“Grita o quanto quiser/Nada com as baleias/Grita sem suplicar/Voa com as mariposas”

Leandro Demori | Itália 16:18 | 03/08/2010

Itália pode ter primeiro premiê gay de sua história

LEANDRO DEMORI
Direto de Roma

“Grita o quanto quiser
Nada com as baleias
Grita sem suplicar
Voa com as mariposas”

“A mesma mão que em um dia qualquer no final dos anos 1990 rabiscou esses versos – impressos no livro de poesias “Ultimo Mare” (Último Mar), lançado em 2006 – poderá assinar decretos ministeriais em um futuro próximo na Itália. Navegando no mar impreciso dos últimos acontecimentos da política nacional, um personagem atípico se apresenta como possível sucessor de Silvio Berlusconi caso o país tenha eleições antecipadas por uma eventual queda do governo: Nichi Vendola, governador da região Apúlia, homossexual e ativista pró-direitos civis, é nome cada vez mais forte nas recentes sondagens feitas entre os eleitores.

A coalizão liderada por Silvio Berlusconi perdeu sustentação no Congresso por conta dos desentendimentos com Gianfranco Fini, co-fundador, juntamente com o primeiro-ministro, do partido Povo da Liberdade (PDL). Fini, que levou consigo cerca de 50 parlamentares do PDL, pode ajudar a oposição de centro-esquerda a derrubar o governo. No parlamentarismo italiano, o “voto de confiança” pode ser apreciado pelo Congresso. Caso haja maioria simples, a oposição pode dissolver o governo. Cairiam também todos os deputados e senadores, e novas eleições seriam convocadas.

O principal nome da esquerda anti-Berlusconi seria, hoje, Pier Luigi Bersani, secretário-nacional do Partido Democrático (PD). Nos salões do PD, no entanto, ganha força o nome de Nichi Vendola. Sondagem feita pela Ipr Marketing a pedido do jornal La Repubblica mostra um quadro favorável ao governador: se as eleições fossem hoje, os italianos com voto na centro-esquerda prefeririam Vendola a Bersani: 51% a 49%. Para 49% dos eleitores, Vendola tem chances reais de bater Berlusconi nas urnas, enquanto somente 31% acreditam no êxito de Bersani.

Nascido na Apúlia em agosto de 1958, Nichi Vendola é filho de uma família de comunistas. O nome de batismo (Nicola) é uma alusão a São Nicola, padroeiro de Bari, capital da região. O apelido, Nichi, é um diminutivo de Nichita, dado pelos pais em homenagem a Nikita Khrushchev, ex-líder comunista russo que, para a família Vendola, significou o início da “desestalinização” do país, o fim do culto à pessoa levado a ferro e fogo por Josef Stalin. “A imagem de Nikita Khrushchev que ficou na mente da minha família foi a do sapato”, declarou o goverador em uma de suas raras aparições na televisão nacional, em dezembro do ano passado. A imagem a qual se refere o governador é a de Khrushchev batendo com o sapato na mesa durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU nos anos 60.

Ativismo gay
Promotor e co-fundador da Associação de Lésbicas e Gays da Itália (Arcigay) e da Liga Italiana pela Luta Contra a AIDS (Lila), Vendola assumiu-se gay com 20 anos de idade, publicamente, em um jornal de sua cidade natal, a pequena Terlizzi. Se declara “homossexual”, e não “gay”. Costuma dizer que a palavra “gay” é hipócrita, um falso sinônimo que busca esconder a aspereza da palavra “homssexual”. “Isso era importante em uma época em que ‘sair do armário’ era um fio desencapado, hoje devemos nos livrar disso”, defendeu na mesma entrevista.

Comunista e católico, ao contrário dos comunistas históricos – normalmente ateus –, Vendola cita a Bíblia em diversas ocasiões públicas e não poupa o modo como o sistema comunista foi implementado em países como a Rússia, que define como “uma tragédia”. Defende que, no entanto, a Revolução de 1917, já naquele tempo, apresentava mudanças sociais importantes como a mudança do código penal que aboliu o crime de homossexualismo (mais tarde reinserido na lei). Apesar disso, ainda acredita nas bases do comunismo, como declarou mais de um vez em entrevistas, usando sempre a mesma frase: “não devemos botar fora a criança junto com a água suja”, em referência às boas ideias manchadas pela imagem dos Gulags.

Televisãofobia
Nichi Vendola não é prima-dona dos diversos programas políticos da TV italiana. Afirma não gostar do estilo e diz que é necessário “abaixar o volume” das discussões no tubo, “frustrantes”, segundo ele. Escolhe a dedo onde andar e como aparecer, sem contar com a superexposição necessária para a maioria dos egos parlamentares e executivos. Dentro do que acredita ser sua coerência, declarou pública solideridade à Alessandra Mussolini, neta do ex-ditador Benito Mussolini, ex-deputada e personagem político da direita radical italiana, frequentemente vista em programas de TV. Alessandra foi personagem de um processo midiático: foram divulgadas notícias sobre um suposto vídeo de sexo explícito no qual La Mussolini seria protagonsta. O vídeo jamais apareceu.

Reflexo da personalidade de Vendola pode ser visto dentro do próprio partido. Após cinco anos como governador da Apúlia, se recandidatou ao cargo nas eleições de março deste ano contra a vontade da cúpula do partido local, apoiada pelo ex-primeiro ministro italiano Massimo D’Alema. Nas eleições internas, no entanto, Vendola venceu a disputa com muitos corpos de distância: colheu 67% dos votos dentro do partido contra o economista Francesco Boccia, apoiado por D’Alema. Candidato oficial da coalizão de centro-esquerda, deu um banho na urnas e foi reconduzido à cadeira de governador com apoio de 73% dos eleitores, derrotando o candidato do partido de Silvio Berlsconi, Rocco Palese.

Vendola diz que o episódio não deixou nenhuma marca em seu modo de fazer política ou de tratar com os membros da coalizão. Alega refutar as “estratégias militares, as cartas de guerra e os números da política” na hora de concorrer. Não quer fazer alianças pelo simples fato de acumular votos, garante. A personalidade independente, no entanto, sabe calcular bem o momento do jogo. Nos primeiros sinais de que a aliança entre Silvio Berlusoni e Gianfranco Fini estava por rachar, Nichi Vendola declarou publicamente “estima a Fini”, de raíz política neo-fascista, sabendo que o apoio do agora opositor ao premier poderá ser decisivo.

Complô?
Sua homossexualidade não pode ser confundida com libertinagem sexual. Vendola critica Silvio Berlusconi pelo uso de casas onde Il Cavaliere recebe chefes de Estado e, ao mesmo tempo, “acompanhantes”, como mostraram a série de fotos divulgadas pelo jornal El País, da Espanha, no ano passado.

Apesar da clara diferença de perfil entre Nichi Vendola e os tradicionais políticos italianos, o governador da Apúlia segue o padrão dos líderes de centro-esquerda italianos dos últimos tempos: mostra-se independente e busca cavar caminhos sem alianças –- nem mesmo as internas. Perfeitamente cabível dentro da anedota corrente nos últimos tempos no país, que se tornou uma resposta padrão para quem diz que a esquerda está fazendo um complô contra Berlusconi: “para que haja um complô é necessário que ao menos duas pessoas estejam de comum acordo”. Cena difícil de encontrar dentro da esquerda italiana de hoje.”

O texto acima foi publicado hoje no Portal Terra. Há outra boa piada correndo pelos mexericos políticos italianos que necessariamente ficou de fora do texto: “Depois de tanto tempo para nos acostumarmos com um premier putanheiro, agora vem um gay?”.

Roma é uma festa.

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O homem que faz pensar a Alemanha pós-crise

Gabriel Brust | França 21:48 | 13/06/2010

Com o futebol pragmático de sempre, a Alemanha goleou a Austrália por 4×0 esta noite, legando aos franceses, como de costume nos últimos tempos, uma inveja silenciosa. Não há nada de novo na objetividade alemã frente ao proselitismo inútil aqui destas bandas, mas o que mais espanta os franceses nesta ensolarada primavera europeia é que esta objetividade está mais uma vez transbordando para além dos campos de futebol. A Alemanha se recupera bem da crise econômica se comparada ao restante dos países da Europa ocidental, às custas de muitas medidas impopulares e que, ao contrário do que acontece na França, estão encontrando relativo apoio dos sindicatos e dos trabalhadores.

A mistura implementada pelo governo alemão é simples, mas suficiente para fazer com que seja acusado de “maquiavélico” por outros governos social-democratas europeus: redução de salários, redução de gastos públicos e nenhuma redução de impostos. As medidas não são de agora, o país vem se preparando para a crise desde a metade da década. Um símbolo dessa unidade nacional para se preparar para crise foi a negociação salarial da Volkswagen em 2006: nada menos do que todos os 100.000 trabalhadores de uma das maiores empresas nacionais aceitaram trabalhar mais horas sem ter nenhum reajuste salarial por isso. Tente imaginar isso na França ou mesmo no Brasil e dê gargalhadas.

Embora a previsão de crescimento para os dois países vizinhos não passe de 1,6% para este ano, a Alemanha apresenta alguns números invejáveis em relação à França nestes tempos de crise. A indústria daqui ainda não achou um meio de enfrentar a chinesa e amarga um déficit na balança comercial de 53 bilhões de euros. Nenhum desastre, você dirá, até ver os números alemães: 153 bilhões de euros de superávit na balança, com 36 bi exportados para a China em 2009, contra 7,9 da França. Quer dizer, se não nadam de braçada, também não perdem o sono os alemães com a atual crise.

Há uma nova Alemanha no ar, dizem os franceses, e que vai além dos números da economia. Como a que representar o abismo que separa os dois países está Richard Precht, o mais popular filósofo alemão da atualidade, um best-seller que usa camisa aberta, cabelo comprido, 45 anos com cara de 30. Nada mais francês do que um filósofo pop, você dirá mais uma vez. Só que Precht sabe colocar os franceses em seu lugar:

– É verdade que Badiou faz sucesso na França? – disparou ele em direção a um repórter da Le Point incumbido da de decifrá-lo. Prosseguiu: – Um maoísta? Vocês são loucos? Vocês não aprenderam nada com a história? Na Alemanha, um maoísta jamais será escutado.

A fala óbvia de Precht já seria suficiente para torná-lo o maior gênio da Europa atual, especialmente na terra da Sorbonne, o Campus do Vale francês em que Mao e Fidel seguem sendo nortes morais. Mas Precht foi além no ataque às farsas francesas. Sem pedir permissão ao repórter do Le Point, disparou contra o principal articulista da revista:

– E Bernard-Henry Lévy? Para mim ele é só um jornalista político talentoso.

Quanto ao seu próprio pensamento, bem, Richard Precht se orgulha de dizer que não é nenhum gênio, que fala de uma ética do cotidiano e que produz aquilo que seus conterrâneos mais querem: um pensamento prático, pragmático, útil para enfrentar a contemporaneidade. Cruza lições básicas de filosofia com questões atuais, como a cibercultura, a neurociência e os avanços da genética. Dessa forma, se tornou conselheiro de três dos mais altos dirigentes da Alemanha, com quem conversa a portas fechadas sobre a Europa, o capitalismo e a “alma do liberalismo”. Nas horas vagas, recusa três convites por semana para talk-shows populares – e aceita tantos outros.

– A necessidade dos meus compatriotas é imensa, e ninguém os responde. Eu sou um engenheiro do pensamento, eu desmonto os problemas e dou as ferramentas.

Objetivo como foi o ataque da seleção alemã esta noite, Precht acalenta seus conterrâneos em meio a uma crise que, por lá, parece já ter ares de passado.

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Quem são os Luis XIV da banânia?

Gabriel Brust | França 17:18 | 08/06/2010

Ao contrário da requintada classe política brasileira, os homens públicos franceses não têm a mínima sensibilidade para apreciar a beleza, a magnitude, a opulência e o encanto únicos de um castelo. Mesmo que no Brasil este tipo de construção não tenha nenhuma tradição, não faltam tentativas de dar início a uma, ainda que tardiamente. O belo trabalho de incentivo ao patrimônio histórico realizado pelo deputado Edmar Moreira (sem partido-MG), por exemplo, é louvável. Contou, inclusive, com apoio irrestrito do Congresso Nacional na defesa do projeto urbanístico “Reino de São João do Nepomuceno”, orgulhando a todos nós.

Mas aqui na França, meus caros, a coisa anda difícil para quem defende os castelos. E a culpa, claro, é da – sempre ela – cruel crise econômica, que já se tornou desculpa até para o árabe que vende quebab aqui na esquina de casa começar a cobrar pelo uso do banheiro e pelo palito de dente.

– C’est la crise, chef – diz o canalha, antes de sacar o palito, limpinho, direto do bolso esquerdo da calça jeans.

Pois a crise é o motivo da vez para que as subvenções estatais aos proprietários de castelo sofram uma redução ainda maior. O fim da mamata vem de longe: entre 2003 e 2007, a ajuda estatal para os reis e rainhas wannabe caiu 33%. 2010 começou com uma medida ainda mais drástica: 34 departamentos anunciaram o fim da ajuda ao proprietário privado de castelo. Um drama que você, que não tem alma aristocrata como a do deputado Edmar, jamais vai compreender. Mas que está se tornando, segundo especialistas ouvidos pelo Le Figaro, uma ameaça ao patrimônio histórico francês.

O país conta com nada menos do que 6.450 castelos, sendo que apenas 900 pertencem ao Estado. Como os proprietários franceses não têm mais condições de manter em dia os salários dos carrascos do calabouço e do bobo da corte – há a informação de que o sindicato das duas categorias estaria convocando greve para este mês –, nada menos do que 400 castelos estão sendo vendidos por ano. O preço médio despencou pela metade por causa da crise – dá pra se tornar um orgulhoso e gordo soberano por módicos 750 mil euros.

O pior, para os franceses, é que os novos proprietários são, em parte, estrangeiros. Não há números precisos, mas a diretora do grupo imobiliário internacional Mercure, espécie de “corretora de imóveis de castelo”, contou ao Figaro que 20% de seus clientes são gringos e, o mais intrigante, é crescente o interesse de duas clientelas “exotiques”, segundo ela: os chineses e os… brasileiros!

Como nomes, endereços e telefones não são coisas fáceis de se obter neste meio dos proprietários de castelo – compreensível questão de segurança nacional dos reinos –, fica no ar o mistério sobre quem são os novos Luis XIV da banânia que estão investindo por aqui. Se forem tipos com a sensibilidade e a sofisticação do deputado Edmar Moreira, é possível que parte do seu dinheiro, caro leitor, esteja, neste momento, circulando imponente pelos corredores de algum chateau Du Vale do Loire.

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A Turquia

Leandro Demori | Itália 11:15 | 02/06/2010

Estamos aqui na Europa vivendo o momento mais crítico desde a criação do bloco. O que era para ser uma ilha de estabilidade e bem-estar social derrete lentamente com o euro em queda, economias nacionais endividadas, cortes pesados de despesas em setores fundamentais, diminuição importante de parte do welfare state.

A Europa bem que tentou evitar isso, ao menos acreditava na tentativa. Incluiu mais países no acordo, introduziu desgarrados (geograficamente) como Grécia, Romênia, Letônia e Lituânia no tratado de Schengen, botou na agenda a substituição de moedas como a coroa estoniana, o lev búlgaro, o leu romeno ou o forint húngaro pelo euro. A Romênia desacelerou um importante crescimento econômico, a Grécia faliu, mas a grande cobiça das correntes políticas europeístas era a Turquia.

São vários os motivos que puxavam a Turquia em direção à Europa em vez de empurrá-la ao Oriente Médio: capital bastante ocidentalizada (para os padrões da região), economia importante, voz de diálogo entre a Europa e o Oriente Médio, posição geográfica que pode servir — e muitos apostam nisso — de sociedade de contenção contra o avanço do Islã. Não adianta imaginar um mundo em que o avanço do Islã não seja visto como um problema por parte do Ocidente. A posição de muro contentor contra o avanço do islamismo é, aliás, o maior trunfo para buscar apoio de importantes partidos eurocéticos como a Liga Norte, que sequer acredita na unidade italiana como país, quanto menos em uma Europa unida. Mas a Liga tem tons fortemente anti-islâmicos e acaba simpatizando com a ideia de incluir a Turquia.

O desembarque de Israel no barco dos militantes pró-Faixa de Gaza pôs a Europa em posição incômoda. Praticamente todos os países daqui, de uma forma ou outra, disseram que a ação do exército israelense parece amplamente desproporcional. O ministro das Relações Exteriores da Itália disse ontem, nas entrelinhas, que Israel caiu em uma armadilha e foi ingênuo. Alguém aí acredita que os barcos tinham qualquer outro objetivo maior senão fazer justamente isso? Havia alguma chance de eles conseguirem furar o bloqueio de uma das regiões mais militarizadas do mundo? Botemos os pés no chão para tentar raciocinar sem o alvoroço de um estádio de futebol.

Os prisioneiros libertados hoje por Israel saíram fazendo o “V” da vitória.


Fotos do La Repubblica

Talvez esse gesto signifique alguma outra coisa pelas bandas do Oriente Médio, mas pareceu bastante emblemático. Ou você acha que esse bebê estava em um dos navios para a ajudar a carregar mantimentos?

Que tipo de pessoa vai enfrentar um bloqueio militar declaradamente perigoso com crianças a bordo? Olhe bem para a foto e tente responder.

Houve a invasão, houve mortos. Do ponto de vista da propaganda é uma vitória muito maior do que aportar. Uma notícia no estilo “Barcos furam bloqueio militar e entregam mantimentos em Gaza” tem vida útil de 2 ou 3 dias na imprensa. Sob a análise fria da audiência, os mortos duram mais — e chocam mais.

Você pode ser a favor da causa palestina e encarar esses barcos como peça provocatória de propaganda. E pode pensar que deu certo. Não há nada de contraditório nisso. Pensar que havia 700 pessoas “do bem” que foram enfrentar o “Grande Mal” é de uma ingenuidade sem tamanho. Caso aportassem em Gaza seria um sucesso. Caso fossem barrados por Israel, também.

Como se já não bastasse o isolacionismo natural de Israel ao matar pessoas, ainda há o fator de que a União Europeia pisa em ovos por precisar “agradar” a Turquia. O que muitos por aqui temem é que esse episódio afaste de vez o país da Europa — um desastre histórico do ponto de vista da unificação.

A Turquia não é santa, o interior do país ainda é tribal e as mulheres são tratadas como mercadoria em muitas áreas, mas o episódio a favorece. Assim como favorece a vitimização de um dos lados — como Israel, que também já foi vítima em outros episódios — e afasta cada vez mais o mundo de realmente compreender o que acontece por lá.

Para aprofundar: “Assassinato de dez deteriorará ainda mais imagem de Israel

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A hora em que os PIGS torcem o rabo

Leandro Demori | Itália 15:19 | 02/05/2010

[assista ao vivo Santos Robinho Grenal Grêmio Inter Gauchão Paulistão 2010 TV vídeo grátis free sexo]

mentira

[Economia aos domingos -- dia chato merece assunto à altura]

Em tempos de siglas aglutinadoras de nações, a menos famosa delas é, hoje, a mais importante para essa caixinha de surpresas desagradáveis chamada economia global. PIGS: Portugal, Italy, Greece and Spain, os países da comunidade europeia em perigo iminente. Há ainda a versão PIIGS, onde se pode incluir a Irlanda. Ou, nos últimos tempos, PIIIGS, com espaço também para a Inglaterra. Analisemos os PIGS com a Itália, opção pessoal por conta da enorme dívida pública aqui da Bota.

Um dos PIGS está em crise profunda, a Grécia. A maioria das pessoas no Brasil não está entendendo nada [ninguém se importa, afinal] do que está acontecendo por lá. Vamos tentar dar algum sentido às coisas.

Dos 4 PIGS, 3 são importantes parceiros comerciais do Brasil: Itália, Espanha e Portugal. Além de pesarem na balança de importação e exportação, Itália e Espanha, por exemplo, têm investimentos gigantescos no Brasil: FIAT, Pirelli, TIM, Telefônica. Uma crise nesses países similar àquela grega seria catastrófica, sobretudo por que não se pode pensar na Europa de forma descentralizada: por aqui, mexeu com um, mexeu com todos. É o preço da moeda única. A crise grega é uma crise de todo o bloco europeu. Todos devem abraçar os PIGS.

Dê uma olhada neste mapa, elaborado pelo Eurostat, a Comissão Europeia responsável por explicar o continente em números.

Deixe o mouse parado na Grécia — dívida pública de 115.1. Isso significa que o buraco em caixa é 15% maior do que o PIB anual. Sendo bem professoral: a Grécia teria que pegar tudo o que arrecada em 1 ano e alguns meses para pagar o que deve. Obviamente isso seria impossível, pois o governo precisa pagar servidores, fazer funcionar as forças de ordem, hospitais, escolas etc. É claro que nem todas as dívidas são de curto prazo, mas a situação do país é tão catastrófica que não há mais dinheiro para nada.

Outro conceito é importante nessa conta, o “déficit”, que é o quanto um país gasta a mais do que arrecada. No caso grego, ter déficit significa aumentar uma dívida já impagável. Sabe o que fez a Grécia em 2009? Em vez de fazer sobrar dinheiro (superávit) para pagar suas contas e diminuir a dívida pública, o país ficou devendo quase 14% do PIB. Estão claros os motivos da implosão: finanças públicas totalmente descontroladas.


Sem escolha

Os rodeios de empresto-não-empresto-dinheiro feitos pelo bloco europeu são jogos de cena. Não tem querer. Em um bloco de moeda única, a falência de um país significa o enfraquecimento da moeda de todos, para início de conversa, com uma cadeia de consequências imprevisíveis. Qual seria a outra alternativa em relação à Grécia, chutá-la da zona do euro? Impensável. Fato é que a Comunidade Europeia divide esse imenso problema, que se soma ao pouco dinamismo das economias dos países aqui do velho continente. Enquanto os EUA projetam crescimento interessante para botar o pescoço fora d’água, a Europa se arrasta na casa do 1%.

E há a economia subterrânea
A Grécia, por exemplo, é suspeita de fraudar balanços para se adequar às regras e poder fazer parte da zona do euro. A Itália tem economia informal de sonegadores de imposto de renda que pode chegar a 15% do PIB nacional. É uma Grécia inteira correndo dentro da Bota. Esse dinheiro subterrâneo torna qualquer cenário engarrafado de incertezas.


O “G” dos PIGS é “pinto”

A Grécia é um país pequeno e pouco significativo nos balanços europeus. Não fosse da zona do euro, a preocupação seria bem menor. O problema são os demais membros da sigla. Espanha e Portugal, por exemplo, tiveram notas rebaixadas no mesmo dia em que os títulos da dívida grega foram declarados junk (lixo, em bom português brasileiro). Aparentemente, os mercados ainda confiam que esses países podem pagar suas dívidas, mas o estado falimentar grego serviu de alerta sobretudo para a Espanha, que até ontem era a vedete econômica da Europa e hoje está estagnada. É preciso poupar e crescer.

Portugal é maior do que a Grécia, mas não é um colosso econômico. Atualmente, se pensa que o país pode dar um jeito em suas contas públicas sem alarmar os vizinhos.

O caso da Itália seria, tecnicamente, desastroso, mas é um tanto diferente. Apesar de ter uma dívida pública de similares 115% do PIB como a Grécia [deixe o mouse sobre a península no mapa lá de cima], a Itália é grande demais para quebrar. É impensável, seria a ruína de todo o bloco europeu. Os 115% de dívida da Itália são, em euros, cerca de 7 vezes o valor da dívida grega. Paradoxalmente, a dívida maior é o grande álibi do país, pois talvez faltasse até mesmo dinheiro para socorrê-lo.

Além do mais, a Itália é um dos 4 países mais importantes em termos de indústria, agricultura e serviços do bloco. Deve mais, mas tem condições de se reerguer.


E agora?

A Grécia será “salva”, ao menos no curto prazo. No tiro longo, no entanto, as medidas necessárias para conseguir o empréstimo empobrecerão ainda mais o país, que tem 2 em cada 10 habitantes abaixo da linha de pobreza.

Para obter acesso ao fundo de até 135 bilhões de euros que evitariam a suspensão dos pagamentos das dívidas pelo governo, os gregos terão que baixar o déficit para 3,6% anuais até 2013. Como? Assim:

- Congelar salários do funcionalismo público
- Estancar novas contratações
- Cortar aposentadorias e pensões
- Aumentar impostos (álcool, tabaco e gasolina devem subir 10%)
- Frear investimenos

Quem vota paga a conta.

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Aumente meus impostos!

Fabricio Pontin | Estados Unidos 17:34 | 22/04/2010

Em Springfield, um grupo de indivíduos protesta contra os inevitáveis cortes no orçamento público com uma iniciativa bastante… única.

Quinze mil pessoas se reuniram na frente do Capitólio na capital de Illinois pedindo que o governo estadual aumente os impostos para evitar os sucessivos cortes em investimento, especialmente em educação.

Mas como diabos tu vai reunir uma galera destas em um local público para pedir aumento de impostos? Quem é que faz isso?

A resposta, no caso de Illinois, passa por compreender como funcionam as políticas aqui. Daí, vou precisar apelar para um pequeno interlúdio para dar uma idéia da coisa:

Existem dois tipos de Democratas. Os Democratas da costa leste e oeste, que tu identifica como o pessoal que vai para escolas de grande porte, tendem a ser partidários de programas sociais moderados mas não apoiam nenhum tipo de iniciativa mais agressiva na parte econômica. O exemplo clássico deste tipo de Democrata é o Kennedy: papa-Kennedy basicamente comprou um lugar no Senado para cada um dos filhos e depois elegeu o primeiro presidente católico da história dos Estados Unidos. Na base da grana e do apelo para as elites que financiaram a candidatura. O Clinton é uma história parecida. Foi nas melhores escolas, família tradicional na Georgia, estas coisas todas.

Os outros Democratas são os chamados Blue Collar. Pensa no Bruce Springfield, naqueles filmes em Detroit nos anos oitenta. Boa parte desta turma trabalha com construção e é vinculada com os sindicatos. As Unions até os anos 50 eram identificadas com a máfia, e foram a base da operação de um certo Al Capone que controlou o mid-west mais que qualquer governador por bons quinze anos. Até hoje os sindicatos comandam tudo por aqui. Os mafiosos, nem tanto.

Ok, fim do interlúdio.

Corta para Springfield ontem:

O protesto foi organizado pelos sindicatos que na realidade chegaram a pagar ônibus para pessoas do estado inteiro: a idéia é aumentar os impostos e salvar o sistema de educação de Illinois.

Duas coisas:
1) Illinois tá falido. Cinco ou seis governadores fracassados, com dois ou três processos de impedimento em um espaço de 6 anos, simplesmente acabaram com as finanças do estado. Illinois é basicamente ingovernável. O estado não tem mais grana para passar para as faculdades (o campus satélite da universidade onde eu estudo fica em Edwardsville, e recentemente teve que fechar quatro ou cinco departamentos porque não tinha mais grana para mantê-los abertos). Isso também é verdade para o sistema de educação básica: várias escolas estão demitindo professores e/ou reduzindo salários.

2) Os professores do sistema básico estão com o cu na mão: o estado está demitindo professores não apenas por uma questão orçamentária, mas por um critério de eficiência. Professores com um desempenho tido como insatisfatório estão sendo colocados para a rua e escolas que não retornam o investimento estão sendo implodidas. Com isso, os sindicatos acabam tendo um poder de barganha enorme: “vem com a gente que talvez tu não perca teu emprego”.

Daí a iniciativa: aumente as taxas e mantenha as escolas abertas. Claro, os sindicatos estão contando apenas uma parte da história – que é a do corte. Mas não contam que muitos dos professores que estão perdendo emprego não são vítimas de um furor orçamentário, mas de uma reforma no sistema de educação (que tem seus problemas específicos, diga-se de passagem, mas que não cabe falar aqui).

É importante ressaltar que Illinois não é mais um estado que varia entre democratas e republicanos nas eleições federais, mas que tem uma alternância forte nas eleições para governador. Com as eleições para governador na esquina, o candidato republicano já disse que não acha necessário aumentar taxa alguma.

Isso deixa os democratas em uma situação complicada:

Aumentar os impostos significa ganhar o apoio dos membros do sindicato que estão em Springfield. Mas pode significar perder votos em todas as partes do estado que não dividem o interesse do grupo que foi ontem lá. Não aumentar pode significar o colapso de parte do sistema educacional (que ainda é controlado por pessoas vinculadas com o sindicato), e uma posterior perda de votos vinculadas com o colapso da educação pública. Para os democratas é um caso claro de perda/perda. Não tem como obter um resultado satisfatório.

Isso somado com um governador (democrata) que acabou de perder o emprego por corrupção deve tornar a eleição estadual um tanto complicada para os Democratas.

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Como vencer a crise

Leandro Demori | Itália 08:54 | 16/03/2010

A Itália venceu a crise. Como? Com financiamento público de campanha.

Monte uma lista eleitoral e receba de volta cerca de 4 euros por eleitor inscrito. Dinheiro público em forma de reembolso. Limpinho. Veja nosso vídeo e aprenda como tirar o pé da lama.

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A classe estudantil vai ao paraíso

Fabricio Pontin | Estados Unidos 23:47 | 04/03/2010

Hoje os estudantes na Califórnia organizaram um protesto contra o aumento das tuitions e custos das universidades públicas. O protesto ficou viral e em pouco tempo várias universidades públicas nos Estados Unidos começaram a ver seus respectivos estudantes organizando protestos e passeatas para demonstrar descontentamento com as políticas públicas.

Pois bem, a idéia é protestar os cortes em duas frentes: o ensino de forma geral, e o ensino superior – de forma especifica. Mas antes alguns esclarescimentos sobre a parte do ensino superior.

Não existe educação pública superior gratuíta nos Estados Unidos. Quero dizer, mesmo universidade públicas são pagas. Elas dependem deste pagamento para o auto-custeio, especialmente em estados falidos (tipo Illinois, Califórnia, Colorado e Texas) que não conseguem repassar os valores que normalmente são destinados para o ensino superior. Então a situação fica complicada, especialmente para as faculdades conseguirem prover as chamadas “waivers” para os alunos que não conseguem pagar os custos da matrícula e dos valores semestrais de taxas e créditos. Mais ainda, bolsas de estudos são canceladas e a pesquisa universitária sofre. Claro, ela sofre na seguinte ordem:

1) Departamentos de Filosofia e Arte perdem dinheiro
2) Os outros departamentos das humanas perdem dinheiro
3) Os departamentos das biológicas (menos medicina) perdem dinheiro
4) Os departamentos de comunicação e humanas aplicadas (menos direito) perdem dinheiro

Os departamentos de coisas que podem dar dinheiro (patentes, livros, armas) geralmente não perdem recursos, alguns laboratórios específicos até podem fechar ou perder financiamento. Mas, se existe a possibilidade do laboratório e/ou núcleo de pesquisa dar resultados materiais para a universidade, os bolsistas trabalhando neste laboratório/núcleo estão salvos – exceto nos casos mais extremos onde universidades fecham departamentos inteiros. Mas isso é incomum em universidades de porte maior que médio e com pesquisa de repercussão financeira positiva.

Entendido? Então o que a galera está reclamando?

A galera está reclamando que a faculdade está ficando mais cara e ficando mais inacessível. Então os alunos resolvem ir para a rua e fazer coisas como interromper o tráfego de carros em uma highway em Oakland para “create awareness” (desculpem, “chamar a atenção” simplesmente não comunica a ripongagem) sobre a situação dos pobres estudantes de nível superior. Pobrezinhos. Com seus i-pods, i-touchs, mochilas de marca, cameras de alta definição filmando a polícia brutal para botar tudo no youtube depois. Pobres, pobres estudantes!

É lógico, o foco do governo federal está na educação básica até ensino médio. Neste sentido, o protesto na Califórnia pode ganhar apoio, porque os cortes estão afetando o ensino básico-médio e criando uma re-segregação das escolas públicas. Até aí, o pessoal pode se comover com as demandas do “movimento”.

Mas vamos lá. Isso é simplesmente patético. “Ocupações” e coisas no estilo simplesmente não vão te garantir apoio, especialmente quando estudantes estão em situação privilegiada se comparada, por exemplo, com a “working class” de Michigan e mesmo Illinois. Uma das reclamações que ouvi hoje era de “sala de aulas com 40 alunos” e “professores sem auxiliares”. Puxa vida, mesmo? QUE PROBLEMA! Daí, o camarada da CNN pergunta para a líder do movimento “Mas o que vocês sugerem?”, resposta: “Aumentar os impostos!”.

Pois bem. A Califórnia está com um problema de investimento. Por que? Porque é um dos estados mais taxados na federação. Altos impostos vão fazer o pessoal que investe (e doa! acreditem! doa!) no ensino superior ir para, digamos, Utah ou Nevada. Também não ajuda que a Califórnia (e boa parte dos estados em crise) arrecada um bocado e gasta mal para caramba. Isso tá criando um certo… êxodo fiscal .

Então, se a tua solução é “aumentar os impostos”, talvez tu deva te acostumar com sala com (oh deus!) quarenta alunos e com menos recurso para pesquisas sobre “Simulacro e Representação no cinema de Woody Allen”. Afinal de contas, chega uma hora que simplesmente dizer “chega de cortes” fica parecendo “abaixo a lei da gravidade”, especialmente se um monte de alunos de ensino superior não consegue pensar em nada melhor do que “aumentar os impostos” para solucionar o custeio de algo que muitas vezes eles mal conseguem justificar.

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Categoria(s):  EUA
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