São 20h15 quando Eva chega ao antigo hospital abandonado. Sherzaad não lembra a data em que pediu o asilo político, só lembra que era inverno. Pega o telefone celular e liga para o que ele chama de “uma amiga em Bari”. Fala com ela por breves segundos antes de passar a ligação para Eva.
Giovanna conversa com um homem que esteve na Noruega. Ao contrário de todas as expectativas, ter estado na Noruega é péssimo. O asilo é um cabo-de-guerra em que ninguém faz força, uma luta entre países para provar quem tem as piores condições de conceder casa e comida. Quem vence, perde; países que podem oferecer melhores condições devem se responsabilizar pelo refugiado, gastar parte do caixa público para mantê-lo. Ninguém quer se responsabilizar pelos efeitos colaterais da guerra.
O “cara da Noruega” se chama Zahbi e quer ficar na Itália.
Zahbi e Sherzaad são afegãos, fugitivos de uma guerra que já dissolveu quase uma década de suas vidas. Zahbi e Sherzaad não contam como vieram parar na Itália — não querem ter vida pregressa.
“Aqui é bom, tem até restaurante”, brinca Sherzaad, apontando para duas caixas térmicas onde pratos pré-prontos de massa típica italiana são armazenados. Nasceu em Jalalabad, cuja foto que ilustra o verbete em inglês da Wikipedia faz se assemelhar a um moderno centro de uma cidade normal. Sherzaad não parece ter fugido de Jalalabad por medo da modernidade.
Os afegãos de Roma fazem parte de uma minoria mongol levada à região pelos exércitos de Gengis Khan a partir do século XIII; são chamados de Hazaras e formavam um quinto da população do país antes da invasão militar. Após a perda de controle territorial em algumas regiões do país por parte dos exércitos invasores, os hazaras começaram a se espalhar pelo mundo. Hoje, um em cada quatro refugiados que vagam pelo planeta são afegãos hazaras.
Para que fiquem na Itália, Sherzaad e Zhabi não podem ser pegos pela polícia nos próximos 18 meses. Ambos pediram asilo em países que têm melhores condições de abrigo (Noruega e Alemanha) e, pela lei europeia, precisam voltar para lá. Se quiserem viver aqui, devem acordar todas as manhãs por um ano e meio como se não existissem. Cumprido o período fantasma, fazem novo pedido de asilo. Precisam, na prática, fazer com que sua ‘vida europeia’ seja apagada e recomece do zero. Olhando nos olhos de Sherzaad e Zhabi, acreditei que seria bom se recomeçasse de verdade.
Sherzaad desembarcou na Europa em 2008. Veio pela Grécia e rumou para a Inglaterra. Pego pela polícia, foi deportado novamente para a Grécia. Fugiu, rodou por Áustria e Eslovênia até chegar à Itália. Conta a história e ri, mas não gosta de contar a toda hora.
Sherzaad quer ficar na Itália mesmo sabendo que não há emprego. “Qui si sta bene”. Aprendeu logo uma das expressões mais utilizadas na península, um certo conformismo italiano típico que busca justificar o índice de desenvolvimento do país na última década — inferior ao da Europa do lado de lá dos Alpes — com seus monumentos históricos, suas belas paisagens de praias e montanhas, o bom clima, a excelente comida, o ar que se respira.
Eva a Giovanna ouvem tudo pacientemente. Têm fome. São 21h30, não comem nada desde o meio-dia. Ambas são voluntárias freelance: vêm todas as semanas, nas quartas-feiras, ao antigo hospital transformado em abrigo de refugiados para ajudar gente como Sherzaad e Zahbi a colocar a documentação em dia. Os pedidos de asilo estão em desordem assustadora.
Eva é tradutora, versa palestras e conversações do inglês para o italiano. Giovanna é consultora legal. Nenhuma delas ganha uma lira pelo trabalho das quartas. Se fizesse algum extra naqueles dias, Eva talvez conseguisse trocar o Fiat surrado com três camadas visíveis de pintura em tons mal calibrados por um carro mais novo. Eva não parece se importar.
Afegãos têm um jeito peculiar de comprimentar. Apertam sua mão e depois a batem no próprio peito, espalmada, como quisessem tocar o próprio coração. Olham para você enquanto fazem isso, e sorriem.
Eva explica algo em italiano para um deles, que traduz para o outro.
Sherzaad e Zahbi, assim como todos os outros 70 conacionais que ali estão, se vestem com camisolões longos e calças largas, brancos. Não usam barbas ou turbantes como a imagem clássica dos afegãos espalhada no período pós-invasão. Aqueles, os de barba e turbante, em um mundo falsamente simples de ser explicado, são os inimigos.
Perseguidos e tratados como linhagem inferior pela maioria afegã, os hazaras são, além de mongóis, muçulmanos xiitas –- minoria dentro da população sunita afegã. Os hazaras xiitas são, portanto, a minoria da minoria. Após o início dos conflitos, foram escurraçados violentamente pelo Taleban, que tomou suas casas e suas mulheres. Quem não fugiu, morreu.
Se aproxima o Ramadã*, o que, para um muçulmano naquelas condições, representa um problema. Pouco antes de serem transferidos para o hospital, os afegãos ocupavam uma área aberta onde haviam formado um campo de refugiados. Precisaram de socorro por conta do calor bestial de Roma no pico do verão: não havia mais onde buscar água. No Ramadã, precisam ficar até 16 horas por dia sem comer ou beber, do nascer do sol ao poente.
Faz 40 graus em Roma, não há um fio de vento e a estrutura que os abriga fecha durante o dia. Não podem ficar lá dentro, ao reparo do sol. Precisam ir para a rua. Sobreviver ao Ramadã será uma prova de fé.
São 22h10 e Eva e Giovanna ainda estão sentadas desconfortavelmente em duas cadeiras de plástico no pátio externo do prédio. Giovanna ensina a polir o italiano enquanto ouve histórias de vida e fuga. A maioria dos contadores fala rudimentarmente. Um deles chama Giovanna de “Giovanni”. Ela, vaidosa, o repreende. “Giovanni é nome de homem”.
Eva e Giovanna continuam a preencher fichas.
Nome:
Sobrenome:
Cidade de partida:
Cidade de chegada:
Telefone para contato:
Todos os afegãos têm celular.
Chega outro, Fahim al-Ahari. Perdeu todos os documentos. É informado de que precisa prestar queixa na polícia. Encosta mais um na mesma situação para ouvir atentamente, perdeu tudo e também não fez a queixa. Muitos afegãos perdem seus documentos. Fahim diz que a polícia inglesa ficou com seus papéis quando foi pego ilegalmente no país e deportado para a Itália. Ao longo da noite, chegarão outros sem documentos e sem denúncias à polícia, sem papéis e deportados.
São 22h51, Giovanna e Eva se levantam. A vida legal dos afegãos de Roma precisa ser suspensa até a próxima quarta-feira. É sempre quarta-feira na vida dos afegãos de Roma.
*O Ramadã já acabou. Comecei a escrever o texto em julho, quando visitei o centro de refugiados.