Pitagóricas XXV (o retorno/edição WikiLeaks)

Leandro Demori | Itália 22:38 | 07/12/2010

“Berlusconi faz festas selvagens e se mostra cansado e abatido fisicamente por causa disso.” O homem tem 74 anos, gente. Mania de americano de querer sempre máximo nível de desempenho.

“Angela Merkel é pouco criativa.” É o que supostamente os alemães fazem, não?

Sarkozy usa Carla Bruni para ajudar nas negociações diplomáticas.” Voa, imaginação.

“Hugo Chávez é maluco.” AH.

“EUA suspeitam de terrorismo islâmico na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina.” Boa oportunidade de negócios para o Natal: fabricar o Bin Ladenzinho e vender pela metade do preço na Ponte da Amizade.

“Jobim diz a embaixador que ministro odeia os EUA.” Premiado.

“China contrata hackers desde 2002 e invade computadores do Google.” É o emprego de vento em popa no terzo mondo.

“Muammar al-Khadafi, o ditador líbico que só anda com uma voluptuosa enfermeira ucraniana loira a seu lado, mandou os ingleses soltarem um preso e causa fascínio e medo nos EUA.” Período histórico que pode ser conhecido, futuramente, como a Revolta dos Camelos.

“Países que seguem leis islâmicas matam mulheres que traem os maridos, mas suas realezas fazem festas regadas a ‘sexo, drogas e rock’ nos porões dos palácios.” Maomé não deve ter feito nada muito diferente disso (mas sem rock, que já naquela época era coisa do diabo, parece).

“Rei saudita pediu para que os EUA bombardeassem o Irã.” Mas suplicou para que fosse depois da suruba real.

“Brasil teria negociado com os EUA apoio à oposição venezuelana.” Bem que o PCO diz que nosso governo é neoliberal e lambe-botas do Império, viu.

“A Rússia é um estado ‘virtualmente mafioso‘.” Itália perdendo competitividade até no crime.

“Máfia russa está ativa na Tailândia.” Tou falando. Reage, Sicília!

Comemore, brazileiro

braziu.org 22:19 | 27/11/2010

O leitor Andreas nos deu uma bofetada – e com razão. Provocou – e com razão. Nós pensamos em relatar impressões. Nós discutimos, mas e daí? Fizemos? “Matéria boa é matéria publicada”, já diz um velho ditado jornalístico. E mesmo que tivéssemos feito, convenhamos: isso mudaria alguma coisa? Quais as perguntas que realmente devemos fazer, mais além da perplexidade?

Não. Não mudaria muita coisa. A mudança depende de decisões fundamentais. Mas também o silêncio é a covardia. A intenção e a boa vontade são um espelho de um mundo que não existe. A verdade é dura, podre, suja e triste. O mundo é feio, mesmo que tentemos mascarar o horror.

Aqui, uma resposta à provocação como uma espécie de pedido de desculpas. Ao que escreveu o Andreas, mas – mais do que isso – ao conceito que nos atirou contra o rosto. Ser brasileiro, disse sem saber, é ter coragem de mostrar o que não somos, como no vídeo comercial acima.

Sejamos dignos e assumamos nossa desgraça.

- Equipe braziu.org -

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Um farol para o passado

Leandro Demori | Itália 15:17 | 13/11/2010

Viajo todas as semanas para Veneza por compromissos profissionais. Pego um trem que me consome 7 horas de vida entre ir e voltar. Uma das poucas paradas no caminho acontece em Bolonha, cidade que gosto muito e a qual conheço relativamente pouco mesmo tendo morado lá perto. Bolonha é um centro de excelência da Itália: sede da mais antiga universidade do mundo, construiu no correr dos séculos uma longa tradição de ensino e pesquisa que hoje faz girar na cidade cerca de 1,7 milhão de euros ao dia. Bolonha “la grassa, la rossa“, a gorda e vermelha Bolonha, rica, cara para se viver.

Centro nevrálgico da resistência partigiana ao nazismo e ao novo fascismo que jogaram a Itália em uma guerra civil entre 1943-45, a capital da Emília-Romanha está perdendo poder e charme.

Na última semana, centenas de mães com seus bebês dentro de carrinhos de passeio protestaram em praça pública. Um protesto com balões e doces para contrastar com o amargo de um despedaçado welfare state europeu: a administração pública pretende fechar as creches duas horas mais cedo para economizar dinheiro. Bolonha e seus tijolos vermelhos amanhecem todos os dias um pouco mais cinzentos de fumaça e descuido.

A geração italiana de hoje é a primeira do pós-guerra que será mais pobre do que a de seus pais. Desde o fim dos conflitos armados, todos os filhos superaram os genitores com mais dinheiro no bolso, melhores casas e carros, mais viagens e lazer, famílias mais bem assistidas economicamente. Atualmente, um em cada três jovens italianos sequer tem emprego.

O corte de fundos das políticas públicas é geral no continente: França, Inglaterra, Espanha, Holanda, Portugal, todos passaram a tesoura que vai desde congelamento de salários de funcionários públicos até cortes desses mesmos salários quando muito elevados, ou demissões. Os serviços públicos estão sendo dilapidados de forma visível, de escolas com menos professores a delegacias de polícia que fecham mais cedo. Enquanto os países em desenvolvimento avançam, a Europa regride.

Analisar um continente como esse olhando somente para o curto prazo é dar muita chance ao erro, no entanto. É cedo pra dizer se esses países estão fazendo o caminho inverso ou se estão fazendo apenas ‘um outro caminho’. Alguém já deve ter dito ao longo das eras que a coisa por aqui ia ficar preta… No curto prazo, a coisa já está preta; mas o preto europeu, comparado com o preto brasileiro, é ainda cinza-claro.

Em entrevista à revista semanal l’Espresso da semana passada (a qual assino e só consegui abrir hoje), o economista Joseph Stiglitz explica que um dos remédios para evitar o fim do sonho americano — ou de parte dele — é investir em pequenas e médias empresas e deixar que os colossos industriais e financeiros se virem. Para ele, salvar bancos foi um erro dos Estados Unidos, começado por Bush e continuado por Obama.

A Itália é o país da pequena e da média empresa, mas vem lutando contra sua própria história. A globalização foi o remédio para o subdesenvolvimento ao mesmo tempo em que tirou dos países ricos muitas possibilidades. Não adianta se debater: a FIAT fechará plantas na Itália e fabricará cada vez mais carros no Brasil, onde o mercado interno ainda é enorme e de longo prazo, onde a mão-de-obra custa menos e onde as pessoas passam por um momento efervescente de consumo comparado aos anos 60 e 70 europeus. E assim farão Pirelli, Piaggio, Benetton, Prada… dando ao ex-terceiro mundo a chance de ouro deste século, mesmo que muitos desses países, pouco tempo atrás, lutassem contra o ‘demônio do mundo global’ que hoje os alimenta e os enriquece.

O que sobra para a Itália? Sobra ‘excelência’, é o que vez ou outra se ouve. O país deve se concentrar em produzir e vender caro o que levou anos para desenvolver e que poucos no mundo fazem melhor: carros de luxo, motos, barcos, navios de cruzeiro, moda de alto nível, design, vinhos, culinária, história. O número de pobres está diminuindo no mundo e a classe média europeia está visivelmente mais empobrecida. Esse movimento gera um nivelamento social que aumenta, por exemplo, a venda de carros de baixa cilindrada, exatamente o que acontece no Brasil. Ao mesmo tempo, o número de ricos está aumentando; essas pessoas passaram a vida sonhando em dirigir uma Ferrari. A receita de produzir excelência vale também para outros países do bloco — e para os EUA.

Dias atrás, parte do estádio dos gladiadores de Pompéia desabou. Para a economia nacional, o fato deveria ser visto como o desabamento de parte de uma estrutura industrial — o turismo, a história, a cultura e a arte são o motor dessa excelência italiana que não pode se deixar enganar pelo ‘efeito globalização’ em países em desenvolvimento. Olhar para um Fiat Uno como deus salvador dos mercados europeus é querer competir com o Brasil apontando o farol para o passado.

Mais dinheiro. Ponto

Pedro Augusto | Alemanha 01:33 | 09/11/2010

É possível ser a favor de algum imposto? Sim, claro que é possível. Em um país com uma carga tributária como a nossa, ainda assim é possível ser a favor da criação de um imposto? Novamente a resposta é afirmativa. Até para o mais ferrenho dos liberais a mera extirpação do sistema tributário é algo que não deve ser colocado na mesa, já que as alternativas aos tributos são ainda piores, como já demonstrou a história (até mesmo Ayn Rand aceita a tributação como forma de financiamento estatal).

A discussão da CPMF (Contribuição Provisória sobre a Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Financeira) começa a tomar corpo na política brasileira pós-eleição. Com serviços em padrões africanos e tributação padrão escandinavo, pode-se, ainda assim, dizer sim a instituição da CPMF? Com algumas condições, claro que sim.

A CPMF surge em 1994, ainda como Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira (IPMF), conhecido popularmente como “imposto do cheque”. Depois de um julgamento conturbado no Supremo Tribunal Federal, o referido imposto foi declarado inconstitucional (pouparei o nobre leitor e a bela leitora das tecnicalidades jurídicas que dão um sono…). Passados dois anos ela volta, com uma emenda constitucional, agora sob outra figura tributária: a contribuição. Passada a barreira estipulada pelo STF, a CPMF passa de provisória a permanente. Para honrar o nome ela era instituída com prazo de início e prazo de término. Sempre que o prazo final se aproximava, as “lideranças políticas” se juntavam e aprovavam a sua prorrogação (essa continuação, inclusive, deu ensejo para uma das discussões mais surreais já havidas no plenário do STF, que também ficará de fora para evitar mais bocejos).  De continuação em continuação, a provisória CPMF foi provisoriamente cobrada de 1997 a 2007 de todos nós, a cada cheque assinado, a cada saque efetuado, a cada depósito recebido. Do forma provisória, nada escapava, nada ficava imune à cobrança.

Numa destas discussões pela continuação, governo e oposição se digladiaram tanto que, mesmo com maioria no Senado, o governo não conseguiu aprovar a continuação do imposto, no que foi considerada uma das maiores (entre as pouquíssimas) derrotas do presidente Lula e da sua gigantesca base de apoio no Congresso. À época as discussões pendiam entre dois extremos: do lado da oposição, os brados de que o cidadão não aguenta mais tanto imposto, o que é uma simplificação grotesca; do lado governista, os berros de que a saúde ficaria sem a sua principal fonte de custeio, já que a CPMF fora criada apenas para esse fim. Discussão foi e discussão veio e, com votos dos próprios governistas, a prorrogação da CPMF não foi aprovada.

Agora, uma vez mais, a gritaria começa novamente, com os mesmos argumentos: excesso de tributação e necessidade de financiamento da saúde. Alguns senadores e deputados eleitos já acenam positivamente com o retorno da CPMF enquanto outros, tentando fazer caixa político, esbravejam contra mais um “imposto que tira dinheiro do cidadão de bem”.

E qual a importância disso tudo? Quase nenhuma. Dependendo de como se dará a regulamentação da nova CPMF, podemos ter uma fonte confiável que realmente aumentará o investimento em saúde ou apenas mais uma fonte para a pantagruélica necessidade estatal por dinheiro.

No Brasil, uma parte das receitas, mesmo aquelas arrecadadas com uma finalidade específica (por exemplo, saúde), entra no que se convencionou chamar de DRU, ou desvinculação das receitas da União. O que a DRU faz nada mais é do que pegar 20% das receitas que deveriam ir para um determinado fim e jogar no caixa comum, onde não será gasto para o que foi arrecadado, mas, sim, comporá o “superávit primário” que tão bem faz ao Brasil, mesmo que seja parte do tão temido e odiado “Consenso de Washington”.

Clica e repara na coluna lilás

Por outro lado, em uma manobra financeiro-contábil, o dinheiro que atualmente vai para a saúde será substituído pelas receitas advindas da nova CPMF, trocando exatamente a dúzia por doze. Se antes se investia 30 bilhões em saúde dos cofres do Estado, caso aprovada a nova CPMF, os mesmos 30 bilhões serão investidos, apenas vindo de uma fonte conhecida, ficando o que antes vinha do caixa único livre para os fins que o governo julgar mais apropriado (este Braziu tem uma sugestão modesta: mais publicidade estatal).

Sem que a CPMF seja aprovada com mecanismos que possam fazer com que os investimentos em saúde permaneçam no mesmo nível atual e as receitas advindas da CPMF sejam integralmente direcionados para a saúde, a aprovação da CPMF não passará de mais um instrumento para colocar a mão no bolso dos cidadãos.

Da mesma forma, se não houver uma regra proibindo que as receitas da nova CPMF integrem o montante que entra nos valores da DRU, esse aumento será apenas mais uma forma de aumentar o financiamento estatal para o que aprouver as lideranças, a saúde ficando –- como é a tradição -– depois de muitas outras prioridades estatais muito mais prementes.

Clube dos Malvados

Leandro Demori | Itália 14:14 | 08/11/2010

Leio no jornal La Repubblica que a estratégia dos BRIC deu certo: Brasil, Rússia, Índia e China conquistaram mais poder no Fundo Monetário Internacional. Rússia e China melhoram sua posição, pois já possuíam assento no grupo. Brasil e Índia são novidades recém-chegadas, deixam as cadeiras rotativas para sentar nas permanentes. “Acordo histórico”, comentou o número 1 do FMI, o francês Dominique Strauss-Kahn. “É a maior mudança na instituição desde sua fundação”, diz o jornal citando o executivo. O FMI começou a trabalhar em Bretton Woods logo após o fim da Segunda Guerra.

A China é o país que mais sai ganhando com a mudança: de sexto acionista do Fundo passa para terceiro, logo atrás de EUA e Japão. Os chineses atropelaram Alemanha, França e Grã-Bretanha. A Europa perde ainda mais espaço: como o número de cadeiras permanecerá imutável (24), os europeus deverão mandar alguém levantar para que os novos convidados sentem. O continente deverá renunciar a duas das oito poltronas que ocupa; Bélgica e Holanda podem rodar.

As mudanças pra valer ainda levam dois anos para entrar em vigência — conforme o acordo –, mas alguns aspectos iniciais do banco mudam desde já: o FMI duplica seu capital, chegando a 755,7 bilhões de dólares. O poder de voto dos países mais ricos (Japão, EUA, Alemanha, França, Reino Unido e Itália) enfraquece 6%, que passam para o bloco BRIC.

No FMI, cada país tem direito a um voto, mas os votos têm pesos diferentes. O voto do Brasil vale 2,32%; menos que o do Egito (3,26%), o da Tanzânia (3,00%) e o do Irã (2,47%). O voto de maior peso é o dos EUA (17%), o que o torna o único país com poder de veto. O do Japão vem em segundo com 6,13%. Somados, os votos do BRIC chegam a 14,8%. A nova configuração buscará atualizar o peso dos países em relação ao peso dos votos.

Um década depois de mandarmos o FMI embora do Brasil, hoje avançamos mais pontos na mesa de decisão do Fundo. No Clube dos Malvados, caberá cada vez mais ao nosso governo ajudar a decidir quanto a economia de um país miserável deverá renunciar aos investimentos em troca do bendito dinheiro do banco. O trauma, se houver, vai passar rapidinho: país é como criança, um dia cresce e entende como o mundo funciona.

Live blogging | Debate final | TV Globo

Leandro Demori | Itália 21:11 | 29/10/2010

Live blogging hoje | Debate final | TV Globo

Leandro Demori | Itália 14:10 | 29/10/2010

Ainda estamos indecisos, mas talvez estaremos aqui para o embate final no gel da democracia.

A transmissão começa depois de Passssssssione.

Exclu$ivo: governo brasileiro, o Vaticano e Silas Malafaia = guerra

Leandro Demori | Itália 11:15 | 07/10/2010

Poucas coisas no mundo são mais sigilosas do que os acordos de Estado que envolvem o Vaticano. Desde 2007, o Brasil anda às voltas com um deles, promulgado, por fim, em fevereiro deste ano.

Entre os temas presentes no documento estariam a preservação de igrejas, isenções fiscais, concessão de vistos para missionários e o ensino de religião nas escolas. O acordo faz com que o Governo Brasileiro, entre outras coisas, seja responsável por restaurar igrejas, mesmo que a posse das mesmas continue sendo da Santa Sé. O Governo também permitiria que o Vaticano não reconhecesse direitos trabalhistas a quem dedica a vida à Obra do $enhor: padres, irmãos, freiras, missionários.

De acordo com o jornal Valor Econômico de hoje [conteúdo fechado para assinantes], Lula teria dito que pode “revisar” o acordo caso Je$us continue a fazer campanha potencialmente prejudicial à Dilma. Dilma não venceu a campanha no primeiro turno porque, como todo mundo sabe, Deus não quis.

Além desse tratado, há outro, no entanto, assinado recentemente e que pode ter provocado o enxofre dos céus por parte de outros cristãos. No mês passado, em visita à Itália, o Ministro do Turismo, Luiz Barretto, teve uma reunião na Santa Sé. Lá, foi decidido que o governo brasileiro dará suporte à Igreja Católica para que a Opera Romana possa trabalhar com turismo religioso no Brasil — levar gente para visitar, por exemplo, Aparecida, o Beto Carreiro do senta-levanta.

O que deixou de ser contado é o pano de fundo dessa história, que este Braziu dá de modo exclu$ivo para você [nooooooo$$a como eles são furões]: o objetivo da Sé, baseado em números fornecidos pelo Brasil, é conter a sangria de fiéis provocada pelo pessoal do dinheiro na sacolinha (“ou dá ou desce”). Parte desse pessoal naturalmente detestou a ideia de que o governo estará ajudando oficialmente a Igreja a combater seus inimigus (eles). Estaria aí um o motivo pelo qual muitos religiosos começaram a bater em Dilma? Naum çei nada de nada e nego tudo sempre.

ps. A informação me foi dada em off. Não comentem com ninguém, ok? Confio em vocês.

Aumente o volume e feche a boca

Leandro Demori | Itália 07:07 | 18/09/2010

Japoneses e suas máquinas fotográficas.

Japoneses no Coliseu, japoneses na Fontana di Trevi.

Japoneses em Roma, em Napoli, em Veneza.

Japoneses.

Minha vida é um constante desviar de japoneses.

Os japoneses na Europa carregam mais do que suas frenéticas máquinas fotográficas. Agora, eles também vêm acoplados a sacolas de lojas de grife. Japoneses e a Dolce & Gabbana, japoneses e a Prada, japoneses e as sacolas negras de Giorgio Armani.

Enquanto nós ocidentais temos vontade de futuro — cachorros-robô, domésticas-robô, amantes-robô — os japoneses têm vontade de passado. Nada melhor do que o mundo kitsch das grifes italianas para ajudar na viagem.

Se você encontrar algum japonês na Europa que não esteja carregando uma sacola de grife é porque o japonês é, na verdade, chinês.

Os chineses são os japoneses que deram errado. Enquanto os jovens chineses filhos de agregados do partido único viajam a Tóquio e se martirizam por não terem nascido lá, milhões de outros jovens chineses trabalham como condenados em fábricas de roupas e eletroeletrônicos.

Os chineses a cores que veem no Japão os Estados Unidos da Ásia compram iPhones produzidos em seu próprio país por aqueles outros chineses, os semi-escravos em preto & branco. As roupas de grife compradas pelos japoneses na Europa também são produzidas pela mesma classe operária.

A China é hoje um dos maiores buracos negros de informação e desrespeito aos direitos humanos do mundo. Os Estados Unidos e a União Europeia estão se lixando para os direitos humanos. Obama e os líderes europeus morrem de medo da China.

Não há comoção social porque ninguém realmente sabe o que acontece do lado de lá da Muralha. Na China, a imprensa é toda encoleirada pelo governo. Enquanto no Brasil muita gente bate as pernas porque a imprensa faz “oposição demais”, os políticos da China dormem o sono dos anjos. Os chineses têm certeza de que o mal maior não está na carga de trabalho bestial ou nos salários miseráveis, mas no excesso de liberdade de expressão.

Alguém há de aproveitar o poder de compra que temos hoje no Brasil. Com todo mundo no shopping center, não há momento melhor para acabar com esse absurdo de qualquer um falar o que pensa. Aproveitem. Enquanto chegarem iPhones e roupas kitsch a bom preço, ninguém nem se dará conta.

Independência ou morte

Leandro Demori | Itália 09:47 | 07/09/2010

[Extraído do original "Independência ou Morte", quadro a óleo de Pedro Américo, pintado em 1888 e conservado no Museu do Ipiranga]

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