Em nome da justiça social

Gabriel Brust | França 07:39 | 31/08/2010

Não costumamos “clippar” conteúdo aqui no Braziu.org (normalmente só links), mas me permito abrir uma exceção hoje em nome deste bom artigo do filósofo Luiz Felipe Pondé publicado na Folha da segunda-feira, dia 30 — até porque ele está fechado para assinantes do jornal.

Resista ao título, largue a bandeira no chão por cinco minutos e tente botar o tico e o teco pra dançar sozinhos um pouquinho, sem o embalo do forró do partido. Olha, fazer isso de vez em quando, garanto a você, xóvem, pode ser uma experiência transformadora. De repente você começa até a ler livros! Não ia ser legal?

A oligarquia de esquerda

LUIZ FELIPE PONDÉ

O jargão “por uma sociedade mais justa” pode ser falado pelo pior dos canalhas

VOCÊ ACREDITA em justiça social? Tenho minhas dúvidas. Engasgou? Como pode alguém não crer em justiça social? Calma, já explico. Quem em sã consciência seria contra uma vida “menos ruim”? Não eu. Mas cuidado: o jargão “por uma sociedade mais justa” pode ser falado pelo pior dos canalhas. Assim como dizer “vou fazer mais escolas”, dizer “sou por uma sociedade mais justa” pode ser golpe.

Aliás, que invasão de privacidade é essa propaganda política gratuita na mídia, não? O desgraçado comum, indo pro trabalho no trânsito, querendo um pouco de música pra aliviar seu dia a dia, é obrigado a ouvir a palhaçada sem graça dos candidatos. Ou o blábláblá compenetrado de quem se acha sério e acredita que sou obrigado a ouvi-lo.

Mas voltando à justiça social, proponho a leitura do filósofo escocês David Hume (século 18), “An Enquiry Concerning the Principles of Morals, Section III”. Cético e irônico, Hume foi um dos maiores filósofos modernos. É conhecida sua ironia para com a ideia de justiça social. Ele a comparava aos delírios dos cristãos puritanos de sua época em busca de uma vida pura. Para Hume, os defensores de um “critério racional” de justiça social eram tão fanáticos quanto os fanáticos da fé.

Sua crítica visava a possibilidade de nós termos critérios claros do que seria justo socialmente. Mas ele também duvidava de quem estabeleceria essa justiça “criteriosa” e de como se estabeleceria esse paraíso de justiça social no mundo. Se você falar em educação e saúde, é fácil, mas e quando vamos além disso no “projeto de justiça social”? Aqui é que a coisa pega.

Mas antes da pergunta “o que é justiça social?”, podemos perguntar quem seriam “os paladinos da justiça social”. Seria gente honesta? Ou aproveitadores do patrimônio dos outros e da “matéria bruta da infelicidade humana”, ansiosos por fazer seus próprios patrimônios à custa do roubo do fruto do trabalho alheio “em nome da justiça social”? Humm…

A semelhança dos hipócritas da fé que falavam em nome da justiça divina para roubar sua alma, esses hipócritas falariam em nome da justiça social para roubar você. Ambas abstratas e inefáveis, por isso mesmo excelentes ferramentas para aproveitadores e mentirosos, as justiças divina e social seriam armas poderosas de retórica autoritária e mau-caráter.

Suspeito de que se Hume vivesse hoje entre nós, faria críticas semelhantes à oligarquia de esquerda que se apoderou da máquina do governo brasileiro manipulando uma linguagem de “justiça social”: controle da mídia, das escolas, dos direitos autorais, das opiniões, da distribuição de vagas nas universidades, tudo em nome da “justiça social”. Ataca-se assim, o coração da vida inteligente: o pensamento e suas formas materiais de produção e distribuição.

A tendência autoritária da política nacional espanta as almas menos cegas ou menos hipócritas. A oligarquia de esquerda associa as práticas das velhas oligarquias ao maior estelionato da história política moderna: a ideia de fazer justiça social a custa do trabalho (econômico e intelectual) alheio.

Outro filósofo britânico, Locke (século 17), chamava a atenção para o fato de que sem propriedade privada não haveria qualquer liberdade possível no mundo porque liberdade, quando arrancada de sua raiz concreta, a propriedade privada (isto é, o fruto do seu esforço pessoal e livre e que ninguém pode tomar), seria irreal.

Instalando-se num ambiente antes ocupado pela oligarquia nordestina, brutal e coronelista, e sua aliada, a chique oligarquia industrial paulista, os “paladinos da justiça social” se apoderam dos mecanismos de controle da sociedade e passam a produzir sucessores e sucessoras tirando-os da cartola, fazendo uso da mais abusiva retórica e máquina de propaganda.

Engana-se quem acha que propriedade privada seja apenas “sua casa”. Não, a primeira propriedade privada que existe é invisível: sua alma, seu espírito, suas ideias. É sobre elas que a oligarquia de esquerda avança a passos largos. Em nome da “justiça social” ela silenciará todos.

Gerador automático de frases do tucano anti-petista raivoso

braziu.org 12:04 | 29/04/2010

Funcionamento: tasca-lhe infinitamente F5 (também conhecido como “reload” ou “recarregar”) para obter uma nova e deliciosa frase clássica do tucano anti-petista raivoso.

“Não é nada disso que você está pensando, querida”

Leandro Demori | Itália 08:12 | 09/04/2010

Há sempre uma desculpa.

Sempre.

Quem aprende essa lição desde cedo tende a “se dar muito bem” na vida.

Não importa o que se faça ou deixe de fazer, sempre é possível dizer que choveu de mais ou que choveu de menos; que você não estava ali quando aconteceu; que já estava quebrado quando você chegou; que na real não é nada disso que sua mulher está pensando.

O balanço de agora [12:15 aqui na Itália] é de 182 mortos no Estado do Rio de Janeiro por causa das chuvas.

“Por causa das chuvas”.

Vejo políticos nestas fotos, abraçados e gozando de alguma espécie de momento xamânico — daqueles que garantem reeleição — e visualizo alguém na cama abraçado na amante sendo fuzilado pelos olhos da própria mulher. Imediatamente raciocino como o marketeiro da próxima campanha de um daqueles caras que elegemos na eleição passada: “não é nada disso que você está pensando, querido eleitor, é que choveu de mais”.

Prazer imensurável esse de afogar as responsabilidades.

Os 182 mortos no Rio são culpa da chuva. Simples assim. Pega alguns números ali no pluviômetro pra mostrar que nunca antes na história desta cidade, deste estado, deste país [que na verdade nunca antes na história desta sua vida miserável] choveu tanto quanto nos últimos dias. “Tá tudo bem”.

A maioria dos mortos foram soterrados em favelas. Gente que morre todos os dias, chova ou faça sol, simplesmente pelo fato de estarem ali. Se morassem em locais habitáveis, a última semana não passaria de um “deságio”, dias ruins, talvez sem poder sair de carro ou sem acesso à internet. Tivéssemos mortos — provavelmente teríamos –, seriam 182? Para com isso.

Mesmo depois de uma década de “governo popular” no Brasil (que veio depois de uma década de “governo neoliberal”) as pessoas continuam morando em encostas, em lugares inabitáveis, no barro pronto para despencar. É ano eleitoral e o que se vê é o mesmo velho e sonolento filme de sempre: bipolarização, Serra e Dilma, “tá comigo ou tá com ele?”, esquerda, direita, Pig. Desculpem se não consigo levar a sério essas discussões. É que temos 182 corpos para enterrar enquanto vocês brincam de política de jardim de infância.

“Tá tudo bem. Não é nada disso, querida.

Essas pessoas já estavam mortas quando assumi o governo”.

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