“Apenas que… busquem conhecimento”

Leandro Demori | Itália 10:02 | 16/10/2010

A essa hora todo mundo já conhece Bilu, o ET entrevistado pela TV Record no domingo passado e que se tornou a celebridade do momento na internet (já havia sido entrevistado pelo SBT). Bilu, além de ET e celebridade, tem uma vantagem em relação a Michael Jackson: é alfabetizado em português brasileiro. O domínio do idioma por Bilu é uma prova de nossa força como nação emergente para além da camada de ozônio.

Em Nova York, Paris ou Roma, as lojas já começam a contratar atendentes que falem a nossa língua. Agora sabemos que nosso capitalismo pode verdadeiramente dominar o cosmos, com uma legião de Bilus espalhados pelas galáxias usando bermudão e sandálias Havaianas e arrancando pedaços dos planetas para levar de lembrança.

Bilu é um ET acanhado, não gosta de ficar dando uma de superpoderosão. No vídeo levado ao ar pela Record ele mal aparece; se limita a fazer algumas traquinagens com sua luz interior. Em certo momento, quando mal e mal dá para ver o que seria seu ‘rosto’, a impressão que se tem é de que ele usa uma máscara do Jiraya. E Bilu tem mesmo a panca de ninja do personagem do seriado japonês: lá pelas tantas, dá um pulo ágil em meio à vegetação antes de mergulhar novamente na mata. A luz, a máscara e o pulo ninja parecem ter aterrorizado o repórter, que pediu para que Bilu “não o tocasse”.

Bilu, o ET que fala português PT-br, tem uma voz quase infantil, um fiozinho de nada. É como se Tiririca respirasse um balão de gás hélio. Que gás Bilu respiraria? Aliás: Bilu precisa respirar? O terror da equipe de reportagem foi tamanho que eles fracassaram em desvendar os negros mistérios que envolvem o nosso Michael Jackson do coqueiral.

Os curadores de Bilu no nosso planeta dizem que corremos um grande risco (nós, raça humana) e que Bilu está aqui para nos proteger. Não dizem que ameaça seria essa, mas desconfio que eles estejam se referindo aos candidatos à Presidência da República.

Ao ser perguntado, ao fim da filmagem, que conselho daria para a humanidade, Bilu foi sucinto: “Apenas que… busquem conhecimento”. Olhando para os olhos de Serra e Dilma, sugiro buscar o coqueiral mais próximo.

Gerador automático de frases do tucano anti-petista raivoso

Leandro Demori | Itália 09:30 | 15/10/2010

Aproveitando que a militâm$ia petistoide parece ter acordado pra vida nesse segundo turno, este Braziu republica nosso fantá$tico e €xclusivo “Gerador de frases do tucano anti-petista raivoso”. O funcionamento (simples) foi feito pensando em quem estuda em escola públicagratuitaedequalidade: tasca-lhe infinitamente F5 (também conhecido como “reload” ou “recarregar”) para obter uma nova e deliciosa sentença. Esperamos que as frases elevadas inspirem o dilmismo a esmagar essa gente boba, feia e direitosa que defende união civil de homossexuais e descriminalização da maconha. Aleluia, irmãos!

Os nossos muçulmanos estão certos

Leandro Demori | Itália 09:43 | 13/10/2010

Leandro viaja pelo mundo cobrindo guerras. Leandro não sou eu, é um outro. Quando esteve no Líbano pouco antes da invasão de 2006, fez o que frequentemente faz quando viaja: foi a uma escola conversar com crianças sobre religiões, Ocidente e Oriente Médio. Antes de começar a falar, Leandro sempre pede que as crianças escrevam em um papel uma resposta simples à pergunta “Quem você é?”. Recolhe todos os bilhetinhos e lê as respostas somente no final da lição — quando então pede para que as crianças confirmem a resposta, ou a mudem.

A coisa que mais chama sua atenção quando viaja a lugares como o Líbano é o padrão das respostas. Ao ouvirem a pergunta “quem você é?”, a maior parte das crianças desses países respondem em uma só palavra: “muçulmano”. Nenhuma criança responde “cristão” quando Leandro faz a mesma brincadeira em território ocidental; preferem dizer que são “filhos de alguém”, “estudantes” ou “jogadores de algum time de futebol”.

No Brasil de hoje, mais de 30 milhões de pessoas se declaram “evangélicos”. Evangélicos, sobretudo os neopentecostais, são os nossos muçulmanos. Não existe ‘evangélico não-praticante’, modalidade criada por cristãos apostólicos romanos para ficar de bem com o cara lá de cima ao mesmo tempo em que batem a carteira de alguém aqui em baixo.

Os ‘nossos muçulmanos’ são, além de numerosos, ativos em todas as camadas da sociedade. Esse ‘tipo de religião’ não é ‘coisa de pobre’, como a imagem estereotipada e já desgastada pelo tempo que nos acostumamos a ver. É um grupo heterogêneo, de poder aquisitivo crescente e espalhado pelo país.

Os evangélicos, em regra, são contra o aborto, e têm todo o direito de defender essa trincheira. Seus generais, os pastores, estão guiando as tropas contra qualquer projeto que permita alargar a lei atual. Gente como Silas Malafaia está em sintonia com seu povo, mas não somente com ele: apenas 7% dos brasileiros acreditam que a prática deva deixar de ser punida pela lei.

Brasileiros não são ‘conservadores’ (no sentido de ‘retrógrados’); na mesma pesquisa, 7 em cada 10 declara que a legislação deve ficar como está — e a legislação permite o procedimento para fetos que ponham em risco a vida da mãe ou em casos de estupro. Considero a legislação brasileira sobre o tema uma das melhores do mundo. Mesmo sendo contra o aborto por motivos pessoais, não sou a favor de levar aos tribunais mulheres que o praticarem nessas duas circunstâncias.

Repare que há diferenças fundamentais entre ser ‘contra o aborto’ e a favor da ‘criminalização’. Você pode ser contra o ato de abortar, como eu, e acreditar que a prática é um crime em qualquer circunstância, por exemplo; ou ser contra mas defender o direito de toda mulher poder abortar até os três meses de gravidez sem sanções penais. Uma coisa não está ligada a outra.

Os motivos eleitoreiros pelos quais o assunto ganhou os holofotes são do jogo, e o jogo foi, é e sempre será esse. Política nos moldes democráticos e representativos é a arte da garganta pura e simples (e que vença o menos pior). Nem por isso os candidatos podem achar justo se esquivar da conversa porque ela foi puxada pelo mais bêbado da mesa. In vino veritas.

Argumentar que vivemos em um Estado laico para dizer que os religiosos estão errados em defender suas ideias é, veja só, errado. A separação entre Estado e Igreja no Ocidente teve sua pá de cal com a unificação italiana e todo mundo do lado de cá do planeta parece ter entendido bem o recado. Tanto que os pastores não estão postulando que o Estado emposse um bispo como chefe da nação — estão defendendo sua ética de comunidade com pressões no Executivo e Legislativo, democraticamente, assim como fazem as bancadas das armas, dos ruralistas, dos sindicalistas, dos direitos humanos, dos GLS, dos…

O laicismo não excomunga Deus da vida social, apenas o põe em seu lugar, mantendo sua voz e seu direito de defender dogmas que para nós, ateus, são muito similares a historinhas de gnomos e potes de ouro no fim do arco-íris. O bom da religião é que ela abre precedentes para que eu possa acreditar em todas as lendas cantadas nas músicas do Black Sabbath, Iron Maiden ou Pink Floyd, no que agradeço imensamente e de coração.

Na Itália, a pressão política da poderosa Igreja nem sempre traz resultados. Aqui, o aborto é consentido na rede pública até o terceiro mês de gravidez, apoiado em uma lei aprovada em 1978 e que passou por um histórico plebiscito popular em 1981, quando 68% dos italianos disseram ‘sim’ à prática, ferindo gravemente o coração do Vaticano. A pílula do dia seguinte, apesar de todos os protestos do mundo católico, começou a ser distribuída neste ano.

Em Roma, não se caminha 200 metros sem passar por uma propriedade da Santa Sé, representada por seu escudo. Nem por isso, Roma — e a Itália — são uma ‘teocracia’. Evite a retórica do desespero e pare de acreditar que algum bispo de voz rouca e gel no cabelo dará um golpe de Estado. Caso se torne presidente por meio do voto em um futuro não muito distante haverá pouco para chorar; as regras do jogo estão aí para todos, inclusive pro pessoal que acredita em duendes.

Dom Pedro Segundo entrevista: Deus

Leandro Demori | Itália 09:11 | 11/10/2010

Apelo divino

Mario Camera | França 09:33 | 08/10/2010
A desfaçatez dos candidatos que sobraram nesta reta final da campanha pela presidência da República já não parece chocar mais ninguém. Com o palhaço oficial já vitorioso e recolhido para aprender o be-á-bá antes da prova final, os holofotes do circo podem jogar luz sobre os dois únicos protagonistas no picadeiro. Serra e Dilma podem brilhar sozinhos, sem precisar dividir espaço com ninguém. No entanto, ambos são conscientes da mediocridade de suas campanhas, do constrangimento que seus sorrisos falsos e amarelados causam ao público e da sensação de vazio a que leva o debate de seus projetos mal explicados. Diante de um quadro onde reina a total falta de confiança nos próprios ideais (isso existe?), os dois decidiram apelar para um convidado especial, numa tentativa de evitar uma debandada dos espectadores. Respeitável público, queira dar as boas vindas a Deus!

A entrada de Deus no debate político aumenta as chances de atrair de volta a atenção do eleitor médio e entediado para o centro do picadeiro político. Chega de Serra e Dilma fingirem passes de mágica ultrapassados, tirando milhões de empregos da cartola e fazendo desaparecer todos os problemas do país com um toque de varinha mágica. Se o convidado especial tem o poder de lançar pragas ou te mandar pro inferno, porque deixar o espetáculo da democracia nas mãos de dois cidadãos comuns e sem graça nenhuma? O povo quer sangue e sexo! Ou sexo misturado com sangue. Tanto faz. Como tanto faz o fato de Serra e Dilma entrarem em igreja ou templo somente para casamento ou missas de sétimo dia. Ninguém está ligando pra isso. O importante é defender os valores cristãos diante da sociedade, é dizer “não ao aborto” e “sim ao direito à vida”.

A impossibilidade de uma candidatura divina à presidência (não existe foto de Deus para colocar na urna eleitoral, além disso, pelo que ouvi, Ele é monarquista) relegou aos dois candidatos oficiais a responsabilidade de ser porta-voz do projeto comum de “direito à vida” outorgado pelo Todo Poderoso.

Quem está ligando para os já tão batidos problemas básicos de saúde, saneamento, violência, educação e corrupção que continuam sendo um freio para o desenvolvimento da sociedade brasileira? A moda agora é falar de aborto! Deus não tá nem aí se você morre de fome ou de hepatite na fila do SUS. O que ele não perdoa é a sua filha de 14 anos abortar um feto que ela não poderá criar, deixando, assim, de perpetuar a sua miséria. Não, meu caro, a coisa aqui é séria. Levante você também a bunda do sofá, desligue a TV de plasma comprada em 36 parcelas e saia por aí defendendo a vida, que, por sinal, não é a sua… “Graças a Deus”.

Cobertura da apuração de votos | Eleições 2010 | Primeiro turno

Leandro Demori | Itália 16:55 | 03/10/2010

Por que votar?

Fabricio Pontin | Estados Unidos 16:44 | 02/10/2010

O Demori já colocou alguns argumentos dele aqui, mas eu queria deslocar a discussão um pouco. Eu não quero perguntar para vocês por que não votar, mas quero perguntar por que diabos alguém se dá o trabalho de levantar a bunda da cadeira e ir votar, tendo em vista que a possibilidade de fazer a diferença na eleição, ou, pior ainda, conseguir qualquer vantagem material no ato de votar, é próxima de zero (ou negativa).

A coleguinha ranhenta, ou, “a democracia não assoa o nariz”

Nesse domingo todo mundo que está no Braziu tem a obrigação cívica de ir votar. A tal da festa da democracia é uma festa organizada por uma menina remelenta que joga areia na tua cara segunda-feira se você não apareceu no domingo. Boa parte da população certamente preferia ir para a praia, passar a tarde com os filhos no parque ou ir para uma dungeon levar uns tapas da Sra. Pepperwhip do que ter que escolher entre o vampiro brasileiro, a caminhoneira da adamantium, a jardineira de Jesus e o vovô Simpson. Muita gente interpreta essa vontade de ir fazer alguma outra coisa como um desinteresse na classe política, uma alienação ou algum outro lugar comum daquele tipo que tu ouve teus coleguinhas de centro acadêmico repetindo para reclamar da falta de engajamento.

Na realidade, é espantoso que alguém se dê o trabalho de votar. Para início de conversa, o papo de que “todo voto importa” é de uma simplicidade argumentativa comovente. Não, não importa. A maior parte das eleições são disputadas entre dois candidatos com diferenças mínimas do ponto de vista ideológico, e a eleição de um ou de outro causa uma diferença mínima no governo futuro. Pensem na atual eleição no Brasil. O “coeficiente ideológico” (espaço para risos) entre os candidatos é tão pequeno que o último debate foi, de fato, uma disputa para ver quem se aproximaria mais de um governo do Lula, sem o Lula (percebam, estou colocando o Sr. Plínio como alívio cômico). Qualquer um procurando razões ideológicas para votar em x, y, z ou p saiu do último debate mais confuso do que entrou (e talvez deva revisar o universo, já que as ideologias deram tchau-tchau quando o muro de Berlim caiu).

Não vote

Em 1957 um economista norte-americano chamado Anthony Downs (Toni Downs, para os íntimos) escreveu um livrinho chamado uma teoria econômica da democracia. No livrinho, Downs desenvolve uma fórmula (na realidade, é um axioma, mas quero evitar falar difícil) para definir a racionalidade no ato de votar. É assim ó:

ff (p[VpX+{-VpY}]+[D-{C}])>0, then Vote.

onde

[Vpx+{-VpY}] é o índice de aprovação do voto em um indivíduo X comparado com o indíce de rejeição de um indíviduo Y. Chamarei este fator de pV daqui para frente.

D são os incentivos diretos e selectionados (sociais e econômicos) de votar (em geral, do ato de voto, não do voto em X ou Y e da rejeição de X ou Y, mas da implicação social de levantar a bunda da cadeira e ir votar)

C são os custos (sociais e econômicos) de votar, ou seja, as razões para ficar em casa.

Quando são somadas todas as variáveis e o valor é maior que zero, vai em frente e vota!

Traduzindo: eleitores que votam baseados em ideologia vão focar em pV. Para esses eleitores é realmente decisivo que o indivíduo X seja eleito e não Y. Inversamente, se eles não encontrarem motivos para votarem em X , eles simplesmente não irão comparecer às urnas. Isso pode ser decorrente de uma constatação de que muito embora o discurso ideológico seja ‘B” ou “C”, a prática é “A”, independentemente do discurso. Pode também ser decorrente de uma estagnação no discurso político que leva o indíviduo a não perceber qualquer valor distintivo na ideologia de X ou Y – isso pode ser bastante ilustrativo do cenário das eleições americanas, onde poucos eleitores se sentem motivados a irem votar por não verem grande diferença material entre as ideologias e práticas correntes de X ou Y: “it’s all smoke and mirrors” ou, “é muita semiótica” (cit Marlon, 2010 in conversa pessoal). Esse cenário de estagnação é um dos cenários mais desejáveis em termos democráticos.

Por quê? Porque ao contrário do que se pensa, ele não demonstra uma estagnação positiva, mas uma confiança no processo democrático. As pessoas podem votar, mas escolhem não votar por não sentirem uma diferença fundamental. O cenário atípico, aqui, implica em uma polarização radical dos indivíduos X contra Y. No cenário norte-americano, isso parece ter acontecido nas eleições de 2000 e 2004, no cenário brasileiro, isso claramente aconteceu em 1989, na França, o efeito Le Pen polarizou o eleitorado o suficiente para que individuos votassem em massa em Chirac, especialmente para evitar a eleição de Le Pen, que havia chegado no segundo turno devido à segmentação da esquerda francesa – e também pelo efeito ‘tanto faz’, que possibilitou que uma minoria de eleitores extremistas votassem em bloco, enquanto eleitores centrados votaram de forma segmentada ou ficaram em casa fumando.

Deixa eu dar um exemplo pessoal. Para mim, a próxima eleição no Brasil é optativa. Minha situação nos Estados Unidos me permite justificar o voto sem maiores problemas. Pois bem. Hoje, dadas as alternativas, eu prefiro o Serra. Mas vamos colocar isso em perspectiva, eu gosto do Serra só um pouco mais do que da Marina e um tantinho mais do que da Dilma. Eu realmente gosto muito mais do Serra do que do Ciro. Em termos racionais, os custos de ir até Chicago para votar, arriscar perder aula, perder tempo útil que posso gastar traduzindo e pesquisando, não justifica uma viagem desse tamanho. Agora, me pergunta de novo se eu iria até Chicago para votar no caso de ser uma eleição entre Marina ou Serra e o Ciro? Digamos, em um segundo turno entre Marina ou Serra e Ciro, eu vou até Chicago votar, porque não quero ter que olhar para minha sobrinha no futuro e ter que dizer que me omiti em uma eleição dessas. Esta eleição, como está, não me motiva em termos ideológicos ou pessoais a tirar minha bunda da cadeira (e percebam, minha justificativa para votar é completamente baseada na minha antipatia ao Ciro).

Pensando bem, melhor votar…

Gente que se comporta como eu acaba motivando os candidatos a jogarem com a polarização artificial do cenário, para motivar mais indivíduos movidos a ideologia a participarem da eleição (ou desmotivando a participação dos moderados), criando assim o efeito de “bloco” – política extremamente bem sucedida por Bush em 2004, que manejou o bloco conservador a votar com ele em massa, enquanto Kerry foi incapaz de motivar a base ideológica dos democratas o suficiente.

Socialmente, no entanto, verificamos uma pressão para o voto com base nos elementos D e C. Isso porque existe uma parte grande do eleitorado que não é motivada ideologicamente, mas por vantagens diretas no ato de votar. Os indivíduos moderados não procuram motivos ideológicos para o voto, mas vantagens em votar. Via de regra, esses indivíduos vão dizer “tanto faz”.

Daí a necessidade de incentivos materiais para tirar esses indivíduos da cadeira. Sejam eles através de campanhas (Rock the Vote!, por exemplo) ou de criação de mecanismos sociais de isolamento dos não-votantes: “a festa da democracia” ou “vote ou seja um alienado”. Outra forma de fazer isso é determinar a obrigatoriedade do voto, para obrigar os moderados a votarem – o que seria uma forma de evitar a influência direta de blocos. Nesse tipo de cenário, indivíduos votariam, simplesmente, por não gostarem das consequencias de não votar (tipo, pagar a multa), não pelas vantagens do ato de votar.

… no Tiririca!

Por isso que candidatos folclóricos fazem tanto sucesso no cenário brasileiro: Olívio Dutra, Sarah Palin e Garotinho são bons exemplos. Eles falam alto para certas bases ideológicas que vão votar sempre que estes indivíduos aparecerem. Isso é porque eles valorizam certos fatores de forma tão exacerbada, que os custos materiais de votar são obliterados pela vantagem pessoal “votei no meu camarada Olívio!”. Para as eleições de deputados, os candidatos folclóricos recebem mais votos porque o cara chega na urna sem saber o que diabos um deputado faz, como ele faz ou por que ele faz. Então vota no mais engraçado ou em alguém de quem ele “ouviu falar”.

Mas e a eleição de domingo com isso?

A eleição amanhã tem uma série de implicações relacionadas com o que eu escrevi aí em cima. Primeiro lugar, muitas pessoas irão para o litoral e “esquecerão” de votar. Aproveitar o feriado, para essas pessoas, é mais vantajoso do que votar (ainda que seja economicamente mais caro não votar, indivíduos preferem arcar com os custos e passear com a família). Essa parte da população, portanto, acaba constituindo um bloco que precisa ser “seduzido” a mudar de ideia. Um fator para prestar atenção é se as recentes denúncias contra o PT podem motivar essas pessoas a votarem contra a Dilma (uma aposta arriscada, já que existe uma grande possibilidade de ninguém mais dar a mínima importância para esses escândalos ou “é tudo um bando de ladrão mesmo, não faz diferença, vou prá praia beber ceva”).

Outra questão é o quanto indivíduos associam os benefícios sociais ao PT. Na formulazinha do Downs, isso entra nas vantagens econômicas de votar. Lembram quando o Lula olhou para o Alckmin no debate em 2006 e disse para a câmera “olha, o Alckmin quer tirar comida da tua boca”? Pois é, ali ele tava jogando com essas “vantagens”. Se pessoas o suficiente pensarem que ao eleger Dilma elas mantém as vantagens econômicas adquiridas no governo Lula, a eleição é decidida no domingo. Se essas vantagens econômicas não forem associadas diretamente a Dilma (“ah, mas a Marina também vai manter, e ela é da religião, vou votar nela”) poderemos ter um segundo turno entre Dilma e Serra (duvido muito que Marina consiga ir para o segundo turno, no entanto, o que pode ser uma má notícia para quem quer a oposição no poder).

Mais do que nunca, a eleição tá na mão da relação entre vantagens e desvantagens materiais em votar. Isso é um fator relativamente novo no Brasil, já que as eleições de 1989 até 1997 sempre focaram na rejeição de um candidato. Agora, as razões parecem ser estritamente econômicas (claro, a economia sempre foi fundamental, especialmente na eleição do FHC, que conseguiu se associar diretamente com à conquista de uma estabilidade econômica no país e ao aumento das condições materiais de vida. “O brasileiro está comendo mais frango”, lembram? Mas ainda assim, FHC se segurou tanto na estabilidade econômica quanto na rejeição de Lula, que sempre foi alta). O fator novo é a baixa rejeição de todos candidatos e a centralidade do atual presidente para a campanha (a popularidade do Lula, de uma forma ou de outra, pautou a eleição). Por enquanto, não sei se ainda tem alguma chance do Serra virar e desconfio que havendo um segundo turno podemos ter um “efeito Alckmin”, onde o candidato consegue ter menos votos no segundo turno do que no primeiro.

Uma última coisa: democracia só é reduzida ao exercício do voto por motivos retóricos. Quem quer que seja eleito, as coisas não devem mudar muito no país – até porque nem um desastre de proporções cósmicas tira o Senado e a Câmara do domínio direto do PMDB. Esse papo de “festa da democracia” no ato do voto é bobagem. Votar no candidato “menos” pior ou no candidato “mais escandaloso” ou “mais pra esquerda” não muda muita coisa, e talvez isso seja um motivo para a gente comemorar a entrada do Brasil no time das democracias “maduras”. Por outro lado, não dá para saber exatamente o que tá em jogo nessa eleição (e os últimos eventos no Equador podem servir como lembrete da facilidade com a qual voltamos para o status de uma república de bananas). Mas isso não é decidido só na hora de colocar o voto na urna, e associar política apenas com esse ato indica o quanto a gente ainda tem que amadurecer.

Estaremos ao vivo amanhã | Live blogging derradeiro das eleições | 17h

Leandro Demori | Itália 14:05 | 02/10/2010

As eleições estão para acabar, e somente José Serra (nem ele) acredita que não teremos a última etapa amanhã. Este Braziu estará ao vivo por volta das 17h para o live blogging derradeiro. Acompanhe a apuração conosco, único lugar onde a Fe$ta da D€mocracia não tem cerveja quente, mulher feia, homem barrigudo e sertanejo universitário. Ser obrigado a votar já é o bastante.

Live blogging | Debate entre os presidenciáveis | TV Globo

Leandro Demori | Itália 21:49 | 30/09/2010

Maior homem da república

Gabriel Brust | França 18:49 | 30/09/2010

$ila$ Malafaia, líder da Assembléia de Deus, é o nome da eleição nos últimos dias. No twitter, é o mais citado quando o assunto é política, ficando acima de qualquer um dos candidatos. O estopim foi a decisão de Malafaia de voltar atrás no apoio a Marina Silva, que pertence à mesma igreja. O ponto: aborto.

O home made abaixo é o petardo mais recente do pastor. As palavras de Malafaia neste vídeo, concorde-se ou não com ele, seja você a favor ou contra o aborto, seja você eleitor de Serra, Dilma ou Marina, são irretocáveis do ponto de vista de quem entendeu como funciona uma democracia e como funciona uma república. E como tem gente no Brasil que ainda não entendeu!

Cansei de ler esta semana ilustres imbecis apontando um suposto retrocesso na democracia brasileira por termos um pastor abrindo votos e influenciando a eleição. Trata-se exatamente do oposto: o fato de termos grupos religiosos — ou de qualquer outro tipo — que buscam eleger candidatos que defendem bandeiras compatíveis com seus princípios é mais do que legítimo. Se eles buscarem isso por vias institucionais, provocarão, no mínimo, um bom debate. Se há algum retrocesso é termos duas candidaturas, entre as três que lideram as pesquisas, que não se posicionam sobre o tema. Marina defende um plebiscito, e Dilma há poucos dias resolveu dizer que é contra — depois de passar anos dizendo que era a favor. Democracia saudável é aquela em as que partidos e candidaturas se posicionam. Depois disso, vote neles quem quiser.

Particularmente, sou a favor do aborto — discordo de Malafaia e da candidatura do PSDB neste ponto. É uma das poucas questões em que fecho com Dilma e com o PT. Mas o PT não me dá nem a oportunidade de concordar com ele: passou 20 anos defendendo uma coisa e, na eleição, mente que é contra o aborto. Até nisso! Daí fica difícil, cumpanherada… Malafaia nelle$!

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