Os destaques do trecho abaixo são meus:
Aos 19 anos, seu filho Israel entrou no mundo dos negócios como sócio de uma empresa montada pela mãe e registrada em nome de uma professora casada com um auxiliar de bombeiro hidráulico. Seu nome: Asa Imperial. O propósito: “atividades de investigação particular”, “segurança e vigilância privada”. (O PT conquistara o governo de Brasília havia dois anos, em 1995, e Erenice chefiava o gabinete do secretário de Segurança da cidade.)
Em 2006, Israel tornou-se gerente técnico da maternal Agência Nacional de Aviação Civil. Dois anos depois pousou no gabinete do senador Leomar Quintanilha (PMDB-TO). Saulo, irmão de Israel, é dono da Capital Assessoria e Consultoria Empresarial, contratada por uma linha aérea para azeitar a venda de serviços aos Correios. Tem como sócia Sonia Castro, mãe de Vinicius Castro (ex-Anac), sobrinho do ex-diretor de operações dos Correios.
Até segunda-feira, ele foi assessor da secretaria-executiva da Casa Civil. Antonio Eudacy Alves Carvalho, irmão de Erenice, esteve na Controladoria-Geral da União e na Infraero, mãe de tantos bons companheiros. Maria Euriza de Carvalho, outra irmã da doutora, trabalhou no Ministério do Planejamento e é consultora da Empresa de Pesquisa Energética, de onde contratou, sem licitação, o serviço da banca de advocacia onde trabalhava Eudacy. José Euricélio, outro irmão de Erenice, foi funcionário do Ministério das Cidades.
Ao longo de 15 anos, a partir da instalação de um governo petista no Distrito Federal, quatro filhos e dois netos do pedreiro do Alvorada passaram por pelo menos 14 cargos nas áreas de transportes, saúde, planejamento, segurança, energia e burocracia legislativa.
Todo o goLLpismo acima não foi escrito por Reinaldo Azevedo ou Augusto Nunes: está na coluna do Élio Gaspari de ontem, publicada na Folha de S. Paulo. Não podemos chamar Élio Gaspari de “golpista”, podemos? Anti-Lula? Elitista?
Lido assim, solto, o artigo de Élio é de um rigor investigativo apurado. Estão ali todos os nomes da família Guerra, seus sócios, suas empresas, os cargos que ocuparam, os interesses que defenderam. Para o azar de Gaspari e sorte da vida real, a vida real costuma ser um pouco menos bondosa.
Todas essas ligações foram feitas pela Veja, seja na reportagem que denuncia o lobbismo de Israel Guerra, seja nos blogs dos titulares citados acima nos momentos sucessivos à publicação. Mas publicado lá, na Veja, segundo a ótica de quem usa óculos seletor de verdades convenientes, não vale.
Logo após a edição da revista ter sido repercutida pela imprensa, uma bateria anti-crise começou a operar em blogs e twitters. A primeira crítica à reportagem era que o empresário que denunciou o esquema “não existia”.
[a saber se você vive na lua (provável): o filho da ministra da Casa Civil utilizaria a influência da mãe para "assessorar" empresas que quisessem obter financiamentos e licitações junto ao governo. Em troca, $$$].
Tuiteiros diziam coisas como “não há nenhuma referência a Fábio Baracat no Google”. Pela mesma lógica, pensei, minha mãe também não existe.
Um dos blogs mais “progressistas” do momento postou isso:
“Fraude na Revista Veja: dono da empresa não existe, é uma farsa”
No texto, uma “pequena” correção de rota:
Não existe esse dono na empresa.
Como não posso acusar os titulares do blog de semi-analfabetos — isso soaria “elitista, conservador, serrista, neocon e malvado” — só posso presumir má fé. Uma das críticas que os paladinos da Justiça fazem à Grande Mídia Má é justamente a “manipulação”. Como jornalista, sei que metade (ou mais) das pessoas só lêem títulos. Escrever que “dono da empresa não existe” é, justamente, “manipular” uma informação. O dono existe. O que ele não é, segundo o blog, é sócio da empresa.
Você sabe se uma notícia é potencialmente perigosa quando os atingidos (ou defensores dos mesmos, por ideologia [haha], interesse ou esporte) começam a atacar o emissor, e não a mensagem. Foi o passo seguinte, e não foi feito por “gente qualquer” e que não tenha nada a ver com o PT, mas por pessoas ligadas ao partido. Em um ataque bastante adulto e maduro, “descobriram” (jornalismo investigativo goooooogle) que o titular da reportagem ganhou uma bolsa de estudos nos EUA patrocinada por um instituto ligado aos “inimigos”.
É uma lógica interessante.
Todos os comunistas que ganham bolsas para estudar nos EUA, pátria do capitalismo e do anti-comunismo, por exemplo, são automaticamente inválidos e querem destruir o sonho. É por aí? Ou: se você receber um ditador, líder de um sistema que apedreja mulheres, você está mancomunado com aqueles interesses. É isso? Ainda estou refletindo, descuLLpem [Tico & Teco estão dormindo].
A matéria da Veja desencadeou uma série de outras matérias na imprensa brasileira. A mais recente, de hoje, é da Folha:
Empresa acusa filho de Erenice de cobrar comissão para liberar crédito no BNDES
O contra-ataque já veio: o empresário que denunciou esse novo esquema tem ficha criminal e “acabou de sair da cadeia“. Logo: esqueçam tudo o que ele está dizendo.
Por sorte, a vida real, essa safadinha, nos salva mais uma vez.
A Itália tem dois períodos republicanos, duas “repúblicas”. Uma delas foi criada no pós-guerra e durou de 1946 até 1992-94. A segunda (Seconda Repubblica) veio em seguida e dura até hoje. O que motivou essa divisão foi um caso de corrupção que pegou todos os partidos a ponto de destruí-los. Foram dissolvidos e, com seus esqueletos, os políticos velhos e os novos aventureiros fundaram outros. Berlusconi, por exemplo, surgiu nesse momento. Seu mote de campanha era (adivinhem?) “votem no novo”.
A principal arma da Justiça à época foram os pentiti — em uma tradução simplista, “arrependidos” –, gente que vivenciou o mundo do crime e decidiu contar tudo. Hoje, a máfia mais poderosa do país, a ‘Ndrangheta, se vale justamente dos laços familiares e afetivos entre seus membros para evitar ao máximo a eclosão de pentiti, perigos máximos para o sistema criminal.
Fico imaginando o que diriam os juízes Falcone e Borselino, símbolos da luta contra a máfia, mortos por atentados à bomba, se vissem essa gente dizer que uma denúncia deve ser ignorada por que o denunciante tem ficha criminal. Tem vezes que é melhor estar morto.
Há pouco, a imprensa publicou notícias de que Erenice Guerra pedirá demissão. Por “a imprensa” falo de Folha e Estadão que, assim como a Veja, são alvos diretos da militância que acredita saber o que é trabalhar com informação mas que só consegue fazer jornalismo farofa. Quando querem conteúdo relevante, os farofeiros vão buscar do lado de lá das trincheiras imaginárias.
Para começar a levar a sério a tarefa de melhorar a imprensa brasileira — que precisa ser melhorada, sem dúvida alguma — e achar que é alternativa viável aos veículos que estão na banca, seria bom parar de brincar de ombudsman justiceiro e começar e produzir o que realmente interessa: informação.