Comemore, brazileiro

braziu.org 22:19 | 27/11/2010

O leitor Andreas nos deu uma bofetada – e com razão. Provocou – e com razão. Nós pensamos em relatar impressões. Nós discutimos, mas e daí? Fizemos? “Matéria boa é matéria publicada”, já diz um velho ditado jornalístico. E mesmo que tivéssemos feito, convenhamos: isso mudaria alguma coisa? Quais as perguntas que realmente devemos fazer, mais além da perplexidade?

Não. Não mudaria muita coisa. A mudança depende de decisões fundamentais. Mas também o silêncio é a covardia. A intenção e a boa vontade são um espelho de um mundo que não existe. A verdade é dura, podre, suja e triste. O mundo é feio, mesmo que tentemos mascarar o horror.

Aqui, uma resposta à provocação como uma espécie de pedido de desculpas. Ao que escreveu o Andreas, mas – mais do que isso – ao conceito que nos atirou contra o rosto. Ser brasileiro, disse sem saber, é ter coragem de mostrar o que não somos, como no vídeo comercial acima.

Sejamos dignos e assumamos nossa desgraça.

- Equipe braziu.org -

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A censura no Figaro, os aviões Rafale e o governo Lula na imprensa francesa

Gabriel Brust | França 19:22 | 06/10/2010


Brasil, Terreno fértil para empresas francesas“, diz o Figaro

Lembra dos Rafales, aqueles aviões militares fabricados pelos franceses que ninguém no mundo queria comprar a não ser o Lula? O presidente atropelou as Forças Armadas ao anunciar o negócio bilionário, por razões políticas, mesmo com todos os especialistas apontando os Rafales como a pior opção do mercado, verdadeiras sucatas voadoras. Lula voltou atrás, e a compra segue em suspenso. Pois os Rafales voltaram ao noticiário francês de forma meio enviesada. O caso é sobre o jornal conservador Le Figaro e foi denunciado pelo Le Monde, em solidariedade aos colegas jornalistas do concorrente. Senta que lá vem a história.

O Figaro é assumidamente a voz conservadora da França – mesmo que isso signifique, para os padrões franceses, ser tão de direita quanto o Frei Betto. Acontece que nos últimos tempos começou a haver uma debandada de importantes jornalistas, ao ponto de a SDJ do jornal (as SDJs são as associações de jornalistas que cada redação tem) abrir uma investigação para saber o que estava acontecendo. O objetivo era apurar as denúncias de que os jornalistas estariam trabalhando sob níveis excessivos de pressão do diretor de redação e da empresa proprietária do jornal no sentido de radicalizar a linha editorial. O proprietário do Le Figaro é nada menos que o grupo Dassault, uma holding gigante que atua em diferentes mercados – incluindo a fabricação dos aviões Rafale.

A principal reclamação dos jornalistas, segundo a investigação do SDJ, é a linha exageradamente favorável a Nicolas Sarkozy, o que estaria emudecendo inclusive outras vozes conservadoras do país. Um exemplo, segundo declarou um redator em depoimento obviamente anônimo, foi a declaração do papa Bento XVI criticando a política de deportação dos ROMS, um das obsessões de Sarkozy. O jornal teria ignorado o discurso do Papa, mesmo que a forte cobertura católica seja uma das tradições do Figaro.

O outro exemplo que surgiu nessa investigação – e agora chegamos finalmente aos Rafales – foi o de uma reportagem publicada no mês de junho que denunciava a compra de “materiais de segurança” israelense por parte dos Emirados Árabes Unidos. Acontece que o governo dos Emirados não gostou nem um pouco da reportagem investigativa do Le Figaro. E pior: estava em plena negociação para comprar uma meia-dúzia de Rafales e finalmente desencalhar o estoque da Dassault.

Baixou-se então uma ordem clara na redação do jornal — que foi fundado em 1826 e tinha justamente na cobertura internacional independente um de seus pilares –: artigos que envolvessem países com os quais a Dassault estava negociando os Rafales teriam que passar por uma leitura “sob a lupa”, antes de serem publicados. E, dessa forma, todos os artigos sobre Brasil, Líbia, Emirados Árabes e Suíça entraram na roda. Segundo jornalistas, pelo menos duas reportagens foram inteiramente censuradas no último mês de agosto. Nenhuma das duas envolve o Brasil. Já a página inteira dedicada pelo jornal a Lula no mês passado, intitulada “Como Lula Mudou o Brasil” (reprodução no fim deste post), um amontoado de mistificações e clichês, não sofreu, obviamente, nenhum retoque.

O episódio ajuda a explicar por que não se publica, na imprensa francesa, uma única linha verdadeiramente crítica ao governo Lula. De um lado, há a imprensa de direita, de Sarkozy e dos empresários, querendo vender seus aviões e quetais. Do outro, com a imprensa de esquerda, muda apenas a natureza do interesse, se tornando mais ideológico. Jornais como o Liberation e revistas as mais diversas, sedentos em ter um exemplo de sucesso esquerdista depois de seu fracasso retumbante administrando a Europa, costumam traduzir releases do PT e do governo brasileiro e publicá-los como sendo reportagens. Tente contar a qualquer francês que dois ministros da Casa Civil do governo Lula caíram por corrupção – fato provavelmente inédito na história da república – e que o serviço de saúde pública e a criminalidade urbana no Brasil nunca estiveram piores. Surgirá uma cara de espanto. Não será pela imprensa de seu país que eles ficarão sabendo disso.

Como Lula Transformou o Brasil“, na opinião do fabricante dos aviões Rafale

Dom Pedro Segundo entrevista: Leonel Brizola

Leandro Demori | Itália 14:30 | 22/09/2010

Aumente o volume e feche a boca

Leandro Demori | Itália 07:07 | 18/09/2010

Japoneses e suas máquinas fotográficas.

Japoneses no Coliseu, japoneses na Fontana di Trevi.

Japoneses em Roma, em Napoli, em Veneza.

Japoneses.

Minha vida é um constante desviar de japoneses.

Os japoneses na Europa carregam mais do que suas frenéticas máquinas fotográficas. Agora, eles também vêm acoplados a sacolas de lojas de grife. Japoneses e a Dolce & Gabbana, japoneses e a Prada, japoneses e as sacolas negras de Giorgio Armani.

Enquanto nós ocidentais temos vontade de futuro — cachorros-robô, domésticas-robô, amantes-robô — os japoneses têm vontade de passado. Nada melhor do que o mundo kitsch das grifes italianas para ajudar na viagem.

Se você encontrar algum japonês na Europa que não esteja carregando uma sacola de grife é porque o japonês é, na verdade, chinês.

Os chineses são os japoneses que deram errado. Enquanto os jovens chineses filhos de agregados do partido único viajam a Tóquio e se martirizam por não terem nascido lá, milhões de outros jovens chineses trabalham como condenados em fábricas de roupas e eletroeletrônicos.

Os chineses a cores que veem no Japão os Estados Unidos da Ásia compram iPhones produzidos em seu próprio país por aqueles outros chineses, os semi-escravos em preto & branco. As roupas de grife compradas pelos japoneses na Europa também são produzidas pela mesma classe operária.

A China é hoje um dos maiores buracos negros de informação e desrespeito aos direitos humanos do mundo. Os Estados Unidos e a União Europeia estão se lixando para os direitos humanos. Obama e os líderes europeus morrem de medo da China.

Não há comoção social porque ninguém realmente sabe o que acontece do lado de lá da Muralha. Na China, a imprensa é toda encoleirada pelo governo. Enquanto no Brasil muita gente bate as pernas porque a imprensa faz “oposição demais”, os políticos da China dormem o sono dos anjos. Os chineses têm certeza de que o mal maior não está na carga de trabalho bestial ou nos salários miseráveis, mas no excesso de liberdade de expressão.

Alguém há de aproveitar o poder de compra que temos hoje no Brasil. Com todo mundo no shopping center, não há momento melhor para acabar com esse absurdo de qualquer um falar o que pensa. Aproveitem. Enquanto chegarem iPhones e roupas kitsch a bom preço, ninguém nem se dará conta.

Jornalismo farofeiro: um novo mundo é possível (mas é uma droga)

Leandro Demori | Itália 12:39 | 16/09/2010

Os destaques do trecho abaixo são meus:

Aos 19 anos, seu filho Israel entrou no mundo dos negócios como sócio de uma empresa montada pela mãe e registrada em nome de uma professora casada com um auxiliar de bombeiro hidráulico. Seu nome: Asa Imperial. O propósito: “atividades de investigação particular”, “segurança e vigilância privada”. (O PT conquistara o governo de Brasília havia dois anos, em 1995, e Erenice chefiava o gabinete do secretário de Segurança da cidade.)

Em 2006, Israel tornou-se gerente técnico da maternal Agência Nacional de Aviação Civil. Dois anos depois pousou no gabinete do senador Leomar Quintanilha (PMDB-TO). Saulo, irmão de Israel, é dono da Capital Assessoria e Consultoria Empresarial, contratada por uma linha aérea para azeitar a venda de serviços aos Correios. Tem como sócia Sonia Castro, mãe de Vinicius Castro (ex-Anac), sobrinho do ex-diretor de operações dos Correios.

Até segunda-feira, ele foi assessor da secretaria-executiva da Casa Civil. Antonio Eudacy Alves Carvalho, irmão de Erenice, esteve na Controladoria-Geral da União e na Infraero, mãe de tantos bons companheiros. Maria Euriza de Carvalho, outra irmã da doutora, trabalhou no Ministério do Planejamento e é consultora da Empresa de Pesquisa Energética, de onde contratou, sem licitação, o serviço da banca de advocacia onde trabalhava Eudacy. José Euricélio, outro irmão de Erenice, foi funcionário do Ministério das Cidades.

Ao longo de 15 anos, a partir da instalação de um governo petista no Distrito Federal, quatro filhos e dois netos do pedreiro do Alvorada passaram por pelo menos 14 cargos nas áreas de transportes, saúde, planejamento, segurança, energia e burocracia legislativa.

Todo o goLLpismo acima não foi escrito por Reinaldo Azevedo ou Augusto Nunes: está na coluna do Élio Gaspari de ontem, publicada na Folha de S. Paulo. Não podemos chamar Élio Gaspari de “golpista”, podemos? Anti-Lula? Elitista?

Lido assim, solto, o artigo de Élio é de um rigor investigativo apurado. Estão ali todos os nomes da família Guerra, seus sócios, suas empresas, os cargos que ocuparam, os interesses que defenderam. Para o azar de Gaspari e sorte da vida real, a vida real costuma ser um pouco menos bondosa.

Todas essas ligações foram feitas pela Veja, seja na reportagem que denuncia o lobbismo de Israel Guerra, seja nos blogs dos titulares citados acima nos momentos sucessivos à publicação. Mas publicado lá, na Veja, segundo a ótica de quem usa óculos seletor de verdades convenientes, não vale.

Logo após a edição da revista ter sido repercutida pela imprensa, uma bateria anti-crise começou a operar em blogs e twitters. A primeira crítica à reportagem era que o empresário que denunciou o esquema “não existia”.

[a saber se você vive na lua (provável): o filho da ministra da Casa Civil utilizaria a influência da mãe para "assessorar" empresas que quisessem obter financiamentos e licitações junto ao governo. Em troca, $$$].

Tuiteiros diziam coisas como “não há nenhuma referência a Fábio Baracat no Google”. Pela mesma lógica, pensei, minha mãe também não existe.

Um dos blogs mais “progressistas” do momento postou isso:

“Fraude na Revista Veja: dono da empresa não existe, é uma farsa”

No texto, uma “pequena” correção de rota:

Não existe esse dono na empresa.

Como não posso acusar os titulares do blog de semi-analfabetos — isso soaria “elitista, conservador, serrista, neocon e malvado” — só posso presumir má fé. Uma das críticas que os paladinos da Justiça fazem à Grande Mídia Má é justamente a “manipulação”. Como jornalista, sei que metade (ou mais) das pessoas só lêem títulos. Escrever que “dono da empresa não existe” é, justamente, “manipular” uma informação. O dono existe. O que ele não é, segundo o blog, é sócio da empresa.

Você sabe se uma notícia é potencialmente perigosa quando os atingidos (ou defensores dos mesmos, por ideologia [haha], interesse ou esporte) começam a atacar o emissor, e não a mensagem. Foi o passo seguinte, e não foi feito por “gente qualquer” e que não tenha nada a ver com o PT, mas por pessoas ligadas ao partido. Em um ataque bastante adulto e maduro, “descobriram” (jornalismo investigativo goooooogle) que o titular da reportagem ganhou uma bolsa de estudos nos EUA patrocinada por um instituto ligado aos “inimigos”.

É uma lógica interessante.

Todos os comunistas que ganham bolsas para estudar nos EUA, pátria do capitalismo e do anti-comunismo, por exemplo, são automaticamente inválidos e querem destruir o sonho. É por aí? Ou: se você receber um ditador, líder de um sistema que apedreja mulheres, você está mancomunado com aqueles interesses. É isso? Ainda estou refletindo, descuLLpem [Tico & Teco estão dormindo].

A matéria da Veja desencadeou uma série de outras matérias na imprensa brasileira. A mais recente, de hoje, é da Folha:

Empresa acusa filho de Erenice de cobrar comissão para liberar crédito no BNDES

O contra-ataque já veio: o empresário que denunciou esse novo esquema tem ficha criminal e “acabou de sair da cadeia“. Logo: esqueçam tudo o que ele está dizendo.

Por sorte, a vida real, essa safadinha, nos salva mais uma vez.

A Itália tem dois períodos republicanos, duas “repúblicas”. Uma delas foi criada no pós-guerra e durou de 1946 até 1992-94. A segunda (Seconda Repubblica) veio em seguida e dura até hoje. O que motivou essa divisão foi um caso de corrupção que pegou todos os partidos a ponto de destruí-los. Foram dissolvidos e, com seus esqueletos, os políticos velhos e os novos aventureiros fundaram outros. Berlusconi, por exemplo, surgiu nesse momento. Seu mote de campanha era (adivinhem?) “votem no novo”.

A principal arma da Justiça à época foram os pentiti — em uma tradução simplista, “arrependidos” –, gente que vivenciou o mundo do crime e decidiu contar tudo. Hoje, a máfia mais poderosa do país, a ‘Ndrangheta, se vale justamente dos laços familiares e afetivos entre seus membros para evitar ao máximo a eclosão de pentiti, perigos máximos para o sistema criminal.

Fico imaginando o que diriam os juízes Falcone e Borselino, símbolos da luta contra a máfia, mortos por atentados à bomba, se vissem essa gente dizer que uma denúncia deve ser ignorada por que o denunciante tem ficha criminal. Tem vezes que é melhor estar morto.

Há pouco, a imprensa publicou notícias de que Erenice Guerra pedirá demissão. Por “a imprensa” falo de Folha e Estadão que, assim como a Veja, são alvos diretos da militância que acredita saber o que é trabalhar com informação mas que só consegue fazer jornalismo farofa. Quando querem conteúdo relevante, os farofeiros vão buscar do lado de lá das trincheiras imaginárias.

Para começar a levar a sério a tarefa de melhorar a imprensa brasileira — que precisa ser melhorada, sem dúvida alguma — e achar que é alternativa viável aos veículos que estão na banca, seria bom parar de brincar de ombudsman justiceiro e começar e produzir o que realmente interessa: informação.

José Sarney é preso por comprar carne humana com nota de R$ 3,00

Leandro Demori | Itália 12:49 | 27/08/2010

Juram por aí que Otto Von Bismarck cunhou a frase: “Leis são como salsichas; é melhor não saber como são feitas”. Nos últimos anos, a imprensa enriqueceu o ditado (fazendo parte dele): “Leis e jornais são como salsichas; é melhor não saber como são feitos”. Muito mais por escassez de tempo, salários duvidosos e gente inexperiente ou preguiçosa povoando as redações do que por trabalho mal-intencionado, está cada vez mais fácil enganar a classe.

Para ficar em um exemplo recente:

Internautas inventam jogador no Facebook e enganam imprensa espanhola [Revista Imprensa]

Recebo todas as manhãs o clipping feito pela Embaixada Brasileira em Roma com notícias na imprensa italiana que falam do Brasil. Hoje, duas delas me chamaram atenção (publicadas por Il Giornale e Agência Ansa):

Il Giornale Germania. Brasiliano apre un ristorante di piatti cannibali
Ansa Berlino: cucina cannibale in ristorante

Dizem que um brasileiro está abrindo um restaurante canibal em Berlim.

Sou totalmente crente em relação à vida real profunda [superior à ficção] e à capacidade empreendedora brasileira — duvido muito pouco das notícias absurdas que saem por aí. Mas essa foi demais, e realmente bastaram 5 segundos para descobrir (ou ao menos ter sérias dúvidas) de que é mais um hoax tão falso quanto a prisão de José Sarney ou nota de R$ 3,00. Um hoax que, de tão óbvio, pegou todo mundo:

Guardian
Spiegel
Ansa
RTP
Expresso

A Folha, que também deu a notícia, “até tentou entrar em contato com o restaurante”, mas não conseguiu. Diz a boa cartilha que, nesse caso, não se publica. Pois é.

updates importantes:
1. Vejo agora que vários veículos confirmaram o hoax;
2. Este post foi escrito hoje pela manhã (5 horas avante em relação ao Brasil);
3. Nenhum dos veículos que estão listados acima faz ressalva importante sobre a possibilidade de a notícia ser absurda. Ao contrário, todos deram como verdadeira. Não sou responsável por eventuais “ajustes” nos textos alheios.

Cretinice

Leandro Demori | Itália 13:09 | 11/08/2010

O Brasil é um país fantástico por seu imponderável. A fictícia turista holandesa comprou uma bolsa paga com Visa Electron nas areias da praia de Copacabana logo antes de dormir por 48 horas no saguão do Aeroporto Tom Jobim porque os horários dos voos implodiram. A turista holandesa viu o futuro no pagamento com dinheiro de plástico em frente ao mar (de biquíni provavelmente ridículo cobrindo a pele de branca-neve) e achou aquilo fantástico; depois usou a mesma bolsa como travesseiro por 2 dias seguidos e ficou confusa e intrigada.

O imponderável brasileiro é ainda mais fantástico quando pensamos na violência. O Brasil é o país que mais democratizou a bandidagem no universo. A microcriminalidade é exemplar: na periferia de Roma, como na periferia de Paris ou de qualquer outra metrópole, você é avisado: “não vá lá”. “Lá” é um lugar determinado onde a bolsa que você comprou nas areias do Rio — e que serviu de travesseiro durante as 48 horas compulsórias de aeroporto — pode deixar de ser sua. No Brasil não é assim: assaltos existem a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Não podemos dizer “não vá lá”, a violência é democrática demais e o conselho, inútil.

Roma tem grades nas janelas. Qualquer grande cidade do mundo tem. Quando eu morava em uma casa alugada em Porto Alegre, um bandido caiu do teto enquanto eu dormia. Arrancou algumas telhas, quebrou o forro e se estatelou em cima da mesa da cozinha. Encontrou-me pela manhã ainda na cama, de pijamas, se assustou e saiu correndo. Eu corri atrás, até hoje nem sei o motivo. Ninguém mandou eu desafiá-lo com grades.

Paris tem grades nas janelas. Londres tem. Nova Iorque. Como o imponderável é reduzido nessas cidades, as grades trazem mais segurança psicológica do que qualquer outra coisa. No Brasil, as grades não trazem mais nada, já que chove bandido pelos buracos do teto de casa.

Todo o mundo ocidental é mais ou menos igual. Visa Electron, bolsas, aeroportos, grades. Todo político ocidental se comporta de maneira mais ou menos igual, com pequenas diferenças de vergonha na cara que não fazem de uns menos bandidos do que outros, os fazem só mais cuidadosos com o que as pessoas irão pensar.

Lula dá rosa a Dilma em comício em Belo Horizonte e critica William Bonner” [Folha].

A cretinice política brasileira foge do padrão nacional por não ser imponderável. É previsível e até mesmo desejável. A plateia anseia pela crítica à Mídia Má depois que a Nova Pupila foi “interpelada” pelo Jornalista, e o Mentor atende ao chamado. A lógica é a mesma de “O dia que a imprensa vier aí e essa porra tivé fechada… o prejuízo político é maió du que botá dois guarda pá tomá conta…”. É preciso sempre “botá alguém pá tomá conta”, pra condicionar a audiência de que as críticas são sempre injustas, as perguntas são sempre capciosas e os jornalistas são sempre golpistas. Assim você dissolve os problemas de antemão e ainda paga de injustiçado.

Se esse modo de fazer política fosse um lugar, o conselho valeria ouro: “não vá lá”.

O despertar dos gringos

Gabriel Brust | França 08:44 | 15/06/2010

Um artigo publicado ontem no Wall Street Journal sobre a política externa brasileira dos últimos anos chama a atenção não só pela boa análise, mas por ser uma boa análise feita por um estrangeiro, e não só por ser sobre a política externa, mas por tentar decifrar quem é o atual presidente do Brasil escapando aos clichês ingênuos. Este não é, aliás, o primeiro bom artigo de Mary Anastasia O’Grady sobre o Brasil. Foi também de sua autoria o já célebre “Contenha seu Entusiasmo pelo Brasil“, publicado em abril, em que analisa a política econômica de Lula – herdada do governo anterior –, para concluir que “a melhor coisa que Lula fez como chefe-executivo do País foi não fazer nada”.

Quem acompanha a cobertura da imprensa internacional sobre o Brasil sabe que isso não é pouca coisa. A quantidade de bobagens que se lê na Europa sobre o país e, principalmente, sobre Lula, é enorme. Aqui na França, é 100%. Jamais li qualquer artigo realmente lúcido – não estou pedindo nem que seja crítico, mas simplesmente lúcido – sobre Lula. Para os franceses, o Brasil segue sendo o vale encantado de povo bom e selvagem e, neste contexto, a única figura política possível de surgir é a de um pajé caridoso e redentor, talvez com poderes sobrenaturais advindos da floresta. Se tivesse que resumir, diria que, na França, o filme de Fábio Barreto “Lula, o Filho do Brasil” teria sido levado mais a sério do que em Garanhuns.

De forma direta, O’Grady diz mais uma vez o óbvio na edição de segunda-feira do Wall Street Journal:

“O Partido dos Trabalhadores de Lula é de esquerda, mas não se deve confundir Lula com um aplicado bolchevique. Ele é simplesmente um político esperto, que veio das ruas e ama as limousines. Como primeiro presidente brasileiro do Partido dos Trabalhadores, ele teve de equilibrar as coisas úteis que aprendeu sobre os mercados e as restrições monetárias com a ideologia de sua base de apoio.”

A tese de O’Grady no artigo “Lula’s Dance With the Despots” (A Dança de Lula com os Déspotas, original aqui para assinantes e resumo traduzido aqui) é a de que a política externa se tornou uma moeda de troca do “político esperto” com a sua base mais radical. Para satisfazer à esquerda do partido, Lula entrega um setor importante nas mãos de um notório anticapitalista, Celso Amorim. Dessa forma, tem sido chamado a defender e exaltar os seus heróis, que são alguns dos mais célebres violadores dos direitos humanos do planeta.

Embora qualquer pessoa sensata lamente ver o Brasil nessa posição constrangedora a que Amorim vem nos colocando, a verdade é que a dança lulista com os déspotas tem pelo menos um lado bom: está finalmente abrindo os olhos do mundo para a miséria intelectual que há por trás do tão aclamado governo brasileiro. Aos poucos, os gringos vão percebendo o que qualquer brasileiro bem informado e com dois neurônios já viu há muito tempo: os últimos oito anos foram bons para o Brasil apesar de seu governo, e não por causa dele.

Neodeslumbrados

Gabriel Brust | França 20:39 | 09/06/2010

Há uma faceta bastante irritante (na verdade, há várias) da imprensa francesa que é a do deslumbre com o poder. Não no sentido de querer se aproximar do poder, mas no de conferir um glamour excessivo às atividades do “chef d’État”. Sarkozy costuma ser capa de 90% das revistas semanais por aqui. Mesmo que não haja assunto relevante que envolva o presidente e mesmo que a sua eleição ou sua vida pessoal já tenham deixado de ser novidade há muito tempo, vejo  nas bancas reportagens forçando a barra na linha “o lado oculto de Sarko” ou “a rede de intrigas que cerca Sarko”.

E aí você vai ler, e não há nada. O texto é uma peça vazia. A chamada da capa era uma fantasia, aparentemente para vender revistas. É espantoso que os editores franceses avaliem como realmente apelativa uma capa que traz Sarkozy estampado. No Brasil, capa com apelo de banca é “as 100 maneiras de curar o câncer comendo rabanete” ou “o caso do pai torturador”, jamais a banalidade da política.

Uma boa ilustração desse papel ridículo da imprensa na França — obviamente incentivada pelo ainda mais ridículo interesse das pessoas no suposto glamour da vida do chef d’État — chegou às livrarias esta semana. “Sarkozy Côté Vestiaire” é nada menos do que um livro de 256 páginas falando sobre… os hábitos esportivos de Sarko! E não se trata de uma edição obscura, fadada ao esquecimento precoce. É assinada por dois jornalistas relativamente conhecidos (Bruno Jeudy e Karim Nedjari, do Le Figaro e Canal +) e ganhou até resenha positivíssima na Le Point desta semana. A capa do livro traz uma patética foto de Sarkozy correndo.

Lembrei deste meu incômodo com o deslumbre da imprensa francesa — e de seus leitores — ao ler as manchetes dos jornais brasileiros hoje pela manhã a respeito do crescimento do PIB trimestral divulgado pelo governo. O que parece estar em curso na imprensa brasileira é outro tipo de deslumbramento, mas igualmente costrangedor e ainda mais nocivo que o francês. No lugar do glamour dos bastidores do poder, o deslumbre é com a chegada de uma suposta “nova era” na banânia. A recuperação da economia do país pós-crise é admirável, sem dúvida, mas vender isso como “índice chinês” é enganar o leitor e o pior: é publicar o release do governo. A maior parte dos jornais, para poder dizer que saiu com algum “olhar crítico” apesar da manchete, apostou em uma linha de apoio, no final, lembrando “o risco de superaquecimento”. Pois era esse tipo de crítica ingênua que  Guido Mantega esperava dos jornais ontem ao dar a notícia. É o mesmo que você dizer para o seu amigo “é, mas a ressaca do dia seguinte foi terrível…” depois de contar que passou a noite bebendo whisky no apê da Ellen Roche!

O que Guido Mantega não queria ler na capa é o óbvio, que o pulo de 9% do primeiro trimestre de 2010 só aconteceu porque partiu de outro recorde: queda de 2,1% do PIB no primeiro trimestre de 2009. O fato é que o Brasil encolheu 0,2% em 2009 e a China cresceu 8,7%.

O caso do PIB é só um entre muitos outros exemplos, que passam pelo Bolsa Família, pelo Luz para Todos e pelo PAC. Em cada um destes casos a versão do governo pode ser desmontada facilmente fazendo apenas jornalismo. A questão é que esse neodeslumbre da imprensa brasileira é fato e me parece claramente mais grave nos veículos locais ou regionais. Enquanto os grandes jornais, praticamente todos baseados no Rio de Janeiro e em São Paulo, costumam ser chamados de “ranzinzas” simplesmente porque fazem jornalismo, e não propaganda do governo, vemos uma tendência, entre os regionais, em celebrar “um novo Brasil” de uma forma incrivelmente perigosa para o seu leitor e para  o país.

As causas? São muitas. Incluem sim um maior grau de dependência a uma tradicional política de “cordialidade” de seus proprietários com o governo federal, mas creio que passa muito mais pela incompetência e por uma terrível cultura da “boa notícia”, do “jornal que sorri para o leitor”, que anda cada vez mais popular entre os chefes de redação. Temos no Brasil jornais que são verdadeiros “cases” de arrevistamento bem sucedido, o que passa muito pela maneira “amigável” através da qual conseguem se comunicar com seu leitor. Isso é ótimo. Só que essa maneira amigável, às vezes, resvala para o mau jornalismo – ou simplesmente a falta dele. Fazer jornalismo implica em encarnar o chato, aquele cara que te lembra, depois da noitada com a Ellen Roche, que o problema não é a ressaca. É o cara que te pergunta: “Tu tem certeza que tu dormiu com a Ellen Roche? Tu bebeu demais, sabe como é… As loiras todas se parecem….”. E por aí vai.

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