Live Blogging | Eleições 2010, Segundo Turno | Votação, Apuração e Resultados

Fabricio Pontin | Estados Unidos 16:00 | 31/10/2010

Política e religião na Finlândia

Gabriel Brust | França 20:59 | 20/10/2010

O debate cristão, graças a Deus, parece estar arrefecendo na campanha eleitoral brasileira e voltando para seus guetos religiosos. Silas Malafaia, da Assembléia de Deus, e Edir Macedo, da Igreja Universal, travam agora um embate pessoal – briga de pastor, sem ringue de gel nem biquíni, mas ainda assim divertida.

Enquanto isso, uma polêmica sobre o tema inquieta um pessoal lá daquelas bandas geladas para onde o mundo, e mesmo a Europa, não costuma olhar muito: os países nórdicos. Mais especificamente, a Finlândia. Nos últimos sete dias, nada menos do que 25 mil fieis abandonaram a Igreja Luterana da Finlândia, após assistirem a um debate na televisão. Na ocasião, a líder do partido Democrata-Cristão, ligado à igreja, fez duras críticas à legislação do país, que permite a união legal de casais homossexuais e a adoção de crianças.

Da polêmica, surge uma informação provavelmente desconhecida para muitos: o país, um dos mais desenvolvidos do mundo, tem duas igrejas consideradas “nacionais”: a Igreja Ortodoxa da Finlândia (com apenas 1% dos finlandeses entre seus fieis) e a Igreja Luterana da Finlândia (a qual pertence 80% da população). Nesta condição, ambas estão habilitadas a cobrar o dízimo através dos impostos estatais. A porcentagem do imposto-dízimo é proporcional à renda do cidadão. Quem não quer mais ter seu imposto descontado, basta pedir, mas a imensa maioria dos finlandeses paga. Calcula-se que a fuga em massa de fieis desta semana deve trazer um preju de 7 milhões de euros. Além de terem seus orçamentos atrelados ao do Estado, as duas igrejas ocupam um papel importante em cerimônias nacionais.

Não só a Finlândia, mas boa parte dos nórdicos, como Islândia, Dinamarca e Noruega, ainda têm igrejas nacionais. A Suécia teve até recentemente. O curioso é que a proximidade entre igreja e Estado acabou por forçar a adaptação da igreja ao comportamento moderno, e não o contrário. A Igreja Luterana Finlandesa, por exemplo, aceita o divórcio e o casamento de pessoas divorciadas. Em relação ao aborto, é parecida com a lei brasileira: aceita em caso de estupro, ameaça à vida da mãe ou deformações graves. Em 2009, a Igreja aceitou que um de seus pastores, pai de família, passasse por uma operação de mudança de sexo, sem prejuízo para suas funções religiosas. Desde 1986 a igreja aceita pastoras mulheres, e há pouco elegeu sua primeira bispa. Tanto homens quanto mulheres precisam ter um “master degree” para se tornarem pregadores, quase como no mercado de trabalho convencional.

A questão da homossexualidade é a bola da vez e, assim como todas as outras questões que foram sendo superadas ao longo do século 20, deve acabar sendo aceita pela igreja. É o que indica esta enorme pressão popular após as declarações da líder partidária e religiosa no tal programa de televisão.

O que parece acontecer na Finlândia é que a igreja vem se adaptando às resoluções do Estado, com o qual mantém um relacionamento mais próximo do que aquele que observamos na maioria dos países ocidentais. Enfim, um modelo que não me parece o ideal, mas que dá o que pensar.

Apelo divino

Mario Camera | França 09:33 | 08/10/2010
A desfaçatez dos candidatos que sobraram nesta reta final da campanha pela presidência da República já não parece chocar mais ninguém. Com o palhaço oficial já vitorioso e recolhido para aprender o be-á-bá antes da prova final, os holofotes do circo podem jogar luz sobre os dois únicos protagonistas no picadeiro. Serra e Dilma podem brilhar sozinhos, sem precisar dividir espaço com ninguém. No entanto, ambos são conscientes da mediocridade de suas campanhas, do constrangimento que seus sorrisos falsos e amarelados causam ao público e da sensação de vazio a que leva o debate de seus projetos mal explicados. Diante de um quadro onde reina a total falta de confiança nos próprios ideais (isso existe?), os dois decidiram apelar para um convidado especial, numa tentativa de evitar uma debandada dos espectadores. Respeitável público, queira dar as boas vindas a Deus!

A entrada de Deus no debate político aumenta as chances de atrair de volta a atenção do eleitor médio e entediado para o centro do picadeiro político. Chega de Serra e Dilma fingirem passes de mágica ultrapassados, tirando milhões de empregos da cartola e fazendo desaparecer todos os problemas do país com um toque de varinha mágica. Se o convidado especial tem o poder de lançar pragas ou te mandar pro inferno, porque deixar o espetáculo da democracia nas mãos de dois cidadãos comuns e sem graça nenhuma? O povo quer sangue e sexo! Ou sexo misturado com sangue. Tanto faz. Como tanto faz o fato de Serra e Dilma entrarem em igreja ou templo somente para casamento ou missas de sétimo dia. Ninguém está ligando pra isso. O importante é defender os valores cristãos diante da sociedade, é dizer “não ao aborto” e “sim ao direito à vida”.

A impossibilidade de uma candidatura divina à presidência (não existe foto de Deus para colocar na urna eleitoral, além disso, pelo que ouvi, Ele é monarquista) relegou aos dois candidatos oficiais a responsabilidade de ser porta-voz do projeto comum de “direito à vida” outorgado pelo Todo Poderoso.

Quem está ligando para os já tão batidos problemas básicos de saúde, saneamento, violência, educação e corrupção que continuam sendo um freio para o desenvolvimento da sociedade brasileira? A moda agora é falar de aborto! Deus não tá nem aí se você morre de fome ou de hepatite na fila do SUS. O que ele não perdoa é a sua filha de 14 anos abortar um feto que ela não poderá criar, deixando, assim, de perpetuar a sua miséria. Não, meu caro, a coisa aqui é séria. Levante você também a bunda do sofá, desligue a TV de plasma comprada em 36 parcelas e saia por aí defendendo a vida, que, por sinal, não é a sua… “Graças a Deus”.

Boca de urna em Paris

Mario Camera | França 14:06 | 03/10/2010

Pra botar na baguette

Em 2014, espero encontrar o vendedor de churrasquinho de gato e o cara do isopor de cerveja. Juntos com o rapaz do pandeiro avistado pelo Gabriel, faremos uma grande e verdadeira “Festa da democracia” para aguentar uma hora e meia de fila pra votar.

Imprima sua cola para a votação

braziu.org 07:05 | 03/10/2010

Clique na imagem e salve a versão mais maior de grande.

Por que votar?

Fabricio Pontin | Estados Unidos 16:44 | 02/10/2010

O Demori já colocou alguns argumentos dele aqui, mas eu queria deslocar a discussão um pouco. Eu não quero perguntar para vocês por que não votar, mas quero perguntar por que diabos alguém se dá o trabalho de levantar a bunda da cadeira e ir votar, tendo em vista que a possibilidade de fazer a diferença na eleição, ou, pior ainda, conseguir qualquer vantagem material no ato de votar, é próxima de zero (ou negativa).

A coleguinha ranhenta, ou, “a democracia não assoa o nariz”

Nesse domingo todo mundo que está no Braziu tem a obrigação cívica de ir votar. A tal da festa da democracia é uma festa organizada por uma menina remelenta que joga areia na tua cara segunda-feira se você não apareceu no domingo. Boa parte da população certamente preferia ir para a praia, passar a tarde com os filhos no parque ou ir para uma dungeon levar uns tapas da Sra. Pepperwhip do que ter que escolher entre o vampiro brasileiro, a caminhoneira da adamantium, a jardineira de Jesus e o vovô Simpson. Muita gente interpreta essa vontade de ir fazer alguma outra coisa como um desinteresse na classe política, uma alienação ou algum outro lugar comum daquele tipo que tu ouve teus coleguinhas de centro acadêmico repetindo para reclamar da falta de engajamento.

Na realidade, é espantoso que alguém se dê o trabalho de votar. Para início de conversa, o papo de que “todo voto importa” é de uma simplicidade argumentativa comovente. Não, não importa. A maior parte das eleições são disputadas entre dois candidatos com diferenças mínimas do ponto de vista ideológico, e a eleição de um ou de outro causa uma diferença mínima no governo futuro. Pensem na atual eleição no Brasil. O “coeficiente ideológico” (espaço para risos) entre os candidatos é tão pequeno que o último debate foi, de fato, uma disputa para ver quem se aproximaria mais de um governo do Lula, sem o Lula (percebam, estou colocando o Sr. Plínio como alívio cômico). Qualquer um procurando razões ideológicas para votar em x, y, z ou p saiu do último debate mais confuso do que entrou (e talvez deva revisar o universo, já que as ideologias deram tchau-tchau quando o muro de Berlim caiu).

Não vote

Em 1957 um economista norte-americano chamado Anthony Downs (Toni Downs, para os íntimos) escreveu um livrinho chamado uma teoria econômica da democracia. No livrinho, Downs desenvolve uma fórmula (na realidade, é um axioma, mas quero evitar falar difícil) para definir a racionalidade no ato de votar. É assim ó:

ff (p[VpX+{-VpY}]+[D-{C}])>0, then Vote.

onde

[Vpx+{-VpY}] é o índice de aprovação do voto em um indivíduo X comparado com o indíce de rejeição de um indíviduo Y. Chamarei este fator de pV daqui para frente.

D são os incentivos diretos e selectionados (sociais e econômicos) de votar (em geral, do ato de voto, não do voto em X ou Y e da rejeição de X ou Y, mas da implicação social de levantar a bunda da cadeira e ir votar)

C são os custos (sociais e econômicos) de votar, ou seja, as razões para ficar em casa.

Quando são somadas todas as variáveis e o valor é maior que zero, vai em frente e vota!

Traduzindo: eleitores que votam baseados em ideologia vão focar em pV. Para esses eleitores é realmente decisivo que o indivíduo X seja eleito e não Y. Inversamente, se eles não encontrarem motivos para votarem em X , eles simplesmente não irão comparecer às urnas. Isso pode ser decorrente de uma constatação de que muito embora o discurso ideológico seja ‘B” ou “C”, a prática é “A”, independentemente do discurso. Pode também ser decorrente de uma estagnação no discurso político que leva o indíviduo a não perceber qualquer valor distintivo na ideologia de X ou Y – isso pode ser bastante ilustrativo do cenário das eleições americanas, onde poucos eleitores se sentem motivados a irem votar por não verem grande diferença material entre as ideologias e práticas correntes de X ou Y: “it’s all smoke and mirrors” ou, “é muita semiótica” (cit Marlon, 2010 in conversa pessoal). Esse cenário de estagnação é um dos cenários mais desejáveis em termos democráticos.

Por quê? Porque ao contrário do que se pensa, ele não demonstra uma estagnação positiva, mas uma confiança no processo democrático. As pessoas podem votar, mas escolhem não votar por não sentirem uma diferença fundamental. O cenário atípico, aqui, implica em uma polarização radical dos indivíduos X contra Y. No cenário norte-americano, isso parece ter acontecido nas eleições de 2000 e 2004, no cenário brasileiro, isso claramente aconteceu em 1989, na França, o efeito Le Pen polarizou o eleitorado o suficiente para que individuos votassem em massa em Chirac, especialmente para evitar a eleição de Le Pen, que havia chegado no segundo turno devido à segmentação da esquerda francesa – e também pelo efeito ‘tanto faz’, que possibilitou que uma minoria de eleitores extremistas votassem em bloco, enquanto eleitores centrados votaram de forma segmentada ou ficaram em casa fumando.

Deixa eu dar um exemplo pessoal. Para mim, a próxima eleição no Brasil é optativa. Minha situação nos Estados Unidos me permite justificar o voto sem maiores problemas. Pois bem. Hoje, dadas as alternativas, eu prefiro o Serra. Mas vamos colocar isso em perspectiva, eu gosto do Serra só um pouco mais do que da Marina e um tantinho mais do que da Dilma. Eu realmente gosto muito mais do Serra do que do Ciro. Em termos racionais, os custos de ir até Chicago para votar, arriscar perder aula, perder tempo útil que posso gastar traduzindo e pesquisando, não justifica uma viagem desse tamanho. Agora, me pergunta de novo se eu iria até Chicago para votar no caso de ser uma eleição entre Marina ou Serra e o Ciro? Digamos, em um segundo turno entre Marina ou Serra e Ciro, eu vou até Chicago votar, porque não quero ter que olhar para minha sobrinha no futuro e ter que dizer que me omiti em uma eleição dessas. Esta eleição, como está, não me motiva em termos ideológicos ou pessoais a tirar minha bunda da cadeira (e percebam, minha justificativa para votar é completamente baseada na minha antipatia ao Ciro).

Pensando bem, melhor votar…

Gente que se comporta como eu acaba motivando os candidatos a jogarem com a polarização artificial do cenário, para motivar mais indivíduos movidos a ideologia a participarem da eleição (ou desmotivando a participação dos moderados), criando assim o efeito de “bloco” – política extremamente bem sucedida por Bush em 2004, que manejou o bloco conservador a votar com ele em massa, enquanto Kerry foi incapaz de motivar a base ideológica dos democratas o suficiente.

Socialmente, no entanto, verificamos uma pressão para o voto com base nos elementos D e C. Isso porque existe uma parte grande do eleitorado que não é motivada ideologicamente, mas por vantagens diretas no ato de votar. Os indivíduos moderados não procuram motivos ideológicos para o voto, mas vantagens em votar. Via de regra, esses indivíduos vão dizer “tanto faz”.

Daí a necessidade de incentivos materiais para tirar esses indivíduos da cadeira. Sejam eles através de campanhas (Rock the Vote!, por exemplo) ou de criação de mecanismos sociais de isolamento dos não-votantes: “a festa da democracia” ou “vote ou seja um alienado”. Outra forma de fazer isso é determinar a obrigatoriedade do voto, para obrigar os moderados a votarem – o que seria uma forma de evitar a influência direta de blocos. Nesse tipo de cenário, indivíduos votariam, simplesmente, por não gostarem das consequencias de não votar (tipo, pagar a multa), não pelas vantagens do ato de votar.

… no Tiririca!

Por isso que candidatos folclóricos fazem tanto sucesso no cenário brasileiro: Olívio Dutra, Sarah Palin e Garotinho são bons exemplos. Eles falam alto para certas bases ideológicas que vão votar sempre que estes indivíduos aparecerem. Isso é porque eles valorizam certos fatores de forma tão exacerbada, que os custos materiais de votar são obliterados pela vantagem pessoal “votei no meu camarada Olívio!”. Para as eleições de deputados, os candidatos folclóricos recebem mais votos porque o cara chega na urna sem saber o que diabos um deputado faz, como ele faz ou por que ele faz. Então vota no mais engraçado ou em alguém de quem ele “ouviu falar”.

Mas e a eleição de domingo com isso?

A eleição amanhã tem uma série de implicações relacionadas com o que eu escrevi aí em cima. Primeiro lugar, muitas pessoas irão para o litoral e “esquecerão” de votar. Aproveitar o feriado, para essas pessoas, é mais vantajoso do que votar (ainda que seja economicamente mais caro não votar, indivíduos preferem arcar com os custos e passear com a família). Essa parte da população, portanto, acaba constituindo um bloco que precisa ser “seduzido” a mudar de ideia. Um fator para prestar atenção é se as recentes denúncias contra o PT podem motivar essas pessoas a votarem contra a Dilma (uma aposta arriscada, já que existe uma grande possibilidade de ninguém mais dar a mínima importância para esses escândalos ou “é tudo um bando de ladrão mesmo, não faz diferença, vou prá praia beber ceva”).

Outra questão é o quanto indivíduos associam os benefícios sociais ao PT. Na formulazinha do Downs, isso entra nas vantagens econômicas de votar. Lembram quando o Lula olhou para o Alckmin no debate em 2006 e disse para a câmera “olha, o Alckmin quer tirar comida da tua boca”? Pois é, ali ele tava jogando com essas “vantagens”. Se pessoas o suficiente pensarem que ao eleger Dilma elas mantém as vantagens econômicas adquiridas no governo Lula, a eleição é decidida no domingo. Se essas vantagens econômicas não forem associadas diretamente a Dilma (“ah, mas a Marina também vai manter, e ela é da religião, vou votar nela”) poderemos ter um segundo turno entre Dilma e Serra (duvido muito que Marina consiga ir para o segundo turno, no entanto, o que pode ser uma má notícia para quem quer a oposição no poder).

Mais do que nunca, a eleição tá na mão da relação entre vantagens e desvantagens materiais em votar. Isso é um fator relativamente novo no Brasil, já que as eleições de 1989 até 1997 sempre focaram na rejeição de um candidato. Agora, as razões parecem ser estritamente econômicas (claro, a economia sempre foi fundamental, especialmente na eleição do FHC, que conseguiu se associar diretamente com à conquista de uma estabilidade econômica no país e ao aumento das condições materiais de vida. “O brasileiro está comendo mais frango”, lembram? Mas ainda assim, FHC se segurou tanto na estabilidade econômica quanto na rejeição de Lula, que sempre foi alta). O fator novo é a baixa rejeição de todos candidatos e a centralidade do atual presidente para a campanha (a popularidade do Lula, de uma forma ou de outra, pautou a eleição). Por enquanto, não sei se ainda tem alguma chance do Serra virar e desconfio que havendo um segundo turno podemos ter um “efeito Alckmin”, onde o candidato consegue ter menos votos no segundo turno do que no primeiro.

Uma última coisa: democracia só é reduzida ao exercício do voto por motivos retóricos. Quem quer que seja eleito, as coisas não devem mudar muito no país – até porque nem um desastre de proporções cósmicas tira o Senado e a Câmara do domínio direto do PMDB. Esse papo de “festa da democracia” no ato do voto é bobagem. Votar no candidato “menos” pior ou no candidato “mais escandaloso” ou “mais pra esquerda” não muda muita coisa, e talvez isso seja um motivo para a gente comemorar a entrada do Brasil no time das democracias “maduras”. Por outro lado, não dá para saber exatamente o que tá em jogo nessa eleição (e os últimos eventos no Equador podem servir como lembrete da facilidade com a qual voltamos para o status de uma república de bananas). Mas isso não é decidido só na hora de colocar o voto na urna, e associar política apenas com esse ato indica o quanto a gente ainda tem que amadurecer.

Uma questão de empatia, ou “Parabéns, Presidente Dilma”

Fabricio Pontin | Estados Unidos 17:18 | 09/09/2010

Enquanto a Dilma vai se consolidando com 50% nas pesquisas, resta ao PSDB olhar para os lados e tentar entender como é que a eleição foi perdida. Vou tentar dar um panorama da coisa, e tentar traçar a jornada que o PSDB protagonizou para conseguir fazer o papelão que deve ser confirmado na eleição de outubro.

Um candidato abandonado

Serra começou a perder essa eleição no momento em que Aécio Neves abandonou o barco. Aécio seria a escolha lógica de vice para o Serra, dando um contraponto um pouco mais carismático para a imagem sisuda do governador de São Paulo. No entanto, Aécio resolveu que abriria mão da candidatura à presidência, evitando se expor em uma chapa com alta chance de fracasso. Pelo contrário, ele resolveu se isolar em Minas Gerais e garantir uma eleição ao Senado – se colocando na linha de frente para a eleição de 2014.

Com isso, Serra se viu só em um partido famoso por ter muito cacique mas poucos índios. Logo, os potenciais candidatos a vice foram dando negativas à chapa tucana e o PSDB teve que inventar um candidato a vice completamente sem expressão política.

Claro, eu não sou imbecil o suficiente para indicar que o candidato a vice-presidente decide alguma coisa. Mas enquanto Dilma se aliava com o Michel Temer, oficializando o alinhamento entre PMDB e PT, Serra era obrigado a inventar uma coligação com o DEM no papel de principal coadjuvante.

Nesse momento, a eleição já estava desenhada. Ainda que Serra mantivesse uma liderança nas pesquisas, a popularidade do Lula, somada à baixa rejeição da Dilma, colocava um cenário difícil de ser revertido: as pessoas que não conheciam os candidatos estavam se decidindo, em uma proporção quase geométrica, pela Dilma. E em um cenário onde ninguém vota movido por ideologia, mudar esse tipo de tendência é extremamente complicado.

O idiota útil

Ciro Gomes tinha grandes planos para essa eleição. Até julho do ano passado, Dilma não parecia decolar nas pesquisas de voto, e Ciro parecia ser o “trunfo” para garantir o projeto político capitaneado pelo PMDB e por Lula (que é bem diferente do projeto político do PT, que a essas alturas pouco importa). Ciro poderia não apenas garantir um segundo turno contra Serra, ele poderia também ser o candidato de Lula no segundo turno (no eventual fracasso de Dilma).

Mas algo aconteceu no momento em que Lula resolveu que Dilma seria a próxima presidente do Brasil: a mulher do Lula começou a aparecer nas pesquisas e a inacreditável popularidade do presidente foi transmitida para a mãe dos pobres. Com isso, Ciro perdeu toda a utilidade. No espaço de um mês, de potencial candidato à Presidência, Ciro passou a candidato de fachada, para garantir Dilma no segundo turno. Em quarenta e cinco dias, o segundo turno era um fato com ou sem Ciro. Em dois meses, Ciro sequer aparecia como potencial candidato à vice em uma chapa capitaneada por Dilma. Depois de um ano, Dilma pode (e talvez deva) ganhar no primeiro turno. O que aconteceu no meio tempo?

Um peixe chamado Lula

Faz mais de dois anos que Lula não baixa da linha dos 60% de aprovação. Isso não tem precedentes no cenário democrático brasileiro. Não cabe aqui analisar os motivos da aprovação do presidente, nem questionar se a aprovação é merecida. Até porque fazer esse tipo de coisa é charlatanismo. Mas o fato é o seguinte: Lula é o presidente mais popular que o Brasil já teve (pelo menos desde que existem institutos para medir popularidade). Como é possível competir com a candidata de um presidente que chega a inacreditáveis 80% de avaliação positiva?

Serra é um homem inteligente e sabia que não poderia ganhar nesse cenário. Talvez a gente possa compreender o completo colapso da “plataforma eleitoral” (e haja aspas) do Serra a partir da constatação de que não havia muito o que fazer. O melhor era tentar levar a coisa até o segundo turno e esperar que alguma coisa (tipo uma foto da Dilma roubando comida de um bebê faminto no sertão sergipano) pudesse mudar o cenário.

Mais que isso, nem Serra nem Dilma tinham rejeição altas. Isso é um fator relativamente novo em uma campanha brasileira. Se a gente observar as eleições de 1989, 1994 e 1998 vamos perceber claramente que o candidato derrotado sempre teve uma rejeição muito alta. Quase sempre isso foi vinculado a imagem do Lula. Lula somente ganhou a eleição quando conseguiu deslocar a imagem de operário-combativo para o Lulinha-paz-e-amor. Nem Dilma, nem Serra precisaram se preocupar com esse fator. Apenas agora, no final da eleição, Serra está com 31% de rejeição. Em 1994, Lula nunca teve menos de 38% de rejeição. E em 1989 chegou a ter, no segundo turno, 42% (quase a mesma porcentagem que Collor tinha na espontânea, indicando que quase todos que votavam em Collor não votariam em Lula sob hipótese alguma). Da mesma forma, em 2000, o desgaste do governo Cardoso contaminou a campanha de Serra que, no início de Setembro, tinha 34% de rejeição — e nunca tinha ficado abaixo dos 30%. Nessa eleição, apenas agora algum candidato passou dos 30%, e me parece interessante que justamente o candidato de oposição tenha chegado primeiro nessa linha.

Como não fazer uma campanha

Vai ficar para a história o tamanho da burrada que o PSDB cometeu nessa campanha eleitoral. Serra tinha poucas chances, é verdade. Também é verdade que suceder um presidente com 80% de aprovação é uma tarefa inglória, e talvez Serra esteja mais interessado em garantir sua aposentadoria no Senado na próxima eleição (ao contrário de Ciro Gomes, me parece que a carreira política de Serra não acabou nessa eleição, ele ainda tem alta aceitação em São Paulo. Ciro cometeu suicídio político ao se incomodar com Lula e queimou todas as pontes com o PSDB no passado – e eu adoraria que alguém me explicasse o que diabos levou ele a mudar de domicílio eleitoral para São Paulo).

Mas nada explica a postura do PSDB nessa eleição. Não vou nem entrar na discussão barata sobre a postura da “grande mídia”. A questão aqui não é como a imprensa abordou ou deixou de abordar a candidatura do Serra, da Dilma ou da Marina (que, francamente, foi apenas uma distração para a classe média antenada, incapaz de perceber uma candidata extremamente fraca e bastante conservadora). A questão, isso sim, é como o Serra decidiu levar a campanha.

Sabendo que a derrota era praticamente inevitável, Serra tentou garantir um segundo turno, alegando “fazer um governo tipo o do Lula, mas sem aquele monte de petista”. Ao ver essa estratégia fazer água, o PSDB resolveu tirar da cartola uma meia dúzia de escândalos que ninguém entendeu, uma outra dúzia de argumentos com os quais ninguém se importou e uma série de críticas que só podem ser piada. Mais que isso, Serra decidiu engolir a tese segundo a qual a estabilidade econômica é merito do Lula, apenas para não ter que mencionar o nome de FHC (talvez por ter sido prejudicado por esse mesmo nome em 2002). Com isso, Serra protagonizou uma campanha sobre o nada.

O mais interessante disso tudo é perceber que a Dilma não existe. A Dilma é uma invenção do Lula, e é por isso mesmo que ela vai vencer a eleição. Restava ao Serra tentar salvar a própria pele em uma campanha com um resultado quase inevitável. Mas o medo de perder no primeiro turno tomou conta da campanha tucana, que passou as últimas semanas atacando a candidata de um presidente extremamente popular (e, claro, tentando atingir o próprio presidente no caminho).

Resultado: Serra tem menos votos hoje do que no ano passado em quase todas as simulações, e qualquer pessoa que entende o mínimo de eleição vai te dizer que quando um candidato começa a cair abaixo do “valor inicial”, ou a correr em uma velocidade mais baixa do que a do início da corrida, é porque o carro tá quebrado.

Finja que ouviu: primeiro programa eleitoral no rádio

Leandro Demori | Itália 13:23 | 17/08/2010

Começou hoje e você certamente perdeu. Então leia o nosso resumo, encha a cara hoje à noite e cante de galo na mesa do boteco. [todos os áudios estão aqui]

Dilma – O programa se confunde com o rádio de verdade [win], e o apresentador com voz de Ursinho Pimpão manda abraço pro agricultor, pro caminhoneiro e pra dona-de-casa antes de comparar a Dilma com a mesma. “É um trabalhão cuidar dos filhos e ainda trabalhar fora, né, Dilma?”. Fatalmente o Nosso Guia Presidente Imperador Lula mandou todo mundo votar na Viuma (obedeçam). Ao contrário do programa de Serra, que tocou um forró, o da La Rousseff apostou no sambão. Carnaval > Festa Junina. Vencerá.

Serra – Apresentam o personagem Chico Cego, que conversa com um cara que imita uma espécie de Lula Bêbado (Lula, enfim). Forrozão pegado com Elba Ramalho ou algum outro membro da família Ramalho (98,9% do Nordeste). Programa fala da origem humilde do Serra e do pai que “carregou frutas para que ele pudesse carregar livros”. Burguês fingindo que ama pobre. Se apresentou como economista. Povo dos grotões achará que “economista” é uma doença. Perderá.

Marina – “Nosso planeta Terra é um milagre”, disse, logo de cara. Chamou no EcoJesus já no começo. Nas primeiras frases achei que ela tinha algum problema na fala, mas prefiro encarar como uma estratégia pra ser sexy e chamar os votos dos indecisos — homens e mulheres, em geral, já escolheram entre Serra e Dilma.

Plínio – Começa com um jogral de homem e mulher (Odair e Hilda). Plínio entra e manda abraço pra todo mundo e, prevendo fim do tempo, convida pro próximo programa. Aí vem outro mezzo-jogral que diz: “Plínio parece frágil, mas não é, é uma rocha que lutou contra a ditadura perversa”, seguido de uma repetição robótica que diz “Vote 50, Vote 50, Vote 50, Vote 50″. Antonio La Trippa exulta.

Levy Fidelix – Chama no sertanejão e nos abesórdos dos impostos. Algo como “Arrôis e Feijãum”. “Pão na mesa (pão)”. Fim do programa (meio segundo democrático).

Eymael – Estava ansioso pra saber se o jingle era ainda aquele, AQUELE, que você pode ouvir em todos os ritmos aqui ou em versão de derretimento completo do ser aqui. Delícia de jingle: “Ei, ei, Eymael, um democrata cristão… lá lá lá iá”. O problema é que depois dessa apoteose de emoção ele se apresenta como gaúcho de Porto Alegre. Perderá.

Zé Maria – “A vida não mudou, a maioria ganha pouco e trabalha muito”, diz o locutor, que logo emenda um “Faaaaala Zé Maria” (imagine um TAPA NAS PALETA nesse momento). E ele faaaaala: “U PêTê usa us terríveis anus du PSDB pra mascarar que mudou o país.” Balbucia mais alguma coisa tipo “revolução” ou “requeijão” antes de ser atropelado pelo já clássico bordão: “Contra burguês, vote 16. PSTU.” Não votarei.

Se eu perder, não brinco mais

Fabricio Pontin | Estados Unidos 15:47 | 12/08/2010

Para começar, um pouco de contexto:

Na Califórnia, e em vários estados aqui na terra do Tio Sam, o camarada que arrumar um certo número de assinaturas pode colocar uma proposta de lei entre os ítens para serem votados em uma determinada eleição. Em 2008, as seguintes propostas entraram em campo:

1A) Aprovar o financiamento público de um trem-bala de Los Angeles para San Francisco
2) Implementar padrões mínimos para o tratamento ético de animais em confinamento
3) Autorizar o financiamento público e benefícios fiscais para hospitais de crianças
4) Emenda constitucional (na constituição do Estado da Califórnia, bem entendido) regulando autorização paternal para abortar gravidez de menores de idade
5) Novo estatuto regulando fiança, sentença e liberdade condicional para crimes não violentos
6) Implementação de um financiamento para um novo programa de penas criminais e segurança pública
7) Implementação de um programa de energia renovável na Califórnia
8 ) Emenda constitucional (no Estado da Califórnia, de novo) definindo casamento como a união entre um homem e uma mulher e banindo o casamento homossexual.
9) Emenda constitucional sobre sistema criminal, especialmente direitos das vítimas e punição de crimes violentos.
10) Autorização para implementar títulos públicos de financiamento de energia renovável e combustível renovável.
11) Emenda constitucional regulando mudança de endereço
12) Autorização para implementar títulos públicos para financiar a compra de imóveis para ex-veteranos.

Pois bem, o primeiro choque foi que quase todas as legislações progressistas levaram um sonoro não. Os californianos decidiram que não iam financiar legislação ambiental alguma, não iam diminuir o volume do poder punitivo do Estado sobre a vida nua dos cidadãos desfavorecidos que são hordienamente massacrados pela malha Estatal-Soberana, impositora de um certo domínio higiênico-populacional de regras (que na realidade expressam o caráter de exceção do regime de poder Estatal) de forma agônica e atemporal.

Um choque, mas nem tanto, afinal, a Califórnia tem uma população carcerária enorme e elegeu Conan para governador (isso depois de ter eleito o Cowboy do Brooklyn).


pega na minha espada

Mas a coisa realmente deu polêmica com a tal da Proposta 8. A que define casamento como a união entre papai e mamãe, que nem Jesus disse e a Bíblia falou. Todo o beautiful people californiano (pensem no Sean Pean, na Susan Sarandon, enfim, no povo de Hollywood) começou um gritedo sem limite na hora que a legislação foi introduzida para ser votada. Algumas organizações de direitos civis entraram na Justiça, requisitando que a proposta fosse retirada da ordem do dia. A Suprema Corte da Califórnia se manifestou dizendo que não via nada de errado no formato da proposta e que ela tinha todos os requerimentos para entrar na ordem do dia. Ou seja: vai ter voto.

Acontece que o Estado da Califórnia já estava casando homossexuais. A proposta 8 buscava justamente cessar a prática e os efeitos dos casamentos realizados desde a implementação da legislação anterior. O slogan da campanha era “restaure o casamento” e focava nos efeitos nocivos (!!!) do casamento homossexual para a sociedade e os bons costumes.

Mas pera aí, a Califórnia não era o paraíso liberal?

A imagem que a maior parte das pessoas tem da Califórnia se confunde com a imagem de Hollywood e de São Francisco. Algo mais ou menos assim:


Demori, me liga!

Acontece que a Califórnia, sozinha, tem o quinto maior PIB do mundo. Boa parte dos conservadores fiscais dos Estados Unidos ou moram na Califórnia, ou tem negocios lá. Fora do centro de influência de Hollywood e São Francisco (as cidades universitárias, as comunidades hippies e os paraísos para os podres de rico), o Estado é extremamente conservador. Uma boa olhada na lista de governadores desde 1953 dá um quadro da coisa: apenas três governadores democratas. Poderia-se argumentar que os Republicanos que governam a Califórnia são conservadores fiscais, mas não de valores. Isso era verdade até a transformação profunda que o Partido Republicano sofreu nos últimos quinze anos. Hoje, um republicano que é apenas um conservador fiscal é um republicano sem grana para financiar a campanha.

The Big Money

A restituição dos valores de família, tradição e propriedade falou muito alto para todo mundo que não era da panelinha Hollywood-San Francisco e mesmo com o Arnold dizendo que achava melhor votar contra a proposta, os proponentes da restituição do casamento “tradicional” foram direto ao ponto:

Traduzindo tudo: “quem vai proteger nossas crianças desse bando de pervertido?”. Isso é o canto da sereia para a dona de casa entediada do Vale do Silício, que não aguenta mais ver o professor do jardim de infância do filho dela desfilando de sunga na parada gay pride de São Francisco. A dona de casa, então, fala para o marido magnata dar a grana para a campanha e vai votar. Ela também vai falar com todas as amigas dela, igualmente de saco cheio, irem votar.

Somem a isso o fato de que os conservadores fiscais que injetam grana na economia californiana são, em boa parte, de Utah. E Utah, sabe-se, acredita que homossexualidade é uma doença e oferece tratamento para pessoas acometidas da enfermidade (até 1980, sodomia era crime no Estado inteiro, hoje, é considerada uma contravenção leve e os praticantes são remetidos a clínicas de re-habilitação). Com isso, a campanha tinha muito dinheiro para queimar.

Participação, interesse e resultados

Ainda assim, não dá para acreditar que o lobby pró-casamento tradicional tinha mais dinheiro que o lobby contra a passagem da lei. Se os conservadores fiscais têm muito dinheiro, Hollywood tem muito mais. Ainda que as donas de casa chateadas com o professor gay tenham mandado cheques de 10$ para a campanha pela familia tradicional, o sindicato dos professores da Califórnia doou 1.5 milhão de dólares para a campanha contra. No mínimo, houve um empate na quantidade de grana investida.

Só que não houve mobilização significativa do lado contra a legislação. Enquanto os conservadores cooptavam diversos setores da sociedade (inclusive Democratas religiosos, como os Batistas), o outro lado ficava em uma lenga-lenga aborrecida sobre igualdade formal, fugindo desesperadamente do debate sobre a questão da homossexualidade, focando nos direitos iguais. Claramente, a disputa era pelo voto dos negros e dos latinos na Califórnia, que são em grande parte religiosos e teriam mais simpatia pelo discurso da igualdade, mas talvez nem tanta sobre a parte envolvendo os homossexuais.

Isso foi um erro estratégico por parte dos opositores da proposta oito. Alguns homossexuais se sentiram alienados da campanha e o assunto perdeu uma identidade, perdeu o rosto. Ninguém sabia quem é que eram essas pessoas que perderiam o direito a casar, porque a campanha escondia isso. Enquanto isso, em São Francisco e em LA ninguém realmente acreditava que os conservadores tinham chance. Resultado: não foram votar.

Do outro lado, todo mundo votou. Os negros e latinos de forma decisiva com os conservadores. Mesmo com a indicação contrária do Obama, do Arnold e do Sean Penn, a proposta 8 passou como lei.

Assim não brinco mais

No dia seguinte, os liberais de Hollywood e São Francisco acordaram da festa do dia anterior e descobriram que, bem, eles tinham esquecido de ir votar. Seguiu-se grande comoção pública. De uma hora para a outra, a questão adquiriu o rosto que não tinha na época da campanha. Uma das melhores iniciativa foi “não divorcie meus pais”:

Organizaçõs de direitos civis novamente entraram na justiça, dessa vez para pedir a inconstitucionalidade da proposta e sustar os efeitos da lei imediatamente. Semana passada o pedido foi reconhecido por uma corte distrital na Califórnia e agora a lei será julgada pela Suprema Corte californiana. Se a Suprema Corte californiana negar o pedido e revalidar a decisão do referendo, o único caminho para as organizações civis na Califórnia seria apelar para a Suprema Corte de Washington, com base em princípios constitucionais.

Acontece que a decisão da corte distrital foi claramente política e a Suprema Corte da Califórnia pode, sim, reverter a decisão do tribunal. Na realidade, ela deve reverter a decisão, já que ela foi mobilizada antes do referendo e disse que a matéria sendo discutida não era inconstitucional. O que mudou?

De certa forma o que mudou foi a pressão social. A decisão sobre a legalidade do referendo foi recebida com relativa calma na Califórnia, já que as organizações de direitos civis acreditavam poder ganhar o jogo. Uma vez que elas perderam, resolveram apelar novamente.

E se fosse o contrário?

O problema todo é o seguinte: se o referendo foi ilegal, ele foi ilegal para os dois lados. E se a decisão tivesse privilegiado o interesse dos que favorecem o casamento homossexual? Onde estariam essas organizações de direitos civis agora? Continuariam alegando a ilegalidade do referendo?

Parece que, e eu lamento dizer isso, o pessoal não está sabendo perder. A atitude correta, do ponto de vista procedimental, seria esperar pela próxima eleição e inserir uma proposta cancelando a legislação anterior.

Ainda assim, existe uma chance da Suprema Corte tomar uma decisão política hoje e voltar atrás na decisão tomada há poucos meses. Qualquer que seja o resultado, existe um risco da parte que perder ir apelar para a Suprema Corte em Washington. Mas é um risco grande, uma vez que a Suprema Corte em DC pode decidir por nem receber o protesto – para evitar uma posição nacional sobre o casamento homossexual; ou pode receber e julgar o protesto válido, tornando qualquer legislação banindo casamento homossexual inconstitucional, em qualquer lugar dos Estados Unidos.

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