O Bagulhão, o Japonês, o Professor
A máfia italiana tem mais de cem anos e deve parte de sua vitalidade a um mito fundador: a história de Osso, Mastrosso e Carcagnosso. Quer a lenda que os três cavaleiros espanhóis precisaram fugir da península ibérica após lavar a honra da família com sangue, matando o estuprador de uma de suas irmãs. Osso, Mastrosso e Carcagnosso teriam passado 30 anos na ilha de Favignana. Mais tarde, cada um dos três irmãos teria ido para uma região distinta da Itália e fundado sua própria ordem armada: na Sícilia, Calábria e Campanha, Osso, Mastrosso e Carcagnosso seriam os padrini de Cosa Nostra, ‘Ndrangheta e Camorra.
O fato de terem fugido da Espanha em nome da honra não é detalhe inócuo, mas artigo fundamental no mito fundador mafioso: até hoje, os membros dos clãs são chamados, não por acaso, uomini d’onore (homens de honra).
Os ritos de iniciação da máfia nomeiam os cavaleiros espanhóis até hoje — em sua honra são batizados locais tomados pelos clãs ou iniciados novos membros, os picciotti, primeiro ‘cargo’ da organização. Um livro fundamental para entender a dinâmica dos mitos fundadores da máfia com sua atualidade é Fratelli di Sangue, sob a pena de um dos maiores juizes anti-máfia, Nicola Gratteri.
Paz, Justiça e Liberdade. Esses são os mitos fundadores do Comando Vermelho, pai do tráfico organizado no Rio de Janeiro. Fundada na cadeia, a facção criminosa operava de modo amador já na década de 50, sobretudo dentro dos presídios. Nos morros, a venda de drogas se restringia à maconha, negociada por velhotas que arredondavam a aposentadoria de modo caseiro e semi-amador, dividindo os lucros com o crime.
Sempre morreu gente na favela, muito antes do crime começar a se organizar. A atenção da imprensa às mortes a partir dos anos 60 está diretamente ligada ao mito fundador do CV — como funeral de favelado não vende jornal, o surgimento de uma organização criminosa trazia boas histórias para contar. O tráfico desceu o morro em forma de papel e tinta.
O Gênesis não-escrito do Comando Vermelho se destinava a proteger os presos dentro da cadeia, muito antes de organizar a venda de toneladas de drogas fora dela. O CV surgiu para suportar um sistema carcerário cruel, ineficiente e caro que replica moldes até hoje, mais de meio século após a insurreição criminosa. A situação fora das grades é alimentada pela barbárie dentro delas.
Osso, Mastrosso e Carcagnosso do Rio de Janeiro são Bagulhão, Japonês e Professor, três traficantes da velha guarda que ainda dominam o imaginário coletivo do crime como fundadores do Comando Vermelho. Os mitos fortalecem a irmandade, a cumplicidade criminosa em cima da Santa Trindade de Paz, Justiça e Liberdade se mistura com dizeres bíblicos da mesma forma como São Miguel Arcanjo é usado para batizar novos membros das máfias italianas. É quando o crime deixa de ser crime e passa a ser um ato de fé.
Os bandos criminosos do Rio não podem ser equiparados à máfia italiana; são organizações pré-mafiosas, com comando e ordem, mas muito menos sofisticadas e disciplinadas do que Camorra, ‘Ndrangheta, Cosa Nostra, Sacra Corona Unita e outras. Traficantes estão há 50 anos nos morros cariocas e ainda usam chinelo de dedo, bermudões de praia; atiram mal e, o que é pior, ainda atiram. O que uma organização criminosa menos quer é o confronto. O ápice do crime é passar despercebido.
As cenas da última semana no Rio de Janeiro mostram que o crime nos morros não evoluiu porque jamais teve a necessidade disso. De mãos dadas com uma polícia historicamente corrupta e com governantes que fizeram incontáveis “tratados de paz”, os líderes do momento ainda fazem contabilidade em folhas de caderno e desfilam pelos morros armados com fuzis em motos importadas. Simbolicamente infantil.
O projeto inicial do Comando Vermelho era entrar em todos os buracos deixados pelo poder público, que são muitos, quase infinitos no Brasil. O CV é apenas mais uma prova de que máfias e organizações pré-mafiosas não são contra o Estado — a última coisa que querem é a guerra. Desejam fazer parte do Estado, ser ele onde ele jamais foi. É justo dizer que as UPP’s são parte de uma política socializadora dos morros, mas ingênuo pensar que são um fim em si. Simbolicamente, a perna do Estado que primeiro subiu o morro não foi a da educação ou a da dignidade, mas a das armas. E essa é, antes de tudo, uma guerra simbólica.
O crime no Rio age nas necessidades mais básicas: gás, remédio, cigarro, sabonete, brinquedos de natal, enterros, pequenas obras, ‘puxadinhos’. Não há nada aqui que o Estado não possa fazer. É bobagem achar que o tráfico substitiu o Estado; ele apenas tenta, e faz de forma esparsa e pouco eficiente, agindo do modo mais superficial possível nas necessidades individuais daqueles que pedem ‘arrego’. Não é uma política, é uma ação.
O Brasil perdeu muito tempo. Perder tempo é um esporte nacional. O tráfico já está na quarta geração. Mesmo que não tenha se tornado uma dinastia (justamente pela organização precária, o filho de Fernandinho Beira-Mar não terá qualquer garantia de ser um ‘poderoso chefão’ no futuro), o tráfico se tornou uma oligarquia, uma nobreza de havaianas.
A esperança para os jovens do Sul da Itália, além da máfia, é o exército, que paga menos e pode mandá-los para o Afeganistão. No Rio, nem o exército salva.
Daquele Comando Vermelho dos anos 50 só resta o mito. A morte prematura e as guerras internas pelo comando dos morros tornou o crime de entorpecentes uma roda gigante descontrolada, sem tempo para render homenagens ao passado. Na busca no youtube pela palavra “Falcão”, as mais importantes citações se referem a “futsal, cantor brega, dribles”. As imagens captadas para compor o excelente documentário “Falcão, meninos do tráfico” são secundárias. Asfalto e morro se unem na indiferença.
Tags: BOPE, Guerra, invasão, morros, Rio de Janeiro, tráfico, violência
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