Nove anos depois

Fabricio Pontin | Estados Unidos 21:53 | 11/09/2010

Todo mundo que eu conheço tem uma história bacaninha de como ficou sabendo dos atentados. Eu não lembro direito. Tudo que eu lembro é que estava na faculdade e ouvi algo sobre um incêndio no World Trade Center. Depois, no ônibus, tinha uma turma rindo e dizendo que parecia que uns nove outros aviões tinham sido sequestrados. Cheguei em casa, a primeira torre já tinha caído e a outra estava lá enquanto o repórter da CNN surtava no vídeo.

Os dias que se seguiram os atentados foram um festival de informação desencontrada. Ninguém realmente acreditava que os Estados Unidos iam demorar mais de um ano para capturar o Osama, ninguém realmente pensava que trilhões de dólares seriam gastos em duas guerras e que o presidente dos Estados Unidos financiaria uma delas com dinheiro chinês (o que certamente vai passar para a história como um dos piores erros estratégicos de uma administração norte-americana).

Nove anos depois, ninguém sabe se Osama está vivo ou morto, e pouco importa. A guerra no Iraque foi um desastre inconclusivo: ainda que houvesse razões para invadir o território e arrancar o Saddam de lá, o erro americano foi parecido com o cometido no Vietnam: ao pensarem que seriam saudados como libertadores, foram recebidos como invasores sem legitimidade.

No Afeganistão, depois de nove anos de ataques e planos, tudo que os americanos conseguiram é garantir a administração de um setor de Kabul, o resto do território tendo sido largado na mão de lutas tribais e uma expansão preocupante do radicalismo via bin-Laden na fronteira com o Paquistão.

Nos Estados Unidos, o noticiário passa as notícias de nove anos atrás sem parar. Enquanto isso, o Congresso discute se os bombeiros, policiais e paramédicos que responderam as chamadas de emergência nos prédios têm direito a tratamento especial para as doenças que eles pegaram durante a operação. Na última votação, o Congresso decidiu que não.

Mais que isso: nesses nove anos, a direita religiosa, que tinha adquirido legitimidade no governo Reagan (que, justiça seja feita, era inteligente o suficiente para usar aquela gente, mas nunca para ser usado por eles), se tornou a vanguarda do partido republicano, empurrando o conservadorismo fiscal para escanteio e criando uma noção delirante de imperialismo democrático aliada com populismo de valores. A chamada Bush Doctrine consiste justamente na articulação dessas duas frentes, que só foram elaboradas após os ataques. Bush alegou, em 2000, ser um conservador amável. Essa faceta foi rapidamente abandonada por um discurso totalmente diferente e o país ainda sofre as consequências dessa reestruturação.

Uma economia no lixo

Os anos Clinton criaram uma sensação enorme de otimismo nos Estados Unidos. Durante os oito anos do governo do bonitão, os americanos gastaram e compraram como nunca. Eles também criaram uma série de expectativas completamente insanas sobre os próprios bens e planos de vida. Criou-se a chamada “loucura dos seis dígitos”, de uma hora para outra, qualquer casa em um subúrbio de Chicago, Nova Iorque ou Los Angeles custava um milhão de dólares.

Essa tendência não foi revertida por Bush, pelo contrário. Um dia depois dos ataques, Bush foi a público dizer para os americanos comprarem mais, consumirem intensamente. Naquele momento, Bush poderia ter tentado reproduzir Roosevelt em 1939, e pedido austeridade, calma e trabalho. Ele pediu o contrário: consumo, ansiedade e lazer. Seis anos depois, os Estados Unidos começavam a pior crise de empregos desde 1981 e a pior crise fiscal desde 1929.

Uma derrota anunciada, uma nova liderança

Com um desastre econômico, duas guerras indo para lugar algum e um desastre ecológico nas costas, Bush começou um processo de queda vertiginosa, que acabou determinando que a grande eleição de 2007 não seria a entre um republicano e um democrata, mas entre os democratas. As primárias entre Hillary e Obama foram sensivelmente mais importantes que a eleição geral, justamente por não existir qualquer chance de eleição para um candidato republicano.

No entanto, os neo-cons encontraram em Sarah Palin um veiculo ainda mais poderoso que Bush. Palin era um grande quadro em branco onde os neo-cons poderiam escrever o que bem entendessem. Ela era perfeita. E melhor ainda, a mídia liberal odiava ela. Os republicanos sabem que a estratégia política pós 9/11 depende da criação de antagonismos, e não poderiam perder a oportunidade de explorar esse cenário.

Com isso, a Sarah Palin surgiu como a grande liderança de oposição, mobilizando uma voz única de negativas às políticas democráticas. Mesmo com um Congresso favorável, Obama se viu cercado de democratas com medo de perder seus respectivos cargos, e foi incapaz de liderar, no primeiro ano de governo, uma politica de situação homogenea.

Resultado: enquanto os republicanos votavam em bloco, os democratas votavam de forma desordenada e sem uma contra-partida aos republicanos. Em dois anos, Obama baixou para a linha dos 40% de aprovação e agora começa a brincar com os 35%, com níveis de rejeição similares aos de Bush em 2006.

Empregos, estrutura e um elitista

Muita gente boa sustenta que o pior da crise econômica já passou. Do ponto de vista da austeridade fiscal, sem dúvida. Mas tem um lado que ninguém tá falando: os empregos perdidos durante a crise não estão voltando. As pessoas continuam sem emprego, sem condições de pagar pelas coisas que adquiriram durante o otimismo dos anos Clinton, na terceira ou quarta hipoteca da segunda ou teceira casa…

Com isso, a estrutura do país está em crise. Em Detroit, os pedidos de falência individual continuam crescendo, um passeio rápido pelas ruas de Memphis ou St. Louis denuncia uma série de negócios fechando e prédios que são abandonados por falta de pessoas para alugar salas.

Enquanto isso, Obama demonstra uma incapacidade notável de articular uma ponte entre a habilidade de fazer discursos geniais com uma comunicação efetiva com o grande público. Ao contrário de Clinton, Obama não tem, hoje, qualquer simpatia com os democratas do meio-oeste, que têm um perfil mais de classe-média baixa, operária-industrial. Enquanto isso, Palin apela forte para o público de direita. Agora, Obama olha para o mapa eleitoral e vê os republicanos com chance de eleger governadores em 30 dos 50 estados, e com alta possibilidade de reverter a maioria democrata no Congresso, e diminuir a vantagem no senado.

Tolerância de mão única

Entre as discussões bobas da mesquita próxima do ground zero e a suposta queima do Corão por um pastor imbecil (pleonasmo, eu sei) na Flórida, uma coisa fica clara sobre o cenário pós 9/11, e que talvez seja a maior vitória dos atentados: os americanos estão extremamente dispostos a abrir mão de liberdades civis conquistadas nos últimos 100 anos em nome da suposta segurança nacional.

Por um lado, existe a tentativa de legitimar o Islã no contexto norte-americano após os ataques. Depois dos abusos praticados pelo governo Bush contra prisioneiros de guerra e o evidente estabelecimento de elementos religiosos dentro do Imperialismo Democrático da doutrina Bush, agora o esforço passa por legitimar o Islã. Exceto que tentar legitimar algo já presume a ilegitimidade da coisa. E ai temos a primeira dimensão do problema, ao tentar justificar as atividades normais de muçulmanos nos Estados Unidos, surge a pergunta “porque esses indivíduos precisam justificar essas atividades, quando outros não precisam?”.

Do outro lado, existe uma preocupação especial com as sensibilidades do Islã. Todas as religiões podem ser objeto de chacota, menos o Islã. Esse tratamento especial acaba denotando a construção de uma via de mão única, onde se permitem a construção de mesquitas, mas se aceita que essas mesmas mesquitas não permitam que cachorros passem na frente do estabelecimento (cachorros são animais impuros, entenda). Nada disso ajuda no processo de integração, pelo contrário.

Acontece que Obama não tem exatamente um histórico fabuloso na questão de direitos humanos. Guantánamo continua ativa, prisioneiros são mantidos no local sem julgamento e sem direito a Habeas Corpus. E aí?

Um país na encruzilhada

Sem dúvida, a eleição de Obama foi um evento extremamente relevante do ponto de vista socio-cultural, Obama venceu em estados onde 40 anos atrás um negro não poderia sentar na mesma mesa de um branco. Mas o momento de euforia com a eleição se esvaziou antes da posse do Obama. Já no terceiro mês, a aprovação de Obama era normal, e depois de um ano, a queda começou a se tornar vertiginosa.

Parece que houve, sim, uma mudança substancial no país, mas não era a que os democratas esperavam. Pelo contrário, a eleição mobilizou os conservadores e rapidamente frustrou os democratas. Agora, Obama vai ter que lidar com a potencial eleição de republicanos extremamente conservadores para o Congresso (os moderados estão sendo obliterados pela Palin), e esperar que essa tendência não se reverta na eleição da Palin como presidente em 2012 (o que sigo achando pouco provável).

Ainda assim, o crescimento do conservadorismo religioso enquanto vanguarda política é um fato incontestável desde 2001, e Obama perdeu a chance de parar essa tendência no momento da posse. Agora, ela retornou com mais força e mais poder de organização e talvez possa desenhar uma mudança política maior que a protagonizada por Reagan.

Se eu perder, não brinco mais

Fabricio Pontin | Estados Unidos 15:47 | 12/08/2010

Para começar, um pouco de contexto:

Na Califórnia, e em vários estados aqui na terra do Tio Sam, o camarada que arrumar um certo número de assinaturas pode colocar uma proposta de lei entre os ítens para serem votados em uma determinada eleição. Em 2008, as seguintes propostas entraram em campo:

1A) Aprovar o financiamento público de um trem-bala de Los Angeles para San Francisco
2) Implementar padrões mínimos para o tratamento ético de animais em confinamento
3) Autorizar o financiamento público e benefícios fiscais para hospitais de crianças
4) Emenda constitucional (na constituição do Estado da Califórnia, bem entendido) regulando autorização paternal para abortar gravidez de menores de idade
5) Novo estatuto regulando fiança, sentença e liberdade condicional para crimes não violentos
6) Implementação de um financiamento para um novo programa de penas criminais e segurança pública
7) Implementação de um programa de energia renovável na Califórnia
8 ) Emenda constitucional (no Estado da Califórnia, de novo) definindo casamento como a união entre um homem e uma mulher e banindo o casamento homossexual.
9) Emenda constitucional sobre sistema criminal, especialmente direitos das vítimas e punição de crimes violentos.
10) Autorização para implementar títulos públicos de financiamento de energia renovável e combustível renovável.
11) Emenda constitucional regulando mudança de endereço
12) Autorização para implementar títulos públicos para financiar a compra de imóveis para ex-veteranos.

Pois bem, o primeiro choque foi que quase todas as legislações progressistas levaram um sonoro não. Os californianos decidiram que não iam financiar legislação ambiental alguma, não iam diminuir o volume do poder punitivo do Estado sobre a vida nua dos cidadãos desfavorecidos que são hordienamente massacrados pela malha Estatal-Soberana, impositora de um certo domínio higiênico-populacional de regras (que na realidade expressam o caráter de exceção do regime de poder Estatal) de forma agônica e atemporal.

Um choque, mas nem tanto, afinal, a Califórnia tem uma população carcerária enorme e elegeu Conan para governador (isso depois de ter eleito o Cowboy do Brooklyn).


pega na minha espada

Mas a coisa realmente deu polêmica com a tal da Proposta 8. A que define casamento como a união entre papai e mamãe, que nem Jesus disse e a Bíblia falou. Todo o beautiful people californiano (pensem no Sean Pean, na Susan Sarandon, enfim, no povo de Hollywood) começou um gritedo sem limite na hora que a legislação foi introduzida para ser votada. Algumas organizações de direitos civis entraram na Justiça, requisitando que a proposta fosse retirada da ordem do dia. A Suprema Corte da Califórnia se manifestou dizendo que não via nada de errado no formato da proposta e que ela tinha todos os requerimentos para entrar na ordem do dia. Ou seja: vai ter voto.

Acontece que o Estado da Califórnia já estava casando homossexuais. A proposta 8 buscava justamente cessar a prática e os efeitos dos casamentos realizados desde a implementação da legislação anterior. O slogan da campanha era “restaure o casamento” e focava nos efeitos nocivos (!!!) do casamento homossexual para a sociedade e os bons costumes.

Mas pera aí, a Califórnia não era o paraíso liberal?

A imagem que a maior parte das pessoas tem da Califórnia se confunde com a imagem de Hollywood e de São Francisco. Algo mais ou menos assim:


Demori, me liga!

Acontece que a Califórnia, sozinha, tem o quinto maior PIB do mundo. Boa parte dos conservadores fiscais dos Estados Unidos ou moram na Califórnia, ou tem negocios lá. Fora do centro de influência de Hollywood e São Francisco (as cidades universitárias, as comunidades hippies e os paraísos para os podres de rico), o Estado é extremamente conservador. Uma boa olhada na lista de governadores desde 1953 dá um quadro da coisa: apenas três governadores democratas. Poderia-se argumentar que os Republicanos que governam a Califórnia são conservadores fiscais, mas não de valores. Isso era verdade até a transformação profunda que o Partido Republicano sofreu nos últimos quinze anos. Hoje, um republicano que é apenas um conservador fiscal é um republicano sem grana para financiar a campanha.

The Big Money

A restituição dos valores de família, tradição e propriedade falou muito alto para todo mundo que não era da panelinha Hollywood-San Francisco e mesmo com o Arnold dizendo que achava melhor votar contra a proposta, os proponentes da restituição do casamento “tradicional” foram direto ao ponto:

Traduzindo tudo: “quem vai proteger nossas crianças desse bando de pervertido?”. Isso é o canto da sereia para a dona de casa entediada do Vale do Silício, que não aguenta mais ver o professor do jardim de infância do filho dela desfilando de sunga na parada gay pride de São Francisco. A dona de casa, então, fala para o marido magnata dar a grana para a campanha e vai votar. Ela também vai falar com todas as amigas dela, igualmente de saco cheio, irem votar.

Somem a isso o fato de que os conservadores fiscais que injetam grana na economia californiana são, em boa parte, de Utah. E Utah, sabe-se, acredita que homossexualidade é uma doença e oferece tratamento para pessoas acometidas da enfermidade (até 1980, sodomia era crime no Estado inteiro, hoje, é considerada uma contravenção leve e os praticantes são remetidos a clínicas de re-habilitação). Com isso, a campanha tinha muito dinheiro para queimar.

Participação, interesse e resultados

Ainda assim, não dá para acreditar que o lobby pró-casamento tradicional tinha mais dinheiro que o lobby contra a passagem da lei. Se os conservadores fiscais têm muito dinheiro, Hollywood tem muito mais. Ainda que as donas de casa chateadas com o professor gay tenham mandado cheques de 10$ para a campanha pela familia tradicional, o sindicato dos professores da Califórnia doou 1.5 milhão de dólares para a campanha contra. No mínimo, houve um empate na quantidade de grana investida.

Só que não houve mobilização significativa do lado contra a legislação. Enquanto os conservadores cooptavam diversos setores da sociedade (inclusive Democratas religiosos, como os Batistas), o outro lado ficava em uma lenga-lenga aborrecida sobre igualdade formal, fugindo desesperadamente do debate sobre a questão da homossexualidade, focando nos direitos iguais. Claramente, a disputa era pelo voto dos negros e dos latinos na Califórnia, que são em grande parte religiosos e teriam mais simpatia pelo discurso da igualdade, mas talvez nem tanta sobre a parte envolvendo os homossexuais.

Isso foi um erro estratégico por parte dos opositores da proposta oito. Alguns homossexuais se sentiram alienados da campanha e o assunto perdeu uma identidade, perdeu o rosto. Ninguém sabia quem é que eram essas pessoas que perderiam o direito a casar, porque a campanha escondia isso. Enquanto isso, em São Francisco e em LA ninguém realmente acreditava que os conservadores tinham chance. Resultado: não foram votar.

Do outro lado, todo mundo votou. Os negros e latinos de forma decisiva com os conservadores. Mesmo com a indicação contrária do Obama, do Arnold e do Sean Penn, a proposta 8 passou como lei.

Assim não brinco mais

No dia seguinte, os liberais de Hollywood e São Francisco acordaram da festa do dia anterior e descobriram que, bem, eles tinham esquecido de ir votar. Seguiu-se grande comoção pública. De uma hora para a outra, a questão adquiriu o rosto que não tinha na época da campanha. Uma das melhores iniciativa foi “não divorcie meus pais”:

Organizaçõs de direitos civis novamente entraram na justiça, dessa vez para pedir a inconstitucionalidade da proposta e sustar os efeitos da lei imediatamente. Semana passada o pedido foi reconhecido por uma corte distrital na Califórnia e agora a lei será julgada pela Suprema Corte californiana. Se a Suprema Corte californiana negar o pedido e revalidar a decisão do referendo, o único caminho para as organizações civis na Califórnia seria apelar para a Suprema Corte de Washington, com base em princípios constitucionais.

Acontece que a decisão da corte distrital foi claramente política e a Suprema Corte da Califórnia pode, sim, reverter a decisão do tribunal. Na realidade, ela deve reverter a decisão, já que ela foi mobilizada antes do referendo e disse que a matéria sendo discutida não era inconstitucional. O que mudou?

De certa forma o que mudou foi a pressão social. A decisão sobre a legalidade do referendo foi recebida com relativa calma na Califórnia, já que as organizações de direitos civis acreditavam poder ganhar o jogo. Uma vez que elas perderam, resolveram apelar novamente.

E se fosse o contrário?

O problema todo é o seguinte: se o referendo foi ilegal, ele foi ilegal para os dois lados. E se a decisão tivesse privilegiado o interesse dos que favorecem o casamento homossexual? Onde estariam essas organizações de direitos civis agora? Continuariam alegando a ilegalidade do referendo?

Parece que, e eu lamento dizer isso, o pessoal não está sabendo perder. A atitude correta, do ponto de vista procedimental, seria esperar pela próxima eleição e inserir uma proposta cancelando a legislação anterior.

Ainda assim, existe uma chance da Suprema Corte tomar uma decisão política hoje e voltar atrás na decisão tomada há poucos meses. Qualquer que seja o resultado, existe um risco da parte que perder ir apelar para a Suprema Corte em Washington. Mas é um risco grande, uma vez que a Suprema Corte em DC pode decidir por nem receber o protesto – para evitar uma posição nacional sobre o casamento homossexual; ou pode receber e julgar o protesto válido, tornando qualquer legislação banindo casamento homossexual inconstitucional, em qualquer lugar dos Estados Unidos.

Alinhamentos

Fabricio Pontin | Estados Unidos 17:10 | 18/05/2010

Não tem nada de errado em um país buscar independência diplomática.

Muita gente, e gente boa, tem interpretado este movimento do Itamaraty de querer dialogar com o Irã e com os Estados Unidos na posição de um ator com interesses independentes como uma tentativa de adquirir um “passe livre” na arena internacional. Para ficar nos termos das relações internacionais: o Brasil quer poder atuar em palcos diferentes, que normalmente estariam em conflito. Quer poder jogar pelo Flamengo e pelo São Paulo – ao mesmo tempo.

Já consigo ouvir alguém gritando “mas isso não é um jogo de futebol”. Talvez, pode ser uma comparação desastrada. De qualquer forma, podemos indicar que existem diversas atitudes com relação ao Irã na arena internacional (esta grande ficção). Vou dividir a coisa aqui, vamos pensar que tem atitudes negativas, atitudes neutras, e atitudes simpáticas. Pois bem, isso seria o que chamei ali no título de alinhamento, okey?

Nos últimos dias, a China e a Russia, que estavam em uma posição de neutralidade com relação ao Irã, se moveram para o terreno “negativo” ao apoiar as sanções capitaneadas pelo Pentágono. Tanto a Russia quanto a China são (ou eram) parceiros do Irã em algumas empreitadas econômicas. Com este novo posicionamento, o Irã precisa de aliados, e rápido.

Sobraram no terreno neutro uma meia dúzia de países que não importam. Não tem voz. Não apitam. Estes não servem. Mas o que me interessa é que a entrada do Brasil enquanto parcero comercial do Irã no comércio de urânio, junto com a Turquia, nos coloca na posição de ter uma atitude simpática com o país dos aiatolás.

Energia é uma questão militar. Então me poupem do papo-aranha de “fins pacíficos”. Alinhamento político-comercial em questões de energia é um alinhamento militar. É mais ou menos como ajudar um país a produzir mísseis, por exemplo. Portanto, não é exagero algum dizer que o Brasil escolheu um alinhamento militar-comercial com o país que mais rapidamente perde apoio na arena internacional.

Eu não sei quais são as razões do Itamaraty para isso. Cada vez mais o enriquecimento de urânio entra no discurso executivo brazuca. Mas, para o Brasil, qual é a vantagem de negociar com o Irã, especialmente no longo prazo?

A Turquia poderia alegar razões estratégicas-geográficas “O Irã fica aqui do lado!”, mas o Brasil não tem razões históricas ou contingenciais para fazer esse acordo agora. Quer dizer, só se a razão for querer aparecer e adquirir algum tipo de relevância.

A história não tá pegando muito bem. Duas colunas no Washington Post nos últimos sete dias resolveram sentar o cacete no governo brasileiro (aqui e aqui). Achei os argumentos bestas. Especialmente do segundo cronista, que acha um escândalo o Brasil “ignorar o brutal governo Iraniano”. Por favor, o maior parceiro comercial dos Estados Unidos é a China. Ninguém se importa com a brutalidade alheia.

O problema desta nova atitude da diplomacia brasileira é o alinhamento. Estamos ignorando aliados históricos e procurando novos aliados. Fico curioso dos benefícios para a diplomacia brasileira em mostrar simpatia por um barco que está afundando. O governo iraniano mal dá conta das pressões internas e agora vai virar um grande parceiro comercial-militar do governo brasileiro?

Claro, o Irã – mesmo se conseguir a bomba – não vai correr o risco de virar uma grande piscina de vidro ao atacar Israel. Mas este não é o ponto para o Brasil: enquanto o Marco Aurélio Garcia fala do “escândalo” das sanções externas, o Irã perde a neutralidade da China e da Rússia. Os ratos vão abandonando o navio iraniano, e o Brasil vai alegremente a bordo com toda sua bagagem diplomática – esperando poder pular de volta para o porto seguro dos aliados históricos caso a coisa fuja de controle. Mas cabe a pergunta: e se o porto seguro negar entrada, para onde vai a diplomacia brasileira?

Lula, o salvador do universo

Fabricio Pontin | Estados Unidos 00:41 | 13/04/2010

Lula, tomando as providências para ser levado a sério na arena internacional:
(via ZH/EFE)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva dirá em seu discurso de amanhã durante a cúpula de segurança nuclear em Washington que o terrorismo não deve servir como pretexto para impedir o acesso à energia nuclear com fins pacíficos.

ã.

Em seu discurso, divulgado por antecipação à imprensa pela delegação brasileira, Lula pedirá “a eliminação total e irreversível de todos os arsenais nucleares” como o único meio para garantir que armas nucleares não caiam em mãos erradas.

Como é que ninguém nunca pensou nisso antes, por deus? É uma solução tão… fácil!… Ah é, deve ser por isso que ela é uma solução completamente demente. Primeiro: Não garante porra nenhuma. A eliminação dos arsenais existentes hoje vai acabar com a tecnologia que permite o desenvolvimento de armas nucleares? Vai acabar com indivíduos dispostos a vender a sua “expertise” em construir bombas? Vai parar o desenvolvimento de programas nucleares voltados para a bomba – inclusive, esta distinção entre programa nuclear “pacífico” e “bélico” é meio que uma piada, né? Ou de uma hora para outra energia virou uma questão separada da segurança nacional e eu perdi o memo? Outra coisa: quem desliga o botão primeiro? Ou Lula vai se candidatar para apertar o botão que desliga todas as bombas ao mesmo tempo? Uma coisa meio Dr. Fantástico às avessas?

Ao mesmo tempo, Lula defenderá o desenvolvimento da energia nuclear como fonte de energia, assim como para pesquisa e aplicações médicas.

“As considerações relacionadas àsegurança nuclear não podem em absoluto servir como pretexto para dificultar o acesso à tecnologia nuclear com fins pacíficos”, dirá o presidente.

Cara, isso não faz o menor sentido. Tecnologia nuclear com fins pacíficos, tecnologia elétrica com fins pacíficos, tecnologia espacial com fins pacíficos, ou qualquer coisa parecida, é re-tó-ri-ca. Ou vocês acham que a corrida espacial foi sobre o sonho do homem em explorar o inexplorável? Ou que os Estados Unidos lançaram um míssel mirando um “x” na Lua , durante a mesma semana na qual o Irã endureceu o papo do programa nuclear, simplesmente para “achar água”? Ou que Itaipu foi contruída para garantir energia barata para o Brasil? Acordem para a realidade, faz favor.

O Brasil defende o direito do Irã de desenvolver a tecnologia nuclear, mas se opõe à fabricação de uma bomba.

Lula aproveitará o discurso para reivindicar a reforma do Conselho de Segurança da ONU, onde pretende conquistar um posto permanente para o Brasil, como forma de atualizar a gestão mundial da segurança nuclear.

Boa sorte tentando garantir um lugar no Conselho de Segurança com papo de destruição mútua dos arsenais nucleares. Diminuir os arsenais é parte de um interesse estratégico dos Estados Unidos e da Rússia, interesse este que inclusive pressiona o Irã, já que o acordo é claro: não utilizar armas nucleares só é sustentável para países que assinaram o tratado de não ploriferação e, de quebra, abre exceções para responder a ataques com armas químicas (detalhe: é “ataque”, não precisa sequer ser um ataque em território americano ou russo, apenas um “ataque com arma química”).

O Obama acabou de realizar os termos de uma proposta de ninguém menos que Ronald Reagan, que nos anos oitenta tinha sugerido diminuir os arsenais em 1/3, justamente por ter obtido inteligência do completo colapso do sistema Soviético de manutenção de bombas nucleares (por sinal, para a turminha do oba-oba que tá comemorando o pacifismo da posição do Lula: permitam que eu lembre que a gente não sabe onde foram parar algumas das bombas da ex União Soviética. Comofas para garantir o desligamento destas ogivas?).

Por sinal, vocês sabem que nem os Estados Unidos, nem a Russia, nem a China realmente precisam de armas nucleares para transformar o Nepal em uma grande planície, né? Então, calma na celebração de qualquer acordo de desarmamento.

Mas, de volta ao Lula, parece que [se]

“Persistem as estruturas e regras de 1945. A ONU está perdendo credibilidade”, afirmará o presidente.

Ok.

todas as cenas são do maior filme de todos os tempos, Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick.

Cesare Battisti? Ninguém se importa

Leandro Demori | Itália 16:35 | 11/04/2010

Lula se reunirá amanhã com Silvio Berlusconi. Ambos estarão em Washington para a cúpula sobre segurança nuclear convocada por Barack Obama. Lula e Berlusconi, reservadamente, devem falar sobre Cesare Battisti.

No Brasil e na Itália, o assunto Battisti morreu. A repercussão da reunião de Lula e Berlusconi é zero. Nada. Acontecesse meses atrás, o encontro estaria na pauta da imprensa e guiaria as discussões de quem acredita que a) Battisti é um injustiçado e cometeu crimes políticos b) Battisti é bandido comum.

No Brasil, Cesare Battisti ganhou mais exposição do que sua figura comporta na Itália. Por aqui, qualquer pessoa que conheça o assunto sabe que Battisti é, como se diz, “peixe-pequeno” perto daqueles que o governo italiano realmente quer de volta.

Peixe pequeno, mas de boca grande. Battisti virou alvo por falar de mais. Livre em Paris, escreveu livros, fez amigos importantes, ficou famoso. Estava vivendo “alla grande”, como dizem aqui na Bota — “por cima da carne seca”, em bom português brasileiro. As famílias das quatro pessoas mortas por Battisti ou por seus companheiros consideraram que o ex-revolucionário estava pisando nos cadáveres que deixou. Nem mesmo a esquerda, que presumivelmente deveria defendê-lo, o fez.

O encontro de amanhã pode jogar mais alguma luz sobre essas questões. Poucas, ao que tudo indica. Lula precisa cuidar da sucessão no Brasil, Berlusconi quer começar uma fase de reformas institucionais na Itália. O caso, até ontem de vida ou morte, com declarações exageradas de ambas as nações [aqui e aqui], é hoje uma nota de rodapé.

Na política, assim como no futebol, a torcida logo apaga um campeonato quando outro começa.

Quem tiver curiosidade para saber como vivem os refugiados italianos em Paris pode ler esta reportagem aqui, escrita por mim e pelo Mário Camera para a revista IstoÉ.

Retaliação do Braziu abala capitalismo norte-americano

Walter Valdevino | Brasil 11:00 | 09/03/2010

Como todos já sabem, o Braziu Potência, depois de uma guerra ferrenha, conseguiu junto à OMC (Organização Mundial do Comércio), aplicar uma retaliação comercial de US$ 830 milhões contra o Império do Mal.

O rolo começou em 2003, quando o Braziu acusou os imperialistas de dar subsídios aos produtores de algodão, o que estaria levando à loucura o preço internacional do produto. Dois anos depois (zzz…), a OMC deu a primeira prensa nos EUA, pedindo ajustes administrativos ou a suspensão da mamata. George W. Bush, então líder supremo, ignorou a OMC. O Braziu chorou e, em janeiro de 2008, os EUA foram novamente condenados, mas recorreram. Em agosto do ano passado, a OMC finalmente encerrou a brincadeira e autorizou a retaliação. A lista de produtos que terão alíquota de importação turbinada foi divulgada ontem. A lista causou espanto por ir muito além do Gossypium Malvaceae e incluir 102 produtos.

Como boas “cabecinhas feitas pelo ressentimento comunista”, temos nossas fontes no governo. Conversamos com o ocupante de um importante cargo na Câmara de Comércio Exterior (Camex), que fez a gentileza de explicar o motivo do aumento das alíquotas de vários produtos. Vamos a eles:

- Arenques congelados (aumento de alíquota de 10% para 30%) – “Embora rico em ácidos graxos ômega 3, o arenque é muito gorduroso. Os estóódóós sobre os benefícios do pequeno peixe para a saúde são controversos. Além disso, o arenque é o símbolo da marca Hering, de origem alemã. Imperialismo, portanto.”

- Tripas de suínos, frescas, refrig. congel., salgadas, defumadas (aumento de alíquota de 6% para 28%) – “O povo do Braziu precisa parar de comer essas nojeiras.”

- Trigo (exc .trigo duro ou p/ semeadura), e trigo c/ centeio (aumento de alíquota de 10% para 30%) – “Trigo é irrelevante.”

- Ketchup e outros molhos de tomate (aumento de alíquota de 18% para 38%) – “O quetechupe, como bem sabemos, disseminou-se em nossa cultura logo após a instauração das lanchonetes McDonald’s no país. Péssimo para a saúde dos brazilêrus.”

- Gomas de mascar, sem açúcar (aumento de alíquota de 16% para 36%) – “Só as sem açúcar terão aumento porque é preciso sobrar algo docinho na vida dos brazilêrus.”

- Medicamento cont. paracetamol ou bromoprida, exc.em doses (aumento de alíquota de 14% para 28%) – “Com o incremento do SUS (Sistema Único de Saúde), os brazilêrus estão seguros e não necessitam mais de grandes quantias de medicamentos.”

- Medicamento contendo anfenicois/outros sais, em doses (aumento de alíquota de 8% para 14%) – Idem ao interior.

- Outros medicamentos cont. polipeptideos/derivados, em doses (aumento de alíquota de 8% para 14%) – Idem ao interior.

- Medicamento c/outs. estrogenios/ progestogenios, em doses (aumento de alíquota de 8% para 14%) – Idem ao interior.

- Outs. medicamentos c/alcaloides, s/hormonios etc., em doses (aumento de alíquota de 8% para 14%) – Idem ao interior.

- Outs.medicam. c/comp. de funcao carboxiamida etc., em doses (aumento de alíquota de 8% para 14%) – Idem ao interior.

- Outs. pensos adesivos, artigos análogos c/camada adesiva (aumento de alíquota de 0% para 12%) – Idem ao interior.

- Outros categutes esterilizados etc., p/ suturas cirúrgicas (aumento de alíquota de 12% para 22%) – Idem ao interior.

- Produtos de maquilagem para os lábios (aumento de alíquota de 18% para 36%) – “Maquilagem é um instrumento de submissão, opressão e exploração das mulheres.”

- Cremes de beleza, cremes nutritivos e loções tônicas (aumento de alíquota de 18% para 36%) – Idem ao interior.

- Outs. produtos de beleza ou de maquilagem preparados etc. (aumento de alíquota de 18% para 36%) – “O-P-R-E-S-S-Ã-O.”

- Xampus para os cabelos (aumento de alíquota de 18% para 36%) – “Como já muito adequadamente salientou o Conselho Federal de Psicologia, em documento de preparação para a CONFECOM, ‘em uma propaganda de produtos para cabelos, a mulher com os cabelos alisados passa a ser mais desejada pelos homens. O anúncio repete fórmula conhecida, que reforça um único padrão estético e anula a variedades de formas de ser, de parecer, delimitando as características físicas reconhecidas como legítimas. Padrões de beleza inalcançáveis geram conflitos, sofrimentos, baixa auto-estima, transtornos de toda ordem.’

- Outras preparacoes capilares (aumento de alíquota de 18% para 36%) – Idem ao interior.

- Dentifricios (aumento de alíquota de 18% para 36%) – “Sendo o Braziu o país com o maior número de dentistas em todo o mundo, esses produtos configuram-se como absolutamente desnecessários. Estamos preparados para a guerra contra as bactérias.”

- Outras preparações para higiene bucal ou dentária etc. (aumento de alíquota de 18% para 36%) – Idem ao interior.

- Outros desodorantes corporais e antiperspirantes (aumento de alíquota de 18% para 36%) – “Ao contrário dos europeus, o brazilêru é limpinho.”

- Outros prods. de perfumaria ou toucador, preparados etc. (aumento de alíquota de 18% para 36%) – Idem ao anterior.

- Outs.saboes/produtos/preparacoes, em barras, pedacos etc. (aumento de alíquota de 18% para 36%) – Idem ao anterior.

- Artefatos de joalharia, de outros metais preciosos, etc. (aumento de alíquota de 18% para 36%) – “Luxo capitalista.”

- Aparelhos de barbear, nao-elétricos (aumento de alíquota de 18% para 36%) – “Vejam o exemplo de Marx, Che, Fidel…”

- Lâminas de barbear, de seguranca, de metais comuns (aumento de alíquota de 18% para 36%) – … Lula, Richard Stallman etc….”

- Terminais portáteis de telefonia celular (aumento de alíquota de 16% para 32%) – “Inclusão digital e comunicação também tem um limite.”

- Automóveis c/motor explosão, menor ou igual a 1000 cm3 (aumento de alíquota de 35% para 50%) – “Já dizia o mestre Theodor Adorno: ‘As pessoas viajam sobre pneus de borracha, rigorosamente isoladas umas das outras. Em compensação, só se conversa num carro o que se discute em outro; a conversa da família isolada está regulada por interesses práticos.‘. E como atualmente só BMW, Mercedes-Benz e Chrysler importam carros dos Estados Unidos, Land Rovers (Tata Motors, Índia) estão liberados.”

- Automóveis c/motor explosão, 1500 (aumento de alíquota de 35% para 50%) – Idem ao anterior.

- Automóveis c/motor explosão,cm3>3000,ate 6 passageiros (aumento de alíquota de 35% para 50%) – Idem ao anterior.

- Automóveis c/motor explosão, cm3>3000, sup. 6 passageiros (aumento de alíquota de 35% para 50%) – Idem ao anterior.

- Automóveis c/motor diesel cm3 >2500, até 6 passageiros (aumento de alíquota de 35% para 50%) – Idem ao anterior.

- Artigos e aparelhos para fraturas (aumento de alíquota de 4% para 14%) – “O brazilêru precisa aprender a ser mais resistente. É uma questão de saúde pública.”

- Outros artigos e apars. de prótese (aumento de alíquota de 14% para 28%) – Idem ao anterior.

Sentando na mesa dos adultos

Fabricio Pontin | Estados Unidos 14:51 | 07/03/2010

Constatação rápida: a imprensa americana está cagando e andando para a história da compra dos aviões.

ã?

Assim: sabe a história que o Brasil estava criando um episódio diplomático porque insistia em comprar os caças franceses e blah? Pois é, ninguém se importa com isso no Pentágono. A Clinton não está dando o tour pela América Latina para pressionar a compra de material militar. Ela está dando uma banda pela América Latina para apresentar uma nova política externa para a região.

Parte disso é a constatação que a América Latina quer ter uma agenda internacional própria. Não que isso constitua, necessariamente, um problema. Mas, abre a cortina e Ahmadinejad aparece abraçado no Lulão e no Chavão.

Clinton começa a sangrar pelo nariz. O passeio do Ahmadinejad pela América Latina, sorrindo para as câmeras, saudado como líder legítimo de uma nação soberana,  é o principal fator que motiva a viagem da Sra. Clinton. Afinal de contas, não interessa para ninguém que um dos países membros do Conselho de Segurança da ONU (ainda que membro não-permanente) possa permanecer neutro diante dos interesses atômicos do Irã.

O ponto da política externa brasileira é que o programa atômico iraniano tem a mesma função que o brasileiro, ou seja, é um programa pacífico voltado para a produção de energia limpa. Claro, a gente pode questionar aqui o quanto a produção de energia pode ser “pacífica” – me parece que isso exige um tipo de crença similar com a que acredita no interesse unicamente científico de mandar um míssil para a Lua.

Mas a diplomacia brasileira sustenta, por enquanto, uma neutralidade diante do programa nuclear iraniano. Assim como é neutra diante do regime cubano e ainda não lançou nenhuma nota de repúdio contra as FARC. Tudo bem, tu podes argumentar que é uma questão de consistência, já que o Brasil historicamente não toma lado em questões da chamada “soberania interna” e tu poderias argumentar que energia e defesa são questões de soberania interna.

Este posicionamento é muito compatível com potências como Luxemburgo, Mauritânia, Uruguai ou Trinidad e Tobago. Acontece que se tu estás na mesa com gente adulta é bastante possível que tu tenhas que se posicionar de forma mais assertiva do que “é, legal, eles nas deles nós na nossa, beijas!”. Por enquanto, o Brasil segue na posição confortável de dizer que não adianta sancionar o regime iraniano.

Esta posição, do ponto de vista americano, é totalmente inaceitável. E a Clinton esteve no Brasil justamente para tentar argumentar a necessidade de um discurso homogêneo por parte do Conselho de Segurança da ONU – e para mostrar uma mão amiga com relação ao Chile. Para a política externa brasileira poderia ser interessante tentar mostrar força e manter uma posição neutra. Seria interessante na medida que mostraria capacidade de resistir à pressão do Pentágono. Mas o problema é que daí a neutralidade é apenas retórica. Ao resistir à pressão de posicionamento contrário ao programa nuclear de um país que adota um discurso um tanto belicista quanto aos seus vizinhos, o Brasil não está sendo neutro.

Vale lembrar, o Brasil é o único país do BRIC (Brasil-Russia-India-China) sem a bomba nuclear. Também é o único país que permanece sem um posicionamento claro neste debate. Não quero fazer mais uma crítica barata da política externa brasileira ao indicar esta posição neutra, apenas constatar que os Estados Unidos parecem saber que a política externa brasileira condiciona o posicionamento dos demais países na América do Sul e o atual conflito político do governo norte-americano com o Irã pode escalar para um conflito militar rapidamente – e aí? Como fica a história? O secretário assistente da Hillary tem a declaração chave na Foreign Policy:

“While we’re cognizant of the fact that the Brazilian government has reached out to Iran and has been approaching the Iranians, it’s very much on our agenda to try to insist with the Brazilians that in their engagement with Iran, we would like them to encourage the Iranians, of course, to meet their international obligations,” he said, adding that the State Department views Brazil’s opposition to new sanctions as a “mistake.”

Ou seja: a gente sabe que o Brasil está falando com o Irã. A gente quer que o Brasil comunique nossa agenda para o Irã como nosso aliado. Seria um erro deixar de se comportar como um aliado dos Estados Unidos.

O recado é mais ou menos assim: olha, a gente tá deixando vocês sentarem na mesa com a gente. Mas mantenham em mente que na hora que vocês começam a derramar vinho caro no chão e falar babaquice, a gente vai botar vocês de volta na mesa com as crianças.

Isso tudo no contexto dos Estados Unidos retomando uma posição de multi-lateralidade e tentando resolver as coisas pela via das Nações Unidas. Seria uma oportunidade interessante para o Itamarati se colocar como parte de uma deliberação da ONU que fosse resultar em alguma coisa concreta – e pode ser uma má idéia ficar do lado “neutro” da história quando a comissão de energia atômica e o conselho de segurança da ONU parecem estar se movendo para realmente colocar o Irã na parede.

Senador Bayh abandona o navio

Fabricio Pontin | Estados Unidos 16:10 | 17/02/2010

Estariam os democratas em apuros?

Bem, vamos pensar juntos aqui. Primeiro, o Ted Kennedy morre. Daí, em uma sequência de opções erradas sem precedentes, os democratas conseguem perder um “seat” em um dos estados mais liberais do país. Mas tudo bem, tu pode analisar isso via uma série de fatores. Minha hipótese é que a leitura da eleição em MA como um referendo do governo Obama foi um equívoco e não compreendeu coisa alguma dos processos de voto e de interesse. Neguinho em MA não tinha qualquer motivo para se levantar da cadeira e ir votar se fosse um liberal. Se ele fosse um conservador? Do ponto de vista ideológico ele tinha vários motivos para levantar a bunda da cadeira e ir votar. Eleitores conservadores foram votar, eleitores liberais não viram motivo para isso. Não é o fim do mundo.

Só que no início da semana passada o John Murtha morreu. John Murtha era um democrata em via de extinção. Do tipo que conseguia dialogar com a base blue-collar de forma direta na região mais conservadora de PA. Pennsylvania, vocês sabem, é um estado complicado. Históricamente tende a ficar no meio campo, e no cenário onde os liberais tendem à imobilidade (caso de qualquer cenário onde um liberal está na casa branca), os conservadores ganham uma vantagem operacional enorme. Pois bem, perder um lugar em PA pode não parecer grande drama. Mas pode ser um fator decisivo para preparar o terreno para a eleição de 2012. Os Democratas não conseguem ganhar sem a Pennsylvania e os teabaggers tem demonstrado uma capacidade de mobilização grande – não tão grande quanto a Fox quer te convencer, é claro.

Daí, esta semana o Senador Bayh abandonou o navio. O Senador Bayh é uma liderança democrata em ascensão. Ao contrário do Murtha e do Kennedy, ele não era um velho que ocupava um lugar historicamente associado ao partido democrata. O Bayh foi fundamental na campanha de Obama, tão fundamental que Obama venceu em Indiana – coisa que pouquíssima gente pensava possível. O Nate Silver, no FiveThirtyEight, fez a simulação do que o Bayh simbolizava em termos de valor para o partido. Adivinhem? Ele é imprescindível para o mid-west. O buraco que ele deixa no senado é grande, mas em termos estratégicos, no longo termo, ele pode indicar uma incapacidade do governo Obama em lidar com o centro do partido democrata – um gap de liderança. Em vários sentidos isso é parte de uma tendência na liderança do Obama, no tratamento com o congresso, que vem levando muita gente a comparar o Obama com outra grande liderança do partido democratico que surgiu como resposta à uma guinada conservadora. O nome desta liderança era Jimmy Carter.

Depois de um ano, Obama parece estar sendo consumido pelo próprio partido. Mas, para um presidente impopular, os números deles são surpreendentemente bons. Parece que o público – fora da guerrinha ideológica – não vincula estes abandonos e perdas ao Obama – ainda. Resta saber se e como a próxima eleição vai ser intepretada como um referendo. Ela não precisa ser um referendo. A dinâmica de uma votação para congresso e uma votação para presidente é completamente diferente em um contexto onde o voto é optativo. Mas isso não importa no fim das contas, e este é o dado para acompanhar este ano: como os números do Obama vão evoluir conforme o congresso voltar para a normalidade 54%-46% que vai ser lida como uma anormalidade, um referendo do Obama – que se beneficiou pelo referendo de Bush em 2008 que colocou ele em uma situação de vantagem com poucos precedentes na história recente dos Estados Unidos. Uma vantagem que não foi aproveitada pelos congressistas democratas norte-americanos, que não entenderam o mandato que ganharam ou o tempo que o mandato duraria.

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