Eles estragaram a Pompeia do Pepe

Maurício Boff | Argentina 03:47 | 24/11/2010

O portenho Pepe, 81, monta nos finais de semana na esquina entre as ruas Defensa e Humberto Primo, na Plaza Dorrego, uma pequena banca com a qual vende chaveiros e pequenas estátuas do Obelisco ou de bonecos tangueiros. Descobri no último sábado que o simpático senhor é bancário aposentado e que decidiu voltar ao laburo faz 20 anos para complementar os mangos que recebe mensalmente da Administração Nacional de Previdência Social (Anses).

Tente visualizar o cenário. A praça é centro da permanente efervescência turística que transforma o bairro de San Telmo durante o dia. Os visitantes vêm do mundo todo, mas são os brasileiros os que imperam. O público jovem chama a atenção. São dezenas de albergues oferecendo uma cama e um espaço na geladeira por poucos pesos argentinos.

Antiquários, estilistas independentes, artistas de rua, prédios e cafés centenários dão uma ideia do que se vê por aquelas ruas. Foi em uma dessas vias onde semanas atrás uma mãe e o filho de olhos azuis e cabelos dourados me olhavam profundamente e espantados enquanto tomava um mate, solito e sentado no cordão de uma calçada. Cheguei a ver a mulher apontando-me o dedo enquanto levava a bomba em direção à boca. Devia ser um ato exótico – ou erótico, para eles. Gringos e latinos têm culturas muito diferentes…

Perdoem-me pela simplicidade do relato os que conhecem Buenos Aires. Como sabem, trata-se de uma belíssima cidade.

Meu olhar impregnado de bananidade gaúcha porto-alegrense me leva a dizer que umas das qualidades dessa metrópole é que sendo uma cidade latino-americana, ainda assim se pode caminhar com certa tranquilidade pelas suas ruas. O portenho discorda e lamenta a criminalidade. Diz que a urbe está cada vez mais violenta, o que não deixa de ser verdade se o quadro de hoje é comparado com o de 20 anos atrás, quando Pepe voltou ao trabalho.

Talvez por precaução, trato de interagir com as pessoas em locais politicamente associativos, como no supermercado, na Igreja anglicana, no subte, no ônibus, nos botecos em geral ou nos bolichos onde se dança zamba. Dia desses, por exemplo, um senhor pediu que apanhasse a sacola de compras que havia deixado cair no chão. Outra vez, foi uma velhinha que reclamava de uma bursite no ombro direito quem me pediu que tocasse a campainha do ônibus minutos antes do motorista me permitir saltar no meio da quadra porque, de outra forma, desceria longe da parada de casa. No bolicho, a “china véia” pediu-me dinheiro. Como não tinha, conversamos. Tenho uma cara simpática. Deve ter sido por isso que Pepe se motivou a contar sua história na tarde ensolarada que brindou o último sábado.

Pibe, nasci, fui criado e passei toda minha vida em Pompeia. Mais portenho do que eu, impossível. Vou completar 82 anos [nesse momento, ele segura meu antebraço esquerdo] e hoje sou eu o estrangeiro nessa cidade.”

Pepe balança a cabeça, mas prossegue.

“Digo isso pra você porque os outros [estrangeiros] não me entendem [havia contado que havia decidido morar na cidade]. Se quero ir no cinema, penso duas ou três vezes antes de sair com minha senhora. A sala de cinema está perto de casa, mas até comprei um desses aparelhos para ver [os filmes] pela televisão.”

“É um desgosto pensar que nos sentimos presos em nossa própria casa… Meu neto, que é mais jovem do que você, está naquela idade, viu? Faz uns dias, perguntei pra ele: ‘e as namoradas?’ Conversamos e fiquei espantado com o que me contou.”

Eu te escuto, respondi.

“Falou que ele, os amigos e as amigas passaram a fazer festas privadas em casa. Dizem que ir num boliche é arriscado porque o risco de ser assaltado e ter uma arma apontada pra cabeça é comum. Diga-me se isso é mundo para se viver? Ele acaba ficando lá por Pompeia mesmo.”

Não arrisquei apontar as vantagens das festas privadas. O relato de Pepe era sério.

“Sabe de quem é a culpa? A culpa é de quem vem pra cá roubar!”

O discurso passou a me preocupar.

“Sabe quantos chineses têm esse país? Mais de 120 mil chineses! E isso que não estou falando dos paraguaios ou dos bolivianos!”

Não havia muito mais a dizer. O relato de Pepe virou tema de segurança internacional. Desconhecia até que ponto sabia que era brasileiro e que reação poderia ter. Era melhor que a conversa acabasse por ali mesmo com um beijo no rosto, cumprimento tradicional entre os argentinos.

No caminho de volta pra casa, pensei sobre essa curiosa relação entre a criminalidade urbana e os moradores de Buenos Aires. É comum ouvir argentinos reclamando sobre a onda de imigração – em grande parte, ilegal – que, segundo eles, trouxe a desgraça do crime. Pepe estimou por conta própria que vivem 120 mil chineses na Argentina. O levantamento de 2001 que o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) produziu fala em 5 mil, o que certamente é uma grande pavada.

Hoje, muitos – quando não a maioria – dos pequenos mercados portenhos estão nas mãos de um chinês. Quase toda quadra portenha possui um chino, como aqui os chamam. Se pode muito bem estimar que em cada mercado chino trabalha pelo menos três chinos. Logo, a avaliação empírica populacional de Pepe pode não só estar certa, como ser duas vezes maior.

Bolivianos e paraguaios têm a Argentina como o principal destino. São 233 mil bolivianos e 325 mil paraguaios, segundo o mesmo censo oficial do Indec. Eles partem, em sua maioria de zonas rurais, e vêm tentar uma vida menos miserável. Em Agosto, durante um evento festivo, conversei com alguns trabalhadores em uma das vilas mais emblemáticas de Buenos Aires, a Villa 31, que está assentada sobre um dos terrenos mais caros da cidade. Eram paraguaios, bolivianos e peruanos de origem humilde. Quase em coro, lamentavam que algumas poucas maçãs podres contaminavam o restante do pomar.

É evidente que existe um grande espaço para que o imigrante que não consegue melhorar de vida passe à criminalidade. Na falta do que comer ou fazer, a informalidade abraça-o e, se isso não resolve o problema, o submundo chama-o.

O problema é complexo e heterogêneo. A Argentina já foi a oitava economia mundial há menos de 100 anos. Isso não é pouco. O país estava muito mais próximo dos índices de desenvolvimento de uma nação europeia do que de uma latino-americana. Nada menos do que cinco personagens argentinos ganharam o prêmio Nobel em diferentes áreas. Novamente, não é pouco e, sim, um feito notável desse país que tem todos os elementos para voltar a ser grande.

O país vê sua economia crescer desde a crise de Novembro de 2001. Aliás, o governo da presidenta Cristina F. de Kirchner já prometeu que o país se prepara para recuperar a qualidade de vida que tinha antes daquele infeliz mês. A oposição veio com todas as pedras e paus contra o anúncio, qualificando-o como demagógico.

E o problema da Pompeia do Pepe não se resolve em um toque de mágica. Fazer sentir a transferência do bem-estar macroeconômico para o dia-a-dia das pessoas é um processo, às vezes, lento. Depende de uma série de variáveis, como a estabilidade dos preços dos bens, bons salários, um nível razoável de impostos e muitas outras.

O Brasil é um exemplo claro dessa lógica. Por melhor que esteja – aqui, assumo que o Lula é o grande líder e todos que questionam isso são pobres e infelizes mortais que nada entendem de nada – o país continua sendo extremamente desigual.

O imigrante chinês, paraguaio ou boliviano na Argentina é como o migrante do semi-árido nordestino em São Paulo, uma força de trabalho fundamental para o desenvolvimento que, ao mesmo tempo, é discriminada e ironicamente culpada de aumentar os bolsões de pobreza.

Em Buenos Aires, eles pagam o preço da ineficiência. São eles os culpados. Eles estragaram a Pompeia do Pepe.

Um farol para o passado

Leandro Demori | Itália 15:17 | 13/11/2010

Viajo todas as semanas para Veneza por compromissos profissionais. Pego um trem que me consome 7 horas de vida entre ir e voltar. Uma das poucas paradas no caminho acontece em Bolonha, cidade que gosto muito e a qual conheço relativamente pouco mesmo tendo morado lá perto. Bolonha é um centro de excelência da Itália: sede da mais antiga universidade do mundo, construiu no correr dos séculos uma longa tradição de ensino e pesquisa que hoje faz girar na cidade cerca de 1,7 milhão de euros ao dia. Bolonha “la grassa, la rossa“, a gorda e vermelha Bolonha, rica, cara para se viver.

Centro nevrálgico da resistência partigiana ao nazismo e ao novo fascismo que jogaram a Itália em uma guerra civil entre 1943-45, a capital da Emília-Romanha está perdendo poder e charme.

Na última semana, centenas de mães com seus bebês dentro de carrinhos de passeio protestaram em praça pública. Um protesto com balões e doces para contrastar com o amargo de um despedaçado welfare state europeu: a administração pública pretende fechar as creches duas horas mais cedo para economizar dinheiro. Bolonha e seus tijolos vermelhos amanhecem todos os dias um pouco mais cinzentos de fumaça e descuido.

A geração italiana de hoje é a primeira do pós-guerra que será mais pobre do que a de seus pais. Desde o fim dos conflitos armados, todos os filhos superaram os genitores com mais dinheiro no bolso, melhores casas e carros, mais viagens e lazer, famílias mais bem assistidas economicamente. Atualmente, um em cada três jovens italianos sequer tem emprego.

O corte de fundos das políticas públicas é geral no continente: França, Inglaterra, Espanha, Holanda, Portugal, todos passaram a tesoura que vai desde congelamento de salários de funcionários públicos até cortes desses mesmos salários quando muito elevados, ou demissões. Os serviços públicos estão sendo dilapidados de forma visível, de escolas com menos professores a delegacias de polícia que fecham mais cedo. Enquanto os países em desenvolvimento avançam, a Europa regride.

Analisar um continente como esse olhando somente para o curto prazo é dar muita chance ao erro, no entanto. É cedo pra dizer se esses países estão fazendo o caminho inverso ou se estão fazendo apenas ‘um outro caminho’. Alguém já deve ter dito ao longo das eras que a coisa por aqui ia ficar preta… No curto prazo, a coisa já está preta; mas o preto europeu, comparado com o preto brasileiro, é ainda cinza-claro.

Em entrevista à revista semanal l’Espresso da semana passada (a qual assino e só consegui abrir hoje), o economista Joseph Stiglitz explica que um dos remédios para evitar o fim do sonho americano — ou de parte dele — é investir em pequenas e médias empresas e deixar que os colossos industriais e financeiros se virem. Para ele, salvar bancos foi um erro dos Estados Unidos, começado por Bush e continuado por Obama.

A Itália é o país da pequena e da média empresa, mas vem lutando contra sua própria história. A globalização foi o remédio para o subdesenvolvimento ao mesmo tempo em que tirou dos países ricos muitas possibilidades. Não adianta se debater: a FIAT fechará plantas na Itália e fabricará cada vez mais carros no Brasil, onde o mercado interno ainda é enorme e de longo prazo, onde a mão-de-obra custa menos e onde as pessoas passam por um momento efervescente de consumo comparado aos anos 60 e 70 europeus. E assim farão Pirelli, Piaggio, Benetton, Prada… dando ao ex-terceiro mundo a chance de ouro deste século, mesmo que muitos desses países, pouco tempo atrás, lutassem contra o ‘demônio do mundo global’ que hoje os alimenta e os enriquece.

O que sobra para a Itália? Sobra ‘excelência’, é o que vez ou outra se ouve. O país deve se concentrar em produzir e vender caro o que levou anos para desenvolver e que poucos no mundo fazem melhor: carros de luxo, motos, barcos, navios de cruzeiro, moda de alto nível, design, vinhos, culinária, história. O número de pobres está diminuindo no mundo e a classe média europeia está visivelmente mais empobrecida. Esse movimento gera um nivelamento social que aumenta, por exemplo, a venda de carros de baixa cilindrada, exatamente o que acontece no Brasil. Ao mesmo tempo, o número de ricos está aumentando; essas pessoas passaram a vida sonhando em dirigir uma Ferrari. A receita de produzir excelência vale também para outros países do bloco — e para os EUA.

Dias atrás, parte do estádio dos gladiadores de Pompéia desabou. Para a economia nacional, o fato deveria ser visto como o desabamento de parte de uma estrutura industrial — o turismo, a história, a cultura e a arte são o motor dessa excelência italiana que não pode se deixar enganar pelo ‘efeito globalização’ em países em desenvolvimento. Olhar para um Fiat Uno como deus salvador dos mercados europeus é querer competir com o Brasil apontando o farol para o passado.

Por que votar?

Fabricio Pontin | Estados Unidos 16:44 | 02/10/2010

O Demori já colocou alguns argumentos dele aqui, mas eu queria deslocar a discussão um pouco. Eu não quero perguntar para vocês por que não votar, mas quero perguntar por que diabos alguém se dá o trabalho de levantar a bunda da cadeira e ir votar, tendo em vista que a possibilidade de fazer a diferença na eleição, ou, pior ainda, conseguir qualquer vantagem material no ato de votar, é próxima de zero (ou negativa).

A coleguinha ranhenta, ou, “a democracia não assoa o nariz”

Nesse domingo todo mundo que está no Braziu tem a obrigação cívica de ir votar. A tal da festa da democracia é uma festa organizada por uma menina remelenta que joga areia na tua cara segunda-feira se você não apareceu no domingo. Boa parte da população certamente preferia ir para a praia, passar a tarde com os filhos no parque ou ir para uma dungeon levar uns tapas da Sra. Pepperwhip do que ter que escolher entre o vampiro brasileiro, a caminhoneira da adamantium, a jardineira de Jesus e o vovô Simpson. Muita gente interpreta essa vontade de ir fazer alguma outra coisa como um desinteresse na classe política, uma alienação ou algum outro lugar comum daquele tipo que tu ouve teus coleguinhas de centro acadêmico repetindo para reclamar da falta de engajamento.

Na realidade, é espantoso que alguém se dê o trabalho de votar. Para início de conversa, o papo de que “todo voto importa” é de uma simplicidade argumentativa comovente. Não, não importa. A maior parte das eleições são disputadas entre dois candidatos com diferenças mínimas do ponto de vista ideológico, e a eleição de um ou de outro causa uma diferença mínima no governo futuro. Pensem na atual eleição no Brasil. O “coeficiente ideológico” (espaço para risos) entre os candidatos é tão pequeno que o último debate foi, de fato, uma disputa para ver quem se aproximaria mais de um governo do Lula, sem o Lula (percebam, estou colocando o Sr. Plínio como alívio cômico). Qualquer um procurando razões ideológicas para votar em x, y, z ou p saiu do último debate mais confuso do que entrou (e talvez deva revisar o universo, já que as ideologias deram tchau-tchau quando o muro de Berlim caiu).

Não vote

Em 1957 um economista norte-americano chamado Anthony Downs (Toni Downs, para os íntimos) escreveu um livrinho chamado uma teoria econômica da democracia. No livrinho, Downs desenvolve uma fórmula (na realidade, é um axioma, mas quero evitar falar difícil) para definir a racionalidade no ato de votar. É assim ó:

ff (p[VpX+{-VpY}]+[D-{C}])>0, then Vote.

onde

[Vpx+{-VpY}] é o índice de aprovação do voto em um indivíduo X comparado com o indíce de rejeição de um indíviduo Y. Chamarei este fator de pV daqui para frente.

D são os incentivos diretos e selectionados (sociais e econômicos) de votar (em geral, do ato de voto, não do voto em X ou Y e da rejeição de X ou Y, mas da implicação social de levantar a bunda da cadeira e ir votar)

C são os custos (sociais e econômicos) de votar, ou seja, as razões para ficar em casa.

Quando são somadas todas as variáveis e o valor é maior que zero, vai em frente e vota!

Traduzindo: eleitores que votam baseados em ideologia vão focar em pV. Para esses eleitores é realmente decisivo que o indivíduo X seja eleito e não Y. Inversamente, se eles não encontrarem motivos para votarem em X , eles simplesmente não irão comparecer às urnas. Isso pode ser decorrente de uma constatação de que muito embora o discurso ideológico seja ‘B” ou “C”, a prática é “A”, independentemente do discurso. Pode também ser decorrente de uma estagnação no discurso político que leva o indíviduo a não perceber qualquer valor distintivo na ideologia de X ou Y – isso pode ser bastante ilustrativo do cenário das eleições americanas, onde poucos eleitores se sentem motivados a irem votar por não verem grande diferença material entre as ideologias e práticas correntes de X ou Y: “it’s all smoke and mirrors” ou, “é muita semiótica” (cit Marlon, 2010 in conversa pessoal). Esse cenário de estagnação é um dos cenários mais desejáveis em termos democráticos.

Por quê? Porque ao contrário do que se pensa, ele não demonstra uma estagnação positiva, mas uma confiança no processo democrático. As pessoas podem votar, mas escolhem não votar por não sentirem uma diferença fundamental. O cenário atípico, aqui, implica em uma polarização radical dos indivíduos X contra Y. No cenário norte-americano, isso parece ter acontecido nas eleições de 2000 e 2004, no cenário brasileiro, isso claramente aconteceu em 1989, na França, o efeito Le Pen polarizou o eleitorado o suficiente para que individuos votassem em massa em Chirac, especialmente para evitar a eleição de Le Pen, que havia chegado no segundo turno devido à segmentação da esquerda francesa – e também pelo efeito ‘tanto faz’, que possibilitou que uma minoria de eleitores extremistas votassem em bloco, enquanto eleitores centrados votaram de forma segmentada ou ficaram em casa fumando.

Deixa eu dar um exemplo pessoal. Para mim, a próxima eleição no Brasil é optativa. Minha situação nos Estados Unidos me permite justificar o voto sem maiores problemas. Pois bem. Hoje, dadas as alternativas, eu prefiro o Serra. Mas vamos colocar isso em perspectiva, eu gosto do Serra só um pouco mais do que da Marina e um tantinho mais do que da Dilma. Eu realmente gosto muito mais do Serra do que do Ciro. Em termos racionais, os custos de ir até Chicago para votar, arriscar perder aula, perder tempo útil que posso gastar traduzindo e pesquisando, não justifica uma viagem desse tamanho. Agora, me pergunta de novo se eu iria até Chicago para votar no caso de ser uma eleição entre Marina ou Serra e o Ciro? Digamos, em um segundo turno entre Marina ou Serra e Ciro, eu vou até Chicago votar, porque não quero ter que olhar para minha sobrinha no futuro e ter que dizer que me omiti em uma eleição dessas. Esta eleição, como está, não me motiva em termos ideológicos ou pessoais a tirar minha bunda da cadeira (e percebam, minha justificativa para votar é completamente baseada na minha antipatia ao Ciro).

Pensando bem, melhor votar…

Gente que se comporta como eu acaba motivando os candidatos a jogarem com a polarização artificial do cenário, para motivar mais indivíduos movidos a ideologia a participarem da eleição (ou desmotivando a participação dos moderados), criando assim o efeito de “bloco” – política extremamente bem sucedida por Bush em 2004, que manejou o bloco conservador a votar com ele em massa, enquanto Kerry foi incapaz de motivar a base ideológica dos democratas o suficiente.

Socialmente, no entanto, verificamos uma pressão para o voto com base nos elementos D e C. Isso porque existe uma parte grande do eleitorado que não é motivada ideologicamente, mas por vantagens diretas no ato de votar. Os indivíduos moderados não procuram motivos ideológicos para o voto, mas vantagens em votar. Via de regra, esses indivíduos vão dizer “tanto faz”.

Daí a necessidade de incentivos materiais para tirar esses indivíduos da cadeira. Sejam eles através de campanhas (Rock the Vote!, por exemplo) ou de criação de mecanismos sociais de isolamento dos não-votantes: “a festa da democracia” ou “vote ou seja um alienado”. Outra forma de fazer isso é determinar a obrigatoriedade do voto, para obrigar os moderados a votarem – o que seria uma forma de evitar a influência direta de blocos. Nesse tipo de cenário, indivíduos votariam, simplesmente, por não gostarem das consequencias de não votar (tipo, pagar a multa), não pelas vantagens do ato de votar.

… no Tiririca!

Por isso que candidatos folclóricos fazem tanto sucesso no cenário brasileiro: Olívio Dutra, Sarah Palin e Garotinho são bons exemplos. Eles falam alto para certas bases ideológicas que vão votar sempre que estes indivíduos aparecerem. Isso é porque eles valorizam certos fatores de forma tão exacerbada, que os custos materiais de votar são obliterados pela vantagem pessoal “votei no meu camarada Olívio!”. Para as eleições de deputados, os candidatos folclóricos recebem mais votos porque o cara chega na urna sem saber o que diabos um deputado faz, como ele faz ou por que ele faz. Então vota no mais engraçado ou em alguém de quem ele “ouviu falar”.

Mas e a eleição de domingo com isso?

A eleição amanhã tem uma série de implicações relacionadas com o que eu escrevi aí em cima. Primeiro lugar, muitas pessoas irão para o litoral e “esquecerão” de votar. Aproveitar o feriado, para essas pessoas, é mais vantajoso do que votar (ainda que seja economicamente mais caro não votar, indivíduos preferem arcar com os custos e passear com a família). Essa parte da população, portanto, acaba constituindo um bloco que precisa ser “seduzido” a mudar de ideia. Um fator para prestar atenção é se as recentes denúncias contra o PT podem motivar essas pessoas a votarem contra a Dilma (uma aposta arriscada, já que existe uma grande possibilidade de ninguém mais dar a mínima importância para esses escândalos ou “é tudo um bando de ladrão mesmo, não faz diferença, vou prá praia beber ceva”).

Outra questão é o quanto indivíduos associam os benefícios sociais ao PT. Na formulazinha do Downs, isso entra nas vantagens econômicas de votar. Lembram quando o Lula olhou para o Alckmin no debate em 2006 e disse para a câmera “olha, o Alckmin quer tirar comida da tua boca”? Pois é, ali ele tava jogando com essas “vantagens”. Se pessoas o suficiente pensarem que ao eleger Dilma elas mantém as vantagens econômicas adquiridas no governo Lula, a eleição é decidida no domingo. Se essas vantagens econômicas não forem associadas diretamente a Dilma (“ah, mas a Marina também vai manter, e ela é da religião, vou votar nela”) poderemos ter um segundo turno entre Dilma e Serra (duvido muito que Marina consiga ir para o segundo turno, no entanto, o que pode ser uma má notícia para quem quer a oposição no poder).

Mais do que nunca, a eleição tá na mão da relação entre vantagens e desvantagens materiais em votar. Isso é um fator relativamente novo no Brasil, já que as eleições de 1989 até 1997 sempre focaram na rejeição de um candidato. Agora, as razões parecem ser estritamente econômicas (claro, a economia sempre foi fundamental, especialmente na eleição do FHC, que conseguiu se associar diretamente com à conquista de uma estabilidade econômica no país e ao aumento das condições materiais de vida. “O brasileiro está comendo mais frango”, lembram? Mas ainda assim, FHC se segurou tanto na estabilidade econômica quanto na rejeição de Lula, que sempre foi alta). O fator novo é a baixa rejeição de todos candidatos e a centralidade do atual presidente para a campanha (a popularidade do Lula, de uma forma ou de outra, pautou a eleição). Por enquanto, não sei se ainda tem alguma chance do Serra virar e desconfio que havendo um segundo turno podemos ter um “efeito Alckmin”, onde o candidato consegue ter menos votos no segundo turno do que no primeiro.

Uma última coisa: democracia só é reduzida ao exercício do voto por motivos retóricos. Quem quer que seja eleito, as coisas não devem mudar muito no país – até porque nem um desastre de proporções cósmicas tira o Senado e a Câmara do domínio direto do PMDB. Esse papo de “festa da democracia” no ato do voto é bobagem. Votar no candidato “menos” pior ou no candidato “mais escandaloso” ou “mais pra esquerda” não muda muita coisa, e talvez isso seja um motivo para a gente comemorar a entrada do Brasil no time das democracias “maduras”. Por outro lado, não dá para saber exatamente o que tá em jogo nessa eleição (e os últimos eventos no Equador podem servir como lembrete da facilidade com a qual voltamos para o status de uma república de bananas). Mas isso não é decidido só na hora de colocar o voto na urna, e associar política apenas com esse ato indica o quanto a gente ainda tem que amadurecer.

Morrendo na América

Fabricio Pontin | Estados Unidos 18:30 | 03/09/2010

Em Junho recebi da secretaria para alunos internacionais aqui do departamento um pedido de ajuda para uma aluna estrangeira. A aluna, no caso, estava com câncer e precisava de apoio financeiro para enfrentar a doença. Já tinha algum tempo que ela tinha recebido o diagnóstico e ela tava brigando para conseguir algum tipo de cobertura no sistema de saúde local.

Acontece que o plano de saúde obrigatório que a faculdade oferece para os alunos tem uma cobertura ambulatorial bastante restrita. Na realidade, ela cobre cerca de 70% das despesas médicas ambulatoriais, e deixa o aluno na mão com os custos de exames extras, tratamentos excepcionais e a temida ‘condição prévia’. A condição prévia é uma cláusula no contrato com o plano de saúde dizendo que eles não são responsáveis pela cobertura de doenças crônicas ou hereditárias já presentes no momento da assinatura do plano. No caso dessas doenças, portanto, você tem o atendimento emergencial, mas tá sozinho no atendimento ambulatorial.

Por exemplo: digamos que você quebra o dente jogando futebol. O plano garante que você vai chegar no hospital e ter um remendo feito no dente, mas não garante nada além disso. Fica sob a responsabilidade do aluno o pagamento dos remédios para dor, da anestesia geral e mesmo de uma eventual prótese. Mesma coisa se você quebra uma perna.

No caso de câncer, o furo é ainda mais embaixo. Muitos planos tem uma clausula de exclusão de cobertura, ou seja, tem que comprar separadamente a cobertura para câncer. Enquanto aluno internacional, é bem possível que o plano de saúde desconsidere o perfil do aluno (falido, estrangeiro) e negue cobertura.

Foi o caso dessa moça. Aluna internacional, sem visto permanente e com apenas o plano de saúde da universidade. Quando a gente chega aqui, o pessoal orienta que se procure outros planos. Mas esquecem de mencionar que para contratar um plano de saúde privado é necessária uma história de crédito constituída e uma conta bancária ativa. A maioria dos alunos internacionais não tem condições, com bolsas que variam entre $700 e $1800, de 1) constituir uma história de crédito e 2) ter uma conta que não viva no vermelho. Já que conseguir um empréstimo é impossível, resta ao aluno internacional com uma doença crônica a dependência da caridade alheia.

Americanos adoram doar dinheiro. Se for para alguém de um país pobre, oprimido e com uma religião exótica, mais ainda. Acontece que doações são troco para o tipo de gasto relacionado com um câncer. Mesmo mobilizando a faculdade inteira para conseguir doações, a menina conseguiu impressionantes $1800, que ela usou para voltar para a Malásia e morrer junto da família.

Não sei se isso é melhor ou pior do que morrer na fila do SUS. Mas o interessante é pensar que as pessoas ficam doentes e morrem sem sequer passar pela consideração de algum cuidado médico. No entanto, preciso dizer que toda vez que eu precisei de cuidados médicos aqui (e paguei – caro – por isso), o serviço prestado foi absolutamente primoroso.

E o Obamacare? Antes de mais nada, vale lembrar que o plano ainda está na fase de implementação e que mesmo quando for totalmente ativo (em dois anos), não vai cobrir imigrantes sem green card. Ou seja, para os alunos internacionais a situação permanece a mesma.

O papo que rola entre os alunos é o seguinte: não fique doente. Tenha um plano de saúde no seu país de origem e a grana para a passagem de volta pronta, caso tenha uma emergência.

Um desastre ecológico e econômico

Fabricio Pontin | Estados Unidos 18:00 | 01/05/2010


é bem pior do que parece

Vou tentar fazer uma cronologia do que aconteceu:

Dia vinte de março houve um incêndio na plataforma de exploração de óleo da Transocean, atualmente administrada pela BP, uma das maiores empresas de energia dos Estados Unidos. Esse incêndio, inicialmente, causou uma comoção geral pela morte de 11 operários.

Subsequentemente, começam os boatos sobre um potencial desastre ecológico. A plataforma estava obtendo algo como 8000 galões de óleo por dia e tinha 700.000 galões de Diesel na locação (para referência, um galão equivale a mais ou menos quatro litros).  Gradualmente, começam a falar sobre um vazamento, que seria facilmente controlado.

Entre os dias 24 e 26 de Março isso se mantém como a “posição oficial” da BP. Até que dia 27 tudo começa a dar errado. Alguém sugere botar fogo no óleo, o que prova ser uma ideia idiota. Enquanto isso, congressistas começam a fazer perguntas desagradáveis para a BP, tipo: “vocês podiam mesmo explorar óleo nesta região?”, “o risco desta naba já era bem claro, e vocês continuaram mesmo assim?”

Dia 28 a coisa atinge níveis apocalípticos para a região. O vazamento, inicialmente de 1000 galões/dia, é corrigido para 5000 galões/dia, e a BP admite que não consegue achar uma forma de parar o vazamento de material: ou seja, a mancha de óleo está fora de controle e ainda por cima está aumentando de tamanho.

Dia 29 o Obama faz uma declaração dizendo que 1) o governo vai mobilizar até o exército para tentar controlar a coisa e 2) a BP vai pagar pelos custos da bagaceirada.

Entre ontem e hoje a imprensa tem focado nas consequências desse vazamento para a região do Golfo do México, que já é a região mais pobre dos Estados Unidos. A consequência econômica do acidente é dramática: algumas regiões podem ter que ficar até 4 anos sem poder explorar a costa – inclusive para pesca. Em estados como Mississipi e Louisiana isso é mais um prego no caixão de uma economia que ainda não se recuperou do Katrina.

Do ponto de vista ecológico, a coisa não é nem um pouco mais animadora. O vazamento afeta o habitat de diversas espécies, algumas já ameaçadas de extinção. O golfo do méxico se beneficia muito de um tipo de turismo ecológico que pode ser diretamente afetado por este evento.

Enquanto a BP e a Transocean ficam brincando de transferir a culpa do vazamento, o governo federal é testado na resposta a um desastre ecológico com uma repercussão econômica enorme. O Obama deve ir para o sul ainda no final de semana para verificar a situação em pessoa.

Esse vazamento também retoma a discussão sobre a exploração de petróleo em alto-mar (off-shore drilling). Isso foi parte importante do debate sobre energia durante a campanha presidencial e o chefe do Republican National Committee (RNC, algo como o presidente do partido), Michael Steele, imortalizou a frase chefe da campanha na última reunião do partido:


Perfure, meu bem, perfure!

Já tem muito cronista por aqui gritando que tinham prometido que a exploração de óleo em alto mar era 100% segura e certamente não vai faltar gente dizendo que isso não prova coisa alguma e é um incidente isolado.

Como sempre, agora é esperar para ver como isso vai evoluir. Uma coisa é certa: os estados que ficam na costa do Golfo do México não vão conseguir se levantar sozinhos dessa história, e em tempos de vacas magras na economia isso pode significar um empobrecimento ainda maior da região.

Fazendo sentido da reforma da saúde

Fabricio Pontin | Estados Unidos 15:00 | 15/03/2010

Se tem um ponto de compreensão quase impossível no atual cenário político aqui nos Estados Unidos é o tal do Health Care Reform. O Washington Post, que ano passado virou o melhor jornal do país, tem toda uma sessão dedicada para elucidar pontos do debate. Uma grande parte da discussão aqui é o quanto as pessoas sabem sobre a proposta e o quanto todo o ruído (dos dois lados) não tá fazendo um trabalho de desinformação.

Antes de mais nada, vou tentar explicar brevemente como funciona o sistema de saúde aqui. Para início de conversa, não existe um plano federal de saúde universal. Isso significa que se tu cruza a fronteira entre Illinois e Missouri tu vais estar exposto a um plano diferente, a um tipo de proteção diferente – e legislação sobre os planos privados, também Portanto, muitas vezes ao mudar de um estado para outro tu podes perder proteção – porque teu plano privado não tem cobertura, ou porque tu estavas em um lugar com um plano público muito bom (tipo MA) e foi para um lugar com um plano público inexistente (tipo TN). Então tu precisas comprar bônus para cobertura ampla, ou te informar se teu plano privado oferece uma cobertura para além do Estado onde tu moras. Do contrário, tu te arrisca a ir parar em uma emergência sem um plano que te garanta cobertura.

O que acontece? Bom, depende. Não é tão horrível quanto o que o Michael Moore te contou no SICKO, mas é bem perto daquilo. No geral o que acontece é que o pessoal chega no hospital, recebe tratamento e depois recebe uma agradável conta pela a prestação de serviços. Muitas vezes tu chega no hospital acreditando ter cobertura, passa do atendimento de emergência para o ambulatorial e percebe com alegria que na realidade teu plano não tinha cobertura ambulatorial adequada e agora tu vais ter que pagar pelo atendimento. Ou pior: teu plano só tinha cobertura de consulta, não tinha cobertura de emergência! É normal tu teres um plano que cobre 80% das despesas ambulatoriais e 100% das de emergência no papel, só que na letra pequena tu percebe as condições de cobertura e tu vais ver que eles não cobrem no caso de “condição prévia” – ou seja, se tu tens uma condição crônica é possível que teu plano alegue que não vai cobrir aquele procedimento, já que ele é prévio a tua assinatura do contrato.

Pior ainda: é comum tu teres uma cobertura emergencial garantida, mas não conseguir suportar o impacto do tratamento completo – pode ser pela tua incapacidade de pagar sozinho pelo tratamento, ou pela negativa de cobertura do teu plano privado (que tu pensavas que ia te ajudar). Aí é o caso que tu vai ver gente extraindo o próprio dente por não conseguir pagar o procedimento de tratamento de canal, ou estrangeiros viajando de volta ao país de origem para fazer um determinado procedimento. Em caso de lesão muscular isso é especialmente comum: o cara consegue o tratamento de emergência para um braço quebrado, mas todo o resto do tratamento muitas vezes não é sequer suportado pelo seguro. Pior ainda: se tu não tens um plano de saúde e chegar em um hospital com o braço quebrado, eles podem até te dar um tratamento emergencial, mas vão te cobrar por isso.

O que acontece então é que se torna normal tu adquirir uma dívida pesada para conseguir um tratamento. No geral, a dica é “não fique doente!” e como todo mundo fica com medo de ir para o hospital (já que tu podes ter uma surpresa desagradável), a tendência é o pessoal se auto-medicar. Daí tu crias uma industria de medicamentos que tu compras no balcão para tentar resolver uma situação que precisaria de ajuda médica. Consequentemente, as pessoas ficam doentes por mais tempo e ainda arrumam um problema de dependência química. Ou pior: arrumam receitas fraudulentas – ou roubadas – para comprar uma determinada droga.

De novo, este cenário é mais comum na medida que o Estado te oferece menos benefícios, e o Medicare, junto com o Medicaid, tenta dar uma aliviada nesta situação ao oferecer um valor mínimo de cobertura. Mas o Medicare funciona como um plano privado administrado pelo Estado. Tu pagas pelo Medicare individualmente, ou contrata uma empresa privada para manejar o Medicare para ti. O Medicaid funciona como uma espécie de “auxílio farmácia”, tu pode apelar para descontos em medicamentos genéricos ou pedir para as farmacêuticas te cederem alguns medicamentos específicos (boa sorte!).

Ou seja, os Estados Unidos não têm um plano público de saúde. Não vem me dizer que o Medicare é um plano público, não é. Também não vem me dizer que a reforma não tem apoio público. A coisa não é assim tão simples, basta dar uma olhada nos números.

Em termos brutos, 45% da população diria para o seu congressista votar a favor do plano. 48% votaria contrário. A princípio, então, a balança pesa contra o plano público, pois os americanos são individualistas, não gostam de governo e não se importam com a saúde alheia, certo?

Não, completamente errado.

O Wordle, que é uma ferramenta que calcula a densidade de uso de determinadas palavras em uma pesquisa, mapeou a frequencia dos termos usados por pessoas que apoiam e pessoas contrárias ao atual plano.

Pessoas que apoiam o plano destacaram as seguintes palavras:
Wordle: healthcare

Destacam-se aí “povo”, “necessidade”, “bancar”, “seguro”.

E as pessoas que não querem o plano?
Wordle: healthcarebad
Destacam-se aí “governo”, “custo”, “povo”, seguro”

Talvez tu ainda queiras assumir este debate em termos de individuo contra governo. Tudo bem, até aqui o debate denota uma tensão entre o custo de deixar a saúde pública na mão do governo e o custo de não ter um gerênciamento público da saúde pública. No fim das contas, tu podes apontar para pessoas que de um lado perguntam “Como o governo vai gerenciar isso sem quebrar o país no processo?” (o valor principal fica em CUSTO DO GOVERNO) e do outro perguntam “Como é que eu vou fazer para pagar por um plano de saúde privado nesta economia?” (o valor principal fica em NECESSITO UM SEGURO).

Mas estas são as respostas imediatas ao plano de saúde e elas respondem nos termos utilizados tanto pela bancada que apoia quanto a que contraria a medida. Ou seja: estas são respostas mal informadas.

Como assim?

Vamos pegar a resposta de indivíduos quanto as propostas do Obamacare, uma por uma:

A primeira coluna marca o coeficiente de favorabilidade, pensem em “zero” como neutro, 50 como muito favorável, 100 como totalmente favorável, -50 como muito contrário e -100 como totalmente contrário. Uma forma simples de ver isso é pelas cores: quanto mais verde, mais favorável é a percepção da reforma. Quanto mais vermelho, mais negativa.

A segunda coluna é o porcentual bruto de “awareness” (traduzi como “ciência”, poderia ser “informação”) sobre aquela determinada medida no plano de saúde do Obama. Onde o espaço está em branco, o percentual é o mesmo do anterior.
(traduzi a tabela do Nate Silver, aqui)



Tu aindas estas inclinado a ver isso como um problema com o papel do governo na saúde pública?

Vamos focar no aspecto técnico e cruzar os dados: o maior negativo bruto é o -32 para o débito público de 320 bilhões de dólares, -40 a obrigação individual de adquirir um plano de saúde e -17 para o adiamento da eficácia da medida até 2013. Só que o débito público é algo que as pessoas entendem .63% das pessoas que responderam a pesquisa sabem deste custo, porque é este custo que elas escutam o Glenn Beck propagandear na Fox. Por outro lado, entender que o plano pode diminuir o déficit público no longo prazo, através de uma regulação mais rigorosa dos planos privados e da garantia de saúde pública mínima para indivíduos é um pouco mais difícil – sobretudo pela confusão das medidas que vivem entrando e saindo do plano. Daí que apenas 48% sabem que a medida reduz o déficit, 44% sabem que a medida melhora a cobertura do Medicare e 58% sabem que ela permite a troca de plano.

Se tu colocares isso em perspectiva, tu vais perceber que os 48% que colocaram GOVERNO e CUSTO como prioridade estão associando a perda de segurança econômica individual com este rombo que o plano de saúde proposto pelo Obama vai causar enquanto é implementado. Eles também colocam este custo como algo que eles valorizam MUITO NEGATIVAMENTE (-37 na média , tu podes tentar brincar um pouco aqui e colocar a média específica dos republicanos em -67 e ver o que acontece com a possibilidade deles apoiarem este plano).

Só que a escolha deste republicano é completamente irracional – nos termos do próprio republicano, diga-se de passagem. Isso é porque a manutenção da atual configuração do sistema de saúde norte-americano (i.e.: inexistente) contribui para o aumento do déficit público, enquanto os custos da implementação do novo sistema vão diminuir o déficit público no longo prazo.

Ou seja, se o republicano ao ser informado (e temos motivos para acreditar que ele não está informado sobre isso) da relação custo-benefício do novo plano se manter irredutível na sua posição contrária ao plano, então podemos dizer que na verdade ele não valoriza “GOVERNO” e “CUSTO” na forma como ele havia denotado antes. Mas não temos motivos para pensar que ele ficaria nesta posição, até porque a tabelinha ali em cima coloca claramente um apoio (+22, algo como “acho bonzinho”) geral as medidas propostas (isso computando a rejeição notável ao custo).



Como justificar então que a proposta não passe?

Parece claro que a questão é o nível de informação dos constituintes, que estão pressionando seus respectivos congressistas para votar contra a medida, não está no melhor interesse dos constituintes – ou seja, eles estão pedindo para os congressistas votarem contra medidas que na realidade eles apoiam!.

Daí a iniciativa do Obama em chamar uma reunião pública para esclarecer os termos do novo plano de saúde, e tentar mudar o cenário de desinformação generalizada. Uns dez dias atrás a Casa Branca chamou os Republicanos para um debate na C-Span (algo como a TV Senado daqui). Está no youtube, na integra:

Só que ninguém assiste a C-Span. Então o público em geral ficou sabendo do debate pela edição na Fox, na MSNBC e na CNN junto com uma meia dúzia de especialistas comentando cada frase solta de cada membro do comitê. Ou seja: em coisa de dois dias a coisa voltou para o ponto anterior, e agora medidas voltam a ser colocadas para dentro ou fora do plano na esperança de fazer algum plano de saúde passar antes das eleições para o congresso.

Tem duas coisas para manter em mente aqui: a avaliação geral do Obama ainda é positiva. Ou seja, quando o Obama empresta um pouco do carisma pessoal à medida, ele pode fazer a diferença nas pessoas que estão pressionando os seus congressistas a votarem contra a medida (inclusive democratas que acreditam que o plano, na realidade, traz excessivos benefícios para as empresas privadas). Por outro lado, a constante mudança no texto da legislação não vai ajudar na capacidade do eleitor em entender o que diabos está acontecendo – o que diminui o tempo de barganha disponível para definir o texto desta legislação de uma vez por todas.

O Robert Gibbs, atual líder dos Democratas no congresso, aposta que a reforma passa esta semana. Na Talking Points Memo, abriram agora uma “contagem regressiva” para a reforma. Se isso acontecer, será em grande parte devido a injeção de nitroglicerina que o Obama providenciou semana passada. No entanto, é possível fazer uma relação direta entre a perda de popularidade do Obama e a dificuldade em passar legislação em um congresso e um senado ainda dominado por Democratas. Se esta legislação não passar na próxima semana, é seguro apostar em um início de padrão negativo para a popularidade do presidente – o que certamente não vai ajudar na próxima eleição para o congresso, que já promete ser complicada de qualquer forma.

A classe estudantil vai ao paraíso

Fabricio Pontin | Estados Unidos 23:47 | 04/03/2010

Hoje os estudantes na Califórnia organizaram um protesto contra o aumento das tuitions e custos das universidades públicas. O protesto ficou viral e em pouco tempo várias universidades públicas nos Estados Unidos começaram a ver seus respectivos estudantes organizando protestos e passeatas para demonstrar descontentamento com as políticas públicas.

Pois bem, a idéia é protestar os cortes em duas frentes: o ensino de forma geral, e o ensino superior – de forma especifica. Mas antes alguns esclarescimentos sobre a parte do ensino superior.

Não existe educação pública superior gratuíta nos Estados Unidos. Quero dizer, mesmo universidade públicas são pagas. Elas dependem deste pagamento para o auto-custeio, especialmente em estados falidos (tipo Illinois, Califórnia, Colorado e Texas) que não conseguem repassar os valores que normalmente são destinados para o ensino superior. Então a situação fica complicada, especialmente para as faculdades conseguirem prover as chamadas “waivers” para os alunos que não conseguem pagar os custos da matrícula e dos valores semestrais de taxas e créditos. Mais ainda, bolsas de estudos são canceladas e a pesquisa universitária sofre. Claro, ela sofre na seguinte ordem:

1) Departamentos de Filosofia e Arte perdem dinheiro
2) Os outros departamentos das humanas perdem dinheiro
3) Os departamentos das biológicas (menos medicina) perdem dinheiro
4) Os departamentos de comunicação e humanas aplicadas (menos direito) perdem dinheiro

Os departamentos de coisas que podem dar dinheiro (patentes, livros, armas) geralmente não perdem recursos, alguns laboratórios específicos até podem fechar ou perder financiamento. Mas, se existe a possibilidade do laboratório e/ou núcleo de pesquisa dar resultados materiais para a universidade, os bolsistas trabalhando neste laboratório/núcleo estão salvos – exceto nos casos mais extremos onde universidades fecham departamentos inteiros. Mas isso é incomum em universidades de porte maior que médio e com pesquisa de repercussão financeira positiva.

Entendido? Então o que a galera está reclamando?

A galera está reclamando que a faculdade está ficando mais cara e ficando mais inacessível. Então os alunos resolvem ir para a rua e fazer coisas como interromper o tráfego de carros em uma highway em Oakland para “create awareness” (desculpem, “chamar a atenção” simplesmente não comunica a ripongagem) sobre a situação dos pobres estudantes de nível superior. Pobrezinhos. Com seus i-pods, i-touchs, mochilas de marca, cameras de alta definição filmando a polícia brutal para botar tudo no youtube depois. Pobres, pobres estudantes!

É lógico, o foco do governo federal está na educação básica até ensino médio. Neste sentido, o protesto na Califórnia pode ganhar apoio, porque os cortes estão afetando o ensino básico-médio e criando uma re-segregação das escolas públicas. Até aí, o pessoal pode se comover com as demandas do “movimento”.

Mas vamos lá. Isso é simplesmente patético. “Ocupações” e coisas no estilo simplesmente não vão te garantir apoio, especialmente quando estudantes estão em situação privilegiada se comparada, por exemplo, com a “working class” de Michigan e mesmo Illinois. Uma das reclamações que ouvi hoje era de “sala de aulas com 40 alunos” e “professores sem auxiliares”. Puxa vida, mesmo? QUE PROBLEMA! Daí, o camarada da CNN pergunta para a líder do movimento “Mas o que vocês sugerem?”, resposta: “Aumentar os impostos!”.

Pois bem. A Califórnia está com um problema de investimento. Por que? Porque é um dos estados mais taxados na federação. Altos impostos vão fazer o pessoal que investe (e doa! acreditem! doa!) no ensino superior ir para, digamos, Utah ou Nevada. Também não ajuda que a Califórnia (e boa parte dos estados em crise) arrecada um bocado e gasta mal para caramba. Isso tá criando um certo… êxodo fiscal .

Então, se a tua solução é “aumentar os impostos”, talvez tu deva te acostumar com sala com (oh deus!) quarenta alunos e com menos recurso para pesquisas sobre “Simulacro e Representação no cinema de Woody Allen”. Afinal de contas, chega uma hora que simplesmente dizer “chega de cortes” fica parecendo “abaixo a lei da gravidade”, especialmente se um monte de alunos de ensino superior não consegue pensar em nada melhor do que “aumentar os impostos” para solucionar o custeio de algo que muitas vezes eles mal conseguem justificar.

Categoria(s):  EUA
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