A censura no Figaro, os aviões Rafale e o governo Lula na imprensa francesa

Gabriel Brust | França 19:22 | 06/10/2010


Brasil, Terreno fértil para empresas francesas“, diz o Figaro

Lembra dos Rafales, aqueles aviões militares fabricados pelos franceses que ninguém no mundo queria comprar a não ser o Lula? O presidente atropelou as Forças Armadas ao anunciar o negócio bilionário, por razões políticas, mesmo com todos os especialistas apontando os Rafales como a pior opção do mercado, verdadeiras sucatas voadoras. Lula voltou atrás, e a compra segue em suspenso. Pois os Rafales voltaram ao noticiário francês de forma meio enviesada. O caso é sobre o jornal conservador Le Figaro e foi denunciado pelo Le Monde, em solidariedade aos colegas jornalistas do concorrente. Senta que lá vem a história.

O Figaro é assumidamente a voz conservadora da França – mesmo que isso signifique, para os padrões franceses, ser tão de direita quanto o Frei Betto. Acontece que nos últimos tempos começou a haver uma debandada de importantes jornalistas, ao ponto de a SDJ do jornal (as SDJs são as associações de jornalistas que cada redação tem) abrir uma investigação para saber o que estava acontecendo. O objetivo era apurar as denúncias de que os jornalistas estariam trabalhando sob níveis excessivos de pressão do diretor de redação e da empresa proprietária do jornal no sentido de radicalizar a linha editorial. O proprietário do Le Figaro é nada menos que o grupo Dassault, uma holding gigante que atua em diferentes mercados – incluindo a fabricação dos aviões Rafale.

A principal reclamação dos jornalistas, segundo a investigação do SDJ, é a linha exageradamente favorável a Nicolas Sarkozy, o que estaria emudecendo inclusive outras vozes conservadoras do país. Um exemplo, segundo declarou um redator em depoimento obviamente anônimo, foi a declaração do papa Bento XVI criticando a política de deportação dos ROMS, um das obsessões de Sarkozy. O jornal teria ignorado o discurso do Papa, mesmo que a forte cobertura católica seja uma das tradições do Figaro.

O outro exemplo que surgiu nessa investigação – e agora chegamos finalmente aos Rafales – foi o de uma reportagem publicada no mês de junho que denunciava a compra de “materiais de segurança” israelense por parte dos Emirados Árabes Unidos. Acontece que o governo dos Emirados não gostou nem um pouco da reportagem investigativa do Le Figaro. E pior: estava em plena negociação para comprar uma meia-dúzia de Rafales e finalmente desencalhar o estoque da Dassault.

Baixou-se então uma ordem clara na redação do jornal — que foi fundado em 1826 e tinha justamente na cobertura internacional independente um de seus pilares –: artigos que envolvessem países com os quais a Dassault estava negociando os Rafales teriam que passar por uma leitura “sob a lupa”, antes de serem publicados. E, dessa forma, todos os artigos sobre Brasil, Líbia, Emirados Árabes e Suíça entraram na roda. Segundo jornalistas, pelo menos duas reportagens foram inteiramente censuradas no último mês de agosto. Nenhuma das duas envolve o Brasil. Já a página inteira dedicada pelo jornal a Lula no mês passado, intitulada “Como Lula Mudou o Brasil” (reprodução no fim deste post), um amontoado de mistificações e clichês, não sofreu, obviamente, nenhum retoque.

O episódio ajuda a explicar por que não se publica, na imprensa francesa, uma única linha verdadeiramente crítica ao governo Lula. De um lado, há a imprensa de direita, de Sarkozy e dos empresários, querendo vender seus aviões e quetais. Do outro, com a imprensa de esquerda, muda apenas a natureza do interesse, se tornando mais ideológico. Jornais como o Liberation e revistas as mais diversas, sedentos em ter um exemplo de sucesso esquerdista depois de seu fracasso retumbante administrando a Europa, costumam traduzir releases do PT e do governo brasileiro e publicá-los como sendo reportagens. Tente contar a qualquer francês que dois ministros da Casa Civil do governo Lula caíram por corrupção – fato provavelmente inédito na história da república – e que o serviço de saúde pública e a criminalidade urbana no Brasil nunca estiveram piores. Surgirá uma cara de espanto. Não será pela imprensa de seu país que eles ficarão sabendo disso.

Como Lula Transformou o Brasil“, na opinião do fabricante dos aviões Rafale

O caro Big Mac brasileiro

Gabriel Brust | França 18:34 | 15/08/2010

Oi, sou um sanduíche imperialista, mas você adora me comer la la

Há algumas semanas tenho ouvido um mesmo relato de amigos que voltam de viagem do Brasil, mais precisamente do Rio de Janeiro e de São Paulo: os preços em geral, por lá, estariam quase mais altos do que aqui em Paris – cidade notória por esfaquear o vivente até no preço do pão.

 O caderno de economia do Le Figaro da última quarta trouxe uma pequena reportagem confirmando este sentimento geral. “Le Brésil confronté à la surévaluation du Real” abre abordando essa comparação de preços: “Para um turista americano cheio de nostalgia, almoçar em um McDonald’s no Brasil é um choque. Apesar de saber que passaria as férias num país de economia dinâmica mas, mesmo assim, “em desenvolvimento”, ele terá que pagar US$ 4,91 por seu Big Mac no Rio de Janeiro, contra US$ 3,73 nos Estados Unidos”, descreve a correspondente Lamia Qualalou.

O valor do Big Mac brasileiro também fica absurdo ao lado dos vendidos na China (US$ 1,95) e Argentina (US$ 1,78), apontando para uma supervalorização do real estimada em 31% — o que significa, na prática, o mesmo nível de 1998. A reportagem do Le Figaro destaca, no entanto, que essa supervalorização não deve ter maiores consequências – ao contrário da crise de 98 – e que a eleição presidencial do próximo dia 3 de outubro não preocupa nenhum investidor. Mas aponta os vários calcanhares de aquiles que o país parece estar esquecendo, em especial a balança comercial, com péssimo resultado no primeiro semestre. Duas medidas recomendáveis para o país, afirma o Le Figaro, “são impensáveis em contexto pré-eleitoral”: política fiscal mais austera e queda na taxa de juros.

Ainda no assunto Big Mag, mas não mais incluindo o Brasil, a última edição da revista Vingtetun (um excelente calhamaço de jornalismo literário misturado com almanaque) traz uma comparação de quanto vale o trabalho pelo mundo, tomando como medida o preço do Big Mac. Alguns números:

  •  Em média, é preciso 37 minutos de trabalho para um cidadão do mundo ganhar o suficiente para comprar um Big Mac;
  •  Entre 73 cidades pesquisadas, através de 14 profissões, o ranking fica assim:

   Tokyo, Chicago e Toronto, sendo necessários 12 minutos de trabalho para se comprar um Big Mac

Londres, Los Angeles e Miami (13 minutos)

Nova York, Sidney e Hong Kong (14 min)

Copenhague (17 min)

Berlim (19 min)

Paris (20 min)

Moscou (21 min)

Madri e Roma (27 min, mas Demori compra em 50 segundos)

 A Vingtetun traz outros bons números sobre quanto vale o trabalho pelo mundo em tempos de crise. Mostro mais deles em um outro post.

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