É sempre quarta-feira

Leandro Demori | Itália 07:56 | 21/09/2010

São 20h15 quando Eva chega ao antigo hospital abandonado. Sherzaad não lembra a data em que pediu o asilo político, só lembra que era inverno. Pega o telefone celular e liga para o que ele chama de “uma amiga em Bari”. Fala com ela por breves segundos antes de passar a ligação para Eva.

Giovanna conversa com um homem que esteve na Noruega. Ao contrário de todas as expectativas, ter estado na Noruega é péssimo. O asilo é um cabo-de-guerra em que ninguém faz força, uma luta entre países para provar quem tem as piores condições de conceder casa e comida. Quem vence, perde; países que podem oferecer melhores condições devem se responsabilizar pelo refugiado, gastar parte do caixa público para mantê-lo. Ninguém quer se responsabilizar pelos efeitos colaterais da guerra.

O “cara da Noruega” se chama Zahbi e quer ficar na Itália.

Zahbi e Sherzaad são afegãos, fugitivos de uma guerra que já dissolveu quase uma década de suas vidas. Zahbi e Sherzaad não contam como vieram parar na Itália — não querem ter vida pregressa.

“Aqui é bom, tem até restaurante”, brinca Sherzaad, apontando para duas caixas térmicas onde pratos pré-prontos de massa típica italiana são armazenados. Nasceu em Jalalabad, cuja foto que ilustra o verbete em inglês da Wikipedia faz se assemelhar a um moderno centro de uma cidade normal. Sherzaad não parece ter fugido de Jalalabad por medo da modernidade.

Os afegãos de Roma fazem parte de uma minoria mongol levada à região pelos exércitos de Gengis Khan a partir do século XIII; são chamados de Hazaras e formavam um quinto da população do país antes da invasão militar. Após a perda de controle territorial em algumas regiões do país por parte dos exércitos invasores, os hazaras começaram a se espalhar pelo mundo. Hoje, um em cada quatro refugiados que vagam pelo planeta são afegãos hazaras.

Para que fiquem na Itália, Sherzaad e Zhabi não podem ser pegos pela polícia nos próximos 18 meses. Ambos pediram asilo em países que têm melhores condições de abrigo (Noruega e Alemanha) e, pela lei europeia, precisam voltar para lá. Se quiserem viver aqui, devem acordar todas as manhãs por um ano e meio como se não existissem. Cumprido o período fantasma, fazem novo pedido de asilo. Precisam, na prática, fazer com que sua ‘vida europeia’ seja apagada e recomece do zero. Olhando nos olhos de Sherzaad e Zhabi, acreditei que seria bom se recomeçasse de verdade.

Sherzaad desembarcou na Europa em 2008. Veio pela Grécia e rumou para a Inglaterra. Pego pela polícia, foi deportado novamente para a Grécia. Fugiu, rodou por Áustria e Eslovênia até chegar à Itália. Conta a história e ri, mas não gosta de contar a toda hora.

Sherzaad quer ficar na Itália mesmo sabendo que não há emprego. “Qui si sta bene”. Aprendeu logo uma das expressões mais utilizadas na península, um certo conformismo italiano típico que busca justificar o índice de desenvolvimento do país na última década — inferior ao da Europa do lado de lá dos Alpes — com seus monumentos históricos, suas belas paisagens de praias e montanhas, o bom clima, a excelente comida, o ar que se respira.

Eva a Giovanna ouvem tudo pacientemente. Têm fome. São 21h30, não comem nada desde o meio-dia. Ambas são voluntárias freelance: vêm todas as semanas, nas quartas-feiras, ao antigo hospital transformado em abrigo de refugiados para ajudar gente como Sherzaad e Zahbi a colocar a documentação em dia. Os pedidos de asilo estão em desordem assustadora.

Eva é tradutora, versa palestras e conversações do inglês para o italiano. Giovanna é consultora legal. Nenhuma delas ganha uma lira pelo trabalho das quartas. Se fizesse algum extra naqueles dias, Eva talvez conseguisse trocar o Fiat surrado com três camadas visíveis de pintura em tons mal calibrados por um carro mais novo. Eva não parece se importar.

Afegãos têm um jeito peculiar de comprimentar. Apertam sua mão e depois a batem no próprio peito, espalmada, como quisessem tocar o próprio coração. Olham para você enquanto fazem isso, e sorriem.

Eva explica algo em italiano para um deles, que traduz para o outro.

Sherzaad e Zahbi, assim como todos os outros 70 conacionais que ali estão, se vestem com camisolões longos e calças largas, brancos. Não usam barbas ou turbantes como a imagem clássica dos afegãos espalhada no período pós-invasão. Aqueles, os de barba e turbante, em um mundo falsamente simples de ser explicado, são os inimigos.

Perseguidos e tratados como linhagem inferior pela maioria afegã, os hazaras são, além de mongóis, muçulmanos xiitas –- minoria dentro da população sunita afegã. Os hazaras xiitas são, portanto, a minoria da minoria. Após o início dos conflitos, foram escurraçados violentamente pelo Taleban, que tomou suas casas e suas mulheres. Quem não fugiu, morreu.

Se aproxima o Ramadã*, o que, para um muçulmano naquelas condições, representa um problema. Pouco antes de serem transferidos para o hospital, os afegãos ocupavam uma área aberta onde haviam formado um campo de refugiados. Precisaram de socorro por conta do calor bestial de Roma no pico do verão: não havia mais onde buscar água. No Ramadã, precisam ficar até 16 horas por dia sem comer ou beber, do nascer do sol ao poente.

Faz 40 graus em Roma, não há um fio de vento e a estrutura que os abriga fecha durante o dia. Não podem ficar lá dentro, ao reparo do sol. Precisam ir para a rua. Sobreviver ao Ramadã será uma prova de fé.

São 22h10 e Eva e Giovanna ainda estão sentadas desconfortavelmente em duas cadeiras de plástico no pátio externo do prédio. Giovanna ensina a polir o italiano enquanto ouve histórias de vida e fuga. A maioria dos contadores fala rudimentarmente. Um deles chama Giovanna de “Giovanni”. Ela, vaidosa, o repreende. “Giovanni é nome de homem”.

Eva e Giovanna continuam a preencher fichas.

Nome:
Sobrenome:
Cidade de partida:
Cidade de chegada:
Telefone para contato:

Todos os afegãos têm celular.

Chega outro, Fahim al-Ahari. Perdeu todos os documentos. É informado de que precisa prestar queixa na polícia. Encosta mais um na mesma situação para ouvir atentamente, perdeu tudo e também não fez a queixa. Muitos afegãos perdem seus documentos. Fahim diz que a polícia inglesa ficou com seus papéis quando foi pego ilegalmente no país e deportado para a Itália. Ao longo da noite, chegarão outros sem documentos e sem denúncias à polícia, sem papéis e deportados.

São 22h51, Giovanna e Eva se levantam. A vida legal dos afegãos de Roma precisa ser suspensa até a próxima quarta-feira. É sempre quarta-feira na vida dos afegãos de Roma.

*O Ramadã já acabou. Comecei a escrever o texto em julho, quando visitei o centro de refugiados.

Nove anos depois

Fabricio Pontin | Estados Unidos 21:53 | 11/09/2010

Todo mundo que eu conheço tem uma história bacaninha de como ficou sabendo dos atentados. Eu não lembro direito. Tudo que eu lembro é que estava na faculdade e ouvi algo sobre um incêndio no World Trade Center. Depois, no ônibus, tinha uma turma rindo e dizendo que parecia que uns nove outros aviões tinham sido sequestrados. Cheguei em casa, a primeira torre já tinha caído e a outra estava lá enquanto o repórter da CNN surtava no vídeo.

Os dias que se seguiram os atentados foram um festival de informação desencontrada. Ninguém realmente acreditava que os Estados Unidos iam demorar mais de um ano para capturar o Osama, ninguém realmente pensava que trilhões de dólares seriam gastos em duas guerras e que o presidente dos Estados Unidos financiaria uma delas com dinheiro chinês (o que certamente vai passar para a história como um dos piores erros estratégicos de uma administração norte-americana).

Nove anos depois, ninguém sabe se Osama está vivo ou morto, e pouco importa. A guerra no Iraque foi um desastre inconclusivo: ainda que houvesse razões para invadir o território e arrancar o Saddam de lá, o erro americano foi parecido com o cometido no Vietnam: ao pensarem que seriam saudados como libertadores, foram recebidos como invasores sem legitimidade.

No Afeganistão, depois de nove anos de ataques e planos, tudo que os americanos conseguiram é garantir a administração de um setor de Kabul, o resto do território tendo sido largado na mão de lutas tribais e uma expansão preocupante do radicalismo via bin-Laden na fronteira com o Paquistão.

Nos Estados Unidos, o noticiário passa as notícias de nove anos atrás sem parar. Enquanto isso, o Congresso discute se os bombeiros, policiais e paramédicos que responderam as chamadas de emergência nos prédios têm direito a tratamento especial para as doenças que eles pegaram durante a operação. Na última votação, o Congresso decidiu que não.

Mais que isso: nesses nove anos, a direita religiosa, que tinha adquirido legitimidade no governo Reagan (que, justiça seja feita, era inteligente o suficiente para usar aquela gente, mas nunca para ser usado por eles), se tornou a vanguarda do partido republicano, empurrando o conservadorismo fiscal para escanteio e criando uma noção delirante de imperialismo democrático aliada com populismo de valores. A chamada Bush Doctrine consiste justamente na articulação dessas duas frentes, que só foram elaboradas após os ataques. Bush alegou, em 2000, ser um conservador amável. Essa faceta foi rapidamente abandonada por um discurso totalmente diferente e o país ainda sofre as consequências dessa reestruturação.

Uma economia no lixo

Os anos Clinton criaram uma sensação enorme de otimismo nos Estados Unidos. Durante os oito anos do governo do bonitão, os americanos gastaram e compraram como nunca. Eles também criaram uma série de expectativas completamente insanas sobre os próprios bens e planos de vida. Criou-se a chamada “loucura dos seis dígitos”, de uma hora para outra, qualquer casa em um subúrbio de Chicago, Nova Iorque ou Los Angeles custava um milhão de dólares.

Essa tendência não foi revertida por Bush, pelo contrário. Um dia depois dos ataques, Bush foi a público dizer para os americanos comprarem mais, consumirem intensamente. Naquele momento, Bush poderia ter tentado reproduzir Roosevelt em 1939, e pedido austeridade, calma e trabalho. Ele pediu o contrário: consumo, ansiedade e lazer. Seis anos depois, os Estados Unidos começavam a pior crise de empregos desde 1981 e a pior crise fiscal desde 1929.

Uma derrota anunciada, uma nova liderança

Com um desastre econômico, duas guerras indo para lugar algum e um desastre ecológico nas costas, Bush começou um processo de queda vertiginosa, que acabou determinando que a grande eleição de 2007 não seria a entre um republicano e um democrata, mas entre os democratas. As primárias entre Hillary e Obama foram sensivelmente mais importantes que a eleição geral, justamente por não existir qualquer chance de eleição para um candidato republicano.

No entanto, os neo-cons encontraram em Sarah Palin um veiculo ainda mais poderoso que Bush. Palin era um grande quadro em branco onde os neo-cons poderiam escrever o que bem entendessem. Ela era perfeita. E melhor ainda, a mídia liberal odiava ela. Os republicanos sabem que a estratégia política pós 9/11 depende da criação de antagonismos, e não poderiam perder a oportunidade de explorar esse cenário.

Com isso, a Sarah Palin surgiu como a grande liderança de oposição, mobilizando uma voz única de negativas às políticas democráticas. Mesmo com um Congresso favorável, Obama se viu cercado de democratas com medo de perder seus respectivos cargos, e foi incapaz de liderar, no primeiro ano de governo, uma politica de situação homogenea.

Resultado: enquanto os republicanos votavam em bloco, os democratas votavam de forma desordenada e sem uma contra-partida aos republicanos. Em dois anos, Obama baixou para a linha dos 40% de aprovação e agora começa a brincar com os 35%, com níveis de rejeição similares aos de Bush em 2006.

Empregos, estrutura e um elitista

Muita gente boa sustenta que o pior da crise econômica já passou. Do ponto de vista da austeridade fiscal, sem dúvida. Mas tem um lado que ninguém tá falando: os empregos perdidos durante a crise não estão voltando. As pessoas continuam sem emprego, sem condições de pagar pelas coisas que adquiriram durante o otimismo dos anos Clinton, na terceira ou quarta hipoteca da segunda ou teceira casa…

Com isso, a estrutura do país está em crise. Em Detroit, os pedidos de falência individual continuam crescendo, um passeio rápido pelas ruas de Memphis ou St. Louis denuncia uma série de negócios fechando e prédios que são abandonados por falta de pessoas para alugar salas.

Enquanto isso, Obama demonstra uma incapacidade notável de articular uma ponte entre a habilidade de fazer discursos geniais com uma comunicação efetiva com o grande público. Ao contrário de Clinton, Obama não tem, hoje, qualquer simpatia com os democratas do meio-oeste, que têm um perfil mais de classe-média baixa, operária-industrial. Enquanto isso, Palin apela forte para o público de direita. Agora, Obama olha para o mapa eleitoral e vê os republicanos com chance de eleger governadores em 30 dos 50 estados, e com alta possibilidade de reverter a maioria democrata no Congresso, e diminuir a vantagem no senado.

Tolerância de mão única

Entre as discussões bobas da mesquita próxima do ground zero e a suposta queima do Corão por um pastor imbecil (pleonasmo, eu sei) na Flórida, uma coisa fica clara sobre o cenário pós 9/11, e que talvez seja a maior vitória dos atentados: os americanos estão extremamente dispostos a abrir mão de liberdades civis conquistadas nos últimos 100 anos em nome da suposta segurança nacional.

Por um lado, existe a tentativa de legitimar o Islã no contexto norte-americano após os ataques. Depois dos abusos praticados pelo governo Bush contra prisioneiros de guerra e o evidente estabelecimento de elementos religiosos dentro do Imperialismo Democrático da doutrina Bush, agora o esforço passa por legitimar o Islã. Exceto que tentar legitimar algo já presume a ilegitimidade da coisa. E ai temos a primeira dimensão do problema, ao tentar justificar as atividades normais de muçulmanos nos Estados Unidos, surge a pergunta “porque esses indivíduos precisam justificar essas atividades, quando outros não precisam?”.

Do outro lado, existe uma preocupação especial com as sensibilidades do Islã. Todas as religiões podem ser objeto de chacota, menos o Islã. Esse tratamento especial acaba denotando a construção de uma via de mão única, onde se permitem a construção de mesquitas, mas se aceita que essas mesmas mesquitas não permitam que cachorros passem na frente do estabelecimento (cachorros são animais impuros, entenda). Nada disso ajuda no processo de integração, pelo contrário.

Acontece que Obama não tem exatamente um histórico fabuloso na questão de direitos humanos. Guantánamo continua ativa, prisioneiros são mantidos no local sem julgamento e sem direito a Habeas Corpus. E aí?

Um país na encruzilhada

Sem dúvida, a eleição de Obama foi um evento extremamente relevante do ponto de vista socio-cultural, Obama venceu em estados onde 40 anos atrás um negro não poderia sentar na mesma mesa de um branco. Mas o momento de euforia com a eleição se esvaziou antes da posse do Obama. Já no terceiro mês, a aprovação de Obama era normal, e depois de um ano, a queda começou a se tornar vertiginosa.

Parece que houve, sim, uma mudança substancial no país, mas não era a que os democratas esperavam. Pelo contrário, a eleição mobilizou os conservadores e rapidamente frustrou os democratas. Agora, Obama vai ter que lidar com a potencial eleição de republicanos extremamente conservadores para o Congresso (os moderados estão sendo obliterados pela Palin), e esperar que essa tendência não se reverta na eleição da Palin como presidente em 2012 (o que sigo achando pouco provável).

Ainda assim, o crescimento do conservadorismo religioso enquanto vanguarda política é um fato incontestável desde 2001, e Obama perdeu a chance de parar essa tendência no momento da posse. Agora, ela retornou com mais força e mais poder de organização e talvez possa desenhar uma mudança política maior que a protagonizada por Reagan.

“WikiLeaks falha big bang mediático”

braziu.org 11:46 | 31/07/2010

Por Jorge Almeida Fernandes – do publico.pt

A guerra não precisa das “revelações” do WikiLeaks para ser o pesadelo da NATO e de Obama. Se o site pôs em risco a vida de informadores afegãos, diz o seu fundador, a culpa é da Casa Branca, que não respondeu ao seu pedido de ajuda. A “maior fuga de informação da história militar” está a redundar em fiasco. Ao fim de dois dias saiu das primeiras páginas. Por Jorge Almeida Fernandes

“A operação do site WikiLeaks foi inédita pela sua escala – uma fuga de informação de mais de 90 mil documentos militares – e demonstra que a Internet pode mudar as regras do jogo da guerra, agravando a vulnerabilidade do “segredo militar”. Foi um sucesso de propaganda para Julian Assange, fundador do WikiLeaks. Era o esboço de uma revolução nos media, em que um site participativo ditava a sua lei de “transparência” a três jornais históricos. Mas, ao terceiro dia, o tema desapareceu das primeiras páginas. Terá sido um flop?

O WikiLeaks é uma organização peculiar. Especializada na divulgação de documentos confidenciais, é uma máquina “blindada” em termos de segurança informática e, refugiada em “paraísos informativos”, não está sujeita a nenhum sistema legal. “É a primeira organização informativa do mundo sem Estado”, anotou Jay Rosen, professor de Jornalismo em Nova Iorque. “Isto é novo. Tal como a Internet, o WikiLeaks não tem endereço territorial nem sede central.”

A operação foi cuidadosamente montada. A informação foi antecipadamente passada a três “jornais de papel” – The New York Times, The Guardian e o semanário Der Spiegel. Por que não colocaram a documentação em linha para que os media de todo o mundo a ela pudessem ter acesso?

Assange explicou há meses que a “transparência” passa pelas leis do mercado: “Acredita-se que quanto mais importante é um documento mais divulgado ele será. É absolutamente falso. Tem a ver com a oferta e a procura. Uma oferta fraca arrasta uma procura forte e é isto que tem valor. Quando difundimos uma coisa em todo o mundo, a oferta é infinita e, portanto, o valor aproxima-se do zero.”

Os três jornais de referência serviram para caucionar a fuga e maximizar o seu impacto. E prestaram um serviço: reuniram especialistas para descodificar a linguagem, as siglas e o calão das comunicações militares. Em bruto, este tipo de documentação é ilegível.

Jornalismos
Cada jornal explorou a informação segundo a sua óptica. O NY Times sublinhou a duplicidade do Paquistão; o Guardian focou os relatórios sobre vítimas civis; o Spiegel realçou o encobrimento da difícil situação das tropas alemãs pelo Governo de Berlim. São três ópticas em consonância com as sensibilidades nacionais.

O título de primeira página do NY Times – Paquistão ajuda a insurreição no Afeganistão – mereceu uma ironia de Anne Applebaum, no (concorrente) Washington Post: será isto “notícia”, quando o NY Times reportou e analisou, dezenas e dezenas de vezes, a cumplicidade entre os serviços secretos militares paquistaneses e os taliban?

Esta ironia liga-se ao paradoxo da fuga: os documentos não têm praticamente novidade. Mostram, disse um jornalista, que a guerra é um inferno e é suja, que as operações provocam mais vítimas civis do que a estatística oficial reconhece, que o Paquistão é dúplice, que o Governo de Cabul é corrupto, que há incompetência e desorientação entre os militares da força internacional. A fuga pretendia explorar o “efeito de massa” e os imensos detalhes inseridos em milhares de documentos.

Assange assume-se como um justiceiro, que “adora esmagar patifes”, e qualifica a actividade do seu site como “bom jornalismo” e “um serviço de informação do povo”. Quanto ao objectivo da operação, diz: “Há uma tendência para acabar com a guerra no Afeganistão. Esta informação não é isolada e provocará uma viragem política significativa.”

O repórter italiano Gian Micalessin, que tem coberto a guerra afegã, denuncia o “bom jornalismo” do WikiLeaks. Na conferência de imprensa em Londres, na segunda-feira, Assange colocou a diferença entre boa e má informação “na autenticidade das fontes, capazes de transmitir uma indiscutível verdade”. Ora, os 92 mil documentos são “informações” recolhidas no campo, ao mais baixo nível de intelligence. O equivalente a um relatório de polícia “no local do crime”.

Resume Micalessin: “A procura da verdade – tanto no campo da intelligence como no do jornalismo – não se baseia apenas no acesso às fontes e aos documentos, mas também na capacidade de os analisar e construir uma trama capaz de fazer compreender o encadeamento dos acontecimentos e da estratégia.” Fontes em bruto são matéria-prima, não informação.

O jornalismo, dizia-se outrora, é o primeiro rascunho da História.

A arte da fuga
As fugas de informação são o nervo do jornalismo político desde que a liberdade de imprensa se afirmou. Há pequenas e grandes fugas, as de revolta moral, as de ressentimento e as de intoxicação. E há fugas que marcam a História. Dois exemplos americanos clássicos são os “Pentagon Papers” e as revelações do “Garganta Funda” no caso Watergate.

Ao contrário dos documentos do Afeganistão, os “Pentagon Papers” eram um conjunto de análises e relatórios das mais elevadas fontes – Casa Branca, Pentágono, CIA… – que cobriam, em 7000 páginas, a intervenção americana na Indochina ao longo de 22 anos (1945-67). Os papéis foram laboriosamente fotocopiados por Daniel Ellsberg, um analista da Rand Corporation que participou na sua elaboração. Crítico da guerra no Vietname, Ellsberg passou-os ao NY Times, em 1971.

Eles permitiam dizer categoricamente que a “Administração Johnson mentiu sistematicamente não só ao público como ao Congresso sobre um assunto de transcendente interesse nacional”. Teve grande impacto, porque o sentimento antiguerra já estava maduro. E o efeito foi reforçado quando Nixon tentou impedir a sua publicação, que feria a nova estratégia de alargar o conflito ao Laos e ao Camboja para negociar em posição de força.

Radical foi a eficácia do “Garganta Funda”, que hoje se sabe ter sido Mark Felt, subdirector do FBI: gota a gota, foi desfiando informações que culminaram na demissão de Nixon, em 1974.

Ellsberg, que admira Assange, fez um paralelo entre os seus casos. Declarou numa entrevista que esta fuga de informação é a mais importante desde os “Pentagon Papers”. Com uma diferença: “Tem uma escala muito mais larga e, graças à Internet, deu a volta ao mundo muito mais rapidamente.”

Ellsberg pôde fazer a fuga, porque tinha sido inventada a fotocópia. Assange não só beneficia da Internet, como da vulnerabilidade da informação electrónica. É uma das razões de alarme do Pentágono, que fez da identificação do informador ou informadores do WikiLeaks “um objectivo estratégico”. O problema é que todos os militares mobilizados no Afeganistão, os analistas do Pentágono e seus parceiros privados podem aceder, via Intranet, a este tipo de informação.

“A Web tornou-se uma ameaça para as nações em guerra, porque a informação secreta é decisiva para o sucesso ou o fracasso no conflito. Quem revele um segredo e o difunda numa escala gigantesca pode influenciar a guerra”, anota o diário alemão Süddeutsche Zeitung.

A guerra
A operação teve efeitos políticos. Na Europa, os sectores críticos da guerra subiram a pressão sobre os governos, exigindo a retirada do Afeganistão. Poderá ser este o efeito mais imediato. Em Washington, Obama enfrenta a pressão dos “pacifistas” democratas. Um ponto crítico é a nova quebra de confiança entre os EUA e o Paquistão. As revelações confirmam a ideia de atolamento e inutilidade da guerra, mas, ao contrário da previsão inicial de alguns analistas, não produziram um sobressalto dramático na opinião pública americana.

O fundamental está noutro plano: a guerra do Afeganistão não precisa do WikiLeaks para ser um pesadelo da NATO e dos americanos. Em Agosto de 2009, uma fuga de informação filtrada pelo Washington Post atribuía ao general Stanley McChrystal a afirmação de que os EUA só tinham 12 meses para inverter o curso da guerra. Que se passa um ano depois?

Richard Haass, presidente do Council on Foreign Relations e que foi conselheiro de Colin Powell na era Bush, assina na Newsweek um artigo intitulado: Não estamos a vencer. E não vale a pena. A estratégia da contra-insurreição não está a resultar, diz. E nenhuma das opções que Obama tem à disposição é agradável. Restará ao general Petraeus reduzir as operações e poupar a vida de soldados, aguardando uma aproximação aos taliban. “Quanto mais depressa aceitarmos que o Afeganistão não é um problema a resolver mas uma situação a gerir, tanto melhor.”

Flop?
Na quinta-feira, Assange defendia-se de ter divulgado, na versão bruta colocada em linha, documentos com nomes de informadores afegãos, denúncia feita pelo jornal britânico The Times após investigação. Argumentou que tinha pedido à Casa Branca, na semana passada, que colaborasse com o site de modo “a minimizar a possibilidade de nomes de informadores serem divulgados”. Não teve resposta!

O magazine Slate chama a atenção para o facto de, após dois dias de estrondo, o assunto ter desaparecido da primeira página do NY Times. “A rapidez com que a imprensa e os políticos normalizaram o material como “não notícia” indicia que Julian Assange, líder do WikiLeaks, se poderá ter equivocado no desejo de produzir o grande bang mediático.” O segredo da gestão das fugas é administrá-las gota a gota. “Mas a estratégia gota a gota requer determinar o que é mais importante na história.” A falta de novidade torna essa escolha problemática.

No seu blogue na Foreign Policy, Tom Ricks ironizou: “Os milhares de documentos lembram-me o que é ser repórter: imensas pessoas diferentes a contar coisas diferentes. Leva algum tempo a distinguir o lixo do ouro.”

O antigo hacker Julian Assange diz ter outras munições na manga. Aguardemos a próxima “bomba”.”

Pitagóricas XX

Walter Valdevino | Brasil 13:00 | 15/06/2010

- “Em AL, PV apoia Renan; Marina vai de Heloisa Helena”. Renan ecológico. Faz $entido.

- “Brasileiros tomam 3,5 vezes mais banhos que britânicos”. Não foi o Lula que disse isso? Absurdo.

- “Petista preso em 2005 quer reaver dinheiro ‘da cueca’”. “Sobre o dinheiro, é uma questão que eu ainda tenho dificuldades de falar, até para um psicólogo. É uma coisa minha, de foro íntimo”. Não há dúvida. Faz $entido.

- “Letra do jingle de Dilma Rousseff” (via RSS). “Page Not Found. Oops. The page you are looking for cannot be found. CLICK HERE to return to the homepage”. Ufa, ainda bem.

- “Ligação do Paquistão com Talebã ‘é mais forte que se pensava’, diz relatório”. “O Paquistão parece estar fazendo um jogo duplo de magnitude impressionante’, diz o relatório”. Ziriguidum universal é mais forte que se pensava, diz estudo.

- “Dilma cita Lula trinta vezes em discurso de formalização de sua candidatura”. Alguma referência ao presidente $arney?

- “Eleições provocarão saída de suplentes do Senado”. “… atualmente, 13 [suplentes] exercem mandato.” “As eleições de 2010 vão marcar o fim da “bancada dos sem-voto” no Senado, que chegou a ter 20 integrantes.“. Repre$entatividade Braziu.

- “Colômbia resgata dois oficiais em poder das Farc após 12 anos de cativeiro”. Mais uma tentativa da mídia burguesa e neoliberal para criminalizar a autêntica luta da guerrilha revolucionária marxista-leninista.

- “Lula faz de Dilma sua genérica: ‘Eu mudei de nome’”. Acho “Diuma” um péssimo nome. Algo como “José Ribamar Ferreira de Araújo Costa“, por exemplo, ficaria mais adequado.

- “Lula diz que é bom negócio emprestar dinheiro para pobre”. Lição de vida da Casas Bahia, empresa “popular” que mascara os mais inconfessos interesses da burguesia detentora do monopólio dos meios de produção, criando uma falsa impressão de prosperidade e poder de consumo que só leva à alienação.

- “‘Quem participa assume bônus e ônus do governo’, diz Dilma sobre PMDB”. Sarney não assumirá nem bônus, nem ônus, mas comando mesmo.

- “Ultrarricos ganham força no Brasil, diz ‘Financial Times’”. Lula – ex-trabalhador, atual burguês – promovendo o neoliberalismo e o crescimento da elite opressora, corrupta, abastada e consumista. Precisamos de um governo de esquerda (José Serra) que não se curve aos interesses do capital especulativo internacional.

- “Vazamento é o 11 de Setembro do meio ambiente, diz Obama”. “Obama disse ainda não ser possível prever se ocorrerá, ainda em sua geração, uma completa transição na economia americana que acabe com a dependência do petróleo”. Não ocorrerá.

- “‘Fui vítima de uma covardia política’, diz Tuma Jr. sobre exoneração”. Injustiçado do Wii.

- “Tem gente que é especialista em fazer jogo rasteiro, diz Lula”. Recado aos aloprados do çetor di intelijenssia petista?

- “Serra ‘sinaliza’ vice tucano e o DEM ensaia uma crise”. Unidos rumo à derrota.

- “Eleição terá 13 candidatos; 7 podem ir a debates na TV”. $alve-$e quem puder.

- “PT está virando sublegenda do PMDB, diz deputado em greve de fome”. “Está virando” = constatação com alguns anos de atraso.

- “Irmão de presidente do Chile causa polêmica ao defender Pinochet”. “Na semana passada, o embaixador chileno na Argentina, Miguel Otero, pediu demissão após gerar polêmica ao dizer que “nem todos os chilenos sentiram o regime de Pinochet” e afirmar que o Chile seria hoje “como Cuba se não tivesse existido Pinochet”. Vizinhos se descontrolando.

- “Após “transe” coletivo e suspensão das aulas, escola do CE retoma atividades”. “Psicólogos, parapsicólogos e até religiosos foram chamados ao local para ajudar a explicar o que aconteceu com os estudantes.” Haha. “E$peciali$ta$”. Vai, Braziu!

- “Depósito-monstro de lítio pode alterar a economia do Afeganistão”. Haverá mortes + roubalheira interminável.

- “Fecho no mensalão após estreia do Brasil”. “O agente da PF [Maurício Morcardi Grillo] é a última das 640 pessoas a ser ouvida nesta fase da ação.Men$alão (no caso, do PT) estourou em maio de 2005. Estamos em 2010 e só agora acabaram de ouvir as testemunhas. Decisão final (= nenhuma) sairá em 2055.

Era uma vez no Afeganistão

Leandro Demori | Itália 13:37 | 08/06/2010

Bela coleção de fotografias e memórias publicadas pelo Foreign Policy sobre a vida cotidiana no país antes da guerra civil e da invasão russa na década de 70. Música, roupas, passeios ao ar livre, homens e mulheres convivendo juntos, escolhas — sociedade a milhas de distância daquela vista hoje, medieval e tribal.

Nostálgico o relato de Mohammad Qayoum, que viveu no país até 1968, quando se mudou para Beirut, no Líbano.

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