Cretinice
O Brasil é um país fantástico por seu imponderável. A fictícia turista holandesa comprou uma bolsa paga com Visa Electron nas areias da praia de Copacabana logo antes de dormir por 48 horas no saguão do Aeroporto Tom Jobim porque os horários dos voos implodiram. A turista holandesa viu o futuro no pagamento com dinheiro de plástico em frente ao mar (de biquíni provavelmente ridículo cobrindo a pele de branca-neve) e achou aquilo fantástico; depois usou a mesma bolsa como travesseiro por 2 dias seguidos e ficou confusa e intrigada.
O imponderável brasileiro é ainda mais fantástico quando pensamos na violência. O Brasil é o país que mais democratizou a bandidagem no universo. A microcriminalidade é exemplar: na periferia de Roma, como na periferia de Paris ou de qualquer outra metrópole, você é avisado: “não vá lá”. “Lá” é um lugar determinado onde a bolsa que você comprou nas areias do Rio — e que serviu de travesseiro durante as 48 horas compulsórias de aeroporto — pode deixar de ser sua. No Brasil não é assim: assaltos existem a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Não podemos dizer “não vá lá”, a violência é democrática demais e o conselho, inútil.
Roma tem grades nas janelas. Qualquer grande cidade do mundo tem. Quando eu morava em uma casa alugada em Porto Alegre, um bandido caiu do teto enquanto eu dormia. Arrancou algumas telhas, quebrou o forro e se estatelou em cima da mesa da cozinha. Encontrou-me pela manhã ainda na cama, de pijamas, se assustou e saiu correndo. Eu corri atrás, até hoje nem sei o motivo. Ninguém mandou eu desafiá-lo com grades.
Paris tem grades nas janelas. Londres tem. Nova Iorque. Como o imponderável é reduzido nessas cidades, as grades trazem mais segurança psicológica do que qualquer outra coisa. No Brasil, as grades não trazem mais nada, já que chove bandido pelos buracos do teto de casa.
Todo o mundo ocidental é mais ou menos igual. Visa Electron, bolsas, aeroportos, grades. Todo político ocidental se comporta de maneira mais ou menos igual, com pequenas diferenças de vergonha na cara que não fazem de uns menos bandidos do que outros, os fazem só mais cuidadosos com o que as pessoas irão pensar.
“Lula dá rosa a Dilma em comício em Belo Horizonte e critica William Bonner” [Folha].
A cretinice política brasileira foge do padrão nacional por não ser imponderável. É previsível e até mesmo desejável. A plateia anseia pela crítica à Mídia Má depois que a Nova Pupila foi “interpelada” pelo Jornalista, e o Mentor atende ao chamado. A lógica é a mesma de “O dia que a imprensa vier aí e essa porra tivé fechada… o prejuízo político é maió du que botá dois guarda pá tomá conta…”. É preciso sempre “botá alguém pá tomá conta”, pra condicionar a audiência de que as críticas são sempre injustas, as perguntas são sempre capciosas e os jornalistas são sempre golpistas. Assim você dissolve os problemas de antemão e ainda paga de injustiçado.
Se esse modo de fazer política fosse um lugar, o conselho valeria ouro: “não vá lá”.
Tags: Bonner, Dilma, Imprensa, Lula, PICA (Partido da Imprensa Chapa-branca e Adesista), PiG
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