Morrendo na América

Fabricio Pontin | Estados Unidos 18:30 | 03/09/2010

Em Junho recebi da secretaria para alunos internacionais aqui do departamento um pedido de ajuda para uma aluna estrangeira. A aluna, no caso, estava com câncer e precisava de apoio financeiro para enfrentar a doença. Já tinha algum tempo que ela tinha recebido o diagnóstico e ela tava brigando para conseguir algum tipo de cobertura no sistema de saúde local.

Acontece que o plano de saúde obrigatório que a faculdade oferece para os alunos tem uma cobertura ambulatorial bastante restrita. Na realidade, ela cobre cerca de 70% das despesas médicas ambulatoriais, e deixa o aluno na mão com os custos de exames extras, tratamentos excepcionais e a temida ‘condição prévia’. A condição prévia é uma cláusula no contrato com o plano de saúde dizendo que eles não são responsáveis pela cobertura de doenças crônicas ou hereditárias já presentes no momento da assinatura do plano. No caso dessas doenças, portanto, você tem o atendimento emergencial, mas tá sozinho no atendimento ambulatorial.

Por exemplo: digamos que você quebra o dente jogando futebol. O plano garante que você vai chegar no hospital e ter um remendo feito no dente, mas não garante nada além disso. Fica sob a responsabilidade do aluno o pagamento dos remédios para dor, da anestesia geral e mesmo de uma eventual prótese. Mesma coisa se você quebra uma perna.

No caso de câncer, o furo é ainda mais embaixo. Muitos planos tem uma clausula de exclusão de cobertura, ou seja, tem que comprar separadamente a cobertura para câncer. Enquanto aluno internacional, é bem possível que o plano de saúde desconsidere o perfil do aluno (falido, estrangeiro) e negue cobertura.

Foi o caso dessa moça. Aluna internacional, sem visto permanente e com apenas o plano de saúde da universidade. Quando a gente chega aqui, o pessoal orienta que se procure outros planos. Mas esquecem de mencionar que para contratar um plano de saúde privado é necessária uma história de crédito constituída e uma conta bancária ativa. A maioria dos alunos internacionais não tem condições, com bolsas que variam entre $700 e $1800, de 1) constituir uma história de crédito e 2) ter uma conta que não viva no vermelho. Já que conseguir um empréstimo é impossível, resta ao aluno internacional com uma doença crônica a dependência da caridade alheia.

Americanos adoram doar dinheiro. Se for para alguém de um país pobre, oprimido e com uma religião exótica, mais ainda. Acontece que doações são troco para o tipo de gasto relacionado com um câncer. Mesmo mobilizando a faculdade inteira para conseguir doações, a menina conseguiu impressionantes $1800, que ela usou para voltar para a Malásia e morrer junto da família.

Não sei se isso é melhor ou pior do que morrer na fila do SUS. Mas o interessante é pensar que as pessoas ficam doentes e morrem sem sequer passar pela consideração de algum cuidado médico. No entanto, preciso dizer que toda vez que eu precisei de cuidados médicos aqui (e paguei – caro – por isso), o serviço prestado foi absolutamente primoroso.

E o Obamacare? Antes de mais nada, vale lembrar que o plano ainda está na fase de implementação e que mesmo quando for totalmente ativo (em dois anos), não vai cobrir imigrantes sem green card. Ou seja, para os alunos internacionais a situação permanece a mesma.

O papo que rola entre os alunos é o seguinte: não fique doente. Tenha um plano de saúde no seu país de origem e a grana para a passagem de volta pronta, caso tenha uma emergência.

Mais burros

Leandro Demori | Itália 09:00 | 05/07/2010

1958, 1962, 1970, 1994, 2002. Talvez essas sejam as únicas datas em comum com potencial de acerto entre estudantes de escolas públicas e privadas ao final do percurso de estudos — os cinco títulos vencidos pelo Brasil em copas do mundo. Para todo o resto, estudantes de escolas públicas estão 3 anos atrasados em relação àqueles de escolas privadas, segundo o MEC.

Estudei em escola pública. Na época, meus professores eram basicamente os mesmos das melhores escolas privadas, ou melhores. Tínhamos um bom nível na pública (fiquei lá até a 8º série). A diferença entre um colégio e outro era a estrutura: enquanto jogávamos futebol em quadra de cimento, os outros tinham quadras de madeira e campos gramados. A estrutura das meninas do colégio privado também era claramente superior (mas as nossas colegas eram mais “extrovertidas”).

Compensávamos tudo aprendendo a dominar melhor a bola por conta do campo ruim (logo, nosso time era melhor) e saindo antes do final da aula para ver as garotas desfilarem na frente do colégio particular, que ficava a duas quadras do nosso.

A escola pública de ontem não era mais romântica do que a de hoje como pode fazer crer este pequeno relato — havia brigas todos os dias, furtos, depredações. Era só melhor, tinha nível técnico e professores mais gabaritados.

A decadência do ensino público foi o pote de fortuna para os donos de escolas privadas, o que não quer dizer que a educação paga seja grande coisa. O segundo grau brasileiro é um curso pré-vestibular, e mesmo as melhores escolas estão longe dos níveis aceitáveis para um país que se candidata a sentar na janela. Os estudantes de escolas públicas, em comparação aos de escolas privadas, não são “burros”, são somente “mais burros”.

Os índices melhoraram nos últimos anos, mas ainda são deploráveis (claro que não ao ponto de forçarem manifestações de indignação no twitter. Escola não é tão importante quanto Salvar o Mundo #diasemglobo).

A preocupação com educação é uma coisa que pode unir PT e PSDB nessa campanha. Fraternalmente, ambos foram incapazes, em 16 anos, de dar ao país a coisa que ele mais precisou: estudo. É cômodo apresentar candidatos medíocres e artificiais em um país onde 7 em cada 10 pessoas não sabem ler.

Não que você se importe com isso.

Espere até o próximo incentivo de impostos e compre por uma ninharia aquela tão sonhada TV em alta definição. A Copa de 2014 é logo ali.

Replay.

Aumente meus impostos!

Fabricio Pontin | Estados Unidos 17:34 | 22/04/2010

Em Springfield, um grupo de indivíduos protesta contra os inevitáveis cortes no orçamento público com uma iniciativa bastante… única.

Quinze mil pessoas se reuniram na frente do Capitólio na capital de Illinois pedindo que o governo estadual aumente os impostos para evitar os sucessivos cortes em investimento, especialmente em educação.

Mas como diabos tu vai reunir uma galera destas em um local público para pedir aumento de impostos? Quem é que faz isso?

A resposta, no caso de Illinois, passa por compreender como funcionam as políticas aqui. Daí, vou precisar apelar para um pequeno interlúdio para dar uma idéia da coisa:

Existem dois tipos de Democratas. Os Democratas da costa leste e oeste, que tu identifica como o pessoal que vai para escolas de grande porte, tendem a ser partidários de programas sociais moderados mas não apoiam nenhum tipo de iniciativa mais agressiva na parte econômica. O exemplo clássico deste tipo de Democrata é o Kennedy: papa-Kennedy basicamente comprou um lugar no Senado para cada um dos filhos e depois elegeu o primeiro presidente católico da história dos Estados Unidos. Na base da grana e do apelo para as elites que financiaram a candidatura. O Clinton é uma história parecida. Foi nas melhores escolas, família tradicional na Georgia, estas coisas todas.

Os outros Democratas são os chamados Blue Collar. Pensa no Bruce Springfield, naqueles filmes em Detroit nos anos oitenta. Boa parte desta turma trabalha com construção e é vinculada com os sindicatos. As Unions até os anos 50 eram identificadas com a máfia, e foram a base da operação de um certo Al Capone que controlou o mid-west mais que qualquer governador por bons quinze anos. Até hoje os sindicatos comandam tudo por aqui. Os mafiosos, nem tanto.

Ok, fim do interlúdio.

Corta para Springfield ontem:

O protesto foi organizado pelos sindicatos que na realidade chegaram a pagar ônibus para pessoas do estado inteiro: a idéia é aumentar os impostos e salvar o sistema de educação de Illinois.

Duas coisas:
1) Illinois tá falido. Cinco ou seis governadores fracassados, com dois ou três processos de impedimento em um espaço de 6 anos, simplesmente acabaram com as finanças do estado. Illinois é basicamente ingovernável. O estado não tem mais grana para passar para as faculdades (o campus satélite da universidade onde eu estudo fica em Edwardsville, e recentemente teve que fechar quatro ou cinco departamentos porque não tinha mais grana para mantê-los abertos). Isso também é verdade para o sistema de educação básica: várias escolas estão demitindo professores e/ou reduzindo salários.

2) Os professores do sistema básico estão com o cu na mão: o estado está demitindo professores não apenas por uma questão orçamentária, mas por um critério de eficiência. Professores com um desempenho tido como insatisfatório estão sendo colocados para a rua e escolas que não retornam o investimento estão sendo implodidas. Com isso, os sindicatos acabam tendo um poder de barganha enorme: “vem com a gente que talvez tu não perca teu emprego”.

Daí a iniciativa: aumente as taxas e mantenha as escolas abertas. Claro, os sindicatos estão contando apenas uma parte da história – que é a do corte. Mas não contam que muitos dos professores que estão perdendo emprego não são vítimas de um furor orçamentário, mas de uma reforma no sistema de educação (que tem seus problemas específicos, diga-se de passagem, mas que não cabe falar aqui).

É importante ressaltar que Illinois não é mais um estado que varia entre democratas e republicanos nas eleições federais, mas que tem uma alternância forte nas eleições para governador. Com as eleições para governador na esquina, o candidato republicano já disse que não acha necessário aumentar taxa alguma.

Isso deixa os democratas em uma situação complicada:

Aumentar os impostos significa ganhar o apoio dos membros do sindicato que estão em Springfield. Mas pode significar perder votos em todas as partes do estado que não dividem o interesse do grupo que foi ontem lá. Não aumentar pode significar o colapso de parte do sistema educacional (que ainda é controlado por pessoas vinculadas com o sindicato), e uma posterior perda de votos vinculadas com o colapso da educação pública. Para os democratas é um caso claro de perda/perda. Não tem como obter um resultado satisfatório.

Isso somado com um governador (democrata) que acabou de perder o emprego por corrupção deve tornar a eleição estadual um tanto complicada para os Democratas.

A classe estudantil vai ao paraíso

Fabricio Pontin | Estados Unidos 23:47 | 04/03/2010

Hoje os estudantes na Califórnia organizaram um protesto contra o aumento das tuitions e custos das universidades públicas. O protesto ficou viral e em pouco tempo várias universidades públicas nos Estados Unidos começaram a ver seus respectivos estudantes organizando protestos e passeatas para demonstrar descontentamento com as políticas públicas.

Pois bem, a idéia é protestar os cortes em duas frentes: o ensino de forma geral, e o ensino superior – de forma especifica. Mas antes alguns esclarescimentos sobre a parte do ensino superior.

Não existe educação pública superior gratuíta nos Estados Unidos. Quero dizer, mesmo universidade públicas são pagas. Elas dependem deste pagamento para o auto-custeio, especialmente em estados falidos (tipo Illinois, Califórnia, Colorado e Texas) que não conseguem repassar os valores que normalmente são destinados para o ensino superior. Então a situação fica complicada, especialmente para as faculdades conseguirem prover as chamadas “waivers” para os alunos que não conseguem pagar os custos da matrícula e dos valores semestrais de taxas e créditos. Mais ainda, bolsas de estudos são canceladas e a pesquisa universitária sofre. Claro, ela sofre na seguinte ordem:

1) Departamentos de Filosofia e Arte perdem dinheiro
2) Os outros departamentos das humanas perdem dinheiro
3) Os departamentos das biológicas (menos medicina) perdem dinheiro
4) Os departamentos de comunicação e humanas aplicadas (menos direito) perdem dinheiro

Os departamentos de coisas que podem dar dinheiro (patentes, livros, armas) geralmente não perdem recursos, alguns laboratórios específicos até podem fechar ou perder financiamento. Mas, se existe a possibilidade do laboratório e/ou núcleo de pesquisa dar resultados materiais para a universidade, os bolsistas trabalhando neste laboratório/núcleo estão salvos – exceto nos casos mais extremos onde universidades fecham departamentos inteiros. Mas isso é incomum em universidades de porte maior que médio e com pesquisa de repercussão financeira positiva.

Entendido? Então o que a galera está reclamando?

A galera está reclamando que a faculdade está ficando mais cara e ficando mais inacessível. Então os alunos resolvem ir para a rua e fazer coisas como interromper o tráfego de carros em uma highway em Oakland para “create awareness” (desculpem, “chamar a atenção” simplesmente não comunica a ripongagem) sobre a situação dos pobres estudantes de nível superior. Pobrezinhos. Com seus i-pods, i-touchs, mochilas de marca, cameras de alta definição filmando a polícia brutal para botar tudo no youtube depois. Pobres, pobres estudantes!

É lógico, o foco do governo federal está na educação básica até ensino médio. Neste sentido, o protesto na Califórnia pode ganhar apoio, porque os cortes estão afetando o ensino básico-médio e criando uma re-segregação das escolas públicas. Até aí, o pessoal pode se comover com as demandas do “movimento”.

Mas vamos lá. Isso é simplesmente patético. “Ocupações” e coisas no estilo simplesmente não vão te garantir apoio, especialmente quando estudantes estão em situação privilegiada se comparada, por exemplo, com a “working class” de Michigan e mesmo Illinois. Uma das reclamações que ouvi hoje era de “sala de aulas com 40 alunos” e “professores sem auxiliares”. Puxa vida, mesmo? QUE PROBLEMA! Daí, o camarada da CNN pergunta para a líder do movimento “Mas o que vocês sugerem?”, resposta: “Aumentar os impostos!”.

Pois bem. A Califórnia está com um problema de investimento. Por que? Porque é um dos estados mais taxados na federação. Altos impostos vão fazer o pessoal que investe (e doa! acreditem! doa!) no ensino superior ir para, digamos, Utah ou Nevada. Também não ajuda que a Califórnia (e boa parte dos estados em crise) arrecada um bocado e gasta mal para caramba. Isso tá criando um certo… êxodo fiscal .

Então, se a tua solução é “aumentar os impostos”, talvez tu deva te acostumar com sala com (oh deus!) quarenta alunos e com menos recurso para pesquisas sobre “Simulacro e Representação no cinema de Woody Allen”. Afinal de contas, chega uma hora que simplesmente dizer “chega de cortes” fica parecendo “abaixo a lei da gravidade”, especialmente se um monte de alunos de ensino superior não consegue pensar em nada melhor do que “aumentar os impostos” para solucionar o custeio de algo que muitas vezes eles mal conseguem justificar.

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