A censura no Figaro, os aviões Rafale e o governo Lula na imprensa francesa

“Brasil, Terreno fértil para empresas francesas“, diz o Figaro
Lembra dos Rafales, aqueles aviões militares fabricados pelos franceses que ninguém no mundo queria comprar a não ser o Lula? O presidente atropelou as Forças Armadas ao anunciar o negócio bilionário, por razões políticas, mesmo com todos os especialistas apontando os Rafales como a pior opção do mercado, verdadeiras sucatas voadoras. Lula voltou atrás, e a compra segue em suspenso. Pois os Rafales voltaram ao noticiário francês de forma meio enviesada. O caso é sobre o jornal conservador Le Figaro e foi denunciado pelo Le Monde, em solidariedade aos colegas jornalistas do concorrente. Senta que lá vem a história.
O Figaro é assumidamente a voz conservadora da França – mesmo que isso signifique, para os padrões franceses, ser tão de direita quanto o Frei Betto. Acontece que nos últimos tempos começou a haver uma debandada de importantes jornalistas, ao ponto de a SDJ do jornal (as SDJs são as associações de jornalistas que cada redação tem) abrir uma investigação para saber o que estava acontecendo. O objetivo era apurar as denúncias de que os jornalistas estariam trabalhando sob níveis excessivos de pressão do diretor de redação e da empresa proprietária do jornal no sentido de radicalizar a linha editorial. O proprietário do Le Figaro é nada menos que o grupo Dassault, uma holding gigante que atua em diferentes mercados – incluindo a fabricação dos aviões Rafale.
A principal reclamação dos jornalistas, segundo a investigação do SDJ, é a linha exageradamente favorável a Nicolas Sarkozy, o que estaria emudecendo inclusive outras vozes conservadoras do país. Um exemplo, segundo declarou um redator em depoimento obviamente anônimo, foi a declaração do papa Bento XVI criticando a política de deportação dos ROMS, um das obsessões de Sarkozy. O jornal teria ignorado o discurso do Papa, mesmo que a forte cobertura católica seja uma das tradições do Figaro.
O outro exemplo que surgiu nessa investigação – e agora chegamos finalmente aos Rafales – foi o de uma reportagem publicada no mês de junho que denunciava a compra de “materiais de segurança” israelense por parte dos Emirados Árabes Unidos. Acontece que o governo dos Emirados não gostou nem um pouco da reportagem investigativa do Le Figaro. E pior: estava em plena negociação para comprar uma meia-dúzia de Rafales e finalmente desencalhar o estoque da Dassault.
Baixou-se então uma ordem clara na redação do jornal — que foi fundado em 1826 e tinha justamente na cobertura internacional independente um de seus pilares –: artigos que envolvessem países com os quais a Dassault estava negociando os Rafales teriam que passar por uma leitura “sob a lupa”, antes de serem publicados. E, dessa forma, todos os artigos sobre Brasil, Líbia, Emirados Árabes e Suíça entraram na roda. Segundo jornalistas, pelo menos duas reportagens foram inteiramente censuradas no último mês de agosto. Nenhuma das duas envolve o Brasil. Já a página inteira dedicada pelo jornal a Lula no mês passado, intitulada “Como Lula Mudou o Brasil” (reprodução no fim deste post), um amontoado de mistificações e clichês, não sofreu, obviamente, nenhum retoque.
O episódio ajuda a explicar por que não se publica, na imprensa francesa, uma única linha verdadeiramente crítica ao governo Lula. De um lado, há a imprensa de direita, de Sarkozy e dos empresários, querendo vender seus aviões e quetais. Do outro, com a imprensa de esquerda, muda apenas a natureza do interesse, se tornando mais ideológico. Jornais como o Liberation e revistas as mais diversas, sedentos em ter um exemplo de sucesso esquerdista depois de seu fracasso retumbante administrando a Europa, costumam traduzir releases do PT e do governo brasileiro e publicá-los como sendo reportagens. Tente contar a qualquer francês que dois ministros da Casa Civil do governo Lula caíram por corrupção – fato provavelmente inédito na história da república – e que o serviço de saúde pública e a criminalidade urbana no Brasil nunca estiveram piores. Surgirá uma cara de espanto. Não será pela imprensa de seu país que eles ficarão sabendo disso.
“Como Lula Transformou o Brasil“, na opinião do fabricante dos aviões Rafale
Tags: figaro, França, Imprensa, Lula, rafale, Sarkozy
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