A Telecom Italia é o meu Coliseu

Leandro Demori | Itália 10:22 | 27/09/2010

A banca da empresa de telefonia e internet Fastweb na estação central de trens de Roma foi montada cedo pela manhã. São 11h04 e a placa maleável feita de acrílico que transforma a base de aço em um balcão aparentemente sólido já começa a se desprender da estrutura.

Logo chega alguém com cara de gerente sambarilóvi trazendo uma fita durex em mãos. Remenda tudo fazendo com que a estrutura pareça novamente bella e sólida, não sem antes soltar um olhar fixado para as atendentes atrás do balcão promocional improvisado. São gostosas e de aspecto selvagem; vendem acesso rápido à internet com os peitos.

‘Fastweb, un passo avanti.’

Os clientes entendem bem o slogan da empresa. Alguns dão tantos passos avanti que quase afundam o nariz nos imensos patrimônios históricos das italianas. Elas sorriem fingindo gostar enquanto batem a carteira de alguém vendendo promessas de amor e felicidade em fibra ótica que jamais se concluirão.

A Fastweb é uma companhia privada, recentemente envolvida em um esquema de evasão de divisas, fraudes e lavagem de dinheiro. Seu presidente, Silvio Scaglia, teve ordem de prisão decretada mas se declarou impossibilitado de se apresentar — estava no Rio de Janeiro admirando nossos monumentos históricos em alguma praia ensolarada assim como fazem seus potenciais clientes no balcão de atendimento remendado com durex na estação de trens de Roma.

Quando foi divulgada a operação policial que prendera o administrador da Fastweb eu era cliente da empresa. Temi ficar sem acesso à internet, impedido de estudar história online. Por sorte, algum gerente com cara de sambarilóvi deve ter estirado dois ou três pedaços de durex no sistema e nada aconteceu.

Mudamos de casa semanas após o ‘escândalo Fastweb’ (alguém ainda se escandaliza com roubalheira?). Como era mais caro transferir o sinal do que assinar um outro, mudamos também o provedor de serviços de banda larga e telefonia. Agora, somos felizes clientes Telecom Italia. A Telecom Italia é a mesma que opera celulares no Brasil sob o nome TIM.

Ser cliente Telecom não me deixa mais tranquilo do que ser cliente Fastweb. A Telecom é objeto de um extenso processo judicial que envolve espionagem, corrupção pública e privada, lobby ilegal e o Brasil. Em março deste ano, Fábio Ghioni — um ex-executivo do grupo de espionagens da Telecom Italia — disse à juíza Mariolina Panassiti no Tribunal de Justiça de Milão que, dos 120 milhões de euros ilegais gastos em todo o mundo, 10 milhões foram destinados ao Brasil. O dinheiro teria sido usado para “corromper políticos e agentes federais”, incluindo a Polícia Federal.

Uma boa diversão para a semana seria tentar entender quem se deu bem com essa sujeira toda no Brasil. É o processo que envolve Daniel Dantas. Ele você já odeia e tem certeza de que é “o maior corruptor do país”. E o resto? Juro que é bastante interessante reconstruir alguns caminhos para entender que oposição e governo não se engalfinham assim a fundo na luta do Bem contra o Mal quanto querem fazer crer à militância. Deixam a briga de dedo-no-olho pro andar de baixo, onde reina a ingenuidade.

Adoraria poder explicar tudo, mas não posso. Estou baixando verdadeiras enciclopédias (na casa do terabytes) com fotos e mais fotos de monumentos históricos. Gosto muito de monumentos históricos — não posso arriscar ficar sem vê-los caso a Telecom Italia saia do ar. Um homem precavido vale por dois. Nesse caso, vale por vocês todos.

“Grita o quanto quiser/Nada com as baleias/Grita sem suplicar/Voa com as mariposas”

Leandro Demori | Itália 16:18 | 03/08/2010

Itália pode ter primeiro premiê gay de sua história

LEANDRO DEMORI
Direto de Roma

“Grita o quanto quiser
Nada com as baleias
Grita sem suplicar
Voa com as mariposas”

“A mesma mão que em um dia qualquer no final dos anos 1990 rabiscou esses versos – impressos no livro de poesias “Ultimo Mare” (Último Mar), lançado em 2006 – poderá assinar decretos ministeriais em um futuro próximo na Itália. Navegando no mar impreciso dos últimos acontecimentos da política nacional, um personagem atípico se apresenta como possível sucessor de Silvio Berlusconi caso o país tenha eleições antecipadas por uma eventual queda do governo: Nichi Vendola, governador da região Apúlia, homossexual e ativista pró-direitos civis, é nome cada vez mais forte nas recentes sondagens feitas entre os eleitores.

A coalizão liderada por Silvio Berlusconi perdeu sustentação no Congresso por conta dos desentendimentos com Gianfranco Fini, co-fundador, juntamente com o primeiro-ministro, do partido Povo da Liberdade (PDL). Fini, que levou consigo cerca de 50 parlamentares do PDL, pode ajudar a oposição de centro-esquerda a derrubar o governo. No parlamentarismo italiano, o “voto de confiança” pode ser apreciado pelo Congresso. Caso haja maioria simples, a oposição pode dissolver o governo. Cairiam também todos os deputados e senadores, e novas eleições seriam convocadas.

O principal nome da esquerda anti-Berlusconi seria, hoje, Pier Luigi Bersani, secretário-nacional do Partido Democrático (PD). Nos salões do PD, no entanto, ganha força o nome de Nichi Vendola. Sondagem feita pela Ipr Marketing a pedido do jornal La Repubblica mostra um quadro favorável ao governador: se as eleições fossem hoje, os italianos com voto na centro-esquerda prefeririam Vendola a Bersani: 51% a 49%. Para 49% dos eleitores, Vendola tem chances reais de bater Berlusconi nas urnas, enquanto somente 31% acreditam no êxito de Bersani.

Nascido na Apúlia em agosto de 1958, Nichi Vendola é filho de uma família de comunistas. O nome de batismo (Nicola) é uma alusão a São Nicola, padroeiro de Bari, capital da região. O apelido, Nichi, é um diminutivo de Nichita, dado pelos pais em homenagem a Nikita Khrushchev, ex-líder comunista russo que, para a família Vendola, significou o início da “desestalinização” do país, o fim do culto à pessoa levado a ferro e fogo por Josef Stalin. “A imagem de Nikita Khrushchev que ficou na mente da minha família foi a do sapato”, declarou o goverador em uma de suas raras aparições na televisão nacional, em dezembro do ano passado. A imagem a qual se refere o governador é a de Khrushchev batendo com o sapato na mesa durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU nos anos 60.

Ativismo gay
Promotor e co-fundador da Associação de Lésbicas e Gays da Itália (Arcigay) e da Liga Italiana pela Luta Contra a AIDS (Lila), Vendola assumiu-se gay com 20 anos de idade, publicamente, em um jornal de sua cidade natal, a pequena Terlizzi. Se declara “homossexual”, e não “gay”. Costuma dizer que a palavra “gay” é hipócrita, um falso sinônimo que busca esconder a aspereza da palavra “homssexual”. “Isso era importante em uma época em que ‘sair do armário’ era um fio desencapado, hoje devemos nos livrar disso”, defendeu na mesma entrevista.

Comunista e católico, ao contrário dos comunistas históricos – normalmente ateus –, Vendola cita a Bíblia em diversas ocasiões públicas e não poupa o modo como o sistema comunista foi implementado em países como a Rússia, que define como “uma tragédia”. Defende que, no entanto, a Revolução de 1917, já naquele tempo, apresentava mudanças sociais importantes como a mudança do código penal que aboliu o crime de homossexualismo (mais tarde reinserido na lei). Apesar disso, ainda acredita nas bases do comunismo, como declarou mais de um vez em entrevistas, usando sempre a mesma frase: “não devemos botar fora a criança junto com a água suja”, em referência às boas ideias manchadas pela imagem dos Gulags.

Televisãofobia
Nichi Vendola não é prima-dona dos diversos programas políticos da TV italiana. Afirma não gostar do estilo e diz que é necessário “abaixar o volume” das discussões no tubo, “frustrantes”, segundo ele. Escolhe a dedo onde andar e como aparecer, sem contar com a superexposição necessária para a maioria dos egos parlamentares e executivos. Dentro do que acredita ser sua coerência, declarou pública solideridade à Alessandra Mussolini, neta do ex-ditador Benito Mussolini, ex-deputada e personagem político da direita radical italiana, frequentemente vista em programas de TV. Alessandra foi personagem de um processo midiático: foram divulgadas notícias sobre um suposto vídeo de sexo explícito no qual La Mussolini seria protagonsta. O vídeo jamais apareceu.

Reflexo da personalidade de Vendola pode ser visto dentro do próprio partido. Após cinco anos como governador da Apúlia, se recandidatou ao cargo nas eleições de março deste ano contra a vontade da cúpula do partido local, apoiada pelo ex-primeiro ministro italiano Massimo D’Alema. Nas eleições internas, no entanto, Vendola venceu a disputa com muitos corpos de distância: colheu 67% dos votos dentro do partido contra o economista Francesco Boccia, apoiado por D’Alema. Candidato oficial da coalizão de centro-esquerda, deu um banho na urnas e foi reconduzido à cadeira de governador com apoio de 73% dos eleitores, derrotando o candidato do partido de Silvio Berlsconi, Rocco Palese.

Vendola diz que o episódio não deixou nenhuma marca em seu modo de fazer política ou de tratar com os membros da coalizão. Alega refutar as “estratégias militares, as cartas de guerra e os números da política” na hora de concorrer. Não quer fazer alianças pelo simples fato de acumular votos, garante. A personalidade independente, no entanto, sabe calcular bem o momento do jogo. Nos primeiros sinais de que a aliança entre Silvio Berlusoni e Gianfranco Fini estava por rachar, Nichi Vendola declarou publicamente “estima a Fini”, de raíz política neo-fascista, sabendo que o apoio do agora opositor ao premier poderá ser decisivo.

Complô?
Sua homossexualidade não pode ser confundida com libertinagem sexual. Vendola critica Silvio Berlusconi pelo uso de casas onde Il Cavaliere recebe chefes de Estado e, ao mesmo tempo, “acompanhantes”, como mostraram a série de fotos divulgadas pelo jornal El País, da Espanha, no ano passado.

Apesar da clara diferença de perfil entre Nichi Vendola e os tradicionais políticos italianos, o governador da Apúlia segue o padrão dos líderes de centro-esquerda italianos dos últimos tempos: mostra-se independente e busca cavar caminhos sem alianças –- nem mesmo as internas. Perfeitamente cabível dentro da anedota corrente nos últimos tempos no país, que se tornou uma resposta padrão para quem diz que a esquerda está fazendo um complô contra Berlusconi: “para que haja um complô é necessário que ao menos duas pessoas estejam de comum acordo”. Cena difícil de encontrar dentro da esquerda italiana de hoje.”

O texto acima foi publicado hoje no Portal Terra. Há outra boa piada correndo pelos mexericos políticos italianos que necessariamente ficou de fora do texto: “Depois de tanto tempo para nos acostumarmos com um premier putanheiro, agora vem um gay?”.

Roma é uma festa.

Breiquin nius (sotaque italiano, por favor): governo Berlusconi caminha para o fim (ou para a eternidade)

Leandro Demori | Itália 20:45 | 29/07/2010

Silvio Berlusconi acaba de convidar Gianfranco Fini, fundador ao lado dele do Popolo della Libertà (PDL) e presidente da Câmara dos Deputados, a sair do partido. Fini é líder da Alleanza Nazionale (AN), na prática, ex-fascistas que sobreviveram à primeira república e se juntaram à Forza Itália pra formar a maioria em carga.

O caso de desamor entre Berlusconi e Fini vem de alguns meses.

Mas hoje a corda parece ter estourado.

Ventos dizem que o governo não vê o próximo outono (fins de agosto?), com eleições antecipadas pelo próprio Berlusconi. Eleições antecipadas significa dizer que cai todo mundo, de deputados a senadores, de ministros a puxa-sacos. Eleição geral.

Será novamente o caos.
Itália, enfim.

(quase) sem luz no fim do túnel

Érica Manssour | China 13:05 | 16/03/2010

Depois de algumas semanas de marasmo, a história do Google contra o baixo-astral (i.e. governo chinês) voltou a aparecer na imprensa. Só pra dar uma atualizada na situação, o que rolou foi o seguinte:
- O Financial Times publicou um artigo falando em 99% de chances de o Google encerrar a versão chinesa de sua ferramenta de busca.
- A Xinhua (agência de notícias estatal) resolveu dizer que a terra não iria parar de girar se o Google deixasse o país e que os internautas chineses continuariam online mesmo sem o Google.
- Autoridades chinesas advertiram empresas que possuem parceria com o Google de que elas devem seguir as lei de censura mesmo que o Google não o faça.
- Vazou a informação de que no dia 31 de março esgota-se o prazo para a renovação da licença de Provedor de Conteúdo na Internet do Google China

O Google ainda deu mais uma declarações mornas na linha do “continuamos buscando uma resolução para o impasse” e o governo chinês seguiu dizendo que sem censura não tem donut’s pro Google. Então, como todo mundo já tinha desconfiado antes, o desfecho mais provável é mesmo o falecimento do google.cn.

OKÁ. Agora, partindo da premissa que o PCC vai bancar o vingativo e bloquear todo e qualquer serviço oferecido pelo Google, me dêem as mãos e venham comigo imaginar uma vida sem ele.
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Sim, é assustador pensar em ter que voltar a usar o Outlook ou o Hotmail, a busca do Yahoo! ou do Bing, outro agregador de feeds, outro tradutor online, etc. Mas eu deixei a pior perda – ainda – hipotética por último: como preservar a brasilidade sem ter acesso ao Orkut? Pior pesadelo.

Categoria(s):  China, Tenéti
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