Eles estragaram a Pompeia do Pepe

Maurício Boff | Argentina 03:47 | 24/11/2010

O portenho Pepe, 81, monta nos finais de semana na esquina entre as ruas Defensa e Humberto Primo, na Plaza Dorrego, uma pequena banca com a qual vende chaveiros e pequenas estátuas do Obelisco ou de bonecos tangueiros. Descobri no último sábado que o simpático senhor é bancário aposentado e que decidiu voltar ao laburo faz 20 anos para complementar os mangos que recebe mensalmente da Administração Nacional de Previdência Social (Anses).

Tente visualizar o cenário. A praça é centro da permanente efervescência turística que transforma o bairro de San Telmo durante o dia. Os visitantes vêm do mundo todo, mas são os brasileiros os que imperam. O público jovem chama a atenção. São dezenas de albergues oferecendo uma cama e um espaço na geladeira por poucos pesos argentinos.

Antiquários, estilistas independentes, artistas de rua, prédios e cafés centenários dão uma ideia do que se vê por aquelas ruas. Foi em uma dessas vias onde semanas atrás uma mãe e o filho de olhos azuis e cabelos dourados me olhavam profundamente e espantados enquanto tomava um mate, solito e sentado no cordão de uma calçada. Cheguei a ver a mulher apontando-me o dedo enquanto levava a bomba em direção à boca. Devia ser um ato exótico – ou erótico, para eles. Gringos e latinos têm culturas muito diferentes…

Perdoem-me pela simplicidade do relato os que conhecem Buenos Aires. Como sabem, trata-se de uma belíssima cidade.

Meu olhar impregnado de bananidade gaúcha porto-alegrense me leva a dizer que umas das qualidades dessa metrópole é que sendo uma cidade latino-americana, ainda assim se pode caminhar com certa tranquilidade pelas suas ruas. O portenho discorda e lamenta a criminalidade. Diz que a urbe está cada vez mais violenta, o que não deixa de ser verdade se o quadro de hoje é comparado com o de 20 anos atrás, quando Pepe voltou ao trabalho.

Talvez por precaução, trato de interagir com as pessoas em locais politicamente associativos, como no supermercado, na Igreja anglicana, no subte, no ônibus, nos botecos em geral ou nos bolichos onde se dança zamba. Dia desses, por exemplo, um senhor pediu que apanhasse a sacola de compras que havia deixado cair no chão. Outra vez, foi uma velhinha que reclamava de uma bursite no ombro direito quem me pediu que tocasse a campainha do ônibus minutos antes do motorista me permitir saltar no meio da quadra porque, de outra forma, desceria longe da parada de casa. No bolicho, a “china véia” pediu-me dinheiro. Como não tinha, conversamos. Tenho uma cara simpática. Deve ter sido por isso que Pepe se motivou a contar sua história na tarde ensolarada que brindou o último sábado.

Pibe, nasci, fui criado e passei toda minha vida em Pompeia. Mais portenho do que eu, impossível. Vou completar 82 anos [nesse momento, ele segura meu antebraço esquerdo] e hoje sou eu o estrangeiro nessa cidade.”

Pepe balança a cabeça, mas prossegue.

“Digo isso pra você porque os outros [estrangeiros] não me entendem [havia contado que havia decidido morar na cidade]. Se quero ir no cinema, penso duas ou três vezes antes de sair com minha senhora. A sala de cinema está perto de casa, mas até comprei um desses aparelhos para ver [os filmes] pela televisão.”

“É um desgosto pensar que nos sentimos presos em nossa própria casa… Meu neto, que é mais jovem do que você, está naquela idade, viu? Faz uns dias, perguntei pra ele: ‘e as namoradas?’ Conversamos e fiquei espantado com o que me contou.”

Eu te escuto, respondi.

“Falou que ele, os amigos e as amigas passaram a fazer festas privadas em casa. Dizem que ir num boliche é arriscado porque o risco de ser assaltado e ter uma arma apontada pra cabeça é comum. Diga-me se isso é mundo para se viver? Ele acaba ficando lá por Pompeia mesmo.”

Não arrisquei apontar as vantagens das festas privadas. O relato de Pepe era sério.

“Sabe de quem é a culpa? A culpa é de quem vem pra cá roubar!”

O discurso passou a me preocupar.

“Sabe quantos chineses têm esse país? Mais de 120 mil chineses! E isso que não estou falando dos paraguaios ou dos bolivianos!”

Não havia muito mais a dizer. O relato de Pepe virou tema de segurança internacional. Desconhecia até que ponto sabia que era brasileiro e que reação poderia ter. Era melhor que a conversa acabasse por ali mesmo com um beijo no rosto, cumprimento tradicional entre os argentinos.

No caminho de volta pra casa, pensei sobre essa curiosa relação entre a criminalidade urbana e os moradores de Buenos Aires. É comum ouvir argentinos reclamando sobre a onda de imigração – em grande parte, ilegal – que, segundo eles, trouxe a desgraça do crime. Pepe estimou por conta própria que vivem 120 mil chineses na Argentina. O levantamento de 2001 que o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) produziu fala em 5 mil, o que certamente é uma grande pavada.

Hoje, muitos – quando não a maioria – dos pequenos mercados portenhos estão nas mãos de um chinês. Quase toda quadra portenha possui um chino, como aqui os chamam. Se pode muito bem estimar que em cada mercado chino trabalha pelo menos três chinos. Logo, a avaliação empírica populacional de Pepe pode não só estar certa, como ser duas vezes maior.

Bolivianos e paraguaios têm a Argentina como o principal destino. São 233 mil bolivianos e 325 mil paraguaios, segundo o mesmo censo oficial do Indec. Eles partem, em sua maioria de zonas rurais, e vêm tentar uma vida menos miserável. Em Agosto, durante um evento festivo, conversei com alguns trabalhadores em uma das vilas mais emblemáticas de Buenos Aires, a Villa 31, que está assentada sobre um dos terrenos mais caros da cidade. Eram paraguaios, bolivianos e peruanos de origem humilde. Quase em coro, lamentavam que algumas poucas maçãs podres contaminavam o restante do pomar.

É evidente que existe um grande espaço para que o imigrante que não consegue melhorar de vida passe à criminalidade. Na falta do que comer ou fazer, a informalidade abraça-o e, se isso não resolve o problema, o submundo chama-o.

O problema é complexo e heterogêneo. A Argentina já foi a oitava economia mundial há menos de 100 anos. Isso não é pouco. O país estava muito mais próximo dos índices de desenvolvimento de uma nação europeia do que de uma latino-americana. Nada menos do que cinco personagens argentinos ganharam o prêmio Nobel em diferentes áreas. Novamente, não é pouco e, sim, um feito notável desse país que tem todos os elementos para voltar a ser grande.

O país vê sua economia crescer desde a crise de Novembro de 2001. Aliás, o governo da presidenta Cristina F. de Kirchner já prometeu que o país se prepara para recuperar a qualidade de vida que tinha antes daquele infeliz mês. A oposição veio com todas as pedras e paus contra o anúncio, qualificando-o como demagógico.

E o problema da Pompeia do Pepe não se resolve em um toque de mágica. Fazer sentir a transferência do bem-estar macroeconômico para o dia-a-dia das pessoas é um processo, às vezes, lento. Depende de uma série de variáveis, como a estabilidade dos preços dos bens, bons salários, um nível razoável de impostos e muitas outras.

O Brasil é um exemplo claro dessa lógica. Por melhor que esteja – aqui, assumo que o Lula é o grande líder e todos que questionam isso são pobres e infelizes mortais que nada entendem de nada – o país continua sendo extremamente desigual.

O imigrante chinês, paraguaio ou boliviano na Argentina é como o migrante do semi-árido nordestino em São Paulo, uma força de trabalho fundamental para o desenvolvimento que, ao mesmo tempo, é discriminada e ironicamente culpada de aumentar os bolsões de pobreza.

Em Buenos Aires, eles pagam o preço da ineficiência. São eles os culpados. Eles estragaram a Pompeia do Pepe.

Obituário de um ministério populista (e a sobrevida de seus herdeiros)

Gabriel Brust | França 12:20 | 16/11/2010

Duas palavrinhas mágicas se tornaram o estopim mais frequente de discussões na imprensa e nos cafés das universidades na França ao longo do governo Sarkozy: identidade nacional. Promessa de campanha do então candidato da UMP, trazer essas duas palavrinhas mágicas para o tabuleiro era ponto fundamental para se discutir uma terceira palavra ainda mais safadinha, a imigração. Foi com esta política farejadora de votos de direita que Sarkozy criou, em 2007, o pomposo Ministério da Imigração, da Integração, da Identidade Nacional e do Desenvolvimento Solidário, falecido no início desta semana com pouca repercussão e quase nenhuma lágrima da viúva. Mas deixando herdeiros saudáveis e prontos para seguir seu legado.

Na prática, com a dança dos ministros e ministérios empreendida por Sarkozy e seu mais forte do que nunca primeiro-ministro François Fillon, a “imigração” voltou a fazer parte do nome de outro ministério, o do “Interior, de Ultramar, das Coletividades Territoriais e da Imigração”. A famigerada “identidade nacional” que, segundo a esquerda francesa e mesmo alguns integrantes da direita, dava uma conotação xenófoba à questão da imigração, desapareceu. Mas pouco há de simbólico na extinção do ministério e desse remanejamento. Ele apenas confirma o que sempre se soube: a criação da pasta se deu por motivos eleitorais, para ir ao encontro da crescente – e justificável – inquietação dos franceses com a questão da imigração. O problema é que, passados quatro anos de sua implantação – e um verão de 2010 intenso em combate a imigrantes romenos e búlgaros da comunidade cigana –, tudo leva a crer que a tática não funcionou. O eleitor de esquerda continua a ver Sarkozy como o diabo, o de direita não parece ter se comovido com a ação do governo e a popularidade do presidente nunca foi tão baixa.

Mas as políticas de imigração do governo Sarkozy, mesmo que agora com menos visibilidade, não devem mudar. E dois nomes de confiança do presidente, consolidados na reforma ministerial que expurgou do governo muita gente ao longo desta semana, nos levam a crer nisso. A viúva da pasta, o ministro Eric Besson, ganhou poder com a reforma, e foi alçado à área de Indústria e Energia. E em sua primeira entrevista afirmou que carregar a questão da identidade nacional “não foi nenhuma cruz” e que a assume “perfeitamente”. Mas talvez o sinal mais claro de que a política não muda é que a imigração foi parar logo na pasta de Brice Hortefeux. Expoente direitista da UMP, Hortefeux geriu a pasta da Identidade Nacional no início do governo, antes de Besson, entre 2007 e 2009. Para se ter idéia do brilhantismo de Hortefeux, basta dizer que ele foi condenado, em junho deste ano, em primeira instância, por “injúria racial”, após largar uma piadinha maldosa na cara de um militante de seu próprio partido, de origem magrebina: “Quando tem um só deles tudo bem. O problema é quando estão em bando”, falou, abraçando o jovem aos risos (vídeo abaixo). Enquanto não é condenado definitivamente, o amigo de 30 anos de Sarkozy segue firme no governo.

Hortefeux sacaneia o argelino aí em cima com tanta naturalidade que parece nem ter idéia do contexto político em que vive hoje, uma França em que tudo vira acusação de racismo, seja quando há racismo (no caso do próprio Hortefeux claramente), seja quando não há. A questão racial serve ao discurso político permanentemente, e mais um exemplo surgiu esta semana, com o lançamento da Carte Musique, uma espécie de “bolsa-mp3”. Pois é, o governo que o pessoal da Sorbonne chama de ultra-fascista-neoliberal-direitista-destruidor-do-Estado acaba de criar MAIS uma subvenção estatal, desta vez uma ajuda para incentivar os jovens a comprarem mais música mp3, e não piratearem. Uma das propagandas que estão na TV traz um jovem negro ouvindo hip hop, usando roupas não muito diferentes das de seus ídolos (vídeo abaixo). O deputado Nicolas Dupont-Aignan não teve dúvida em chamar o anúncio de racista, denunciando que ele mostra “um jovem negro como um idiota fingindo de pseudo-rap”. “Os jovens do nosso país, seja qual for sua origem, não são idiotas de circo”, completou o deputado.


Spot carte musique Rap
envoyé par culture-gouv. – Clip, interview et concert.

As eleições brasileiras na França e os documentos para domingo

Gabriel Brust | França 15:24 | 28/09/2010

Havia fila hoje à tarde no Consulado do Brasil em Paris no período das 14h às 15h30, faixa de horário que diariamente é dedicada à “retirada de documentos”. A fila de hoje – que deve se repetir ao longo da semana – se explica pela grande quantidade de pessoas buscando seu título eleitoral para votar no domingo. Segundo o Consulado, são cerca de de 4 mil os brasileiros aptos a votar aqui em Paris no próximo fim de semana – de um total de 200 mil eleitores brasileiros que vivem no exterior. Fazendo-se uma contagem a partir das listas de antigos (de 1986 a 2008) e novos inscritos, esse número parece ainda maior, quase chegando aos 5 mil. E se percebe também que, deste total, cerca de 2,3 mil solicitaram a transferência de domicílio eleitoral recentemente – ou seja, praticamente a metade do total deve votar em Paris pela primeira vez. O número parisiense não é tão inexpressivo se comparado, por exemplo, a Buenos Aires, de um país vizinho ao Brasil, onde apenas 3,8 mil brasileiros estão aptos a votar.

Os dados sobre a imigração brasileira na França são pouco precisos – a contagem oficial dos que moram hoje por aqui é falha, já que boa parte dos brasileiros jamais se cadastra junto ao consulado. Alguns palpites falam em 40 mil pessoas – sendo 10% ilegais. O que se sabe é que, desde 1996, quando caiu a exigência de visto de entrada, o fluxo migratório aumentou e modificou o perfil do brasileiro que vive na França (como descreve bem esta matéria, já um pouco antiga, da RFI). No lugar de intelectuais, ricos e artistas, começaram a chegar pessoas interessadas em fazer dinheiro com faxinas e serviços de pedreiro. A maioria, é verdade, se decepciona, já que não há dinheiro algum para se ganhar na arcaica economia francesa, se comparada às dos vizinhos europeus.

Apesar disso, os números sobre o cadastro eleitoral corroboram com a tese de que, a despeito da boa década econômica vivida pelo Brasil, a emigração para a França acelerou. A transferência de domicílio eleitoral passa a ser um índice confiável na medida em que, geralmente, é solicitada por quem decidiu viver aqui definitivamente, excluindo, portanto, o grande contingente de estudantes universitários que todo ano chega para passar uma temporada, virar “dotô”, e retornar ao Brasil.

De resto, os títulos eleitorais hoje eram entregues no Consulado sem qualquer explicação de como proceder no domingo. O que me leva a crer que não será surpresa se a exigência de um segundo documento com foto derrubar muita gente, por aqui também, na hora de votar. No Brasil, o PT atentou para este “fator documento” na reta final. Sabe que seu eleitorado mais pobre, vindo dos grotões, em geral não dispõe de muitos papéis. E um aumento na abstenção dos eleitores de Dilma, por menor que seja, poderá ser decisivo na votação apertada que as pesquisas estão prometendo para o fim de semana.

Morrendo na América

Fabricio Pontin | Estados Unidos 18:30 | 03/09/2010

Em Junho recebi da secretaria para alunos internacionais aqui do departamento um pedido de ajuda para uma aluna estrangeira. A aluna, no caso, estava com câncer e precisava de apoio financeiro para enfrentar a doença. Já tinha algum tempo que ela tinha recebido o diagnóstico e ela tava brigando para conseguir algum tipo de cobertura no sistema de saúde local.

Acontece que o plano de saúde obrigatório que a faculdade oferece para os alunos tem uma cobertura ambulatorial bastante restrita. Na realidade, ela cobre cerca de 70% das despesas médicas ambulatoriais, e deixa o aluno na mão com os custos de exames extras, tratamentos excepcionais e a temida ‘condição prévia’. A condição prévia é uma cláusula no contrato com o plano de saúde dizendo que eles não são responsáveis pela cobertura de doenças crônicas ou hereditárias já presentes no momento da assinatura do plano. No caso dessas doenças, portanto, você tem o atendimento emergencial, mas tá sozinho no atendimento ambulatorial.

Por exemplo: digamos que você quebra o dente jogando futebol. O plano garante que você vai chegar no hospital e ter um remendo feito no dente, mas não garante nada além disso. Fica sob a responsabilidade do aluno o pagamento dos remédios para dor, da anestesia geral e mesmo de uma eventual prótese. Mesma coisa se você quebra uma perna.

No caso de câncer, o furo é ainda mais embaixo. Muitos planos tem uma clausula de exclusão de cobertura, ou seja, tem que comprar separadamente a cobertura para câncer. Enquanto aluno internacional, é bem possível que o plano de saúde desconsidere o perfil do aluno (falido, estrangeiro) e negue cobertura.

Foi o caso dessa moça. Aluna internacional, sem visto permanente e com apenas o plano de saúde da universidade. Quando a gente chega aqui, o pessoal orienta que se procure outros planos. Mas esquecem de mencionar que para contratar um plano de saúde privado é necessária uma história de crédito constituída e uma conta bancária ativa. A maioria dos alunos internacionais não tem condições, com bolsas que variam entre $700 e $1800, de 1) constituir uma história de crédito e 2) ter uma conta que não viva no vermelho. Já que conseguir um empréstimo é impossível, resta ao aluno internacional com uma doença crônica a dependência da caridade alheia.

Americanos adoram doar dinheiro. Se for para alguém de um país pobre, oprimido e com uma religião exótica, mais ainda. Acontece que doações são troco para o tipo de gasto relacionado com um câncer. Mesmo mobilizando a faculdade inteira para conseguir doações, a menina conseguiu impressionantes $1800, que ela usou para voltar para a Malásia e morrer junto da família.

Não sei se isso é melhor ou pior do que morrer na fila do SUS. Mas o interessante é pensar que as pessoas ficam doentes e morrem sem sequer passar pela consideração de algum cuidado médico. No entanto, preciso dizer que toda vez que eu precisei de cuidados médicos aqui (e paguei – caro – por isso), o serviço prestado foi absolutamente primoroso.

E o Obamacare? Antes de mais nada, vale lembrar que o plano ainda está na fase de implementação e que mesmo quando for totalmente ativo (em dois anos), não vai cobrir imigrantes sem green card. Ou seja, para os alunos internacionais a situação permanece a mesma.

O papo que rola entre os alunos é o seguinte: não fique doente. Tenha um plano de saúde no seu país de origem e a grana para a passagem de volta pronta, caso tenha uma emergência.

O trem da alegria da nova União Europeia

Gabriel Brust | França 16:13 | 25/08/2010

O tema imigração povoa o noticiário francês de uma maneira quase camuflada. Uma nova polêmica envolvendo imigrantes surge praticamente a cada semana nas páginas dos jornais. Mas os textos são invariavelmente formulados como se o redator estivesse caminhando sobre ovos: o temor de soar preconceituoso é permanente. O politicamente correto impera na maneira como o francês se relaciona com este tema, e isso é perceptível não apenas na imprensa, mas também na convivência do dia a dia.

Puxar o assunto em rodas, seja na universidade ou no boteco, é certeza de receber olhares enviesados, que preferem mudar de conversa, ou discursos prontos vitimizando o imigrante em todos os casos – mesmo nos casos em que ele não tem razão. E, às vezes, de fato, não tem. Não há, portanto, um debate franco. Da mesma forma, não há manifestações explícitas de preconceito como verifiquei, por exemplo, na Itália, no breve tempo em que vivi por lá, e que verifico entre alguns dos italianos que conheci aqui na França. A relação do italiano com o tema é mais aberta e menos hipócrita: com frequência, o italiano assume seu pavor por africanos, árabes em geral e povos do leste europeu sem nenhum constrangimento.

Não há melhor ilustração para esse comportamento do francês do que as palavras do notório conservador Jean-Marie Le Pen no vídeo abaixo, que está sendo divulgado pelo L’Express. Ele flagra uma “tirada” engraçadinha de Le Pen disparando contra os árabes que vivem em Paris, mas a parte mais curiosa é a sequência, quando ele antevê a forma como sua piada será recebida.

“Comprei uma casa de campo para que meus filhos, que antes viviam no 15éme [região de Paris], pudessem ver vacas no lugar de árabes”.

E emenda:

“Não tenho medo de perseguição. Se eu fosse do UMP [União pelo Movimento Popular, partido de centro-direita de Sarkozy] diriam que [essa frase] foi uma derrapada. Mas já faz tempo que eu não derrapo mais, eu já estou fora da pista há muito tempo!”

Quase às gargalhadas, Le Pen ironiza: nem a direita francesa tem coragem de explicitar sua aversão à invasão árabe em Paris.

Sarkozy e os ciganos

A verdade é que, mesmo sem frases polêmicas como as de Le Pen, Sarkozy e seu UMP vem sim enfrentando a imigração em diferentes frentes de batalha – ainda que a política francesa para imigrantes seja uma mãe generosa se comparada a da maioria dos outros países europeus. Basta caminhar nas ruas de Paris para constatar. Os “sans-papier” (ilegais), por aqui, são classe organizada que faz até greve.

O episódio mais recente da política de imigração de Sarkozy, no entanto, tem contornos insólitos. Neste mês, o governo teria supostamente deportado cerca de 200 ciganos da etnia Rom para a Romênia. O “supostamente” fica por conta de dois aspectos: 1) os ciganos receberam em troca uma ajuda em dinheiro, sendo, portanto, uma “deportação voluntária” e 2) a Romênia agora faz parte da União Européia, o que permite que estas pessoas voltem a qualquer momento para a França, sem enfrentar nenhum tipo de impedimento. O governo anunciou simplesmente que fará um cadastro para que, no caso de estas pessoas voltarem, elas não ganhem o auxílio financeiro pela segunda (ou terceira ou quarta) vez. O que o governo fez, basicamente, foi caracterizar cerca de 50 assentamentos de membros da etnia Rom como ilegais. Mas ilegal não é a situação do cidadão. Confuso?

O trem da alegria da cidadania européia

Essas são algumas das contradições que começam cada vez mais a surgir conforme a União Europeia vai se ampliando. Outro dado que circulou pelos jornais franceses este mês e que dá a dimensão de como as reclamações do oeste vão aumentar é a quantidade de pessoas que poderão se naturalizar européias a partir da entrada de Hungria, Romênia e Bulgária no bloco: nada menos do que 5 milhões, além da própria população destes países. São moldavos, macedônios, sérvios, ucranianos e turcos: seus países não fazem parte da UE, mas 5 milhões deles poderão ser beneficiados por leis compensatórias de Hungria, Romênia e Bulgária destinadas a seus descendentes de imigrantes, como bem ilustra este gráfico do Le Figaro (clique para ampliar):

Em recente reportagem sobre o tema, o jornal destacou também outra frente de “invasão” de neo-europeus: a Espanha e seus latino-americanos. 225 mil pessoas, principalmente de Cuba, Argentina e Venezuela, entraram com pedido, em 2010, de cidadania europeia, baseando-se na lei sancionada pelo socialista José Luiz Zapatero que beneficia os filhos e netos de exilados da ditadura do general Francisco Franco. 117 mil já obtiveram o reconhecimento da cidadania. Os guichês da naturalização estarão abertos até o fim de 2011 e espera-se que até lá 500 mil latino-americanos venham a se tornar europeus.

A mais permissiva das leis de naturalização de descendentes de imigrantes europeus, no entanto, é praticamente ignorada neste debate, pelo menos aqui na França. É a da Itália, que desde a década de 90 dá direito a descendentes com qualquer grau de parentesco de buscar a cidadania italiana. A lei é amplamente aproveitada por brasileiros e argentinos desde então. Nada menos do que 35 milhões de brasileiros, em tese, estão aptos a solicitar a naturalização por descendência italiana. Resta saber se, com o novo trenzinho da alegria inaugurado pelos países do leste, todos terão que fechar a torneira ou, pelo contrário, abrirão cada vez mais.

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