Publico abaixo entrevista com Nello Rega, jornalista italiano ameaçado de morte pelo Hezbollah por ter contado “mentiras sobre o Islã”. O autor das perguntas é Francesco Giurato, amigo e também jornalista italiano. Correções são bem-vindas na caixa de comentários, já que traduzi às pressas porque a vida precisa andar.
Todas as informações foram passadas por Nello Rega, todas as alegações de ameaças foram confirmadas por ele e somente por ele, e podem ser contestadas, também, na caixa de comentários.
Concluo no final.
Nello Rega, 43 anos, de Potenza (Basilicata), trabalha na redação da editoria de Exterior da RAI. Jornalista profissional desde 1993, trabalhou para o Jornal Radio RAI Tre, San Marino RTV e Radio Dimensione Suono. Assinou, como autor, um programa na RAI Tre. Colabora também para jornais e revistas italianos. Formado em Ciência Política, é também diplomado na Escola Superior de Jornalismo de Perugia. Deu aula de jornalismo radiofônico no Istituto per la Formazione al Giornalismo di Urbino e também no Master in Giornalismo dell’Universita degli Studi della Basilicata. Cobriu acontecimentos nos seguintes lugares: Romênia, Grécia, Albânia, Iugoslávia, Algéria, Chipre, Iraque, Kosovo, Líbano, Territórios Palestinos, Israel e Afganistão. É autor dos livros “A Sud di Bagdad” (2003), “Sud dopo Sud” (2006), “In volo, missione dopo missione” (2006). Vencedor de prêmios italianos e internacionais como “Campana d’argento per la Pace” edição 2006. Desde 2005 é presidente da Together Onlus e do progeto humanitário Libanltaly. Tem estreito relacionamento com o Oriente Médio. Há 8 meses publicou um livro chamado “Diversi e Divisi” que descreve a história de amor entre um católico e uma muçulmana. Através das descrições de cena da vida cotidiana, o autor ressalta as diferenças que separam as duas religiões, e também os pontos de interrogação comuns às duas culturas. A sua “culpa”, segundo os extremistas que o ameaçaram e o ameaçam há mais de 6 meses, é de ter contado “mentiras sobre o islã”.
Você mentiu sobre o Islã?
Jamais. Antes fosse. A verdade é que existem profundas diferenças entre essas duas religiões, no modo de entender o que é a religião e para que ela serve. Eu vivi essa diferença na pele, seja antes do lançamento do livro, no qual narro minha história de hoje que termina com o relacionamento com uma mulher muçulmana, mas sobretudo depois, com as ameaças de morte pelo que escrevi. Mas eu disse somente a verdade. A demonstração de que meu objetivo é o de iniciar um percurso de integração é representado por Togheter, a associação no profit da qual sou presidente há muitos anos e que tem como objetivo esse entendimento entre cristãos e muçulmanos. O livro é destinado exatamente a isso, inclusive os lucros, a um projeto chamado LibanItaly, e em particular à realização de um centro já escolhido em uma cidade do norte do Líbano onde crianças cristãs-maronitas e muçulmanas crescem juntas no oratório salesiano de Jounieh, com o ensinamento da convivência, da paz e da esperança de que podemos viver juntos.
Que verdades você contou?
Uma verdade incômoda. Ou seja: que nós, ocidentais, somos os “infiéis” na visão de muitos islâmicos. Isso porque vivemos em sociedade laicas, onde as pessoas, homens e mulheres, podem determinar as próprias escolhas com base em direitos civis e não na religião – esta vivida como um momento íntimo e reservado de cada um de nós. A mesma coisa não se pode dizer sobre muitas comunidades islâmicas onde a mulher, por exemplo, é um objeto. Nas últimas páginas do livro, justamente para “desmontar” a dialética desses grupos, que definem como mentirosas as minhas afirmações, eu proponho 9 perguntas para fazer ao islâmico ortodoxo (não ao moderado). Lendo-as, qualquer um pode ver que são perguntas com bom-senso, lógicas, da própria evolução que a mulher merece nesse mundo islâmico. Por exemplo: por que o testemunho de uma mulher em um tribunal vale a metade do testemunho de um homem? Por que ainda hoje a Shaaria [a lei islâmica] aceita a poligamia somente no sentido de homens poderem ter muitas mulheres e não o contrário? Por que uma mulher xiita não pode casar com um homem de outra religião? Por que em Meeca não é possível construir uma igreja católica sendo que em Roma, que é a capital do catolicismo, existe a maior mesquita da Europa? Por que ainda hoje em países árabes as mulheres não podem dirigir? Esses são somente alguns exemplos. Infelizmente, as leis incompreensíveis ao mundo ocidental que existem na Shaaria são muitas mais.
Você acredita que seja possível uma integração entre o islamismo definido como ortodoxo e o cristianismo?
Antes de acreditar eu espero que seja possível, mas devo ser sincero: até que não sejam mudadas as respostas para as questões que fiz acredito que a tentativa de unir esses povos é inútil. Pessoalmente, acredito que um terreno comum possa existir, mas deve ser fora da religião. Me refiro à Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Não por acaso os países muçulmanos não assinaram. Até que parte do mundo islâmico, que hoje, infelizmente, representa o fechamento dominante daqueles países, não se adeque às regras comuns de viver e conviver civilmente, qualquer tentativa falirá.
Quando começaram as ameaças contra você?
O conteúdo do livro me custou ameaças de morte por parte do Hezbollah já poucos dias depois do lançamento, depois de publicar no meu blog que eu lançaria um livro que relataria o amor entre uma mulher muçulmana e um homem cristão. Projéteis vazios e um anúncio de morte, uma “fatwa”, como é chamada, foram encontrados nos estacionamentos dos estúdios da RAI, onde trabalho. Depois disso, eu denunciei à polícia, que prontamente me pôs uma escolta à disposição. Hoje, policiais são avisados sempre que me movo de um lugar para outro e avaliam a situação. A Ordem dos Jornalistas e o Sindicato também se mobilizaram, se posicionaram ao meu lado e me deram forças para continuar. Com o terrorismo não se “chega a um acordo”. Continuei o percurso de divulgação do livro em toda a Itália.
E depois?
Nos dois meses sucessivos ao lançamento do livro recebi mais projéteis e mais ameaças, sempre assinadas pelo Hezbollah. Evidentemente o meu “comportamento” e as minhas declarações após a primeira ameaça não agradaram essas pessoas, que continuaram a ameaçar. Uma espécie de escolta midiática começou naquele momento, graças ao apelo de numerosos colegas e de duas investigações parlamentares iniciadas por dois ex-colegas jornalistas que hoje estão no parlamento. Depois das minhas primeiras aparições na TV por conta do livro e das ameaças, minha mãe recebeu em casa outro pacote com projéteis. Junto, uma carta onde me intimavam a não ir mais para a TV. O silêncio, nesse caso, ajudaria os terroristas. Devo dizer, no entanto: minha situação de perigo em alguns momentos foi avaliada como menos perigosa do que na verdade era. Avaliada pelas forças de ordem. Agradeço aos policiais que me dão escolta, mas não posso deixar de dizer isso.
Em que sentido?
Depois de algumas semanas, lá pelo final de outubro, encontraram um outro envelope nos estacionamentos da RAI, novamente com projéteis e a mensagem “Morirai in nome di Allah con la mano di Hezbollah perche’ vai in televisione e dici bugie”. Em Roma e no Ministério do Interior, mesmo depois disso, não se move uma folha. Devo confessar que, mesmo que tentasse esconder publicamente, comecei a ter medo, muito medo. Na verdade, quando estava em Potenza, minha cidade, me sentia seguro, por que o governador da província tomou medidas de proteção. Foi o único naquele momento. Mas quando eu estava em Roma me sentia somente nas mãos de deus. Fiz muita força para não dar um passo atrás, até porque isso seria a vitória de quem me ameaça. Continuei a divulgação do livro, como faço até hoje. Fui em mais de 100 cidades em 7 meses. Por onde ando encontro apoio.
Qual foi o pior momento?
Dia 26 de novembro do ano passado: eu estava em Potenza e, ao me afastar do carro por cerca de 30 minutos para comprar jornais, quando volto encontro no banco de trás uma cabeça de cordeiro. Naquele momento foi tudo ao extremo: tensão, medo, e ver que a minha situação continuava a ser avaliada como “nem tão perigosa” [ele estava sem escolta] me fazia pensar em parar. Encontrei aquela cena macabra em plena luz do dia, e isso que me dá mais medo. Tomei uma medida extrema: pedi para ser interrogado pela Justiça por “provocado alarme”, ou seja, como se eu próprio tivesse botado aquela cabeça lá, pois estava cansado e indignado com as autoridades que deveriam me proteger. No dia 4 de janeiro, mais um envelope, mais balas. E um mês atrás, no dia 7 de abril, uma última ameaça, com mais projéteis. O meu medo é que, depois que passe a “novidade”, do primeiro jornalista na Itália ameaçado por fundamentalistas islâmicos, as pessoas esqueçam. A indiferença é o que mais me assusta.

A Síria baniu hoje a burca em universidades. Antes dela, outro país islâmico havia tomado medida semelhante: o Egito. O polêmico véu que cobre praticamente toda a mulher que o veste não é mais somente uma relação de forças entre “O Ocidente” — França, Bélgica e Dinamarca, por exemplo — e o “Mundo islâmico”.
Alguns valores precisam urgentemente sair do senso comum da luta do “bem contra o mal” caso se queira chegar a algum lugar. Caso se queira.