas na universidade La Sapienza de Roma.

Acusados de neofascistas, os leguistas se defendem. Alegam que o fascismo era um movimento de motivações nacionalistas, justamente o contrário do que a Lega prega: regionalização da Itália, menos poder ao Estado central e mais força às comunidades. “Não são neofascistas, nem da direita tradicional”, explica Giacomo Pacini, historiador dedicado à política italiana a partir dos anos 70. “A Lega, nos últimos anos, está crescendo e colhendo votos da esquerda e da direita justamente por ser um partido pragmático que não aposta em ideologias”.

O fermento do movimento leguista parece estar na observação atenta das mudanças do mundo na última década. Pacini explica: “o voto ideológico desapareceu juntamente com as classes sociais no velho estilo monolítico. Hoje, as pessoas se preocupam mais com a própria carteira do que com os grandes ideais”. Exemplo disso são os operários. Com o dissolução da “classe operária” – que votava maciçamente na esquerda – a Lega consegue colher votos dos próprios trabalhadores de fábricas, algo impensável em um passado não muito distante.

A estrutura da Lega deve ser seguida por outros grupos no país. O Partido Democrático (PD), maior força da esquerda, deve ser o primeiro. Cambaleante após as eleições regionais, o PD, que governava 11 regiões e ficou com sete depois da abertura de urnas, já discute a possibilidade de mudança. Na semana passada, o ex-premiê Romano Prodi declarou à imprensa que seu partido precisa se modernizar, descentralizando poder. Justamente uma das características mais fortes da Lega. “Seu poder está no investimento feito em líderes regionais”, anota Maria Sofia Corciulo. “É um modelo que se provou vencedor e que muitos outros partidos deverão seguir”.

O pragmatismo da Liga Norte pode ser facilmente compreendido em sua relação com o hoje premiê Silvio Berlusconi. Em 1995, Umberto Bossi, número 1 da Lega, comparou Berlusconi a Mussolini ao dizer que ambos faziam uso de monopólios televisivos para sustentar o próprio poder. Berlusconi, em resposta, declarou que “jamais se sentaria em uma mesa em que Umberto Bossi estivesse sentado”. Dois anos depois, Bossi voltou a apontar os canhões contra Il Cavaliere, dizendo que havia provas de que o dinheiro que ajudou a formar o império financeiro de Berlusconi era investimento direto da máfia siciliana Cosa Nostra.

No começo dos anos 2000, parte da Liga Norte aliou-se à coligação de centro-esquerda liderada por Romano Prodi para derrotar Silvio Berlusconi. Como sinal do mar agitado da política italiana, em 2006 a Lega participou da coligação que reelegeu Berlusconi e hoje ocupa importantes ministérios. A primeira semana de abril deste ano selou mais uma fase emblemática do partido mais polêmico da Itália: após o sucesso nas urnas, Bossi e Berlusconi se reuniram reservadamente para decidir o futuro do país. Na pauta, federalismo fiscal (sonhado pela Lega), reforma da Justiça e presidencialismo (encampados por Berlusconi).

Sobre separatismo e sobre a Padania, nenhuma palavra. “A Lega não quer mais a Padania, isso é claro. Um que outro político ainda defende isso, mas o partido entendeu que quando parou de falar nesse assunto a se concentrou em temas concretos como trabalho e segurança seus votos se multiplicaram”, aponta Pacini. A ideologia não é a luz a iluminar os salões do norte.”

LÚCIA MÜZELL
Direto de Paris

Pró-supremacia branca, extrema-direita britânica vive ascensão

Eleitor da extrema-direita francesa quer Sarkozy mais radical

Como vencer a crise

Leandro Demori | Itália 08:54 | 16/03/2010

A Itália venceu a crise. Como? Com financiamento público de campanha.

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