Comemore, brazileiro

braziu.org 22:19 | 27/11/2010

O leitor Andreas nos deu uma bofetada – e com razão. Provocou – e com razão. Nós pensamos em relatar impressões. Nós discutimos, mas e daí? Fizemos? “Matéria boa é matéria publicada”, já diz um velho ditado jornalístico. E mesmo que tivéssemos feito, convenhamos: isso mudaria alguma coisa? Quais as perguntas que realmente devemos fazer, mais além da perplexidade?

Não. Não mudaria muita coisa. A mudança depende de decisões fundamentais. Mas também o silêncio é a covardia. A intenção e a boa vontade são um espelho de um mundo que não existe. A verdade é dura, podre, suja e triste. O mundo é feio, mesmo que tentemos mascarar o horror.

Aqui, uma resposta à provocação como uma espécie de pedido de desculpas. Ao que escreveu o Andreas, mas – mais do que isso – ao conceito que nos atirou contra o rosto. Ser brasileiro, disse sem saber, é ter coragem de mostrar o que não somos, como no vídeo comercial acima.

Sejamos dignos e assumamos nossa desgraça.

- Equipe braziu.org -

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Obituário de um ministério populista (e a sobrevida de seus herdeiros)

Gabriel Brust | França 12:20 | 16/11/2010

Duas palavrinhas mágicas se tornaram o estopim mais frequente de discussões na imprensa e nos cafés das universidades na França ao longo do governo Sarkozy: identidade nacional. Promessa de campanha do então candidato da UMP, trazer essas duas palavrinhas mágicas para o tabuleiro era ponto fundamental para se discutir uma terceira palavra ainda mais safadinha, a imigração. Foi com esta política farejadora de votos de direita que Sarkozy criou, em 2007, o pomposo Ministério da Imigração, da Integração, da Identidade Nacional e do Desenvolvimento Solidário, falecido no início desta semana com pouca repercussão e quase nenhuma lágrima da viúva. Mas deixando herdeiros saudáveis e prontos para seguir seu legado.

Na prática, com a dança dos ministros e ministérios empreendida por Sarkozy e seu mais forte do que nunca primeiro-ministro François Fillon, a “imigração” voltou a fazer parte do nome de outro ministério, o do “Interior, de Ultramar, das Coletividades Territoriais e da Imigração”. A famigerada “identidade nacional” que, segundo a esquerda francesa e mesmo alguns integrantes da direita, dava uma conotação xenófoba à questão da imigração, desapareceu. Mas pouco há de simbólico na extinção do ministério e desse remanejamento. Ele apenas confirma o que sempre se soube: a criação da pasta se deu por motivos eleitorais, para ir ao encontro da crescente – e justificável – inquietação dos franceses com a questão da imigração. O problema é que, passados quatro anos de sua implantação – e um verão de 2010 intenso em combate a imigrantes romenos e búlgaros da comunidade cigana –, tudo leva a crer que a tática não funcionou. O eleitor de esquerda continua a ver Sarkozy como o diabo, o de direita não parece ter se comovido com a ação do governo e a popularidade do presidente nunca foi tão baixa.

Mas as políticas de imigração do governo Sarkozy, mesmo que agora com menos visibilidade, não devem mudar. E dois nomes de confiança do presidente, consolidados na reforma ministerial que expurgou do governo muita gente ao longo desta semana, nos levam a crer nisso. A viúva da pasta, o ministro Eric Besson, ganhou poder com a reforma, e foi alçado à área de Indústria e Energia. E em sua primeira entrevista afirmou que carregar a questão da identidade nacional “não foi nenhuma cruz” e que a assume “perfeitamente”. Mas talvez o sinal mais claro de que a política não muda é que a imigração foi parar logo na pasta de Brice Hortefeux. Expoente direitista da UMP, Hortefeux geriu a pasta da Identidade Nacional no início do governo, antes de Besson, entre 2007 e 2009. Para se ter idéia do brilhantismo de Hortefeux, basta dizer que ele foi condenado, em junho deste ano, em primeira instância, por “injúria racial”, após largar uma piadinha maldosa na cara de um militante de seu próprio partido, de origem magrebina: “Quando tem um só deles tudo bem. O problema é quando estão em bando”, falou, abraçando o jovem aos risos (vídeo abaixo). Enquanto não é condenado definitivamente, o amigo de 30 anos de Sarkozy segue firme no governo.

Hortefeux sacaneia o argelino aí em cima com tanta naturalidade que parece nem ter idéia do contexto político em que vive hoje, uma França em que tudo vira acusação de racismo, seja quando há racismo (no caso do próprio Hortefeux claramente), seja quando não há. A questão racial serve ao discurso político permanentemente, e mais um exemplo surgiu esta semana, com o lançamento da Carte Musique, uma espécie de “bolsa-mp3”. Pois é, o governo que o pessoal da Sorbonne chama de ultra-fascista-neoliberal-direitista-destruidor-do-Estado acaba de criar MAIS uma subvenção estatal, desta vez uma ajuda para incentivar os jovens a comprarem mais música mp3, e não piratearem. Uma das propagandas que estão na TV traz um jovem negro ouvindo hip hop, usando roupas não muito diferentes das de seus ídolos (vídeo abaixo). O deputado Nicolas Dupont-Aignan não teve dúvida em chamar o anúncio de racista, denunciando que ele mostra “um jovem negro como um idiota fingindo de pseudo-rap”. “Os jovens do nosso país, seja qual for sua origem, não são idiotas de circo”, completou o deputado.


Spot carte musique Rap
envoyé par culture-gouv. – Clip, interview et concert.

Enquanto isso, na França…

Gabriel Brust | França 11:24 | 12/10/2010

Acima uma amostra da manifestação que ocorre neste momento no Boulevard Saint-Germain, região central de Paris, na Rive Gauche. Pelo volume de pessoas nas ruas, essa parece ser a greve mais bem sucedida das últimas semanas — todas elas dedicadas a barrar o projeto de reforma das aposentadorias proposto por Nicolas Sarkozy.

Na última sexta-feira, o senado aprovou a primeira medida que dá iníco à reforma: com 185 votos a favor e 153 contra, foi decidido elevar a idade mínima para aposentadoria de 60 para 62 anos. A generosa aposentadoria aos 60 anos havia sido  instaurada em 1982 pelo então presidente socialista François Mitterrand. O argumento do governo atual é o óbvio: após alguns anos, as contas simplesmente não fecham mais.

A queda de braço entre governo e sindicatos já dura bastante tempo, mas tudo leva a crer que Sarkozy vencerá. Apesar da mobilização popular hoje ser grande aqui em Paris, não se pode falar em adesão total da população. A greve segue restrita aos setores de sindicato mais forte, como os ligados ao transporte. O trânsito está caótico, mas a maior parte dos serviços funciona normalmente. Um movimento iniciado na Universidade de Paris 4 tentou convocar os estudantes a se unir às manifestações, mas, a julgar pelo que vi na Paris 5 pela manhã — e segundo relatos de amigos da Paris 1 –, a adesão estudantil também é pequena. Abaixo, algumas estrelas que desfilam na avenida neste momento:

A censura no Figaro, os aviões Rafale e o governo Lula na imprensa francesa

Gabriel Brust | França 19:22 | 06/10/2010


Brasil, Terreno fértil para empresas francesas“, diz o Figaro

Lembra dos Rafales, aqueles aviões militares fabricados pelos franceses que ninguém no mundo queria comprar a não ser o Lula? O presidente atropelou as Forças Armadas ao anunciar o negócio bilionário, por razões políticas, mesmo com todos os especialistas apontando os Rafales como a pior opção do mercado, verdadeiras sucatas voadoras. Lula voltou atrás, e a compra segue em suspenso. Pois os Rafales voltaram ao noticiário francês de forma meio enviesada. O caso é sobre o jornal conservador Le Figaro e foi denunciado pelo Le Monde, em solidariedade aos colegas jornalistas do concorrente. Senta que lá vem a história.

O Figaro é assumidamente a voz conservadora da França – mesmo que isso signifique, para os padrões franceses, ser tão de direita quanto o Frei Betto. Acontece que nos últimos tempos começou a haver uma debandada de importantes jornalistas, ao ponto de a SDJ do jornal (as SDJs são as associações de jornalistas que cada redação tem) abrir uma investigação para saber o que estava acontecendo. O objetivo era apurar as denúncias de que os jornalistas estariam trabalhando sob níveis excessivos de pressão do diretor de redação e da empresa proprietária do jornal no sentido de radicalizar a linha editorial. O proprietário do Le Figaro é nada menos que o grupo Dassault, uma holding gigante que atua em diferentes mercados – incluindo a fabricação dos aviões Rafale.

A principal reclamação dos jornalistas, segundo a investigação do SDJ, é a linha exageradamente favorável a Nicolas Sarkozy, o que estaria emudecendo inclusive outras vozes conservadoras do país. Um exemplo, segundo declarou um redator em depoimento obviamente anônimo, foi a declaração do papa Bento XVI criticando a política de deportação dos ROMS, um das obsessões de Sarkozy. O jornal teria ignorado o discurso do Papa, mesmo que a forte cobertura católica seja uma das tradições do Figaro.

O outro exemplo que surgiu nessa investigação – e agora chegamos finalmente aos Rafales – foi o de uma reportagem publicada no mês de junho que denunciava a compra de “materiais de segurança” israelense por parte dos Emirados Árabes Unidos. Acontece que o governo dos Emirados não gostou nem um pouco da reportagem investigativa do Le Figaro. E pior: estava em plena negociação para comprar uma meia-dúzia de Rafales e finalmente desencalhar o estoque da Dassault.

Baixou-se então uma ordem clara na redação do jornal — que foi fundado em 1826 e tinha justamente na cobertura internacional independente um de seus pilares –: artigos que envolvessem países com os quais a Dassault estava negociando os Rafales teriam que passar por uma leitura “sob a lupa”, antes de serem publicados. E, dessa forma, todos os artigos sobre Brasil, Líbia, Emirados Árabes e Suíça entraram na roda. Segundo jornalistas, pelo menos duas reportagens foram inteiramente censuradas no último mês de agosto. Nenhuma das duas envolve o Brasil. Já a página inteira dedicada pelo jornal a Lula no mês passado, intitulada “Como Lula Mudou o Brasil” (reprodução no fim deste post), um amontoado de mistificações e clichês, não sofreu, obviamente, nenhum retoque.

O episódio ajuda a explicar por que não se publica, na imprensa francesa, uma única linha verdadeiramente crítica ao governo Lula. De um lado, há a imprensa de direita, de Sarkozy e dos empresários, querendo vender seus aviões e quetais. Do outro, com a imprensa de esquerda, muda apenas a natureza do interesse, se tornando mais ideológico. Jornais como o Liberation e revistas as mais diversas, sedentos em ter um exemplo de sucesso esquerdista depois de seu fracasso retumbante administrando a Europa, costumam traduzir releases do PT e do governo brasileiro e publicá-los como sendo reportagens. Tente contar a qualquer francês que dois ministros da Casa Civil do governo Lula caíram por corrupção – fato provavelmente inédito na história da república – e que o serviço de saúde pública e a criminalidade urbana no Brasil nunca estiveram piores. Surgirá uma cara de espanto. Não será pela imprensa de seu país que eles ficarão sabendo disso.

Como Lula Transformou o Brasil“, na opinião do fabricante dos aviões Rafale

Pesquisas: incompetência ou má-fé? E uma comparação com a França

Gabriel Brust | França 19:11 | 04/10/2010

Como bem destacou um leitor num comentário do post abaixo, são de arrancar gargalhadas as desculpas apresentadas hoje pelos entusiastas das pesquisas Sensus e Vox Populi. Os dois institutos se tornaram referência para os eleitores, fieis e seguidores da candidatura de Dilma Rousseff. Não por sua perícia técnica ou comprovada imparcialidade ao levantar dados, mas simplesmente porque, nos últimos dois meses, apresentavam  intenções de voto em Dilma e nos candidatos governistas oscilando entre 100 e 130%. Netinho de Paula, o infame pagodeiro com longo histórico de agressões, estava praticamente eleito. Vimos o que aconteceu – não ficou nem com a segunda posição, no caso mais escandaloso entre todos os erros das pesquisas desta eleição.

Mas voltando ao anedotário dos progre$$istas, que hoje resolveram “analisar” como estes institutos erraram, vale registrar algumas teses ÇenÇaÇionais:

* Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi, que em entrevista na semana passada cravou, sem titubear, “Dilma no primeiro turno”, ontem atribuiu o fiasco das previsões de seu instituto a uma suposta irracionalidade de parte do eleitorado na escolha de último momento.

* Luis Nassif, blogueiro progre$$ista, veio com teoria: Vox e Sensus fazem a pesquisa na casa do entrevistado, enquanto o Datafolha faz pesquisa em “pontos de fluxo”. Essa metodologia, segundo Nassif, favorece a captação de “ondas” ou “bolhas”, como teria sido o fenômeno Marina Silva. Se eu entendi, a tese de Nassif é a de que as pessoas que estão caminhando na rua tendem a se deslocar mais e a convencer os demais transeuntes a votar em seu candidato, enquanto caminham (???). Ok, três linhas em branco para você rir e voltamos em seguida.



Não riu o suficiente? Então reflita um pouco sobre outras teorias muito sérias, essas vindas dos leitores dos blogs progre$$istas que – não sei como! – não acreditaram muito na teses de seus gurus e criaram as suas próprias:

Eleitores direitistas maquiavélicos mentiram para os institutos de pesquisa para criar uma falsa ilusão de vitória no primeiro turno. Hmmm…. pode ser. Essa gente, sabe como é, nunca se sabe do que são capazes…

* Houve claríssima manipulação das urnas eletrônicas em todo país. Faz $entido. A tecnologia trabalha sempre a favor da burguesia. Em 2002 e 2006 as urnas elegeram Lula apenas porque acordaram bem dispostas naquele dia. Pura coincidência.

Bom, agora chega de piada (ou não).

Além dessas desculpas furadíssimas de institutos e jornalistas que até ontem davam como certa a vitória de Dilma, há também um movimento para se criar a falsa impressão de que “todos os institutos de pesquisa erraram”. Podemos dizer que ninguém acertou – e isso já é um absurdo, sem dúvida, como veremos a seguir numa comparação com as pesquisas na França. Mas dizer que todos erraram feio é uma simplificação fácil para livrar a cara de Vox e Sensus e tentar camuflar o óbvio: os dois institutos trabalharam com números irreais do início ao fim – sempre favorecendo amplamente os candidatos governistas em todas as esferas.

Em resumo, não são institutos de pesquisa, são apenas mais um braço do polvo – que, em breve, deve inaugurar também padarias e açougues influenciados pela opinião do partido. Está ficando difícil achar um mísero setor da sociedade em que os fatos reais e a opinião do PT não se misturem.

Datafolha também não acertou, mas foi o único a apontar a tendência de queda de Dilma e ascensão de Marina na reta final. O movimento detectado pelo instituto se confirmou e em escala ainda maior, como se viu. Nos dias que antecederam a eleição, o Datafolha foi, ironicamente, defenestrado pelos governistas justamente por estar acertando.

O que há de errado com o eleitor brasileiro?

Essa é a questão que surge quando observamos a distância entre o que captaram os institutos de pesquisa e o que os brasileiros fizeram ao encarar a urna. Afinal, você dirá, técnicas e metodologias de pesquisa não surgiram hoje, elas prevêem resultados de eleição e medem mil outras preferências de público há muito tempo, no mundo todo, e com reconhecida eficiência. O problema, então, só pode ser o povo brasileiro. Um professor meu na universidade por aqui costuma dizer que o Brasil é o maior laboratório da pós-modernidade – este caldeirão de hedonismo, volatilidade e despolitização em que toda a humanidade vai acabar mergulhando, mais dia menos dia. Vai ver que é isso: o povo brasileiro é pós-moderno demais para nossos institutos de pesquisa! Ora, por favor…

É claro que o problema são os institutos, que erraram por incompetência em alguns casos, e por má-fé em outros, e agora estão querendo nos convencer de que são normais os abismos entre o que eles previram e o que aconteceu. Não são. Ontem à noite, enquanto acompanhávamos a apuração e o fiasco dos institutos ia ficando cada vez mais evidente, o colega aqui do blog Mario Camera me lembrou das pesquisas da última eleição presidencial na França. Por aqui, os institutos divulgam sua boca de urna poucas horas depois da eleição e isso basta para que os vencedores e derrotados reconheçam suas condições. Não é necessário esperar a contagem oficial. Por que? Porque espera-se dos institutos que simplesmente façam seu trabalho. Na última eleição, acertaram com bastante precisão. Para que isso não pareça papo furado, nós cavocamos alguns números das presidenciais de 2007 e voilá:

1º turno

Pesquisa do Ipsos/Dell           Resultado final

N. Sarkozy  30,8 %                        31,1 %

S. Royal  25,2 %                             25,8 %

F. Bayrou  19 %                              18,5 %

JM. LePen : 10,8 %                      10,4 %

2º turno

Pesquisa do Ipsos/Dell           Resultado final

N. Sakorkozy  53 %                        53,06 %

S. Royal          47 %                         46,94 %

E não é só na boca de urna. Na mesma noite da votação do primeiro turno, ou seja, faltando duas semanas para o segundo turno, o Ipsos/Dell fez uma pesquisa sobre segundo turno POR TELEFONE COM APENAS 1089 PESSOAS. O resultado: Sarkozy 54%, Segolene Royal 46%. Outro exemplo, para encerrar: de acordo com a boca de urna, o Ipsos/Dell cravou a participação dos eleitores no segundo turno. Disse que a abstenção seria de 16%. Foi de 16,03%.

Claro que comparações sempre são problemáticas. O Brasil não é a França, o eleitor brasileiro não é o francês, a última eleição francesa não teve um fenômeno de última hora como Marina Silva. Mas, se tivesse, tudo me leva a crer que o Ipsos/Dell, por exemplo, teria detectado e cravado isso na boca de urna. O que tivemos, no Brasil, foi o Ibope nos dando, na boca de urna, 51% para Dilma (foram quase 47), 30% para Serra (beirou os 33) e 18% para Marina (quase 20).

Se depender de França e Itália, tem segundo turno

Gabriel Brust | França 16:17 | 03/10/2010

(Fila para votação em Paris hoje à tarde)

Apesar da fila de mais de uma hora impressionar, hoje à tarde, apenas metade dos 4 mil eleitores cadastrados para votar em Paris compareceu, segundo os números recém divulgados. E, a julgar pelo voto dos brasileiros “franceses”, tem segundo turno. Dilma obteve 46,2% dos votos na capital francesa. De acordo com o consulado, cerca de 2,1 mil brasileiros foram às urnas. José Serra (PSDB) teve 29,6% dos votos e Marina Silva (PV), 22,1%. Na Itália, Dilma recebeu 44% dos votos válidos. José Serra ficou com 32 % e Marina Silva obteve 19%.

É claro que nenhum destes dois países pode servir de comparação para o voto no Brasil. Mas apontam uma tendência. Voltamos logo mais.

Boca de urna em Paris

Mario Camera | França 14:06 | 03/10/2010

Pra botar na baguette

Em 2014, espero encontrar o vendedor de churrasquinho de gato e o cara do isopor de cerveja. Juntos com o rapaz do pandeiro avistado pelo Gabriel, faremos uma grande e verdadeira “Festa da democracia” para aguentar uma hora e meia de fila pra votar.

O trem da alegria da nova União Europeia

Gabriel Brust | França 16:13 | 25/08/2010

O tema imigração povoa o noticiário francês de uma maneira quase camuflada. Uma nova polêmica envolvendo imigrantes surge praticamente a cada semana nas páginas dos jornais. Mas os textos são invariavelmente formulados como se o redator estivesse caminhando sobre ovos: o temor de soar preconceituoso é permanente. O politicamente correto impera na maneira como o francês se relaciona com este tema, e isso é perceptível não apenas na imprensa, mas também na convivência do dia a dia.

Puxar o assunto em rodas, seja na universidade ou no boteco, é certeza de receber olhares enviesados, que preferem mudar de conversa, ou discursos prontos vitimizando o imigrante em todos os casos – mesmo nos casos em que ele não tem razão. E, às vezes, de fato, não tem. Não há, portanto, um debate franco. Da mesma forma, não há manifestações explícitas de preconceito como verifiquei, por exemplo, na Itália, no breve tempo em que vivi por lá, e que verifico entre alguns dos italianos que conheci aqui na França. A relação do italiano com o tema é mais aberta e menos hipócrita: com frequência, o italiano assume seu pavor por africanos, árabes em geral e povos do leste europeu sem nenhum constrangimento.

Não há melhor ilustração para esse comportamento do francês do que as palavras do notório conservador Jean-Marie Le Pen no vídeo abaixo, que está sendo divulgado pelo L’Express. Ele flagra uma “tirada” engraçadinha de Le Pen disparando contra os árabes que vivem em Paris, mas a parte mais curiosa é a sequência, quando ele antevê a forma como sua piada será recebida.

“Comprei uma casa de campo para que meus filhos, que antes viviam no 15éme [região de Paris], pudessem ver vacas no lugar de árabes”.

E emenda:

“Não tenho medo de perseguição. Se eu fosse do UMP [União pelo Movimento Popular, partido de centro-direita de Sarkozy] diriam que [essa frase] foi uma derrapada. Mas já faz tempo que eu não derrapo mais, eu já estou fora da pista há muito tempo!”

Quase às gargalhadas, Le Pen ironiza: nem a direita francesa tem coragem de explicitar sua aversão à invasão árabe em Paris.

Sarkozy e os ciganos

A verdade é que, mesmo sem frases polêmicas como as de Le Pen, Sarkozy e seu UMP vem sim enfrentando a imigração em diferentes frentes de batalha – ainda que a política francesa para imigrantes seja uma mãe generosa se comparada a da maioria dos outros países europeus. Basta caminhar nas ruas de Paris para constatar. Os “sans-papier” (ilegais), por aqui, são classe organizada que faz até greve.

O episódio mais recente da política de imigração de Sarkozy, no entanto, tem contornos insólitos. Neste mês, o governo teria supostamente deportado cerca de 200 ciganos da etnia Rom para a Romênia. O “supostamente” fica por conta de dois aspectos: 1) os ciganos receberam em troca uma ajuda em dinheiro, sendo, portanto, uma “deportação voluntária” e 2) a Romênia agora faz parte da União Européia, o que permite que estas pessoas voltem a qualquer momento para a França, sem enfrentar nenhum tipo de impedimento. O governo anunciou simplesmente que fará um cadastro para que, no caso de estas pessoas voltarem, elas não ganhem o auxílio financeiro pela segunda (ou terceira ou quarta) vez. O que o governo fez, basicamente, foi caracterizar cerca de 50 assentamentos de membros da etnia Rom como ilegais. Mas ilegal não é a situação do cidadão. Confuso?

O trem da alegria da cidadania européia

Essas são algumas das contradições que começam cada vez mais a surgir conforme a União Europeia vai se ampliando. Outro dado que circulou pelos jornais franceses este mês e que dá a dimensão de como as reclamações do oeste vão aumentar é a quantidade de pessoas que poderão se naturalizar européias a partir da entrada de Hungria, Romênia e Bulgária no bloco: nada menos do que 5 milhões, além da própria população destes países. São moldavos, macedônios, sérvios, ucranianos e turcos: seus países não fazem parte da UE, mas 5 milhões deles poderão ser beneficiados por leis compensatórias de Hungria, Romênia e Bulgária destinadas a seus descendentes de imigrantes, como bem ilustra este gráfico do Le Figaro (clique para ampliar):

Em recente reportagem sobre o tema, o jornal destacou também outra frente de “invasão” de neo-europeus: a Espanha e seus latino-americanos. 225 mil pessoas, principalmente de Cuba, Argentina e Venezuela, entraram com pedido, em 2010, de cidadania europeia, baseando-se na lei sancionada pelo socialista José Luiz Zapatero que beneficia os filhos e netos de exilados da ditadura do general Francisco Franco. 117 mil já obtiveram o reconhecimento da cidadania. Os guichês da naturalização estarão abertos até o fim de 2011 e espera-se que até lá 500 mil latino-americanos venham a se tornar europeus.

A mais permissiva das leis de naturalização de descendentes de imigrantes europeus, no entanto, é praticamente ignorada neste debate, pelo menos aqui na França. É a da Itália, que desde a década de 90 dá direito a descendentes com qualquer grau de parentesco de buscar a cidadania italiana. A lei é amplamente aproveitada por brasileiros e argentinos desde então. Nada menos do que 35 milhões de brasileiros, em tese, estão aptos a solicitar a naturalização por descendência italiana. Resta saber se, com o novo trenzinho da alegria inaugurado pelos países do leste, todos terão que fechar a torneira ou, pelo contrário, abrirão cada vez mais.

O caro Big Mac brasileiro

Gabriel Brust | França 18:34 | 15/08/2010

Oi, sou um sanduíche imperialista, mas você adora me comer la la

Há algumas semanas tenho ouvido um mesmo relato de amigos que voltam de viagem do Brasil, mais precisamente do Rio de Janeiro e de São Paulo: os preços em geral, por lá, estariam quase mais altos do que aqui em Paris – cidade notória por esfaquear o vivente até no preço do pão.

 O caderno de economia do Le Figaro da última quarta trouxe uma pequena reportagem confirmando este sentimento geral. “Le Brésil confronté à la surévaluation du Real” abre abordando essa comparação de preços: “Para um turista americano cheio de nostalgia, almoçar em um McDonald’s no Brasil é um choque. Apesar de saber que passaria as férias num país de economia dinâmica mas, mesmo assim, “em desenvolvimento”, ele terá que pagar US$ 4,91 por seu Big Mac no Rio de Janeiro, contra US$ 3,73 nos Estados Unidos”, descreve a correspondente Lamia Qualalou.

O valor do Big Mac brasileiro também fica absurdo ao lado dos vendidos na China (US$ 1,95) e Argentina (US$ 1,78), apontando para uma supervalorização do real estimada em 31% — o que significa, na prática, o mesmo nível de 1998. A reportagem do Le Figaro destaca, no entanto, que essa supervalorização não deve ter maiores consequências – ao contrário da crise de 98 – e que a eleição presidencial do próximo dia 3 de outubro não preocupa nenhum investidor. Mas aponta os vários calcanhares de aquiles que o país parece estar esquecendo, em especial a balança comercial, com péssimo resultado no primeiro semestre. Duas medidas recomendáveis para o país, afirma o Le Figaro, “são impensáveis em contexto pré-eleitoral”: política fiscal mais austera e queda na taxa de juros.

Ainda no assunto Big Mag, mas não mais incluindo o Brasil, a última edição da revista Vingtetun (um excelente calhamaço de jornalismo literário misturado com almanaque) traz uma comparação de quanto vale o trabalho pelo mundo, tomando como medida o preço do Big Mac. Alguns números:

  •  Em média, é preciso 37 minutos de trabalho para um cidadão do mundo ganhar o suficiente para comprar um Big Mac;
  •  Entre 73 cidades pesquisadas, através de 14 profissões, o ranking fica assim:

   Tokyo, Chicago e Toronto, sendo necessários 12 minutos de trabalho para se comprar um Big Mac

Londres, Los Angeles e Miami (13 minutos)

Nova York, Sidney e Hong Kong (14 min)

Copenhague (17 min)

Berlim (19 min)

Paris (20 min)

Moscou (21 min)

Madri e Roma (27 min, mas Demori compra em 50 segundos)

 A Vingtetun traz outros bons números sobre quanto vale o trabalho pelo mundo em tempos de crise. Mostro mais deles em um outro post.

A tolerância é uma cabeça de cordeiro no banco de trás do carro

Leandro Demori | Itália 13:08 | 19/07/2010

Publico abaixo entrevista com Nello Rega, jornalista italiano ameaçado de morte pelo Hezbollah por ter contado “mentiras sobre o Islã”. O autor das perguntas é Francesco Giurato, amigo e também jornalista italiano. Correções são bem-vindas na caixa de comentários, já que traduzi às pressas porque a vida precisa andar.

Todas as informações foram passadas por Nello Rega, todas as alegações de ameaças foram confirmadas por ele e somente por ele, e podem ser contestadas, também, na caixa de comentários.

Concluo no final.

Nello Rega, 43 anos, de Potenza (Basilicata), trabalha na redação da editoria de Exterior da RAI. Jornalista profissional desde 1993, trabalhou para o Jornal Radio RAI Tre, San Marino RTV e Radio Dimensione Suono. Assinou, como autor, um programa na RAI Tre. Colabora também para jornais e revistas italianos. Formado em Ciência Política, é também diplomado na Escola Superior de Jornalismo de Perugia. Deu aula de jornalismo radiofônico no Istituto per la Formazione al Giornalismo di Urbino e também no Master in Giornalismo dell’Universita degli Studi della Basilicata. Cobriu acontecimentos nos seguintes lugares: Romênia, Grécia, Albânia, Iugoslávia, Algéria, Chipre, Iraque, Kosovo, Líbano, Territórios Palestinos, Israel e Afganistão. É autor dos livros “A Sud di Bagdad” (2003), “Sud dopo Sud” (2006), “In volo, missione dopo missione” (2006). Vencedor de prêmios italianos e internacionais como “Campana d’argento per la Pace” edição 2006. Desde 2005 é presidente da Together Onlus e do progeto humanitário Libanltaly. Tem estreito relacionamento com o Oriente Médio. Há 8 meses publicou um livro chamado “Diversi e Divisi” que descreve a história de amor entre um católico e uma muçulmana. Através das descrições de cena da vida cotidiana, o autor ressalta as diferenças que separam as duas religiões, e também os pontos de interrogação comuns às duas culturas. A sua “culpa”, segundo os extremistas que o ameaçaram e o ameaçam há mais de 6 meses, é de ter contado “mentiras sobre o islã”.

Você mentiu sobre o Islã?
Jamais. Antes fosse. A verdade é que existem profundas diferenças entre essas duas religiões, no modo de entender o que é a religião e para que ela serve. Eu vivi essa diferença na pele, seja antes do lançamento do livro, no qual narro minha história de hoje que termina com o relacionamento com uma mulher muçulmana, mas sobretudo depois, com as ameaças de morte pelo que escrevi. Mas eu disse somente a verdade. A demonstração de que meu objetivo é o de iniciar um percurso de integração é representado por Togheter, a associação no profit da qual sou presidente há muitos anos e que tem como objetivo esse entendimento entre cristãos e muçulmanos. O livro é destinado exatamente a isso, inclusive os lucros, a um projeto chamado LibanItaly, e em particular à realização de um centro já escolhido em uma cidade do norte do Líbano onde crianças cristãs-maronitas e muçulmanas crescem juntas no oratório salesiano de Jounieh, com o ensinamento da convivência, da paz e da esperança de que podemos viver juntos.

Que verdades você contou?
Uma verdade incômoda. Ou seja: que nós, ocidentais, somos os “infiéis” na visão de muitos islâmicos. Isso porque vivemos em sociedade laicas, onde as pessoas, homens e mulheres, podem determinar as próprias escolhas com base em direitos civis e não na religião – esta vivida como um momento íntimo e reservado de cada um de nós. A mesma coisa não se pode dizer sobre muitas comunidades islâmicas onde a mulher, por exemplo, é um objeto. Nas últimas páginas do livro, justamente para “desmontar” a dialética desses grupos, que definem como mentirosas as minhas afirmações, eu proponho 9 perguntas para fazer ao islâmico ortodoxo (não ao moderado). Lendo-as, qualquer um pode ver que são perguntas com bom-senso, lógicas, da própria evolução que a mulher merece nesse mundo islâmico. Por exemplo: por que o testemunho de uma mulher em um tribunal vale a metade do testemunho de um homem? Por que ainda hoje a Shaaria [a lei islâmica] aceita a poligamia somente no sentido de homens poderem ter muitas mulheres e não o contrário? Por que uma mulher xiita não pode casar com um homem de outra religião? Por que em Meeca não é possível construir uma igreja católica sendo que em Roma, que é a capital do catolicismo, existe a maior mesquita da Europa? Por que ainda hoje em países árabes as mulheres não podem dirigir? Esses são somente alguns exemplos. Infelizmente, as leis incompreensíveis ao mundo ocidental que existem na Shaaria são muitas mais.

Você acredita que seja possível uma integração entre o islamismo definido como ortodoxo e o cristianismo?
Antes de acreditar eu espero que seja possível, mas devo ser sincero: até que não sejam mudadas as respostas para as questões que fiz acredito que a tentativa de unir esses povos é inútil. Pessoalmente, acredito que um terreno comum possa existir, mas deve ser fora da religião. Me refiro à Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Não por acaso os países muçulmanos não assinaram. Até que parte do mundo islâmico, que hoje, infelizmente, representa o fechamento dominante daqueles países, não se adeque às regras comuns de viver e conviver civilmente, qualquer tentativa falirá.

Quando começaram as ameaças contra você?
O conteúdo do livro me custou ameaças de morte por parte do Hezbollah já poucos dias depois do lançamento, depois de publicar no meu blog que eu lançaria um livro que relataria o amor entre uma mulher muçulmana e um homem cristão. Projéteis vazios e um anúncio de morte, uma “fatwa”, como é chamada, foram encontrados nos estacionamentos dos estúdios da RAI, onde trabalho. Depois disso, eu denunciei à polícia, que prontamente me pôs uma escolta à disposição. Hoje, policiais são avisados sempre que me movo de um lugar para outro e avaliam a situação. A Ordem dos Jornalistas e o Sindicato também se mobilizaram, se posicionaram ao meu lado e me deram forças para continuar. Com o terrorismo não se “chega a um acordo”. Continuei o percurso de divulgação do livro em toda a Itália.

E depois?
Nos dois meses sucessivos ao lançamento do livro recebi mais projéteis e mais ameaças, sempre assinadas pelo Hezbollah. Evidentemente o meu “comportamento” e as minhas declarações após a primeira ameaça não agradaram essas pessoas, que continuaram a ameaçar. Uma espécie de escolta midiática começou naquele momento, graças ao apelo de numerosos colegas e de duas investigações parlamentares iniciadas por dois ex-colegas jornalistas que hoje estão no parlamento. Depois das minhas primeiras aparições na TV por conta do livro e das ameaças, minha mãe recebeu em casa outro pacote com projéteis. Junto, uma carta onde me intimavam a não ir mais para a TV. O silêncio, nesse caso, ajudaria os terroristas. Devo dizer, no entanto: minha situação de perigo em alguns momentos foi avaliada como menos perigosa do que na verdade era. Avaliada pelas forças de ordem. Agradeço aos policiais que me dão escolta, mas não posso deixar de dizer isso.

Em que sentido?
Depois de algumas semanas, lá pelo final de outubro, encontraram um outro envelope nos estacionamentos da RAI, novamente com projéteis e a mensagem “Morirai in nome di Allah con la mano di Hezbollah perche’ vai in televisione e dici bugie”. Em Roma e no Ministério do Interior, mesmo depois disso, não se move uma folha. Devo confessar que, mesmo que tentasse esconder publicamente, comecei a ter medo, muito medo. Na verdade, quando estava em Potenza, minha cidade, me sentia seguro, por que o governador da província tomou medidas de proteção. Foi o único naquele momento. Mas quando eu estava em Roma me sentia somente nas mãos de deus. Fiz muita força para não dar um passo atrás, até porque isso seria a vitória de quem me ameaça. Continuei a divulgação do livro, como faço até hoje. Fui em mais de 100 cidades em 7 meses. Por onde ando encontro apoio.

Qual foi o pior momento?
Dia 26 de novembro do ano passado: eu estava em Potenza e, ao me afastar do carro por cerca de 30 minutos para comprar jornais, quando volto encontro no banco de trás uma cabeça de cordeiro. Naquele momento foi tudo ao extremo: tensão, medo, e ver que a minha situação continuava a ser avaliada como “nem tão perigosa” [ele estava sem escolta] me fazia pensar em parar. Encontrei aquela cena macabra em plena luz do dia, e isso que me dá mais medo. Tomei uma medida extrema: pedi para ser interrogado pela Justiça por “provocado alarme”, ou seja, como se eu próprio tivesse botado aquela cabeça lá, pois estava cansado e indignado com as autoridades que deveriam me proteger. No dia 4 de janeiro, mais um envelope, mais balas. E um mês atrás, no dia 7 de abril, uma última ameaça, com mais projéteis. O meu medo é que, depois que passe a “novidade”, do primeiro jornalista na Itália ameaçado por fundamentalistas islâmicos, as pessoas esqueçam. A indiferença é o que mais me assusta.

A Síria baniu hoje a burca em universidades. Antes dela, outro país islâmico havia tomado medida semelhante: o Egito. O polêmico véu que cobre praticamente toda a mulher que o veste não é mais somente uma relação de forças entre “O Ocidente” — França, Bélgica e Dinamarca, por exemplo — e o “Mundo islâmico”.

Alguns valores precisam urgentemente sair do senso comum da luta do “bem contra o mal” caso se queira chegar a algum lugar. Caso se queira.

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