Pitagóricas XXV (o retorno/edição WikiLeaks)

Leandro Demori | Itália 22:38 | 07/12/2010

“Berlusconi faz festas selvagens e se mostra cansado e abatido fisicamente por causa disso.” O homem tem 74 anos, gente. Mania de americano de querer sempre máximo nível de desempenho.

“Angela Merkel é pouco criativa.” É o que supostamente os alemães fazem, não?

Sarkozy usa Carla Bruni para ajudar nas negociações diplomáticas.” Voa, imaginação.

“Hugo Chávez é maluco.” AH.

“EUA suspeitam de terrorismo islâmico na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina.” Boa oportunidade de negócios para o Natal: fabricar o Bin Ladenzinho e vender pela metade do preço na Ponte da Amizade.

“Jobim diz a embaixador que ministro odeia os EUA.” Premiado.

“China contrata hackers desde 2002 e invade computadores do Google.” É o emprego de vento em popa no terzo mondo.

“Muammar al-Khadafi, o ditador líbico que só anda com uma voluptuosa enfermeira ucraniana loira a seu lado, mandou os ingleses soltarem um preso e causa fascínio e medo nos EUA.” Período histórico que pode ser conhecido, futuramente, como a Revolta dos Camelos.

“Países que seguem leis islâmicas matam mulheres que traem os maridos, mas suas realezas fazem festas regadas a ‘sexo, drogas e rock’ nos porões dos palácios.” Maomé não deve ter feito nada muito diferente disso (mas sem rock, que já naquela época era coisa do diabo, parece).

“Rei saudita pediu para que os EUA bombardeassem o Irã.” Mas suplicou para que fosse depois da suruba real.

“Brasil teria negociado com os EUA apoio à oposição venezuelana.” Bem que o PCO diz que nosso governo é neoliberal e lambe-botas do Império, viu.

“A Rússia é um estado ‘virtualmente mafioso‘.” Itália perdendo competitividade até no crime.

“Máfia russa está ativa na Tailândia.” Tou falando. Reage, Sicília!

Um farol para o passado

Leandro Demori | Itália 15:17 | 13/11/2010

Viajo todas as semanas para Veneza por compromissos profissionais. Pego um trem que me consome 7 horas de vida entre ir e voltar. Uma das poucas paradas no caminho acontece em Bolonha, cidade que gosto muito e a qual conheço relativamente pouco mesmo tendo morado lá perto. Bolonha é um centro de excelência da Itália: sede da mais antiga universidade do mundo, construiu no correr dos séculos uma longa tradição de ensino e pesquisa que hoje faz girar na cidade cerca de 1,7 milhão de euros ao dia. Bolonha “la grassa, la rossa“, a gorda e vermelha Bolonha, rica, cara para se viver.

Centro nevrálgico da resistência partigiana ao nazismo e ao novo fascismo que jogaram a Itália em uma guerra civil entre 1943-45, a capital da Emília-Romanha está perdendo poder e charme.

Na última semana, centenas de mães com seus bebês dentro de carrinhos de passeio protestaram em praça pública. Um protesto com balões e doces para contrastar com o amargo de um despedaçado welfare state europeu: a administração pública pretende fechar as creches duas horas mais cedo para economizar dinheiro. Bolonha e seus tijolos vermelhos amanhecem todos os dias um pouco mais cinzentos de fumaça e descuido.

A geração italiana de hoje é a primeira do pós-guerra que será mais pobre do que a de seus pais. Desde o fim dos conflitos armados, todos os filhos superaram os genitores com mais dinheiro no bolso, melhores casas e carros, mais viagens e lazer, famílias mais bem assistidas economicamente. Atualmente, um em cada três jovens italianos sequer tem emprego.

O corte de fundos das políticas públicas é geral no continente: França, Inglaterra, Espanha, Holanda, Portugal, todos passaram a tesoura que vai desde congelamento de salários de funcionários públicos até cortes desses mesmos salários quando muito elevados, ou demissões. Os serviços públicos estão sendo dilapidados de forma visível, de escolas com menos professores a delegacias de polícia que fecham mais cedo. Enquanto os países em desenvolvimento avançam, a Europa regride.

Analisar um continente como esse olhando somente para o curto prazo é dar muita chance ao erro, no entanto. É cedo pra dizer se esses países estão fazendo o caminho inverso ou se estão fazendo apenas ‘um outro caminho’. Alguém já deve ter dito ao longo das eras que a coisa por aqui ia ficar preta… No curto prazo, a coisa já está preta; mas o preto europeu, comparado com o preto brasileiro, é ainda cinza-claro.

Em entrevista à revista semanal l’Espresso da semana passada (a qual assino e só consegui abrir hoje), o economista Joseph Stiglitz explica que um dos remédios para evitar o fim do sonho americano — ou de parte dele — é investir em pequenas e médias empresas e deixar que os colossos industriais e financeiros se virem. Para ele, salvar bancos foi um erro dos Estados Unidos, começado por Bush e continuado por Obama.

A Itália é o país da pequena e da média empresa, mas vem lutando contra sua própria história. A globalização foi o remédio para o subdesenvolvimento ao mesmo tempo em que tirou dos países ricos muitas possibilidades. Não adianta se debater: a FIAT fechará plantas na Itália e fabricará cada vez mais carros no Brasil, onde o mercado interno ainda é enorme e de longo prazo, onde a mão-de-obra custa menos e onde as pessoas passam por um momento efervescente de consumo comparado aos anos 60 e 70 europeus. E assim farão Pirelli, Piaggio, Benetton, Prada… dando ao ex-terceiro mundo a chance de ouro deste século, mesmo que muitos desses países, pouco tempo atrás, lutassem contra o ‘demônio do mundo global’ que hoje os alimenta e os enriquece.

O que sobra para a Itália? Sobra ‘excelência’, é o que vez ou outra se ouve. O país deve se concentrar em produzir e vender caro o que levou anos para desenvolver e que poucos no mundo fazem melhor: carros de luxo, motos, barcos, navios de cruzeiro, moda de alto nível, design, vinhos, culinária, história. O número de pobres está diminuindo no mundo e a classe média europeia está visivelmente mais empobrecida. Esse movimento gera um nivelamento social que aumenta, por exemplo, a venda de carros de baixa cilindrada, exatamente o que acontece no Brasil. Ao mesmo tempo, o número de ricos está aumentando; essas pessoas passaram a vida sonhando em dirigir uma Ferrari. A receita de produzir excelência vale também para outros países do bloco — e para os EUA.

Dias atrás, parte do estádio dos gladiadores de Pompéia desabou. Para a economia nacional, o fato deveria ser visto como o desabamento de parte de uma estrutura industrial — o turismo, a história, a cultura e a arte são o motor dessa excelência italiana que não pode se deixar enganar pelo ‘efeito globalização’ em países em desenvolvimento. Olhar para um Fiat Uno como deus salvador dos mercados europeus é querer competir com o Brasil apontando o farol para o passado.

Se depender de França e Itália, tem segundo turno

Gabriel Brust | França 16:17 | 03/10/2010

(Fila para votação em Paris hoje à tarde)

Apesar da fila de mais de uma hora impressionar, hoje à tarde, apenas metade dos 4 mil eleitores cadastrados para votar em Paris compareceu, segundo os números recém divulgados. E, a julgar pelo voto dos brasileiros “franceses”, tem segundo turno. Dilma obteve 46,2% dos votos na capital francesa. De acordo com o consulado, cerca de 2,1 mil brasileiros foram às urnas. José Serra (PSDB) teve 29,6% dos votos e Marina Silva (PV), 22,1%. Na Itália, Dilma recebeu 44% dos votos válidos. José Serra ficou com 32 % e Marina Silva obteve 19%.

É claro que nenhum destes dois países pode servir de comparação para o voto no Brasil. Mas apontam uma tendência. Voltamos logo mais.

Onde nós estamos?

Leandro Demori | Itália 15:23 | 03/10/2010

Cheguei cedo na frente da Embaixada brasileira em Roma. Poucas pessoas. A massa começou a chegar mesmo lá pelas 11 horas. Os madrugadores eram, na maioria, religiosos — quase sempre freiras. Fiz algumas fotos, mandei matéria para o Terra e voltei pra casa.

Almocei, tirei uma pestana de Jesus e voltei pra lá. Terminada a votação, percorri as portas da embaixada para contar o número de votos de cada candidato, expostos nos boletins impressos pelas urnas após fechamento dos trabalhos [aqui os resultados de Roma]. Os brasileiros que ainda estavam lá ficaram curiosos e se aproximaram. Falavam-se entre eles.

“Eymael é o José Serra?”

“Já contei quase todos, mãe. Dilma fez bastante 13, Serra fez 45″
“Ih, intãoJusé Serra”

“A Dilma que é do Lula, né?”

“Como eu faço pra votar?”
“Já acabou o horário, minha senhora, faz mais de uma hora”

“Amor, já acabou a votação”
“Já?”
“Já”
“Tem informação sobre turismo pro Brasil ali”
“Mas temos que pegar o trem”
“Onde nós estamos?”

Onde?

Abriremos o live blogging daqui há pouco. Fiquem por aí.

É sempre quarta-feira

Leandro Demori | Itália 07:56 | 21/09/2010

São 20h15 quando Eva chega ao antigo hospital abandonado. Sherzaad não lembra a data em que pediu o asilo político, só lembra que era inverno. Pega o telefone celular e liga para o que ele chama de “uma amiga em Bari”. Fala com ela por breves segundos antes de passar a ligação para Eva.

Giovanna conversa com um homem que esteve na Noruega. Ao contrário de todas as expectativas, ter estado na Noruega é péssimo. O asilo é um cabo-de-guerra em que ninguém faz força, uma luta entre países para provar quem tem as piores condições de conceder casa e comida. Quem vence, perde; países que podem oferecer melhores condições devem se responsabilizar pelo refugiado, gastar parte do caixa público para mantê-lo. Ninguém quer se responsabilizar pelos efeitos colaterais da guerra.

O “cara da Noruega” se chama Zahbi e quer ficar na Itália.

Zahbi e Sherzaad são afegãos, fugitivos de uma guerra que já dissolveu quase uma década de suas vidas. Zahbi e Sherzaad não contam como vieram parar na Itália — não querem ter vida pregressa.

“Aqui é bom, tem até restaurante”, brinca Sherzaad, apontando para duas caixas térmicas onde pratos pré-prontos de massa típica italiana são armazenados. Nasceu em Jalalabad, cuja foto que ilustra o verbete em inglês da Wikipedia faz se assemelhar a um moderno centro de uma cidade normal. Sherzaad não parece ter fugido de Jalalabad por medo da modernidade.

Os afegãos de Roma fazem parte de uma minoria mongol levada à região pelos exércitos de Gengis Khan a partir do século XIII; são chamados de Hazaras e formavam um quinto da população do país antes da invasão militar. Após a perda de controle territorial em algumas regiões do país por parte dos exércitos invasores, os hazaras começaram a se espalhar pelo mundo. Hoje, um em cada quatro refugiados que vagam pelo planeta são afegãos hazaras.

Para que fiquem na Itália, Sherzaad e Zhabi não podem ser pegos pela polícia nos próximos 18 meses. Ambos pediram asilo em países que têm melhores condições de abrigo (Noruega e Alemanha) e, pela lei europeia, precisam voltar para lá. Se quiserem viver aqui, devem acordar todas as manhãs por um ano e meio como se não existissem. Cumprido o período fantasma, fazem novo pedido de asilo. Precisam, na prática, fazer com que sua ‘vida europeia’ seja apagada e recomece do zero. Olhando nos olhos de Sherzaad e Zhabi, acreditei que seria bom se recomeçasse de verdade.

Sherzaad desembarcou na Europa em 2008. Veio pela Grécia e rumou para a Inglaterra. Pego pela polícia, foi deportado novamente para a Grécia. Fugiu, rodou por Áustria e Eslovênia até chegar à Itália. Conta a história e ri, mas não gosta de contar a toda hora.

Sherzaad quer ficar na Itália mesmo sabendo que não há emprego. “Qui si sta bene”. Aprendeu logo uma das expressões mais utilizadas na península, um certo conformismo italiano típico que busca justificar o índice de desenvolvimento do país na última década — inferior ao da Europa do lado de lá dos Alpes — com seus monumentos históricos, suas belas paisagens de praias e montanhas, o bom clima, a excelente comida, o ar que se respira.

Eva a Giovanna ouvem tudo pacientemente. Têm fome. São 21h30, não comem nada desde o meio-dia. Ambas são voluntárias freelance: vêm todas as semanas, nas quartas-feiras, ao antigo hospital transformado em abrigo de refugiados para ajudar gente como Sherzaad e Zahbi a colocar a documentação em dia. Os pedidos de asilo estão em desordem assustadora.

Eva é tradutora, versa palestras e conversações do inglês para o italiano. Giovanna é consultora legal. Nenhuma delas ganha uma lira pelo trabalho das quartas. Se fizesse algum extra naqueles dias, Eva talvez conseguisse trocar o Fiat surrado com três camadas visíveis de pintura em tons mal calibrados por um carro mais novo. Eva não parece se importar.

Afegãos têm um jeito peculiar de comprimentar. Apertam sua mão e depois a batem no próprio peito, espalmada, como quisessem tocar o próprio coração. Olham para você enquanto fazem isso, e sorriem.

Eva explica algo em italiano para um deles, que traduz para o outro.

Sherzaad e Zahbi, assim como todos os outros 70 conacionais que ali estão, se vestem com camisolões longos e calças largas, brancos. Não usam barbas ou turbantes como a imagem clássica dos afegãos espalhada no período pós-invasão. Aqueles, os de barba e turbante, em um mundo falsamente simples de ser explicado, são os inimigos.

Perseguidos e tratados como linhagem inferior pela maioria afegã, os hazaras são, além de mongóis, muçulmanos xiitas –- minoria dentro da população sunita afegã. Os hazaras xiitas são, portanto, a minoria da minoria. Após o início dos conflitos, foram escurraçados violentamente pelo Taleban, que tomou suas casas e suas mulheres. Quem não fugiu, morreu.

Se aproxima o Ramadã*, o que, para um muçulmano naquelas condições, representa um problema. Pouco antes de serem transferidos para o hospital, os afegãos ocupavam uma área aberta onde haviam formado um campo de refugiados. Precisaram de socorro por conta do calor bestial de Roma no pico do verão: não havia mais onde buscar água. No Ramadã, precisam ficar até 16 horas por dia sem comer ou beber, do nascer do sol ao poente.

Faz 40 graus em Roma, não há um fio de vento e a estrutura que os abriga fecha durante o dia. Não podem ficar lá dentro, ao reparo do sol. Precisam ir para a rua. Sobreviver ao Ramadã será uma prova de fé.

São 22h10 e Eva e Giovanna ainda estão sentadas desconfortavelmente em duas cadeiras de plástico no pátio externo do prédio. Giovanna ensina a polir o italiano enquanto ouve histórias de vida e fuga. A maioria dos contadores fala rudimentarmente. Um deles chama Giovanna de “Giovanni”. Ela, vaidosa, o repreende. “Giovanni é nome de homem”.

Eva e Giovanna continuam a preencher fichas.

Nome:
Sobrenome:
Cidade de partida:
Cidade de chegada:
Telefone para contato:

Todos os afegãos têm celular.

Chega outro, Fahim al-Ahari. Perdeu todos os documentos. É informado de que precisa prestar queixa na polícia. Encosta mais um na mesma situação para ouvir atentamente, perdeu tudo e também não fez a queixa. Muitos afegãos perdem seus documentos. Fahim diz que a polícia inglesa ficou com seus papéis quando foi pego ilegalmente no país e deportado para a Itália. Ao longo da noite, chegarão outros sem documentos e sem denúncias à polícia, sem papéis e deportados.

São 22h51, Giovanna e Eva se levantam. A vida legal dos afegãos de Roma precisa ser suspensa até a próxima quarta-feira. É sempre quarta-feira na vida dos afegãos de Roma.

*O Ramadã já acabou. Comecei a escrever o texto em julho, quando visitei o centro de refugiados.

São Paulo para os paulistas: “não se aluga aos nordestinos (nem aos cães)”

Leandro Demori | Itália 09:15 | 09/08/2010

Um dos movimentos políticos mais interessantes da Segunda República italiana se chama Lega Nord (Liga Norte). Já falei sobre eles aqui.

“Entre jogos de cena e cartadas televisivas focadas em problemas cotidianos, a força em ascensão em 2010 chama-se Liga Norte (Lega Nord), partido fundado em meados dos anos 90 com tons separatistas, xenófobos, racistas e homofóbicos e que hoje exerce função de segunda força mais importante dentro do governo de Silvio Berlusconi.

(…)

A Lega foi denunciada pela Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância por “uso intenso de propaganda racista e xenófoba”. Membros mais radicais do partido defendem posições duras como a expulsão de imigrantes e dizem que o homossexualismo é uma doença.

Membro fundador da Lega, Mario Borghezio é deputado representante da Itália no Parlamento Europeu desde 2001 e protagonista de primeira ficha de episódios extremos: já fez comícios raivosos declarando uma “cruzada de honra contra o Islã” enquanto parte da multidão reduzia a chamas a própria bandeira italiana cantando “vamos queimar a tricolor”, opondo a Itália à Padânia, país imaginário defendido pela Liga Norte, supostamente composto por regiões do norte e do centro da península.

[Texto completo aqui: Liga Norte ou “cruzada de honra contra o Islã” ou “homossexualismo é uma doença”]

Um dos comentários do post sobre a Lega gerou uma pequena discussão. Eis:

Bruno Maciel [ 16Apr10]

Não entendo tua insistência com essas matérias. Legal, a gente percebe que vc é um cara interessado e espirituoso, que aproveita a sua estadia por aí pra desenvolver toda sua ironia e verve política e jornalística. Mas, amigo…a gente está em eleições no seu Brasiu…who the fuck ta querendo saber da Liga Norte??? Ah…tenha paciência. Tenta uma vaga no cqc que eles estão a tua altura e talvez vc consiga pautas menos desinteressantes.”

Em uma de minha réplicas, respondi:

“Mas talvez tu não tenha percebido que a Lega Nord e o assunto imigração tenham mais a ver com a tua vida (e a de todo mundo) do que tu possa imaginar.”

Por esses dias, tivemos no Brasil a aparição pública do movimento “São Paulo para os paulistas“. O que eles querem? Emular o discurso da Liga Norte. Leia alguns trechos extraídos da petição do grupo brasileiro.

O Est de S Paulo nunca recebeu investimentos do Brasil. Sempre foi um país à parte. (…) Assim viu-se obrigado a se desenvolver sozinho. Investiu nas lavouras de café, construiu ferrovias e estradas, industrializou-se. Com seu próprio suor, investiu para ser o que é. Jamais recebeu dádivas do Brasil; ao contrário, foi o fornecedor de recursos. São Paulo não deve nada ao Brasil. Portanto, o usufruto desse trabalho deve ser para o Povo Paulista.


Cartaz oficial da Lega Nord

A São Paulo imaginária do movimento “São Paulo para os paulistas” é a Padânia brasileira. Roma Ladrona = Brasília ladra = discurso do “fizemos tudo sozinhos e temos que dividir com quem nada fez”. Coitadismo às avessas.

S Paulo recebe a incursão de pessoas de outros estados, que usufruem seus hospitais e escolas. Quem mantém estes serviços é o povo paulista, não é o povo brasileiro. Se há tratamento igual a quem de direito, e ao forasteiro, então há discriminação contra o primeiro. Se há igualdade de tratamento a quem possui direitos diferentes, então está havendo distinção entre pessoas. Portanto, S Paulo tem o total direito de priorizar paulistas.

Os prefeitos “leguistas” de Adro, Brignano Gera d’Adda, Morazzone, Palazzago e Tradate, no norte da Itália, teríam orgasmos por dias seguidos se entrassem em contato com a petição do movimento “São Paulo para os paulistas“. Eles pensam o mesmo: “a Padania tem todo o direito de priorizar os padanos”.

Tanto que os cinco honoráveis propuseram um auxílio econômico para aumentar suas respectivas populações: dinheiro mensal às novas mães, mas somente às italianas padanas, é claro — estrangeiras, mesmo que em situação regular no país, naturalmente excluídas da bolsa.

Segue o manifesto:

A partir da década de 60, com a chegada dos migrantes brasileiros – sobretudo nordestinos e mineiros – começa a degradação, com a construção de favelas, bairros irregulares e uma estrutura caótica de cidade.

O parágrafo acima é precedido por uma ode à cidade de São Paulo pré-migração dos “nordestinos e mineiros”. Qualquer historiador mais rigoroso apontaria erros históricos clamorosos, mas o que é a história se não uma imensa viagem ao redor do próprio umbigo?

Quem são os Paulistas ? São as pessoas cujos pais / avós industrializaram São Paulo, presenciaram a luta por uma Constituição. Lamentam-se ao ver as imagens pré-60 e a atual descaracterização. Pessoas que viveram em nosso interior, cultivando a autêntica Cultura Paulista. Os herdeiros da população anterior à inundação migratória.

Ou seja: os paulistas são italianos. Voto imediato por um regente enviado por Silvio Berlusconi e subjugo à Constituição Italiana.

A melhor parte, no entanto, vem nas “REIVINDICAÇÕES”:

34. Repudiamos que candidatos a quaisquer cargos políticos no estado e municípios, não sejam PAULISTAS, e com fortes raízes no Est de S Paulo.

36. Reivindicamos que: professores do ensino público, formadores de opinião e disseminadores de informação, nas áreas públicas, atendam aos mesmos requisitos acima. A preservação da identidade Paulista é direito do Povo Paulista. Direito que tem sido usurpado e negado. Não queremos mais o entreguismo de nosso estado nas mãos de poderes migrantes.

37. Da mesma forma, as vagas nos Concursos Públicos sejam destinadas prioritariamente a paulistas.

43. O Sotaque Paulista é nosso Patrimônio Cultural, em suas variantes diversas (ref XIII). O paulista olha ao redor e se vê o único. Um estrangeiro em sua própria terra! Com liguagem, cultura e valores diferentes. Repudiamos a descaracterização causada pelo excesso migratório. Repugnamos o “R” gutural, vogais abertas, as expressões “ôxe”, etc.

62. Assistimos nos noticiários: Estuprador de Ferraz foge para o Maranhão. Ex-jogador que asassinou esposa foge para a Bahia. Pedófilo de Catanduva era foragido de Pernambuco. Prefeito de Taboão da Serra suspeito de corrupção mora na Paraíba. De todos os crimes dos noticiários, freqüentemente há migrantes envolvidos. (ref XIV).

76. Reivindicamos a demolição do absurdo “Monumento ao Migrante Nordestino”, implantado no Largo da Concórdia, em ago/2010, um projeto da Sec da Cultura. (vide ítem 51).

82. Reivindicamos proteção ao nosso sagrado interior contra a descaracterização. Multas para empresas que contratarem temporários migrantes e não providenciarem a sua devolução.

90. Não se deve permitir que pessoas de outros lugares se apoderem do que é nosso. Se querem também, construam o seu. Cada um na sua terra. S Paulo deve cuidar dos seus pobres. E não dos pobres dos outros.

94. A oferta de empregos é estímulo para a migração. Diante disto, reivindicamos incentivos a empresas que priorizem paulistas.

Com um pouco de otimismo, muitos esperariam que alguém viesse à público durante a semana e dissesse que tudo não passou de uma grande piada. Isso não acontecerá. O movimento “São Paulo para os paulistas” conseguirá cada vez mais adesões, e movimentos semelhantes a esse surgirão e crescerão. Mais tarde, se tornarão partidos políticos — isso quando a imigração de sulamericanos em situação precária aumentar a sensação de perda de identidade.

Aqui na Itália, a Lega Nord tem comitês até mesmo nos estados do sul da península. Seria como ter um comitê do “São Paulo para os paulistas” em Recife, formado por gente local, algo inimaginável em outros tempos, sobretudo diante do grande boom econômico italiano dos anos pós-Segunda Guerra.

Naquela época, uma placa era comumente avistada nos edifícios do norte do país, onde a expansão industrial guiava a economia e magnetizava os habitantes do empobrecido sul em busca de melhores empregos: “Non si affitta ai terroni (nemeno ai cani)” (Não se aluga aos terrones, nem aos cães). “Terroni” ou “Meridionali” são as generalizações dadas aos nascidos no sul da Itália, assim como “nordestinos” ao nascidos no nordeste do Brasil, desconsiderando profundas diferenças entre estados.

O ponto central dessa discussão incipiente no Brasil é que não adianta espernear: faz parte da democracia, assim como faz parte dela dizer que “faz parte da democracia é o caralho”. E continua fazendo parte mesmo que possa infringir leis (para essas situações temos a Justiça). Aos incomodados, cabe uma direção contrária — buscar soluções menos cômicas, não necessariamente dentro de um movimento organizado — para não deixar que o “São Paulo para os paulistas” (ou mesmo o possível “São Paulo para os nordestinos”) sejam voz única na sala.

Who the fuck ta querendo saber“?

Talvez as pessoas erradas.

Supositórios da Copa V

Leandro Demori | Itália 09:00 | 30/06/2010

Feliz.

A hora em que os PIGS torcem o rabo

Leandro Demori | Itália 15:19 | 02/05/2010

[assista ao vivo Santos Robinho Grenal Grêmio Inter Gauchão Paulistão 2010 TV vídeo grátis free sexo]

mentira

[Economia aos domingos -- dia chato merece assunto à altura]

Em tempos de siglas aglutinadoras de nações, a menos famosa delas é, hoje, a mais importante para essa caixinha de surpresas desagradáveis chamada economia global. PIGS: Portugal, Italy, Greece and Spain, os países da comunidade europeia em perigo iminente. Há ainda a versão PIIGS, onde se pode incluir a Irlanda. Ou, nos últimos tempos, PIIIGS, com espaço também para a Inglaterra. Analisemos os PIGS com a Itália, opção pessoal por conta da enorme dívida pública aqui da Bota.

Um dos PIGS está em crise profunda, a Grécia. A maioria das pessoas no Brasil não está entendendo nada [ninguém se importa, afinal] do que está acontecendo por lá. Vamos tentar dar algum sentido às coisas.

Dos 4 PIGS, 3 são importantes parceiros comerciais do Brasil: Itália, Espanha e Portugal. Além de pesarem na balança de importação e exportação, Itália e Espanha, por exemplo, têm investimentos gigantescos no Brasil: FIAT, Pirelli, TIM, Telefônica, Santander… Uma crise nesses países similar àquela grega seria catastrófica, sobretudo por que não se pode pensar na Europa de forma descentralizada: por aqui, mexeu com um, mexeu com todos. É o preço da moeda única. A crise grega é uma crise de todo o bloco europeu. Todos devem abraçar os PIGS.

Dê uma olhada neste mapa, elaborado pela Eurostat, a Comissão Europeia responsável por explicar o continente em números.

Deixe o mouse parado na Grécia — dívida pública de 115.1. Isso significa que o buraco em caixa é 15% maior do que o PIB anual. Sendo bem professoral: a Grécia teria que pegar tudo o que arrecada em 1 ano e alguns meses para pagar o que deve. Obviamente isso seria impossível, pois o governo precisa pagar servidores, fazer funcionar as forças de ordem, hospitais, escolas etc. É claro que nem todas as dívidas são de curto prazo, mas a situação do país é tão catastrófica que não há mais dinheiro para nada.

Outro conceito é importante nessa conta, o “déficit”, que é o quanto um país gasta a mais do que arrecada. No caso grego, ter déficit significa aumentar uma dívida já impagável. Sabe o que fez a Grécia em 2009? Em vez de fazer sobrar dinheiro (superávit) para pagar suas contas e diminuir a dívida pública, o país ficou devendo quase 14% do PIB. Estão claros os motivos da implosão: finanças públicas totalmente descontroladas.


Sem escolha

Os rodeios de empresto-não-empresto-dinheiro feitos pelo bloco europeu são jogos de cena. Não tem querer. Em um bloco de moeda única, a falência de um país significa o enfraquecimento da moeda de todos, para início de conversa, com uma cadeia de consequências imprevisíveis. Qual seria a outra alternativa em relação à Grécia, chutá-la da zona do euro? Impensável. Fato é que a Comunidade Europeia divide esse imenso problema, que se soma ao pouco dinamismo das economias dos países aqui do velho continente. Enquanto os EUA projetam crescimento interessante para botar o pescoço fora d’água, a Europa se arrasta na casa do 1%.

E há a economia subterrânea
A Grécia, por exemplo, é suspeita de fraudar balanços para se adequar às regras e poder fazer parte da zona do euro. A Itália tem economia informal de sonegadores de imposto de renda que pode chegar a 15% do PIB nacional. É uma Grécia inteira correndo dentro da Bota. Esse dinheiro subterrâneo torna qualquer cenário engarrafado de incertezas.


O “G” dos PIGS é “pinto”

A Grécia é um país pequeno e pouco significativo nos balanços europeus. Não fosse da zona do euro, a preocupação seria bem menor. O problema são os demais membros da sigla. Espanha e Portugal, por exemplo, tiveram notas rebaixadas no mesmo dia em que os títulos da dívida grega foram declarados junk (lixo, em bom português brasileiro). Aparentemente, os mercados ainda confiam que esses países podem pagar suas dívidas, mas o estado falimentar grego serviu de alerta sobretudo para a Espanha, que até ontem era a vedete econômica da Europa e hoje está estagnada. É preciso poupar e crescer.

Portugal é maior do que a Grécia, mas não é um colosso econômico. Atualmente, se pensa que o país pode dar um jeito em suas contas públicas sem alarmar os vizinhos.

O caso da Itália seria, tecnicamente, desastroso, mas é um tanto diferente. Apesar de ter uma dívida pública de similares 115% do PIB como a Grécia [deixe o mouse sobre a península no mapa lá de cima], a Itália é grande demais para quebrar. É impensável, seria a ruína de todo o bloco europeu. Os 115% de dívida da Itália são, em euros, cerca de 7 vezes o valor da dívida grega. Paradoxalmente, a dívida maior é o grande álibi do país, pois talvez faltasse até mesmo dinheiro para socorrê-lo.

Além do mais, a Itália é um dos 4 países mais importantes em termos de indústria, agricultura e serviços do bloco. Deve mais, mas tem condições de se reerguer.


E agora?

A Grécia será “salva”, ao menos no curto prazo. No tiro longo, no entanto, as medidas necessárias para conseguir o empréstimo empobrecerão ainda mais o país, que tem 2 em cada 10 habitantes abaixo da linha de pobreza.

Para obter acesso ao fundo de até 135 bilhões de euros que evitariam a suspensão dos pagamentos das dívidas pelo governo, os gregos terão que baixar o déficit para 3,6% anuais até 2013. Como? Assim:

- Congelar salários do funcionalismo público
- Estancar novas contratações
- Cortar aposentadorias e pensões
- Aumentar impostos (álcool, tabaco e gasolina devem subir 10%)
- Frear investimenos

Quem vota paga a conta.

Liga Norte ou “cruzada de honra contra o Islã” ou “homossexualismo é uma doença”

Leandro Demori | Itália 13:05 | 15/04/2010

Se você perdeu o mais recente programa da Braziu TV (o “Braziu 004″, vídeos: bloco 1 e bloco 2) ficou de fora da dicussão sobre a Liga Norte (Lega Nord), partido polêmico aqui da Itália e força que mais cresceu nas eleições de março.

Escrevi hoje um texto para o Portal Terra explicando de forma um pouco mais aprofundada o que é a Lega e qual seu papel no cenário atual aqui da península. Colo ele na íntegra logo abaixo. Antes, porém, vai o vídeo que fiz na semana passada pro braziu 004.

No pé, textos da Lúcia Müzell (correspondente do Terra em Paris) sobre partidos extremistas na França e no Reino Unido.

“Acusada de xenófoba, Liga Norte duplica de tamanho na Itália

LEANDRO DEMORI
Direto de Roma

São quilômetros quase infindáveis os que separam as margens dos rios Volga, na Rússia, das do Pó, na Itália. Nos anos 60, no entanto, um nome aproximou as duas correntes: Palmiro Togliatti, secretário-geral do Partido Comunista Italiano (PCI), que em 1964 viu a principal cidade do Volga mudar de Stavropol-na-Volga – nomenclatura que trazia desde o século XVIII – para Togliattigrado, aos moldes de Leningrado e Stalingrado. A homenagem concedida por Moscou a Togliatti desenhava os ares políticos da época: a Itália era o ponto mais importante além da cortina de ferro, ligação focal entre o regime comunista Russo e a Europa ocidental. O PCI tinha, em meados nos anos 70, 35% dos votos na península mediterrânea. O posto de maior partido comunista do ocidente, contudo, durou pouco: mais precisamente até o assassinato do premiê Aldo Moro, atribuído às Brigadas Vermelhas, milícias ligadas à esquerda nacional. O crime fez o sonho vermelho italiano ruir – os votos evaporaram no ar da história.

Mais de três décadas após a efervescência ideológica daqueles tempos, o cenário da política italiana de hoje soaria como apocalíptico para a maior parte dos italianos se contado como previsão do futuro à época. O antigo Partido Comunista é voz praticamente desaparecida, afundado juntamente com o voto ideológico. Entre jogos de cena e cartadas televisivas focadas em problemas cotidianos, a força em ascensão em 2010 chama-se Liga Norte (Lega Nord), partido fundado em meados dos anos 90 com tons separatistas, xenófobos, racistas e homofóbicos e que hoje exerce função de segunda força mais importante dentro do governo de Silvio Berlusconi.

A votação alcançada pela Liga Norte nas eleições regionais de março sedimentou o poder do partido: seu eleitorado dobrou em comparação às eleições regionais anteriores, realizadas em 2005, saltando de 6% para 12,7%. Posicionada, inclusive, à frente do Popolo della Libertà (PDL, partido de Berlusconi) no Vêneto, pela primeira vez na história a Lega assume a liderança de uma região – e faz melhor: vence em duas, além do próprio Vêneto, seu berço eleitoral, leva também o Piemonte.

As palavras do secretário-geral e fundador do partido, Umberto Bossi, no pôr-do-sol da mais recente abertura de urnas falam por si: “A Lega é um tsunami”.

A ascensão do partido de Bossi causou arrepios em boa parte dos italianos e europeus. Motivos existem. A Lega foi denunciada pela Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância por “uso intenso de propaganda racista e xenófoba”. Membros mais radicais do partido defendem posições duras como a expulsão de imigrantes e dizem que o homossexualismo é uma doença. A fama de racista, xenófoba e homofóbica vem sobretudo dos discursos e posições de um nome em particular: Mario Borghezio.

Membro fundador da Lega, Borghezio é deputado representante da Itália no Parlamento Europeu desde 2001 e protagonista de primeira ficha de episódios extremos: já fez comícios raivosos declarando uma “cruzada de honra contra o Islã” enquanto parte da multidão reduzia a chamas a própria bandeira italiana cantando “vamos queimar a tricolor”, opondo a Itália à Padânia, país imaginário defendido pela Liga Norte, supostamente composto por regiões do norte e do centro da península.

Em setembro de 2007, Borghezio foi preso em Bruxelas em uma manifestação contra a “islamização” da Europa. Por conta de suas posições, o euro-parlamentar já foi agredido duas vezes. Em um delas, dentro de um trem, um desconhecido quebrou seu nariz com um soco.

Mesmo que não seja consenso entre seus pares, Borghezio continua a representar o partido no Parlamento.

Esquerda, direita, fascista?
Para entender a Liga Norte é preciso deixar na estante os velhos livros de teoria política. Ao mesmo tempo em que abriga extremistas acusados de xenofobia como Mario Borghezio, o partido defende posições historicamente consideradas “de esquerda”.

Estão em seus discursos bandeiras como direitos dos trabalhadores (estes, por sua vez, ligados aos sindicatos) e investimentos nos pequenos empreendedores a despeito das grandes multinacionais. “É um partido fortemente ligado ao território local, exatamente como era o Partido Comunista Italiano”, explica Maria Sofia Corciulo, professora de História das Instituições Políticas na universidade La Sapienza de Roma.

Acusados de neofascistas, os leguistas se defendem. Alegam que o fascismo era um movimento de motivações nacionalistas, justamente o contrário do que a Lega prega: regionalização da Itália, menos poder ao Estado central e mais força às comunidades. “Não são neofascistas, nem da direita tradicional”, explica Giacomo Pacini, historiador dedicado à política italiana a partir dos anos 70. “A Lega, nos últimos anos, está crescendo e colhendo votos da esquerda e da direita justamente por ser um partido pragmático que não aposta em ideologias”.

O fermento do movimento leguista parece estar na observação atenta das mudanças do mundo na última década. Pacini explica: “o voto ideológico desapareceu juntamente com as classes sociais no velho estilo monolítico. Hoje, as pessoas se preocupam mais com a própria carteira do que com os grandes ideais”. Exemplo disso são os operários. Com o dissolução da “classe operária” – que votava maciçamente na esquerda – a Lega consegue colher votos dos próprios trabalhadores de fábricas, algo impensável em um passado não muito distante.

A estrutura da Lega deve ser seguida por outros grupos no país. O Partido Democrático (PD), maior força da esquerda, deve ser o primeiro. Cambaleante após as eleições regionais, o PD, que governava 11 regiões e ficou com sete depois da abertura de urnas, já discute a possibilidade de mudança. Na semana passada, o ex-premiê Romano Prodi declarou à imprensa que seu partido precisa se modernizar, descentralizando poder. Justamente uma das características mais fortes da Lega. “Seu poder está no investimento feito em líderes regionais”, anota Maria Sofia Corciulo. “É um modelo que se provou vencedor e que muitos outros partidos deverão seguir”.

O pragmatismo da Liga Norte pode ser facilmente compreendido em sua relação com o hoje premiê Silvio Berlusconi. Em 1995, Umberto Bossi, número 1 da Lega, comparou Berlusconi a Mussolini ao dizer que ambos faziam uso de monopólios televisivos para sustentar o próprio poder. Berlusconi, em resposta, declarou que “jamais se sentaria em uma mesa em que Umberto Bossi estivesse sentado”. Dois anos depois, Bossi voltou a apontar os canhões contra Il Cavaliere, dizendo que havia provas de que o dinheiro que ajudou a formar o império financeiro de Berlusconi era investimento direto da máfia siciliana Cosa Nostra.

No começo dos anos 2000, parte da Liga Norte aliou-se à coligação de centro-esquerda liderada por Romano Prodi para derrotar Silvio Berlusconi. Como sinal do mar agitado da política italiana, em 2006 a Lega participou da coligação que reelegeu Berlusconi e hoje ocupa importantes ministérios. A primeira semana de abril deste ano selou mais uma fase emblemática do partido mais polêmico da Itália: após o sucesso nas urnas, Bossi e Berlusconi se reuniram reservadamente para decidir o futuro do país. Na pauta, federalismo fiscal (sonhado pela Lega), reforma da Justiça e presidencialismo (encampados por Berlusconi).

Sobre separatismo e sobre a Padania, nenhuma palavra. “A Lega não quer mais a Padania, isso é claro. Um que outro político ainda defende isso, mas o partido entendeu que quando parou de falar nesse assunto a se concentrou em temas concretos como trabalho e segurança seus votos se multiplicaram”, aponta Pacini. A ideologia não é a luz a iluminar os salões do norte.”

LÚCIA MÜZELL
Direto de Paris

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Cesare Battisti? Ninguém se importa

Leandro Demori | Itália 16:35 | 11/04/2010

Lula se reunirá amanhã com Silvio Berlusconi. Ambos estarão em Washington para a cúpula sobre segurança nuclear convocada por Barack Obama. Lula e Berlusconi, reservadamente, devem falar sobre Cesare Battisti.

No Brasil e na Itália, o assunto Battisti morreu. A repercussão da reunião de Lula e Berlusconi é zero. Nada. Acontecesse meses atrás, o encontro estaria na pauta da imprensa e guiaria as discussões de quem acredita que a) Battisti é um injustiçado e cometeu crimes políticos b) Battisti é bandido comum.

No Brasil, Cesare Battisti ganhou mais exposição do que sua figura comporta na Itália. Por aqui, qualquer pessoa que conheça o assunto sabe que Battisti é, como se diz, “peixe-pequeno” perto daqueles que o governo italiano realmente quer de volta.

Peixe pequeno, mas de boca grande. Battisti virou alvo por falar de mais. Livre em Paris, escreveu livros, fez amigos importantes, ficou famoso. Estava vivendo “alla grande”, como dizem aqui na Bota — “por cima da carne seca”, em bom português brasileiro. As famílias das quatro pessoas mortas por Battisti ou por seus companheiros consideraram que o ex-revolucionário estava pisando nos cadáveres que deixou. Nem mesmo a esquerda, que presumivelmente deveria defendê-lo, o fez.

O encontro de amanhã pode jogar mais alguma luz sobre essas questões. Poucas, ao que tudo indica. Lula precisa cuidar da sucessão no Brasil, Berlusconi quer começar uma fase de reformas institucionais na Itália. O caso, até ontem de vida ou morte, com declarações exageradas de ambas as nações [aqui e aqui], é hoje uma nota de rodapé.

Na política, assim como no futebol, a torcida logo apaga um campeonato quando outro começa.

Quem tiver curiosidade para saber como vivem os refugiados italianos em Paris pode ler esta reportagem aqui, escrita por mim e pelo Mário Camera para a revista IstoÉ.

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