Gol
Na frente do palácio de governo há um cartaz com a face de Sakineh Mohammadi Ashtiani. É grande — uns 5 metros de altura, calculo. Não sei ao certo porque está lá no alto. No pé do impresso se destaca o brasão do Ministério das Relações Exteriores.
O ministro, nos últimos dias, vem “trabalhando duro” pela causa de Sakineh, condenada à morte por apredejamento no Irã, “uma nação amiga”. O presidente também já intercedeu por ser considerado “influente na região”. Juram que não é a última do português. Explicam que em outras oportunidades já se cogitou até mesmo que o presidente assumisse as negociações de paz no Oriente Médio por essa suposta influência.
Eu olho para os olhos de Sakineh Mohammadi Ashtiani no cartaz e sorrio tenso de compaixão. “Pobre dela que está na mão dessa gente”. É a única coisa que consigo pensar.
O presidente e o ministro abraçaram a causa por ela ser ‘popular e humanitária’. Abraçaram porque, no fim, são uns canalhas da política. A vida de Sakineh, para eles, é o que menos importa. Desde 1979, 109 pessoas morreram apedrejadas no Irã.
Nos últimos meses, o presidente vem acusando a imprensa de atacá-lo de forma maldosa e sistemática. Rebate sempre, muitas vezes perde a linha; usa o apoio incondicional e bem pago da mídia amiga para defendê-lo, exaltar seus dotes de estadista e bombardear os adversários. Sakineh Mohammadi Ashtiani vem a reboque. Sakineh Mohammadi Ashtiani é um bibelô político.
O presidente vislumbra uma eleição pela frente e sabe dos perigos que corre. Sempre que se aproxima desse ponto, procura cumprir causas “nobres” como a de Sakineh, falar sobre futebol, reclamar da mídia e atacar adversários.
Suas declarações causam impacto e admiração, mas depois que morde, assopra. Hoje mesmo, como em outras vezes, disse que “o amor vencerá o ódio”. Não se interessa por discussão política relevante, sequer parece levar a sério seu próprio plano de governo. Leva a sério, isso sim, um plano de poder, e polariza cada vez mais o eleitorado em busca do jogo do Bem contra o Mal: se está comigo, está, se não vota nos meus, é inimigo.
O bipolarismo é desejado a todo o custo. “Há mais paixão, rivalidade, envolvimento e idolatria em uma cidade onde há somente dois grandes times ou em outra em que três ou quatro disputam a liderança?”, deve se perguntar, apaixonado que é por futebol. É nessa hora que você grita gol.
Tags: apedrejamento, campanha, futebol, ministro, presidente, Robinho, Sakineh
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