Era um vez…

Leandro Demori | Itália 12:37 | 22/11/2010

Sou Capricórnio com ascendente em Capricórnio e uma amiga que jura entender dessas coisas dos céus quase deixou de ser minha amiga após descobrir essa minha doença astral. Apesar de eu não ter culpa alguma, essa minha capricornice quer dizer que sou bastante ‘realista’ (diz ela, a amiga que entende). O termo anda meio fora de moda, o que combina bem com meu estilo sempre fora de moda de ser. Qual signo está mais na moda? Geisy Arruda é Virgem? Fazer piadas infames é Escorpião?

Tive certa dificuldade para dormir ontem, então fiquei na cama por cerca de uma hora exercitando meu realismo mágico. Quem sou eu pra discutir com os astros? Divido minha fábula:

“A política partidária é mesmo fascinante. Explicar tudo através de tramas entre agremiações, conflitos ideológicos, programáticos e existenciais é mesmo incrível. O grande problema é que costuma ser tudo fantasia. Acordos e desacordos entre partidos e políticos são montados sob outra perspectiva: a de ação e recompensa. É bonito dizer que “uma aliança entre PT e PV traria um elemento importante para o discurso da esquerda” ou que “o PSDB deveria guinar novamente para a centro-esquerda e chutar as religiões”. Reconheço a beleza desses raciocínios, igualmente fracos sob o ponto de vista da ‘vida real’.

Um exemplo disso?

Fraudes.

Fraudes não podem ser explicadas sob ótica partidária ou ideológica. Não se pode justificar o Mensalão do DEM como um roubo de direita, e nem o Mensalão do PT como um roubo de esquerda. Você pode até fazer isso — e conseguirá montar uma historinha bem bonitinha — mas falsa. Existe algum signo que gosta de enganar a si mesmo? Neymar é Peixe?

Minha falta de sono fez com que eu repassasse alguns métodos de fraude, essas coisas que têm a ver muito mais com as paixões humanas do que a política partidária e suas limitações. Vamos ao exemplo:

Era uma vez um banco estatal chamado Scatola Economica Federale (SEF).

Era uma vez um banco privado chamado Bananamericano.

Era uma vez uma auditoria chamada Derrote.

A fraude funciona de modo elementar:

O Banco público SEF é um colosso do mercado com potencial para comprar outros bancos. Pode se interessar, por exemplo, pelo Bananamericano. O que faria a SEF se interessar pelo Bananamericano e, sobretudo, justificar sua compra perante o Estado? Um crescimento rápido e importante do faturamento do Bananamericano, por exemplo.

O Bananamericano então faz o esperado: cresce muito, ganha prêmios e logo é reconhecido pelo mercado como banco de presente e futuro impressionantes. O crescimento, no entanto, é artificial, produzido por uma fraude contábil. A grana que entra, na verdade, não existe da forma como mostram os balanços.

Diante do surpreendende crescimento, a SEF fecha negócio e compra quase a metade do Banana. Antes da compra, a propria SEF faz uma auditoria interna para ver se o Bananamericano é honesto — constata que é. Outra auditoria é feita por um empresa tercerizada e reconhecida mundialmente: a Derrote investiga as contas do Bananamericano e também ela diz que está tudo 100% maravilha.

Meses após a assinatura do contrato se descobre a fraude e vem a público o rombo bilionário. A SEF não declara a burrada, mas qualquer cego do mercado sabe que ela fez um mau negócio, pagando preço de vaca saudável por uma vaca doente.

É inútil explicar casos como esse como se fosse tudo fruto do bem contra o mal, da esquerda e da direita, dos que querem o bem do país e dos que querem o golpe. Aqui, quem dá as cartas são os ambidestros que batem a sua carteira enquanto você balança a bandeirinha do partido.

Em fraudes como essa, altos dirigentes com poder de decisão na SEF e no Bananamericano juntamente com os peritos da Derrote entram em acordo sobre como proceder no esquema, como concretizar a venda. Formam uma organização criminosa e dividem os dinheiros que voam de um lado e de outro.”

Ainda bem que dormi logo após imaginar essa fábula. O mundo seria uma sujeira enorme se as coisas funcionassem realmente assim, não é? Alguém aí é de Câncer?

Uma vergonha

Leandro Demori | Itália 16:04 | 27/02/2010

Segunda notícia mais lida da edição online do Times de hoje:

Me envergonho por todos os brasileiros. Amigo italiano me pergunta como pode uma coisas dessas no Rio de Janeiro.

“– Como pode? Hãn?”

Fiquei mal, nem soube o que dizer. Para uma cidade que vai sediar os próximos jogos Olímpicos, esse segundo lugar é uma vergonha.

Com o Chile campeão, só nos resta uma certeza: precisamos trabalhar melhor o grupo.

A prata é inaceitável.
Eu quero é ouro, Braziu!

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