O Bagulhão, o Japonês, o Professor

Leandro Demori | Itália 14:27 | 28/11/2010

A máfia italiana tem mais de cem anos e deve parte de sua vitalidade a um mito fundador: a história de Osso, Mastrosso e Carcagnosso. Quer a lenda que os três cavaleiros espanhóis precisaram fugir da península ibérica após lavar a honra da família com sangue, matando o estuprador de uma de suas irmãs. Osso, Mastrosso e Carcagnosso teriam passado 30 anos na ilha de Favignana. Mais tarde, cada um dos três irmãos teria ido para uma região distinta da Itália e fundado sua própria ordem armada: na Sícilia, Calábria e Campanha, Osso, Mastrosso e Carcagnosso seriam os padrini de Cosa Nostra, ‘Ndrangheta e Camorra.

O fato de terem fugido da Espanha em nome da honra não é detalhe inócuo, mas artigo fundamental no mito fundador mafioso: até hoje, os membros dos clãs são chamados, não por acaso, uomini d’onore (homens de honra).

Os ritos de iniciação da máfia nomeiam os cavaleiros espanhóis até hoje — em sua honra são batizados locais tomados pelos clãs ou iniciados novos membros, os picciotti, primeiro ‘cargo’ da organização. Um livro fundamental para entender a dinâmica dos mitos fundadores da máfia com sua atualidade é Fratelli di Sangue, sob a pena de um dos maiores juizes anti-máfia, Nicola Gratteri.

Paz, Justiça e Liberdade. Esses são os mitos fundadores do Comando Vermelho, pai do tráfico organizado no Rio de Janeiro. Fundada na cadeia, a facção criminosa operava de modo amador já na década de 50, sobretudo dentro dos presídios. Nos morros, a venda de drogas se restringia à maconha, negociada por velhotas que arredondavam a aposentadoria de modo caseiro e semi-amador, dividindo os lucros com o crime.

Sempre morreu gente na favela, muito antes do crime começar a se organizar. A atenção da imprensa às mortes a partir dos anos 60 está diretamente ligada ao mito fundador do CV — como funeral de favelado não vende jornal, o surgimento de uma organização criminosa trazia boas histórias para contar. O tráfico desceu o morro em forma de papel e tinta.

O Gênesis não-escrito do Comando Vermelho se destinava a proteger os presos dentro da cadeia, muito antes de organizar a venda de toneladas de drogas fora dela. O CV surgiu para suportar um sistema carcerário cruel, ineficiente e caro que replica moldes até hoje, mais de meio século após a insurreição criminosa. A situação fora das grades é alimentada pela barbárie dentro delas.

Osso, Mastrosso e Carcagnosso do Rio de Janeiro são Bagulhão, Japonês e Professor, três traficantes da velha guarda que ainda dominam o imaginário coletivo do crime como fundadores do Comando Vermelho. Os mitos fortalecem a irmandade, a cumplicidade criminosa em cima da Santa Trindade de Paz, Justiça e Liberdade se mistura com dizeres bíblicos da mesma forma como São Miguel Arcanjo é usado para batizar novos membros das máfias italianas. É quando o crime deixa de ser crime e passa a ser um ato de fé.

Os bandos criminosos do Rio não podem ser equiparados à máfia italiana; são organizações pré-mafiosas, com comando e ordem, mas muito menos sofisticadas e disciplinadas do que Camorra, ‘Ndrangheta, Cosa Nostra, Sacra Corona Unita e outras. Traficantes estão há 50 anos nos morros cariocas e ainda usam chinelo de dedo, bermudões de praia; atiram mal e, o que é pior, ainda atiram. O que uma organização criminosa menos quer é o confronto. O ápice do crime é passar despercebido.

As cenas da última semana no Rio de Janeiro mostram que o crime nos morros não evoluiu porque jamais teve a necessidade disso. De mãos dadas com uma polícia historicamente corrupta e com governantes que fizeram incontáveis “tratados de paz”, os líderes do momento ainda fazem contabilidade em folhas de caderno e desfilam pelos morros armados com fuzis em motos importadas. Simbolicamente infantil.

O projeto inicial do Comando Vermelho era entrar em todos os buracos deixados pelo poder público, que são muitos, quase infinitos no Brasil. O CV é apenas mais uma prova de que máfias e organizações pré-mafiosas não são contra o Estado — a última coisa que querem é a guerra. Desejam fazer parte do Estado, ser ele onde ele jamais foi. É justo dizer que as UPP’s são parte de uma política socializadora dos morros, mas ingênuo pensar que são um fim em si. Simbolicamente, a perna do Estado que primeiro subiu o morro não foi a da educação ou a da dignidade, mas a das armas. E essa é, antes de tudo, uma guerra simbólica.

O crime no Rio age nas necessidades mais básicas: gás, remédio, cigarro, sabonete, brinquedos de natal, enterros, pequenas obras, ‘puxadinhos’. Não há nada aqui que o Estado não possa fazer. É bobagem achar que o tráfico substitiu o Estado; ele apenas tenta, e faz de forma esparsa e pouco eficiente, agindo do modo mais superficial possível nas necessidades individuais daqueles que pedem ‘arrego’. Não é uma política, é uma ação.

O Brasil perdeu muito tempo. Perder tempo é um esporte nacional. O tráfico já está na quarta geração. Mesmo que não tenha se tornado uma dinastia (justamente pela organização precária, o filho de Fernandinho Beira-Mar não terá qualquer garantia de ser um ‘poderoso chefão’ no futuro), o tráfico se tornou uma oligarquia, uma nobreza de havaianas.

A esperança para os jovens do Sul da Itália, além da máfia, é o exército, que paga menos e pode mandá-los para o Afeganistão. No Rio, nem o exército salva.

Daquele Comando Vermelho dos anos 50 só resta o mito. A morte prematura e as guerras internas pelo comando dos morros tornou o crime de entorpecentes uma roda gigante descontrolada, sem tempo para render homenagens ao passado. Na busca no youtube pela palavra “Falcão”, as mais importantes citações se referem a “futsal, cantor brega, dribles”. As imagens captadas para compor o excelente documentário “Falcão, meninos do tráfico” são secundárias. Asfalto e morro se unem na indiferença.

É sempre quarta-feira

Leandro Demori | Itália 07:56 | 21/09/2010

São 20h15 quando Eva chega ao antigo hospital abandonado. Sherzaad não lembra a data em que pediu o asilo político, só lembra que era inverno. Pega o telefone celular e liga para o que ele chama de “uma amiga em Bari”. Fala com ela por breves segundos antes de passar a ligação para Eva.

Giovanna conversa com um homem que esteve na Noruega. Ao contrário de todas as expectativas, ter estado na Noruega é péssimo. O asilo é um cabo-de-guerra em que ninguém faz força, uma luta entre países para provar quem tem as piores condições de conceder casa e comida. Quem vence, perde; países que podem oferecer melhores condições devem se responsabilizar pelo refugiado, gastar parte do caixa público para mantê-lo. Ninguém quer se responsabilizar pelos efeitos colaterais da guerra.

O “cara da Noruega” se chama Zahbi e quer ficar na Itália.

Zahbi e Sherzaad são afegãos, fugitivos de uma guerra que já dissolveu quase uma década de suas vidas. Zahbi e Sherzaad não contam como vieram parar na Itália — não querem ter vida pregressa.

“Aqui é bom, tem até restaurante”, brinca Sherzaad, apontando para duas caixas térmicas onde pratos pré-prontos de massa típica italiana são armazenados. Nasceu em Jalalabad, cuja foto que ilustra o verbete em inglês da Wikipedia faz se assemelhar a um moderno centro de uma cidade normal. Sherzaad não parece ter fugido de Jalalabad por medo da modernidade.

Os afegãos de Roma fazem parte de uma minoria mongol levada à região pelos exércitos de Gengis Khan a partir do século XIII; são chamados de Hazaras e formavam um quinto da população do país antes da invasão militar. Após a perda de controle territorial em algumas regiões do país por parte dos exércitos invasores, os hazaras começaram a se espalhar pelo mundo. Hoje, um em cada quatro refugiados que vagam pelo planeta são afegãos hazaras.

Para que fiquem na Itália, Sherzaad e Zhabi não podem ser pegos pela polícia nos próximos 18 meses. Ambos pediram asilo em países que têm melhores condições de abrigo (Noruega e Alemanha) e, pela lei europeia, precisam voltar para lá. Se quiserem viver aqui, devem acordar todas as manhãs por um ano e meio como se não existissem. Cumprido o período fantasma, fazem novo pedido de asilo. Precisam, na prática, fazer com que sua ‘vida europeia’ seja apagada e recomece do zero. Olhando nos olhos de Sherzaad e Zhabi, acreditei que seria bom se recomeçasse de verdade.

Sherzaad desembarcou na Europa em 2008. Veio pela Grécia e rumou para a Inglaterra. Pego pela polícia, foi deportado novamente para a Grécia. Fugiu, rodou por Áustria e Eslovênia até chegar à Itália. Conta a história e ri, mas não gosta de contar a toda hora.

Sherzaad quer ficar na Itália mesmo sabendo que não há emprego. “Qui si sta bene”. Aprendeu logo uma das expressões mais utilizadas na península, um certo conformismo italiano típico que busca justificar o índice de desenvolvimento do país na última década — inferior ao da Europa do lado de lá dos Alpes — com seus monumentos históricos, suas belas paisagens de praias e montanhas, o bom clima, a excelente comida, o ar que se respira.

Eva a Giovanna ouvem tudo pacientemente. Têm fome. São 21h30, não comem nada desde o meio-dia. Ambas são voluntárias freelance: vêm todas as semanas, nas quartas-feiras, ao antigo hospital transformado em abrigo de refugiados para ajudar gente como Sherzaad e Zahbi a colocar a documentação em dia. Os pedidos de asilo estão em desordem assustadora.

Eva é tradutora, versa palestras e conversações do inglês para o italiano. Giovanna é consultora legal. Nenhuma delas ganha uma lira pelo trabalho das quartas. Se fizesse algum extra naqueles dias, Eva talvez conseguisse trocar o Fiat surrado com três camadas visíveis de pintura em tons mal calibrados por um carro mais novo. Eva não parece se importar.

Afegãos têm um jeito peculiar de comprimentar. Apertam sua mão e depois a batem no próprio peito, espalmada, como quisessem tocar o próprio coração. Olham para você enquanto fazem isso, e sorriem.

Eva explica algo em italiano para um deles, que traduz para o outro.

Sherzaad e Zahbi, assim como todos os outros 70 conacionais que ali estão, se vestem com camisolões longos e calças largas, brancos. Não usam barbas ou turbantes como a imagem clássica dos afegãos espalhada no período pós-invasão. Aqueles, os de barba e turbante, em um mundo falsamente simples de ser explicado, são os inimigos.

Perseguidos e tratados como linhagem inferior pela maioria afegã, os hazaras são, além de mongóis, muçulmanos xiitas –- minoria dentro da população sunita afegã. Os hazaras xiitas são, portanto, a minoria da minoria. Após o início dos conflitos, foram escurraçados violentamente pelo Taleban, que tomou suas casas e suas mulheres. Quem não fugiu, morreu.

Se aproxima o Ramadã*, o que, para um muçulmano naquelas condições, representa um problema. Pouco antes de serem transferidos para o hospital, os afegãos ocupavam uma área aberta onde haviam formado um campo de refugiados. Precisaram de socorro por conta do calor bestial de Roma no pico do verão: não havia mais onde buscar água. No Ramadã, precisam ficar até 16 horas por dia sem comer ou beber, do nascer do sol ao poente.

Faz 40 graus em Roma, não há um fio de vento e a estrutura que os abriga fecha durante o dia. Não podem ficar lá dentro, ao reparo do sol. Precisam ir para a rua. Sobreviver ao Ramadã será uma prova de fé.

São 22h10 e Eva e Giovanna ainda estão sentadas desconfortavelmente em duas cadeiras de plástico no pátio externo do prédio. Giovanna ensina a polir o italiano enquanto ouve histórias de vida e fuga. A maioria dos contadores fala rudimentarmente. Um deles chama Giovanna de “Giovanni”. Ela, vaidosa, o repreende. “Giovanni é nome de homem”.

Eva e Giovanna continuam a preencher fichas.

Nome:
Sobrenome:
Cidade de partida:
Cidade de chegada:
Telefone para contato:

Todos os afegãos têm celular.

Chega outro, Fahim al-Ahari. Perdeu todos os documentos. É informado de que precisa prestar queixa na polícia. Encosta mais um na mesma situação para ouvir atentamente, perdeu tudo e também não fez a queixa. Muitos afegãos perdem seus documentos. Fahim diz que a polícia inglesa ficou com seus papéis quando foi pego ilegalmente no país e deportado para a Itália. Ao longo da noite, chegarão outros sem documentos e sem denúncias à polícia, sem papéis e deportados.

São 22h51, Giovanna e Eva se levantam. A vida legal dos afegãos de Roma precisa ser suspensa até a próxima quarta-feira. É sempre quarta-feira na vida dos afegãos de Roma.

*O Ramadã já acabou. Comecei a escrever o texto em julho, quando visitei o centro de refugiados.

O 20 de setembro é uma das mais importantes datas da história

Leandro Demori | Itália 13:36 | 20/09/2010

O Estado Vaticano, esse pequeno pedaço de terra cercado de muros que convive com Roma em seu entorno, já foi algo muito maior e mais representativo do que jardins, palácios e museus de uma Igreja.

Após o fim do Império Romano, uma encarniçada guerra entre povos do norte da Europa tomou conta da península — fatiada e distribuída ao norte e ao sul. A região central, no entanto, foi sendo lentamente dominada pela Igreja. Grosso modo (e não pretendo me alongar nesse episódio que pode ser consultado em outras e abundantes fontes) a faixa que se estende do Tirreno ao Adriático, de Ferrara a cidades ainda mais ao sul de Roma é considerada, a partir de 752, Estado Pontifício.

Nessas terras, o Papa possuía os poderes religioso e político, e usava ambos com tamanha maestria que levou seu Estado avante por mais de mil anos.

Os domínios papais no centro da Itália operavam de forma organizada e violenta.

Vivo perto dos Arsenais Vaticanos aqui em Roma, por exemplo, onde o exército da Igreja mantinha suas armas. Nas redondezas havia o porto de Roma, de onde chegavam e saiam mercadorias. O Estado Pontifício exportava ferro, grãos, vinho e pequenos objetos manufaturados; importava armas, ouro, espécies, mármores e jóias.

Foi uma potência política tão forte que chegou a fazer súditos oficiais importantes como o Reino da Inglaterra, o Reino de Portugal e a família Aragão da Espanha (que mais tarde dominaria o sul da Itália na tomada de Napoli).

Os papas escolhidos ao longo daquele tempo obedeciam a interesses muito mais terrenos do que os de hoje: eram de famílias ricas, influentes, direcionadas ao poder e aproveitadoras do espólio que o Império Romano havia deixado por aqui.

Estou lendo um livro chamado I papi e il sesso (Os papas e o sexo), escrito pelo jornalista Eric Frattini. É um livro importante para clarificar que os papas, ao longo da história, foram notáveis pedófilos, estupradores, assassinos, sádicos seviciadores de escravos e doentes mentais crônicos que usavam sem limites o poder que possuíam. Não é de hoje que os corredores da Igreja exalam podridão.

São inúmeros os trechos incisivos sobre sexualidade, muitos como esse:

O Papa Leão X, homossexual, tinha que andar de lado na cela do cavalo devido às úlceras anais das quais sofria, consequência de seus numerosos encontros amorosos pelas vielas escuras de Roma.

O contornos sexuais ajudam a entender as poucas luzes de uma época em que o Vaticano exercia poder direto sobre a vida e a morte. Nepotismo, corrupção e despotismo viveram momentos sem precedentes sob as ordens de papas. Com as chaves de Pedro nas mãos e uma população assustada no bolso, a canalhice exalava por todos os poros.

Benedetto IX era neto de Giovanni XIX, que por sua vez havia sucedido seu irmão, Benedetto VII, neto de Giovanni XIII; Giovanni XI era filho ilegítimo de Sergio III; Giovanni XIII era filho ilegítimo de um bispo; Paolo I sucedeu seu irmão, Stefano II; papa Silvero era filho de papa Ormisda; Innocenzio I era fruto de papa Anastasio I; Bonifacio VI era filho de um bispo; papa Romano era irmão de papa Martino e ambos eram filhos de um sacerdote.

Os trechos acima, de tradução livre feita por mim para este post, mostram a eterna festa de carnaval sádica e nepotista da Igreja ao longo dos séculos. Não existe pecado do lado de lá do Rio Tibre. Era quase uma família Guerra.

O Estado Vaticano atravessou toda a Idade Média e viu impérios importantes nascerem e morrerem antes de ser derrotado. O ocaso dos domínios papais aconteceu exatamente em 20 de setembro de 1870, em um evento que ficou conhecido como Presa di Porta Pia (Tomada de Porta Pia). A Itália estava unida desde 1861, mas faltava Roma, domínio papal protegido pelos próprios exércitos e por tropas de Napoleão III.

Em 4 de setembro de 1870, por causa da guerra contra a Prússia, o Terceiro Império francês cai. As tropas de Napoleão III se retiram de Roma e os unificadores veem a chance de atacar. O governo italiano tentou, antes, negociar. Diante das negativas do papa, o então Reino da Itália abriu um buraco de 30 metros no muro perto de uma das portas e ocupou a cidade. Era o fim do Estado Pontifício.

A derrota imposta ao Vaticano abriu uma crise entre a Sé e a Itália chamada Questão Romana, resolvida somente em 1929 por Benito Mussolini, que criou o Estado Vaticano.

O 20 de setembro, portanto, é uma das datas mais importantes da história da humanidade por conta da Tomada de Porta Pia e do fim da era das úlceras anais — somente atrás, em importância, é claro, da Revolução Farroupilha.

Nove anos depois

Fabricio Pontin | Estados Unidos 21:53 | 11/09/2010

Todo mundo que eu conheço tem uma história bacaninha de como ficou sabendo dos atentados. Eu não lembro direito. Tudo que eu lembro é que estava na faculdade e ouvi algo sobre um incêndio no World Trade Center. Depois, no ônibus, tinha uma turma rindo e dizendo que parecia que uns nove outros aviões tinham sido sequestrados. Cheguei em casa, a primeira torre já tinha caído e a outra estava lá enquanto o repórter da CNN surtava no vídeo.

Os dias que se seguiram os atentados foram um festival de informação desencontrada. Ninguém realmente acreditava que os Estados Unidos iam demorar mais de um ano para capturar o Osama, ninguém realmente pensava que trilhões de dólares seriam gastos em duas guerras e que o presidente dos Estados Unidos financiaria uma delas com dinheiro chinês (o que certamente vai passar para a história como um dos piores erros estratégicos de uma administração norte-americana).

Nove anos depois, ninguém sabe se Osama está vivo ou morto, e pouco importa. A guerra no Iraque foi um desastre inconclusivo: ainda que houvesse razões para invadir o território e arrancar o Saddam de lá, o erro americano foi parecido com o cometido no Vietnam: ao pensarem que seriam saudados como libertadores, foram recebidos como invasores sem legitimidade.

No Afeganistão, depois de nove anos de ataques e planos, tudo que os americanos conseguiram é garantir a administração de um setor de Kabul, o resto do território tendo sido largado na mão de lutas tribais e uma expansão preocupante do radicalismo via bin-Laden na fronteira com o Paquistão.

Nos Estados Unidos, o noticiário passa as notícias de nove anos atrás sem parar. Enquanto isso, o Congresso discute se os bombeiros, policiais e paramédicos que responderam as chamadas de emergência nos prédios têm direito a tratamento especial para as doenças que eles pegaram durante a operação. Na última votação, o Congresso decidiu que não.

Mais que isso: nesses nove anos, a direita religiosa, que tinha adquirido legitimidade no governo Reagan (que, justiça seja feita, era inteligente o suficiente para usar aquela gente, mas nunca para ser usado por eles), se tornou a vanguarda do partido republicano, empurrando o conservadorismo fiscal para escanteio e criando uma noção delirante de imperialismo democrático aliada com populismo de valores. A chamada Bush Doctrine consiste justamente na articulação dessas duas frentes, que só foram elaboradas após os ataques. Bush alegou, em 2000, ser um conservador amável. Essa faceta foi rapidamente abandonada por um discurso totalmente diferente e o país ainda sofre as consequências dessa reestruturação.

Uma economia no lixo

Os anos Clinton criaram uma sensação enorme de otimismo nos Estados Unidos. Durante os oito anos do governo do bonitão, os americanos gastaram e compraram como nunca. Eles também criaram uma série de expectativas completamente insanas sobre os próprios bens e planos de vida. Criou-se a chamada “loucura dos seis dígitos”, de uma hora para outra, qualquer casa em um subúrbio de Chicago, Nova Iorque ou Los Angeles custava um milhão de dólares.

Essa tendência não foi revertida por Bush, pelo contrário. Um dia depois dos ataques, Bush foi a público dizer para os americanos comprarem mais, consumirem intensamente. Naquele momento, Bush poderia ter tentado reproduzir Roosevelt em 1939, e pedido austeridade, calma e trabalho. Ele pediu o contrário: consumo, ansiedade e lazer. Seis anos depois, os Estados Unidos começavam a pior crise de empregos desde 1981 e a pior crise fiscal desde 1929.

Uma derrota anunciada, uma nova liderança

Com um desastre econômico, duas guerras indo para lugar algum e um desastre ecológico nas costas, Bush começou um processo de queda vertiginosa, que acabou determinando que a grande eleição de 2007 não seria a entre um republicano e um democrata, mas entre os democratas. As primárias entre Hillary e Obama foram sensivelmente mais importantes que a eleição geral, justamente por não existir qualquer chance de eleição para um candidato republicano.

No entanto, os neo-cons encontraram em Sarah Palin um veiculo ainda mais poderoso que Bush. Palin era um grande quadro em branco onde os neo-cons poderiam escrever o que bem entendessem. Ela era perfeita. E melhor ainda, a mídia liberal odiava ela. Os republicanos sabem que a estratégia política pós 9/11 depende da criação de antagonismos, e não poderiam perder a oportunidade de explorar esse cenário.

Com isso, a Sarah Palin surgiu como a grande liderança de oposição, mobilizando uma voz única de negativas às políticas democráticas. Mesmo com um Congresso favorável, Obama se viu cercado de democratas com medo de perder seus respectivos cargos, e foi incapaz de liderar, no primeiro ano de governo, uma politica de situação homogenea.

Resultado: enquanto os republicanos votavam em bloco, os democratas votavam de forma desordenada e sem uma contra-partida aos republicanos. Em dois anos, Obama baixou para a linha dos 40% de aprovação e agora começa a brincar com os 35%, com níveis de rejeição similares aos de Bush em 2006.

Empregos, estrutura e um elitista

Muita gente boa sustenta que o pior da crise econômica já passou. Do ponto de vista da austeridade fiscal, sem dúvida. Mas tem um lado que ninguém tá falando: os empregos perdidos durante a crise não estão voltando. As pessoas continuam sem emprego, sem condições de pagar pelas coisas que adquiriram durante o otimismo dos anos Clinton, na terceira ou quarta hipoteca da segunda ou teceira casa…

Com isso, a estrutura do país está em crise. Em Detroit, os pedidos de falência individual continuam crescendo, um passeio rápido pelas ruas de Memphis ou St. Louis denuncia uma série de negócios fechando e prédios que são abandonados por falta de pessoas para alugar salas.

Enquanto isso, Obama demonstra uma incapacidade notável de articular uma ponte entre a habilidade de fazer discursos geniais com uma comunicação efetiva com o grande público. Ao contrário de Clinton, Obama não tem, hoje, qualquer simpatia com os democratas do meio-oeste, que têm um perfil mais de classe-média baixa, operária-industrial. Enquanto isso, Palin apela forte para o público de direita. Agora, Obama olha para o mapa eleitoral e vê os republicanos com chance de eleger governadores em 30 dos 50 estados, e com alta possibilidade de reverter a maioria democrata no Congresso, e diminuir a vantagem no senado.

Tolerância de mão única

Entre as discussões bobas da mesquita próxima do ground zero e a suposta queima do Corão por um pastor imbecil (pleonasmo, eu sei) na Flórida, uma coisa fica clara sobre o cenário pós 9/11, e que talvez seja a maior vitória dos atentados: os americanos estão extremamente dispostos a abrir mão de liberdades civis conquistadas nos últimos 100 anos em nome da suposta segurança nacional.

Por um lado, existe a tentativa de legitimar o Islã no contexto norte-americano após os ataques. Depois dos abusos praticados pelo governo Bush contra prisioneiros de guerra e o evidente estabelecimento de elementos religiosos dentro do Imperialismo Democrático da doutrina Bush, agora o esforço passa por legitimar o Islã. Exceto que tentar legitimar algo já presume a ilegitimidade da coisa. E ai temos a primeira dimensão do problema, ao tentar justificar as atividades normais de muçulmanos nos Estados Unidos, surge a pergunta “porque esses indivíduos precisam justificar essas atividades, quando outros não precisam?”.

Do outro lado, existe uma preocupação especial com as sensibilidades do Islã. Todas as religiões podem ser objeto de chacota, menos o Islã. Esse tratamento especial acaba denotando a construção de uma via de mão única, onde se permitem a construção de mesquitas, mas se aceita que essas mesmas mesquitas não permitam que cachorros passem na frente do estabelecimento (cachorros são animais impuros, entenda). Nada disso ajuda no processo de integração, pelo contrário.

Acontece que Obama não tem exatamente um histórico fabuloso na questão de direitos humanos. Guantánamo continua ativa, prisioneiros são mantidos no local sem julgamento e sem direito a Habeas Corpus. E aí?

Um país na encruzilhada

Sem dúvida, a eleição de Obama foi um evento extremamente relevante do ponto de vista socio-cultural, Obama venceu em estados onde 40 anos atrás um negro não poderia sentar na mesma mesa de um branco. Mas o momento de euforia com a eleição se esvaziou antes da posse do Obama. Já no terceiro mês, a aprovação de Obama era normal, e depois de um ano, a queda começou a se tornar vertiginosa.

Parece que houve, sim, uma mudança substancial no país, mas não era a que os democratas esperavam. Pelo contrário, a eleição mobilizou os conservadores e rapidamente frustrou os democratas. Agora, Obama vai ter que lidar com a potencial eleição de republicanos extremamente conservadores para o Congresso (os moderados estão sendo obliterados pela Palin), e esperar que essa tendência não se reverta na eleição da Palin como presidente em 2012 (o que sigo achando pouco provável).

Ainda assim, o crescimento do conservadorismo religioso enquanto vanguarda política é um fato incontestável desde 2001, e Obama perdeu a chance de parar essa tendência no momento da posse. Agora, ela retornou com mais força e mais poder de organização e talvez possa desenhar uma mudança política maior que a protagonizada por Reagan.

Hells Angels x Brasília: vida loka de terno sobre duas rodas

Leandro Demori | Itália 14:19 | 14/08/2010

Publicado no Terra, ontem. Qualquer semelhança com a classe política não é mera coincidência.

Leandro Demori
Direto de Roma
– Especial para o Terra

Em 21 de fevereiro de 1994, uma explosão mandou pelo ares a casa de esquina localizada em uma pacata rua da cidade portuária de Helsingborg, na Suécia. O que parecia ser um acidente logo foi confirmado como atentado: peritos encontraram estilhaços de um foguete usado para destruir tanques de guerra em meio aos destroços. A casa, que pertencia ao clube de motoqueiros Hells Angels, era o pequeno fiapo de luz visível de uma guerra subterrânea pelo controle de territórios e do tráfico de drogas na península escandinava — quatro anos de confrontos e um rastro de mortos pelo caminho.

Mais de 15 anos após aquela que ficou conhecida como “A Grande Guerra Nórdica das Motocicletas”, a Europol — polícia de investigação europeia montada nos moldes da Interpol –- teme que novos confrontos campais entre gangues de motoqueiros possam acontecer. “Há um risco claro de guerra a ser considerado”, avisa Soren Pedersen, diretor-chefe de comunicações da Europol direto de Hage, na Holanda, quartel general da força. O atentado cometido contra os Hells Angels da Suécia em 1994 foi reivindicado pelos “Bandidos Motorcycle Club”, histórica gangue rival fundada no Texas nos anos 1960 e, hoje, conforme a Europol, uma rede criminosa internacional assim como os próprios Hells Angels. “Tiros e bombas são a ação padrão desses grupos”, explica Pedersen.

Símbolo de liberdade, a vida em duas rodas romanceada inúmeras vezes pela ficção mundial está distante da realidade dos grupos de motoqueiros espalhados pelo mundo sob o nomes como “Hells Angels” ou “Bandidos”. Dados da Europol, da Interpol e de inúmeras outras unidades de investigação do mundo (incluindo o FBI e o serviço de inteligência do Canadá) garantem que ambas estão entre as maiores gangues de motocicletas do mundo, dedicadas ao tráfico de drogas, ao roubo e à extorsão. “Não se pode generalizar, mas a maior parte desses grupos são criminosos”, garante o chefe da comunicação da Europol. No Velho Continente, a força de investigação identificou recentemente uma grande expansão das gangues sobre rodas e está conduzindo um projeto para ajudar as agências de aplicação da lei na União Europeia a combater a ameaça.

A preocupação maior está concentrada na Europa Oriental, onde, de acordo com as investigações, os Hells Angels Motorcycle Club (HAMC) ampliou significativamente sua presença. “Ao longo dos últimos anos, eles têm liderado um avanço extremamente rápido, especialmente na Turquia e Albânia. Eles ignoram a lei e a maioria dos membros atua em múltiplas áreas do crime, de extorsão a homicídio, passando por ofensas corporais graves e roubo organizado, fraude e crime financeiro, tráfico de armas de fogo e explosivos, tráfico de seres humanos para exploração sexual e tráfico de drogas”, esclarece Pedersen.

A organização de grupos como os Hells Angels é semelhante a de sistemas mafiosos tradicionais, exceto por um detalhe bastante importante: eles não se escondem. Cada gangue tem suas filiais espalhadas pelo mundo com logotipos, vestimentas e slogan definidos. O número de membros é variável, mas estima-se em milhares de filiados regido por um organograma preciso: presidente, vice-presidente, tesoureiro, secretário, capitão-de-estrada e sargento-de-armas. As filias são chamadas de “capítulos”, comumente localizadas em bares. A maioria dos grupos tem seu próprio estatuto, com regras que devem ser respeitadas à risca. Nos últimos anos, membros dos Hells Angels estiveram envolvidos em toda a gama de atividades do crime organizado europeu, em particular na produção e distribuição de maconha e meta-anfetaminas, com posição sólida também no mercado de cocaína.

Um dos temores da Europol é que novas alianças entre gangues de motoqueiros estejam surgindo, o que significa grupos maiores, mais infra-estrutura, relações, recursos e experiência. Mais encrenca. As fusões são uma necessidade de mercado: é preciso gerenciar o tráfico de drogas a partir do sudeste da Europa utilizando a “Rota dos Balcãs”, que vê a Turquia como um ponto de ancoragem e os países circundantes como área de circulação.

Ao estabelecer a sua influência territorial no Europa Oriental, os Hells Angels construíram relações estreitas com gangues de motoqueiros já existentes na Albânia, Bulgária e nas antigas áreas das repúblicas ioguslava e macedônia. Além disso, um grande número de ex-membros de “capítulos” alemães dos rivais “Bandidos” – a maioria de origem turca – recentemente desertou para os Hells Angels da Turquia. A corrida para garantir as oportunidades oferecidas pelos mercados do Sudeste da Europa é que pode gerar uma guerra entre gangues rivais. A criação de outros grupos motorizados fora-da-lei onde os Hells Angels já estão presentes é outra ameaça de conflitos violentos em nome da superioridade local.

Os confrontos à fogo fazem parte de uma estratégia muito mais profunda e perigosa. Hells Angels europeus buscam construir relacionamentos íntimos com pessoas influentes e autoridades da região. O objetivo é polir uma imagem pública favorável através de artigos em jornais e aparecimentos na TV. Em bom jargão: a ordem é “limpar a barra” investindo em estruturas empresariais legítimas que, por trás do bom-mocismo, escondem lavagem de dinheiro, fraudes e uma miríade de outros crimes.

A falta de conhecimento sobre o número exato de gangues de motoqueiros e a natureza de suas relações com outras gangues representa a maior lacuna de informação para autoridades nacionais. Foram mapeados mais de 60 moto-clubes de risco, muitos com ligações estabelecidas com gangues de motociclistas internacionais foras-da-lei. “Não são simples entusistas de motocicletas”, garante Pedersen, da Europol. “Precisamos agir em conjunto”.

Melhor levar o guarda-chuva

Leandro Demori | Itália 14:05 | 02/08/2010

Durante sua fala dominical (o Angelus), o Papa Bento XVI expressou ontem “muita satisfação pela entrada em vigor do tratado pelo não-uso das Cluster Bombs“, leio agora no Corriere della Sera [impresso].

Cluster bomb é um armamento militar — uma bomba — que, após lançada de aviões ou do solo, se separa em diversas outras pequenas bombas, causando uma estrago dissipado no alvo.

O problema das Cluster bombs é que, ao tocarem o solo, muitas ogivas não explodem. Permanecem ali por anos até serem descobertas por animais ou pessoas. Muitas são as vítimas no pós-guerra, invariavelmente civis.

A Cruz Vermelha Internacional estima em 100 milhões o número de ogivas plantadas em antigos campos de guerra pelo mundo.

O Angelus papal foi direcionado à convenção porque o Vaticano foi um dos Estados que pressionou na ONU pelo fim do uso das Cluster Bombs. As expectativas, no entanto, foram resfriadas por um dado importante: “mesmo sendo assinada por 107 nações, não foi reconhecida por países como Estados Unidos, China, Rússia, Israel, Índia, Paquistão e Brasil. Entre os 107 presentes, somente 37 já ratificaram a convenção”, traz o Corriere.

Estados Unidos, Rússia e China são produtores das bombas, vendem a países como Israel (que as usou contra o Líbano, por exemplo), Paquistão e Índia (que brigam pela região da Caxemira).

O Brasil não está em guerra, [mas também produz Cluster Bombs <-- updated 19h54] e não deve espantar o fato de o país ter deixado de assinar o documento. Já que estamos entrando no mundo dos adultos, nada mais natural do que se acostumar com as brincadeiras da parte de cima do beliche.

Dormir em baixo é roubada.

“WikiLeaks falha big bang mediático”

braziu.org 11:46 | 31/07/2010

Por Jorge Almeida Fernandes – do publico.pt

A guerra não precisa das “revelações” do WikiLeaks para ser o pesadelo da NATO e de Obama. Se o site pôs em risco a vida de informadores afegãos, diz o seu fundador, a culpa é da Casa Branca, que não respondeu ao seu pedido de ajuda. A “maior fuga de informação da história militar” está a redundar em fiasco. Ao fim de dois dias saiu das primeiras páginas. Por Jorge Almeida Fernandes

“A operação do site WikiLeaks foi inédita pela sua escala – uma fuga de informação de mais de 90 mil documentos militares – e demonstra que a Internet pode mudar as regras do jogo da guerra, agravando a vulnerabilidade do “segredo militar”. Foi um sucesso de propaganda para Julian Assange, fundador do WikiLeaks. Era o esboço de uma revolução nos media, em que um site participativo ditava a sua lei de “transparência” a três jornais históricos. Mas, ao terceiro dia, o tema desapareceu das primeiras páginas. Terá sido um flop?

O WikiLeaks é uma organização peculiar. Especializada na divulgação de documentos confidenciais, é uma máquina “blindada” em termos de segurança informática e, refugiada em “paraísos informativos”, não está sujeita a nenhum sistema legal. “É a primeira organização informativa do mundo sem Estado”, anotou Jay Rosen, professor de Jornalismo em Nova Iorque. “Isto é novo. Tal como a Internet, o WikiLeaks não tem endereço territorial nem sede central.”

A operação foi cuidadosamente montada. A informação foi antecipadamente passada a três “jornais de papel” – The New York Times, The Guardian e o semanário Der Spiegel. Por que não colocaram a documentação em linha para que os media de todo o mundo a ela pudessem ter acesso?

Assange explicou há meses que a “transparência” passa pelas leis do mercado: “Acredita-se que quanto mais importante é um documento mais divulgado ele será. É absolutamente falso. Tem a ver com a oferta e a procura. Uma oferta fraca arrasta uma procura forte e é isto que tem valor. Quando difundimos uma coisa em todo o mundo, a oferta é infinita e, portanto, o valor aproxima-se do zero.”

Os três jornais de referência serviram para caucionar a fuga e maximizar o seu impacto. E prestaram um serviço: reuniram especialistas para descodificar a linguagem, as siglas e o calão das comunicações militares. Em bruto, este tipo de documentação é ilegível.

Jornalismos
Cada jornal explorou a informação segundo a sua óptica. O NY Times sublinhou a duplicidade do Paquistão; o Guardian focou os relatórios sobre vítimas civis; o Spiegel realçou o encobrimento da difícil situação das tropas alemãs pelo Governo de Berlim. São três ópticas em consonância com as sensibilidades nacionais.

O título de primeira página do NY Times – Paquistão ajuda a insurreição no Afeganistão – mereceu uma ironia de Anne Applebaum, no (concorrente) Washington Post: será isto “notícia”, quando o NY Times reportou e analisou, dezenas e dezenas de vezes, a cumplicidade entre os serviços secretos militares paquistaneses e os taliban?

Esta ironia liga-se ao paradoxo da fuga: os documentos não têm praticamente novidade. Mostram, disse um jornalista, que a guerra é um inferno e é suja, que as operações provocam mais vítimas civis do que a estatística oficial reconhece, que o Paquistão é dúplice, que o Governo de Cabul é corrupto, que há incompetência e desorientação entre os militares da força internacional. A fuga pretendia explorar o “efeito de massa” e os imensos detalhes inseridos em milhares de documentos.

Assange assume-se como um justiceiro, que “adora esmagar patifes”, e qualifica a actividade do seu site como “bom jornalismo” e “um serviço de informação do povo”. Quanto ao objectivo da operação, diz: “Há uma tendência para acabar com a guerra no Afeganistão. Esta informação não é isolada e provocará uma viragem política significativa.”

O repórter italiano Gian Micalessin, que tem coberto a guerra afegã, denuncia o “bom jornalismo” do WikiLeaks. Na conferência de imprensa em Londres, na segunda-feira, Assange colocou a diferença entre boa e má informação “na autenticidade das fontes, capazes de transmitir uma indiscutível verdade”. Ora, os 92 mil documentos são “informações” recolhidas no campo, ao mais baixo nível de intelligence. O equivalente a um relatório de polícia “no local do crime”.

Resume Micalessin: “A procura da verdade – tanto no campo da intelligence como no do jornalismo – não se baseia apenas no acesso às fontes e aos documentos, mas também na capacidade de os analisar e construir uma trama capaz de fazer compreender o encadeamento dos acontecimentos e da estratégia.” Fontes em bruto são matéria-prima, não informação.

O jornalismo, dizia-se outrora, é o primeiro rascunho da História.

A arte da fuga
As fugas de informação são o nervo do jornalismo político desde que a liberdade de imprensa se afirmou. Há pequenas e grandes fugas, as de revolta moral, as de ressentimento e as de intoxicação. E há fugas que marcam a História. Dois exemplos americanos clássicos são os “Pentagon Papers” e as revelações do “Garganta Funda” no caso Watergate.

Ao contrário dos documentos do Afeganistão, os “Pentagon Papers” eram um conjunto de análises e relatórios das mais elevadas fontes – Casa Branca, Pentágono, CIA… – que cobriam, em 7000 páginas, a intervenção americana na Indochina ao longo de 22 anos (1945-67). Os papéis foram laboriosamente fotocopiados por Daniel Ellsberg, um analista da Rand Corporation que participou na sua elaboração. Crítico da guerra no Vietname, Ellsberg passou-os ao NY Times, em 1971.

Eles permitiam dizer categoricamente que a “Administração Johnson mentiu sistematicamente não só ao público como ao Congresso sobre um assunto de transcendente interesse nacional”. Teve grande impacto, porque o sentimento antiguerra já estava maduro. E o efeito foi reforçado quando Nixon tentou impedir a sua publicação, que feria a nova estratégia de alargar o conflito ao Laos e ao Camboja para negociar em posição de força.

Radical foi a eficácia do “Garganta Funda”, que hoje se sabe ter sido Mark Felt, subdirector do FBI: gota a gota, foi desfiando informações que culminaram na demissão de Nixon, em 1974.

Ellsberg, que admira Assange, fez um paralelo entre os seus casos. Declarou numa entrevista que esta fuga de informação é a mais importante desde os “Pentagon Papers”. Com uma diferença: “Tem uma escala muito mais larga e, graças à Internet, deu a volta ao mundo muito mais rapidamente.”

Ellsberg pôde fazer a fuga, porque tinha sido inventada a fotocópia. Assange não só beneficia da Internet, como da vulnerabilidade da informação electrónica. É uma das razões de alarme do Pentágono, que fez da identificação do informador ou informadores do WikiLeaks “um objectivo estratégico”. O problema é que todos os militares mobilizados no Afeganistão, os analistas do Pentágono e seus parceiros privados podem aceder, via Intranet, a este tipo de informação.

“A Web tornou-se uma ameaça para as nações em guerra, porque a informação secreta é decisiva para o sucesso ou o fracasso no conflito. Quem revele um segredo e o difunda numa escala gigantesca pode influenciar a guerra”, anota o diário alemão Süddeutsche Zeitung.

A guerra
A operação teve efeitos políticos. Na Europa, os sectores críticos da guerra subiram a pressão sobre os governos, exigindo a retirada do Afeganistão. Poderá ser este o efeito mais imediato. Em Washington, Obama enfrenta a pressão dos “pacifistas” democratas. Um ponto crítico é a nova quebra de confiança entre os EUA e o Paquistão. As revelações confirmam a ideia de atolamento e inutilidade da guerra, mas, ao contrário da previsão inicial de alguns analistas, não produziram um sobressalto dramático na opinião pública americana.

O fundamental está noutro plano: a guerra do Afeganistão não precisa do WikiLeaks para ser um pesadelo da NATO e dos americanos. Em Agosto de 2009, uma fuga de informação filtrada pelo Washington Post atribuía ao general Stanley McChrystal a afirmação de que os EUA só tinham 12 meses para inverter o curso da guerra. Que se passa um ano depois?

Richard Haass, presidente do Council on Foreign Relations e que foi conselheiro de Colin Powell na era Bush, assina na Newsweek um artigo intitulado: Não estamos a vencer. E não vale a pena. A estratégia da contra-insurreição não está a resultar, diz. E nenhuma das opções que Obama tem à disposição é agradável. Restará ao general Petraeus reduzir as operações e poupar a vida de soldados, aguardando uma aproximação aos taliban. “Quanto mais depressa aceitarmos que o Afeganistão não é um problema a resolver mas uma situação a gerir, tanto melhor.”

Flop?
Na quinta-feira, Assange defendia-se de ter divulgado, na versão bruta colocada em linha, documentos com nomes de informadores afegãos, denúncia feita pelo jornal britânico The Times após investigação. Argumentou que tinha pedido à Casa Branca, na semana passada, que colaborasse com o site de modo “a minimizar a possibilidade de nomes de informadores serem divulgados”. Não teve resposta!

O magazine Slate chama a atenção para o facto de, após dois dias de estrondo, o assunto ter desaparecido da primeira página do NY Times. “A rapidez com que a imprensa e os políticos normalizaram o material como “não notícia” indicia que Julian Assange, líder do WikiLeaks, se poderá ter equivocado no desejo de produzir o grande bang mediático.” O segredo da gestão das fugas é administrá-las gota a gota. “Mas a estratégia gota a gota requer determinar o que é mais importante na história.” A falta de novidade torna essa escolha problemática.

No seu blogue na Foreign Policy, Tom Ricks ironizou: “Os milhares de documentos lembram-me o que é ser repórter: imensas pessoas diferentes a contar coisas diferentes. Leva algum tempo a distinguir o lixo do ouro.”

O antigo hacker Julian Assange diz ter outras munições na manga. Aguardemos a próxima “bomba”.”

Paris-Brasília. (ou por que você jamais encontrará explicações sobre o acordo Irã-Brasil-Turquia sem olhar para o deserto)

Leandro Demori | Itália 14:00 | 28/05/2010

Antes de ler o post é obrigatório assistir ao vídeo. Não precisa ver tudo — a narração é em italiano — mas ao menos entenda o que está acontecendo.

Os corpos do filme acima foram encontrados no Saara. São uma amostra sobre a areia dos mortos que o deserto consome em nome de uma guerra bilionária promovida na África — tantos outros foram engolidos sem honras fúnebres ou sepultura. Essa gente deveria ser enterrada em Roma, em Tripoli, em Paris ou em Brasília. Ou em Washington, em Teerã, em Pequim, em Moscou. Ou no quintal da sua casa se você confia na democracia participativa somente quando ela serve para aplaudir qualquer acordo diplomático que poderia ter sido assinado em um rolo de papel higiênico.

O vídeo foi obtido pelo repórter da revista L’Espresso, Fabrizio Gatti. Gatti infiltrou-se em um grupo de imigrantes ilegais, andou de caminhão, ônibus e a pé por parte do norte da África até pegar uma embarcação clandestina na Líbia, destino Lampedusa, o ponto mais ao sul da Itália, pedaço de paraíso desejado por milhares de africanos que fogem da miséria e de conflitos armados todos os anos.

O que Gatti descobriu? Que a imigração feita em barcos como esse aí de cima não é desordenada e ocasional como muitos pensam. E que por trás da indústria de exportação de seres humanos montada por africanos e europeus — que chegam a cobrar 1,5 mil euros por pessoa pela travessia até a terra prometida — está uma guerra promovida pela França em nome de uma das matérias-primas mais importantes da atualidade: o urânio, tão discutido no Brasil dos últimos dias, aquele mesmo que o Irã quer enriquecer sob “fins pacíficos” e que o nosso país apoia e acha que está tudo bem.

Escreve Gatti:

“A estrada dos traficantes de homens foi aberta graças à guerra dos tuaregues. Uma guerra pelo urânio sustentada pela França na região de Agadez, no Níger. Os tuaregues, ajudados e armados pela França, desencadearam uma ofensiva no Saara pelo controle da região de Imouraren, onde está a segunda maior mina de urânio do mundo, menor somente do que a de Mc Arthur River, no Canadá.”

O Níger foi colônia francesa até 1958. Em 1960, depois de uma período de transição, proclamou independência. Desde aquela época, o frágil governo se equilibra entre períodos republicanos e juntas militares, golpe atrás de golpe. No meio disso estão os tuaregues, etnia que vive espalhada por diversos países da África Ocidental. Os tuaregues querem um país e, para isso, parte deles, como os que vivem no Níger, estão armados.

A guerra tuareg foi inflamada pela França porque, em 2007, o país perdeu o monopólio da extração do minério no Níger. Paris gozava do benefício desde o fim da colônia, apoiado em um direito de prioridade de compra imposto ao Níger quando este se tornou independente. O governo local enfraqueceu a França ao conceder direitos de exploração na região de Agadez, a zona tuareg, ao Canadá (15 permissões), Austrália (7), África do Sul (6), França (4), Índia (3), China (2), Rússia (2), Estados Unidos (1), Emirados Árabes (1), Reino Unido (1) e Ilhas Virgens (1). A França, em contrapartida, desestabilizou o país e a região ao promover novamente o levante étnico tuareg justamente na zona mineira.

Essa é a Areva Tower, sede da empresa estatal Areva, gigante atômico francês responsável pela exploração de urânio no Níger. Sabe o que aconteceu depois de 2007, quando a guerra civil botou a região de Agadez nas mãos dos tuaregues? Fabrizio Gatti conta:

“O Níger concedeu à sociedade Areva mais áreas de extração no país. A partir de 2012, a Areva terá tanto urânio que, para amortizar o prejuízo de 1,2 bilhões de euros com a empreitada, deve encontrar clientes.”

A Areva já encontrou seus clientes. O Brasil é um deles.

“A empresa francesa Areva, líder no setor de energia nuclear, anunciou nesta segunda-feira, em Paris, a assinatura de um contrato com as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) para o fornecimento de serviços de conversão de urânio no valor de US$ 32 milhões.”

Mas o grosso está aqui:
O que diz o acordo com a Areva? A Areva fornecerá os equipamentos e financiará o projeto?

A Areva, resultante da fusão da empresa alemã Siemens KWU com a francesa Framatome, tem um contrato comercial válido para sua participação na construção de Angra 3, através do fornecimento de bens de serviços importados. Como esses contratos são muito antigos, encontram-se em andamento negociações para atualização dos mesmos. O financiamento para esse escopo importado de bens e serviços – cerca de 770 milhões de euros – deverá vir de empréstimos de bancos europeus, alguns dos quais, reiteradas vezes, vêm confirmando o interesse em participar do financiamento do empreendimento” [Eletrobras]

O mapa abaixo mostra a rota do urânio e a rota dos imigrantes. Ambos se movem, como se vê, em uma zona de conflitos internos, desestabilizada. A quantidade de gente que arrisca a própria vida em botes pelo Mediterrâneo está diretamente ligada ao jogo sujo promovido pelos interesses nucleares na região. [clique nas abas para ver o infográfico em flash]

O tamanho da confusão na intrincada diplomacia internacional é tão grande que confunde. Parece ser feito para isso. Considere que o Irã é, hoje, um bode na sala. Enquanto todo mundo olha pra ele, muita sujeira corre pelas laterais.

Por que China e Rússia, que até dias atrás preferiam o diálogo com o Irã, agora apoiam sanções após o acordo firmado entre Teerã e Brasil/Turquia? Não por acaso, China e Rússia desfrutam de concessões nas minas do Níger.

Por que Obama pediu para que o Brasil firmasse o acordo exatamente nos mesmos termos assinados por Lula e depois deixou Hillary Clinton partir para o ataque?

Música para refletir:

Mullah Abdul Ghani Baradar é capturado

Fabricio Pontin | Estados Unidos 12:36 | 16/02/2010

Quem?

Bom, uma forma fácil de responder seria dizer que o Sr. Baradar é o terceiro em comando no Taliban. Na frente dele só o Osama e o Mullah Omar. Ou seja, o líder operacional foi capturado no paquistão cerca de cinco dias atrás.

Isso vai significar, aqui nos Estados Unidos, o retorno de diversos debates. O primeiro deles, mais imediato, é o que fazer com Mullah Baradar? Este final de semana o ex-vice-presidente Cheney disse que ele apoiava o waterboarding. Entusiasticamente.

Em poucas palavras, ele teria dito acreditar que mesmo Bush era excessivamente piedoso com os terroristas. Então esperem logo as reações apaixonadas pedindo que as unhas do Sr. Baradar sejam arrancadas na tentativa de descobrir onde Osama descansa.

O outro retorno é o capital político da captura. É a primeira “conquista” de grande porte do governo Obama, primeira captura de album de figurinhas. Também pode ser uma consequência – não sou especialista militar, mas creio que pode ser lida assim – do recente surge no Afeganistão. Pois bem, tu podes me perguntar se isso vai abaixar o volume das críticas republicanas sobre a suposta mão leve de Obama no trato com as relações internacionais. A pergunta, eu quero acreditar que tu és uma pessoa inteligente, é retórica, claro. Não vai mudar nada. O discurso vai seguir o mesmo, e eu devo postar antes do final da semana algo saindo da boca de algum comentarista da Fox (talvez o Sr. Rove ou mesmo a Sra. Palin) condenando Obama por não estar pessoalmente no Afeganistão com uma faca multi-uso, uma faixa vermelha no cabelo e dizendo “escrotos” por entre os dentes enquanto metralha metade da população local.

Os ataques republicanos à conduta de Obama – que não é nenhum pacifista na política externa, bem entendido – vão continuar seguindo uma narrativa própria, que está preparando o debate político das eleições para o congresso, este ano, e já começam a esquentar os motores para a eleição de 2012. O interessante é que a captura e posterior tratamento do Sr. Baradar vai informar tanto a narrativa dos democratas quanto dos republicanos, independentemente do mérito da captura – ou dos erros da política externa americana em termos de inteligência e interrogatório.

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