Semana Xinjiang feliz
Xinjiang, a “nova fronteira”, não é só uma região “‘autônoma” chinesa, ela compreende mais de um sexto do território chinês, faz fronteira com 8 países, possui valiosas reservas minerais e energéticas e, para azar do partidão, é a terra de uma minoria étnica muçulmana com sonhos separatistas.
A região ganhou os noticiários internacionais em julho do ano passado após protestos de representantes da etnia Uigur tornarem-se violentos e acabarem em pancadaria com chineses Han (maioria étnica) e com a polícia. O resultado: mais 190 mortos, pelo menos 1700 feridos e umas 25 penas de morte já emitidas pela Justiça. Quase imediatamente após os confrontos, Internet, mensagens de texto e ligações internacionais foram suspensas na região. Quando visitei o local em outubro o clima ainda era tenso, com batalhões especiais da polícia e do exército patrulhando as ruas da capital Urumqi e realizando inspeção de documentos e carros em diversos pontos da cidade de Kashgar — chegavam ao cúmulo de bisbilhotar até mesmo as carteiras das pessoas mais humildes que passavam.

Não é de hoje que Xinjiang é uma dor de cabeça crônica, quase, assim, uma enxaqueca, para o PCC. Com os ataques às torres gêmeas de 2001, a China viu uma oportunidade de ganhar o apoio gringo para lidar com a etinia-problema e deixou de refererir-se a eles como “separatistas de Xinjiang”, passando a descrevê-los como “terroristas do Turquestão Oriental”. A estratégia deu tão certo que o Movimento pela Independência do Turquestão Oriental ganhou status de organização terrorista pelos EUA e pela ONU e mais de 20 uigures foram parar em Guantánamo.

Buenas, chega de falar do passado e vamos aos acontecimentos que fizeram com que o projeto “xinjiang semana feliz” do partidão fosse alcançado com sucesso.
Sexta-feira passada, 14 de maio, Xinjiang voltou a fazer parte do mundo que consideramos normal quando teve o acesso à Internet totalmente restaurado (totalmente = Internet – sites bloqueados pela #GFW). Euforia, lágrimas e preocupação tomaram conta da população, como nos conta o China Daily:
“Nosso lucro quase dobrou depois que a Internet foi cortada “, disse um gerente chamado Zhang no Karaoke Bayinhe Club em Urumqi, capital regional.” Mas as reservas caíram drasticamente no fim de semana porque a Internet está de volta. Parece que nossos bons tempos acabaram.”
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“Temos realmente nos beneficiado com o bloqueio da Internet, por isso, embora eu pessoalmente esteja contente de ver que a Internet está de volta, para lojas de DVD não é uma boa notícia”, disse Li Ping, dono de uma loja de DVD, no domingo.
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“Eu derramei lágrimas quando visitei o Baidu (ferramenta de busca mais popular na China)”, escreveu um internauta na iyaxin.com.cn, um site baseado em Xinjiang, apenas uma hora depois [da volta da Internet]. “A retomada do serviço mostra que o tprotestos foram organizados através da Internet) e não tem medo deles.”
Li Bin, um trabalhador do banco de 32 anos de idade, Urumqi, foi acordado no meio da noite às 2 da manhã por um de seus animados amigos.
“Meu amigo estava, literalmente, gritando do outro lado do telefone”, disse ele. “Ele me disse que a Internet estava de volta. Eu não acreditei no início, porque tem havido muitos rumores circulando sobre quando a proibição será levantada e nenhum deles era verdadeiro. Você pode ver como o povo de Xinjiang está desesperado para ser reconectado.”
Tantas declarações emocionadas parecem contradizer os resultados da pesquisa realizada pelo mesmo jornal e que perguntou aos moradores de Urumqi como suas vidas foram afetadas pelas restrições. 69% afirmaram que sua vidas tinham sido apenas “levemente afetadas”, 21% disseram que não foram afetadas de modo algum e 10% responderam que tiveram suas vidas severamente afetadas.
Após 312 dias de praticamente nenhuma possibilidade de contato com o mundo exterior (ao longo desses 10 meses o governo foi gradualmente liberando algumas funcionalidades), a “novidade” não veio sozinha e, junto com o anúncio, uma carta aberta do governo regional direcionada ao internautas foi publicada. O texto destaca a importância da internet como ferramenta de aproximação entre o governo e o povo e, sutilmente, recomenda cautela dos usuários:
Devemos valorizar a estabilidade duramente conquistada hoje, valorizar do ambiente completamente aberto da Internet e usar a Internet para a expressão do bem e a serviço do que é bom.
Ainda se recuperando do choque positivo causado pela volta da Internet, ontem Xinjiang foi novamente surpreendida por boas novas vindas do governo central. Foi revelado um pacote de apoio com “a ambiciosa meta de impulsionar o desenvolvimento e manter a estabilidade na região, que possui ‘uma particular e estratégica significância’”. Segundo Hu Jintao, a manutenção da estabilidade social e a obtenção de um rápido desenvolvimento são prioridades gêmeas. No texto que estampa a capa do China Daily de hoje a palavra “estabilidade” é citada 5 vezes, mas, além disso, também são descritas as medidas que visam o desenvolvimento econômico da região.
Agora resta saber até quando tanto otimismo vai durar. Se depender do novo governador de Xinjiang, Zhang Chunxian, a coisa não vai muito longe:
“Devemos combater duramente todas as atividades separatistas e destrutivas provocadas pelas três forças do terrorismo, separatismo e extremismo religioso.”



















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