Alinhamentos

Fabricio Pontin | Estados Unidos 17:10 | 18/05/2010

Não tem nada de errado em um país buscar independência diplomática.

Muita gente, e gente boa, tem interpretado este movimento do Itamaraty de querer dialogar com o Irã e com os Estados Unidos na posição de um ator com interesses independentes como uma tentativa de adquirir um “passe livre” na arena internacional. Para ficar nos termos das relações internacionais: o Brasil quer poder atuar em palcos diferentes, que normalmente estariam em conflito. Quer poder jogar pelo Flamengo e pelo São Paulo – ao mesmo tempo.

Já consigo ouvir alguém gritando “mas isso não é um jogo de futebol”. Talvez, pode ser uma comparação desastrada. De qualquer forma, podemos indicar que existem diversas atitudes com relação ao Irã na arena internacional (esta grande ficção). Vou dividir a coisa aqui, vamos pensar que tem atitudes negativas, atitudes neutras, e atitudes simpáticas. Pois bem, isso seria o que chamei ali no título de alinhamento, okey?

Nos últimos dias, a China e a Russia, que estavam em uma posição de neutralidade com relação ao Irã, se moveram para o terreno “negativo” ao apoiar as sanções capitaneadas pelo Pentágono. Tanto a Russia quanto a China são (ou eram) parceiros do Irã em algumas empreitadas econômicas. Com este novo posicionamento, o Irã precisa de aliados, e rápido.

Sobraram no terreno neutro uma meia dúzia de países que não importam. Não tem voz. Não apitam. Estes não servem. Mas o que me interessa é que a entrada do Brasil enquanto parcero comercial do Irã no comércio de urânio, junto com a Turquia, nos coloca na posição de ter uma atitude simpática com o país dos aiatolás.

Energia é uma questão militar. Então me poupem do papo-aranha de “fins pacíficos”. Alinhamento político-comercial em questões de energia é um alinhamento militar. É mais ou menos como ajudar um país a produzir mísseis, por exemplo. Portanto, não é exagero algum dizer que o Brasil escolheu um alinhamento militar-comercial com o país que mais rapidamente perde apoio na arena internacional.

Eu não sei quais são as razões do Itamaraty para isso. Cada vez mais o enriquecimento de urânio entra no discurso executivo brazuca. Mas, para o Brasil, qual é a vantagem de negociar com o Irã, especialmente no longo prazo?

A Turquia poderia alegar razões estratégicas-geográficas “O Irã fica aqui do lado!”, mas o Brasil não tem razões históricas ou contingenciais para fazer esse acordo agora. Quer dizer, só se a razão for querer aparecer e adquirir algum tipo de relevância.

A história não tá pegando muito bem. Duas colunas no Washington Post nos últimos sete dias resolveram sentar o cacete no governo brasileiro (aqui e aqui). Achei os argumentos bestas. Especialmente do segundo cronista, que acha um escândalo o Brasil “ignorar o brutal governo Iraniano”. Por favor, o maior parceiro comercial dos Estados Unidos é a China. Ninguém se importa com a brutalidade alheia.

O problema desta nova atitude da diplomacia brasileira é o alinhamento. Estamos ignorando aliados históricos e procurando novos aliados. Fico curioso dos benefícios para a diplomacia brasileira em mostrar simpatia por um barco que está afundando. O governo iraniano mal dá conta das pressões internas e agora vai virar um grande parceiro comercial-militar do governo brasileiro?

Claro, o Irã – mesmo se conseguir a bomba – não vai correr o risco de virar uma grande piscina de vidro ao atacar Israel. Mas este não é o ponto para o Brasil: enquanto o Marco Aurélio Garcia fala do “escândalo” das sanções externas, o Irã perde a neutralidade da China e da Rússia. Os ratos vão abandonando o navio iraniano, e o Brasil vai alegremente a bordo com toda sua bagagem diplomática – esperando poder pular de volta para o porto seguro dos aliados históricos caso a coisa fuja de controle. Mas cabe a pergunta: e se o porto seguro negar entrada, para onde vai a diplomacia brasileira?

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