Em desenvolvimento

Leandro Demori | Itália 15:26 | 09/12/2010

Minha história com a WikiLeaks vem de outro carnaval, um tanto distante do #cablegate das últimas duas semanas. Em 2008, recebi documentação que predizia uma bomba em um setor econômico importante no Brasil. Sondei alguns jornais e algumas revistas buscando saber sobre a possibilidade de investigação aprofundada em cima do que eu tinha em mãos. Estava basicamente atrás de uma parceria: algum jornalista brasileiro que ajudasse com a reportagem no Brasil, já que moro na Itália. Não encontrei.

Fiquei pensando em um modo de fazer a reportagem, mas sobretudo em uma forma de vendê-la para alguém que segurasse a barra em possíveis processos judiciais (que eu tinha certeza, viriam). Como eu disse, é um setor econômico importante, anuncia pesadamente em rádios, TV e impresso, tem boa participação no PIB e penetração nos governos. Quer dizer: é um tipo de reportagem que não interessa a ninguém mesmo, exceto ao público. Esse setor já matou gente.

Busquei pela rede possíveis projetos que investissem em reportagens como aquela que eu queria fazer. Existem vários fundos — sobretudo americanos mas também europeus — que tutelam esse tipo de trabalho e pagam para que você o faça. Vivo disso, afinal, e jamais arriscaria postar nada daquilo em um blog, de graça, correndo altos riscos por isso.

Foi por essas buscas que conheci o WikiLeaks, que na época atuava através de uma organização chamada Sunshine Press. Havia várias formas de entrar em contato com eles, usei um chat criptografado que garantiria minha privacidade. Conversei por cerca de 20 minutos com alguém na outra ponta, que disse que o site tinha interesse no material, que o considerava importante e prioritário, mas que havia um problema: os pagamentos por reportagens estavam suspensos por seis meses. E de graça eu não estava disposto a trabalhar.

O que o Sr. Sunshine me explicou é que os fundos que os financiavam tinham secado por conta da crise nos EUA, e que temiam, inclusive, que o WikiLeaks fosse fechar por falta de grana. Fiquei com o contato para enviar o material, e ele ficou de me avisar quando (e se) a grana recomeçasse a entrar. Nunca mais obtive resposta.

Quando o WikiLeaks voltou com força divulgado dados sobre a guerra infinita e um vídeo de militares matando gente a esmo, entendi tudo. O foco, que antes era regionalizar investigações, tinha sido ampliado e restrito ao mesmo tempo: a metralhadora fora apontada para os EUA em particular.

Não sei quem é Julian Assange e nem de onde veio a grana que manteve o WikiLeaks em pé. Estamos no meio de um processo importante para a informação, mesmo que eu acredite que seja utópico um mundo onde toda e qualquer movimentação diplomática seja pública. País algum fará isso, jamais.

No mesmo ano de 2008, eu e uns amigos investigamos a movimentação financeira das contas de publicidade do governo do Rio Grande do Sul por termos certeza de que algo cheirava mal. Mais tarde se “descobriu” que fedia. Conversamos com políticos, promotores, procuradores, jornalistas. Queríamos ver os contratos, quem pagava e quem recebia, quanto recebia e, sobretudo, qual era a medida para avaliar o mérito dos gastos.

As dúvidas eram simples: o que faz o governo gastar dinheiro público, o meu dinheiro, com publicidade? Um governo que precisou pedir 1,1 bilhão de dólares emprestado para não falir e gasta 168 milhões de reais com anúncios. Por que isso é tão prioritário assim? Como se mede o quanto vale um banner em um site, por exemplo? Audiência? Relevância? Público-alvo?

Este post explica um pouco a situação que fotografamos na época.

O valor bruto de um banner em um site no RS era de 60 mil reais por ano. Um site. Um banner. Eram (e são ainda) vários e insignificantes sites, como você pode ler no post acima. Tempos depois, o valor foi retirado do ar (os banners não). Como a gente volta e meia usa Tico & Teco, fizemos print screen de tudo e deixamos aqui, público, novamente, no melhor espírito WikiLeaks.

O que conseguimos arrancar da “Transparência” oficial na época? Nada. Nem mesmo os deputados do PT com quem conversamos se mostraram dispostos e colaborar. Eram da oposição, deveriam querer alguma transparência, certo? Não seria na base do governo, no PSDB, que conseguiríamos as coisas. Demoramos para entender que o modus operandi que hoje beneficia Chico amanhã pode ser usado por Francisco.

Para terminar de modo leve, deixamos aqui algumas dicas culturais para você. Dicas patrocinadas pela bondade do dinheiro público, esse lindão. Caso a página saia do ar, podem pegar o print. Mas confiamos que ficará onde está há 3 anos, exatamente da mesma forma, “em desenvolvimento” eterno. Igualzinho à transparência no Braziu.

Ato contra tudoissoqueestaaí

Leandro Demori | Itália 15:59 | 23/09/2010

Entrei por curiosidade no site da Federação Nacional dos Jornalistas para saber se há algo sobre o “ato contra o golpismo mediático” de hoje. , obviamente.

A notícia divulgada pela Fenaj destaca que o “ato” é “pluripartidário”. A informação está correta na mesma medida em que é desonesta: vários partidos participam da manifestação, todos, no entanto, pró-governo. O “pluripartidário” quer dar um evidente tom de concordância popular; os 81% dos brasileiros que estão contentes com a imprensa discordam.

O site da Fenaj, mantido por jornalistas, faz jus à fama de tratar de forma desonesta a informação. A mentira dos outros, é claro, é sempre mais mentira.

Em outra época, os militares queriam calar a imprensa, e a União Nacional dos Estudantes junto aos partidos “de esquerda” — como se dizem esses do “ato” — pediam liberdade de expressão. Hoje, o Clube Militar realiza evento sobre a liberdade, e a militância revolucionária?

O manifesto de convocação do ato considera que a campanha presidencial no Brasil enveredou por um caminho perigoso. “Não se discutem mais os reais problemas do Brasil, nem os programas dos candidatos para desenvolver o país e para garantir maior justiça social. Incitada pela velha mídia, o que se nota é uma onda de baixarias, de denúncias sem provas, que insiste na ‘presunção da culpa’, numa afronta à Constituição que fixa a ‘presunção da inocência’”, registra o documento.

Não sei em que bolha de sobrevivência essa gente viveu nos últimos anos, mas no país que eu conheço as eleições sempre foram exatamente como são hoje: um festival de baixarias por parte dos candidatos, e outro festival de denúncias e matérias “bombásticas” por parte da imprensa. Para manter a tradição da edição desonesta que tanto diz combater, os organizadores do “ato” também divulgam um texto desonesto. Vai ver é piada interna.

A “manifestação” contra o “golpismo mediático” ocorrerá no auditório do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. A Fenaj e o Sindicato dos Jornalistas são apenas mais duas das associações bancadas pelo dinheiro estatal — ou seja, o seu — para defender o governo. A utilidade social ou para a classe dos jornalistas que a Fenaj ou os sindicatos representam é zero.

Tento renovar minha carteira de jornalista há meses, mas só quero fazer a carteira internacional, já que moro fora do Brasil. É impossível. Eu teria que fazer a nacional e, depois de pronta, a internacional. A grande jogada? Essa (email recebido do Sindicato dos Jornalistas do RS):

“Ola,
Tens que ter a carteira nacional na validade (xerox), e também a xerox da carteira internacional vencida, 01 foto 3×4 recente e fundo branco (foto para documento), estar em dia com as mensalidades e pagar 40 euros (cotação do dia).”

A sindicalização não é obrigatória, e essa informação foi omitida no e-mail. Não quero me sindicalizar e ajudar com minhas suadas liras a sustentar esses “movimentos sociais” que defendem bandeiras de acordo com o que quer a diretoria de plantão. Não ajoelho na mesma fé da Turma do Paletó na Cadeira. Sindicatos de jornalistas me parecem sempre algo como a Academia Brasileira de Letras: um bando de gente sem talento tentando aliar prestígio a benesses pessoais.

Custo para fazer a carteira nacional: “Não Sindicalizados – R$ 300,00″

Ou seja: primeiro você versa trezentinho no caixa da companherada, depois, mais 40 euros. Agora me explica:

1) no bolso de quem eu enfio a carteira nacional se ela é inútil para quem mora no exterior?
2) e por que motivo preciso fazê-la se o que me interessa é somente a internacional?

É gente assim que vai lá gritar e espernear contra a Mídia Má, essa gente honesta e cheia de boas intenções; proba a ilibada, sempre preocupada com algo maior.

Outra coisa lamentável de espisódios como esse dorme nas faculdades. Até 2002, os alunos eram formados por professores de maioria petista e/ou “de esquerda” que enchiam as jovens cabecinhas com o discurso de que o governo deveria ser tratado como “inimigo”, como algo a ser desvendado e exposto. Em tese, os aprendizes não deveriam se interessar por FHC ou por Lula, mas pelo Presidente da República e pelas instituições abaixo dele. Deveriam ser, na medida fiscalizadora — e não eleitoral — uma espécie de eterna oposição.

Hoje, com a companherada no pudê, os professores petistas continuam no mesmo lugar, e o que as faculdades mais criam é aluno com blog que defende o status quo. Formar peleguismo é o hype do momento.

“Vai se ferrar seu otario”

Leandro Demori | Itália 11:56 | 02/09/2010

Tuitadas minhas (@braziu) de ontem à noite:

@polibiobraga, aquele que processa e ameaça jornalistas http://bit.ly/bz7wC8 reclama que as “entidades” não o defendem quando é processado.
about 20 hours ago

O processo em questão citado por @polibiobraga é esse http://bit.ly/cPNPrl
about 20 hours ago

Você pode ver toda a fineza e espírito justiceiro de @polibiobraga na nota original que causou o processo http://bit.ly/chPDLX
about 20 hours ago

@polibiobraga deve acreditar que “as entidades” precisam trabalhar a favor dele. Noção bastante peculiar do Universo.
about 20 hours ago

@polibiobraga processou duas vezes A Nova Corja, blog do qual fiz parte. Perdeu um processo (por vergonhosa inépcia). O outro ainda corre.
about 20 hours ago

@polibiobraga está sendo processado criminalmente por @walterva por tê-lo chamado de “criminoso”, obviamente sem provas http://bit.ly/byXNGw
about 20 hours ago

Talvez ache que as “entidades” precisem defendê-lo também neste caso. Quem sabe mais um banner de publicidade estatal o acalme.
about 20 hours ago

É claro que o jornalista mais probo, ético e ilibado do móndo não iria me deixar sem respostas:

Depois disso — são aquelas amáveis coincidências da vida — acordo com a seguinte notícia:

Força-tarefa investiga desvios de até R$ 10 milhões na área de marketing do Banrisul

Uma força-tarefa da Polícia Federal, do Ministério Público Estadual e do Ministério Público de Contas investiga possíveis desvios de recursos da área de marketing que teriam causado prejuízo ao Banco do Estado do Rio Grande do Sul — Banrisul.

A suposta organização criminosa, integrada por alto funcionário do banco, diretores de agências de publicidade e prestadores de serviços pode ter causado prejuízo de mais de R$ 10 milhões nos últimos 18 meses.

O que Políbio Braga e todos os seus amigos probos, éticos e ilibados têm a ver com isso?

NADA, oras [não clique nesse link, são só mentiras].

Duas ou três lições de um projeto de ruína

braziu.org 15:09 | 19/08/2010

“Sou um projeto de ruína . Meu velocímetro profissional já registra quase quatro décadas de rodagem por redações. É um bocado. Quem mandou não estudar Medicina ? A hora de dizer “chega” vai se aproximando.

Todo jornalista deveria mudar radicalmente de atividade depois de dez anos de exercício profissional. Somente assim não correria o risco de se habituar ao papel de figurante do espetáculo patético encenado em redações por gente que se considera cem vezes mais importante do que realmente é.

Não existe cena tão risível quanto o desfile de vaidades desprovidas de qualquer fundamento. Em nenhuma outra profissão há um abismo tão gigantesco entre pretensão e realidade. Ninguém me contou ; eu vi, com estes olhos que um dia o crematório de Golders Green há de comer : gente incapaz de pronunciar corretamente a palavra “gratuito”, gente que escreve exceção com dois “s”, gente que constrói frases como “para mim ver”, gente que acha que “sobrancelha” é “sombrancelha”, gente que jura que o substantivo óculos exige o artigo no singular, gente que comete pérolas como “fazem dez anos” – chorai, leitor, é esta a gente que, além de se julgar superior e competente, acha-se perfeitamente qualificada para descrever o que é que aconteceu ontem, o que acontece hoje, o que acontecerá amanhã, esta semana, este mês, este ano, no mundo . Quá, quá, quá.

Pior: é gente que, a sério, exige remuneração superior à de médicos, engenheiros, nutricionistas, agrônomos, veterinários, biólogos e garis. Pausa para risos incontroláveis da platéia. Quá, quá, quá. De novo: quá, quá, quá.

É como se um cirurgião perfeitamente incapaz de manusear o instrumento de trabalho – um bisturi – saísse da sala de operações arrotando grandeza depois de cometer barbeiragens inomináveis no corpo do paciente. Falo com conhecimento de causa sobre imposturas ocorridas em redações. Conheço a raça. Orgulhosamente, faço parte do canil. Sou aquele terceiro vira-lata à esquerda, na penúltima fila. ( crianças: não se assustem com o vazamento de bílis. Feitas as contas, o Jornalismo pode valer a pena, sim. É a melhor profissão do mundo – para quem não consegue exercer tarefas realmente úteis à Humanidade. Os jornalistas podem ser, devem ser e, em geral, são benfeitores da sociedade, com as exceções de praxe. Ponto. Parágrafo ).
.
Há séculos, ao comentar o resultado de uma pesquisa em que os jornalistas só conseguiam superar os ladrões de galinha num ranking de estima pública, Paulo Francis dizia que os ladrões de galinha deveriam protestar contra a injustiça. Bingo.”

[lá do Geneton Moraes Neto, texto que continua aqui]

Supositórios da Copa III

Leandro Demori | Itália 12:33 | 17/06/2010

Declaração mais pertinente do técnico Dunga — até agora –, direto da África do Sul. Para acabar com o preconceito bobo de que jogadores e técnicos de futebol são banais e sem conteúdo.

Reflita.

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