Eles estragaram a Pompeia do Pepe
O portenho Pepe, 81, monta nos finais de semana na esquina entre as ruas Defensa e Humberto Primo, na Plaza Dorrego, uma pequena banca com a qual vende chaveiros e pequenas estátuas do Obelisco ou de bonecos tangueiros. Descobri no último sábado que o simpático senhor é bancário aposentado e que decidiu voltar ao laburo faz 20 anos para complementar os mangos que recebe mensalmente da Administração Nacional de Previdência Social (Anses).
Tente visualizar o cenário. A praça é centro da permanente efervescência turística que transforma o bairro de San Telmo durante o dia. Os visitantes vêm do mundo todo, mas são os brasileiros os que imperam. O público jovem chama a atenção. São dezenas de albergues oferecendo uma cama e um espaço na geladeira por poucos pesos argentinos.
Antiquários, estilistas independentes, artistas de rua, prédios e cafés centenários dão uma ideia do que se vê por aquelas ruas. Foi em uma dessas vias onde semanas atrás uma mãe e o filho de olhos azuis e cabelos dourados me olhavam profundamente e espantados enquanto tomava um mate, solito e sentado no cordão de uma calçada. Cheguei a ver a mulher apontando-me o dedo enquanto levava a bomba em direção à boca. Devia ser um ato exótico – ou erótico, para eles. Gringos e latinos têm culturas muito diferentes…
Perdoem-me pela simplicidade do relato os que conhecem Buenos Aires. Como sabem, trata-se de uma belíssima cidade.
Talvez por precaução, trato de interagir com as pessoas em locais politicamente associativos, como no supermercado, na Igreja anglicana, no subte, no ônibus, nos botecos em geral ou nos bolichos onde se dança zamba. Dia desses, por exemplo, um senhor pediu que apanhasse a sacola de compras que havia deixado cair no chão. Outra vez, foi uma velhinha que reclamava de uma bursite no ombro direito quem me pediu que tocasse a campainha do ônibus minutos antes do motorista me permitir saltar no meio da quadra porque, de outra forma, desceria longe da parada de casa. No bolicho, a “china véia” pediu-me dinheiro. Como não tinha, conversamos. Tenho uma cara simpática. Deve ter sido por isso que Pepe se motivou a contar sua história na tarde ensolarada que brindou o último sábado.
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“Pibe, nasci, fui criado e passei toda minha vida em Pompeia. Mais portenho do que eu, impossível. Vou completar 82 anos [nesse momento, ele segura meu antebraço esquerdo] e hoje sou eu o estrangeiro nessa cidade.”
Pepe balança a cabeça, mas prossegue.
“Digo isso pra você porque os outros [estrangeiros] não me entendem [havia contado que havia decidido morar na cidade]. Se quero ir no cinema, penso duas ou três vezes antes de sair com minha senhora. A sala de cinema está perto de casa, mas até comprei um desses aparelhos para ver [os filmes] pela televisão.”
“É um desgosto pensar que nos sentimos presos em nossa própria casa… Meu neto, que é mais jovem do que você, está naquela idade, viu? Faz uns dias, perguntei pra ele: ‘e as namoradas?’ Conversamos e fiquei espantado com o que me contou.”
Eu te escuto, respondi.
“Falou que ele, os amigos e as amigas passaram a fazer festas privadas em casa. Dizem que ir num boliche é arriscado porque o risco de ser assaltado e ter uma arma apontada pra cabeça é comum. Diga-me se isso é mundo para se viver? Ele acaba ficando lá por Pompeia mesmo.”
Não arrisquei apontar as vantagens das festas privadas. O relato de Pepe era sério.
“Sabe de quem é a culpa? A culpa é de quem vem pra cá roubar!”
O discurso passou a me preocupar.
“Sabe quantos chineses têm esse país? Mais de 120 mil chineses! E isso que não estou falando dos paraguaios ou dos bolivianos!”
Não havia muito mais a dizer. O relato de Pepe virou tema de segurança internacional. Desconhecia até que ponto sabia que era brasileiro e que reação poderia ter. Era melhor que a conversa acabasse por ali mesmo com um beijo no rosto, cumprimento tradicional entre os argentinos.
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No caminho de volta pra casa, pensei sobre essa curiosa relação entre a criminalidade urbana e os moradores de Buenos Aires. É comum ouvir argentinos reclamando sobre a onda de imigração – em grande parte, ilegal – que, segundo eles, trouxe a desgraça do crime. Pepe estimou por conta própria que vivem 120 mil chineses na Argentina. O levantamento de 2001 que o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) produziu fala em 5 mil, o que certamente é uma grande pavada.
Hoje, muitos – quando não a maioria – dos pequenos mercados portenhos estão nas mãos de um chinês. Quase toda quadra portenha possui um chino, como aqui os chamam. Se pode muito bem estimar que em cada mercado chino trabalha pelo menos três chinos. Logo, a avaliação empírica populacional de Pepe pode não só estar certa, como ser duas vezes maior.
Bolivianos e paraguaios têm a Argentina como o principal destino. São 233 mil bolivianos e 325 mil paraguaios, segundo o mesmo censo oficial do Indec. Eles partem, em sua maioria de zonas rurais, e vêm tentar uma vida menos miserável. Em Agosto, durante um evento festivo, conversei com alguns trabalhadores em uma das vilas mais emblemáticas de Buenos Aires, a Villa 31, que está assentada sobre um dos terrenos mais caros da cidade. Eram paraguaios, bolivianos e peruanos de origem humilde. Quase em coro, lamentavam que algumas poucas maçãs podres contaminavam o restante do pomar.
É evidente que existe um grande espaço para que o imigrante que não consegue melhorar de vida passe à criminalidade. Na falta do que comer ou fazer, a informalidade abraça-o e, se isso não resolve o problema, o submundo chama-o.
O problema é complexo e heterogêneo. A Argentina já foi a oitava economia mundial há menos de 100 anos. Isso não é pouco. O país estava muito mais próximo dos índices de desenvolvimento de uma nação europeia do que de uma latino-americana. Nada menos do que cinco personagens argentinos ganharam o prêmio Nobel em diferentes áreas. Novamente, não é pouco e, sim, um feito notável desse país que tem todos os elementos para voltar a ser grande.
O país vê sua economia crescer desde a crise de Novembro de 2001. Aliás, o governo da presidenta Cristina F. de Kirchner já prometeu que o país se prepara para recuperar a qualidade de vida que tinha antes daquele infeliz mês. A oposição veio com todas as pedras e paus contra o anúncio, qualificando-o como demagógico.
E o problema da Pompeia do Pepe não se resolve em um toque de mágica. Fazer sentir a transferência do bem-estar macroeconômico para o dia-a-dia das pessoas é um processo, às vezes, lento. Depende de uma série de variáveis, como a estabilidade dos preços dos bens, bons salários, um nível razoável de impostos e muitas outras.
O Brasil é um exemplo claro dessa lógica. Por melhor que esteja – aqui, assumo que o Lula é o grande líder e todos que questionam isso são pobres e infelizes mortais que nada entendem de nada – o país continua sendo extremamente desigual.
O imigrante chinês, paraguaio ou boliviano na Argentina é como o migrante do semi-árido nordestino em São Paulo, uma força de trabalho fundamental para o desenvolvimento que, ao mesmo tempo, é discriminada e ironicamente culpada de aumentar os bolsões de pobreza.
Em Buenos Aires, eles pagam o preço da ineficiência. São eles os culpados. Eles estragaram a Pompeia do Pepe.
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