Full metal jacket: atirar para matar
O leitor/comentarista fernando tocou em um bom ponto de discussão no post sobre a Turquia. Para ele, Israel fracassou na abordagem aos barcos dos militantes pró-Gaza também porque:
3. Mataram a sangue frio (caralho, 4 tiros na cara de um americano? que rateada ein, magrão?) [comentário aqui]
Ações de tropas armadas são sempre controversas, sobretudo quando há mortos. No ano passado, tratei de esclarecer algumas questões com o general Fabio Mini, comandante das tropas da OTAN no Kosovo. Perguntei exatamente isso: por que se mata? [o jornalismo é feito de perguntas bastante óbvias, caros].
Em conversa longa, a resposta, resumidamente, foi essa: “não existe atirar para ferir ou atirar para matar”. Sabe aquela história de “atirar na perna”? Fantasia, segundo o general. O treinamento de um exército, quando usa armas letais, é baseado em “neutralizar o inimigo”. São os códigos da guerra.
Uma das formas de tiro mais comuns é essa: 3 disparos, normalmente o primeiro na cabeça ou no tórax, seguido de outros dois tiros igualmente letais, um na sequência do outro. Esse é o procedimento de um soldado nesse caso: Tiro (pausa) Tiro-Tiro.
Por quê?
O motivo é técnico. Fuzis são equipados com um tipo de munição chamado full metal jacket, a pontuda na foto:

A redonda ao lado se chama round nose, mais utilizada “civilmente”, digamos. Pela polícia, por exemplo, em revólveres. Existem round nose que são também full metal jacket, mas vamos facilitar as coisas e assumir que são tipos diferentes.
Fuzis utilizam full metal jacket porque são mais eficientes em situações de guerra: perfuram com mais facilidade (coletes, proteções blindadas, barreiras), são mais duráveis, mais precisas. Apesar disso, há desvantagens. Um projétil round nose (“civil”) é mais adaptado ao “tiro na perna” porque seu impacto ao atingir o alvo é maior. Enquanto o full metal jacket (o “de guerra”) atravessa um determinado alvo de modo quase incólume no primeiro momento, o round nose pode derrubar uma pessoa e se alojar no corpo.
Ou seja: a munição de guerra é mais letal quando atinge órgãos vitais, mas em geral não neutraliza a ação inimiga quando atinge braços, pernas, pés. É perfeitamente possível que uma pessoa continue andando por algum tempo após levar tiros de fuzil em uma perna, por exemplo.
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Exércitos podem atuar com armas não-letais, e de fato muitas vezes atuam. Foi exatamente como Israel disse ter entrado em 6 dos 7 barcos da frota que se destinava a Gaza. No sétimo barco, no entanto, com a situação fora de controle, foram usadas armas letais.
Não estou absolutamente defendendo a ação das tropas, não tenho conhecimento suficiente sobre forças armadas e muito menos conheço os fatos do dia do confronto além do que sai na imprensa. Quem precisa justificar os mortos são Israel e a sonolenta ONU. O que busquei saber na conversa com o general foi justamente os motivos de não “atirar na perna”.
Entre os códigos da guerra, em uma situação de conflito, a última coisa que um batalhão pode tolerar é perder um soldado. Para isso, “neutraliza-se o inimigo”, nessa linguagem crua da morte transformada em esquema teórico. Ainda segundo Fabio Mini, dependendo da pessoa considerada “o inimigo” e do momento do confronto (carga de adrenalina, motivações, resistência à dor), tiros não-letais (“na perna”) são inóquos — o perigo de ser atacado persiste.
Dentro da lógica matemática dos quartéis, ninguém vence uma guerra apontando fuzis abaixo da linha de cintura. E Israel está em guerra.
Tags: Fabio Mini, Flotilha da Paz, full metal jacket, Gaza, Gaza Freedom Flotilla, Hamas, Israel, OTAN
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