Política e religião na Finlândia
O debate cristão, graças a Deus, parece estar arrefecendo na campanha eleitoral brasileira e voltando para seus guetos religiosos. Silas Malafaia, da Assembléia de Deus, e Edir Macedo, da Igreja Universal, travam agora um embate pessoal – briga de pastor, sem ringue de gel nem biquíni, mas ainda assim divertida.
Enquanto isso, uma polêmica sobre o tema inquieta um pessoal lá daquelas bandas geladas para onde o mundo, e mesmo a Europa, não costuma olhar muito: os países nórdicos. Mais especificamente, a Finlândia. Nos últimos sete dias, nada menos do que 25 mil fieis abandonaram a Igreja Luterana da Finlândia, após assistirem a um debate na televisão. Na ocasião, a líder do partido Democrata-Cristão, ligado à igreja, fez duras críticas à legislação do país, que permite a união legal de casais homossexuais e a adoção de crianças.
Da polêmica, surge uma informação provavelmente desconhecida para muitos: o país, um dos mais desenvolvidos do mundo, tem duas igrejas consideradas “nacionais”: a Igreja Ortodoxa da Finlândia (com apenas 1% dos finlandeses entre seus fieis) e a Igreja Luterana da Finlândia (a qual pertence 80% da população). Nesta condição, ambas estão habilitadas a cobrar o dízimo através dos impostos estatais. A porcentagem do imposto-dízimo é proporcional à renda do cidadão. Quem não quer mais ter seu imposto descontado, basta pedir, mas a imensa maioria dos finlandeses paga. Calcula-se que a fuga em massa de fieis desta semana deve trazer um preju de 7 milhões de euros. Além de terem seus orçamentos atrelados ao do Estado, as duas igrejas ocupam um papel importante em cerimônias nacionais.
Não só a Finlândia, mas boa parte dos nórdicos, como Islândia, Dinamarca e Noruega, ainda têm igrejas nacionais. A Suécia teve até recentemente. O curioso é que a proximidade entre igreja e Estado acabou por forçar a adaptação da igreja ao comportamento moderno, e não o contrário. A Igreja Luterana Finlandesa, por exemplo, aceita o divórcio e o casamento de pessoas divorciadas. Em relação ao aborto, é parecida com a lei brasileira: aceita em caso de estupro, ameaça à vida da mãe ou deformações graves. Em 2009, a Igreja aceitou que um de seus pastores, pai de família, passasse por uma operação de mudança de sexo, sem prejuízo para suas funções religiosas. Desde 1986 a igreja aceita pastoras mulheres, e há pouco elegeu sua primeira bispa. Tanto homens quanto mulheres precisam ter um “master degree” para se tornarem pregadores, quase como no mercado de trabalho convencional.
A questão da homossexualidade é a bola da vez e, assim como todas as outras questões que foram sendo superadas ao longo do século 20, deve acabar sendo aceita pela igreja. É o que indica esta enorme pressão popular após as declarações da líder partidária e religiosa no tal programa de televisão.
O que parece acontecer na Finlândia é que a igreja vem se adaptando às resoluções do Estado, com o qual mantém um relacionamento mais próximo do que aquele que observamos na maioria dos países ocidentais. Enfim, um modelo que não me parece o ideal, mas que dá o que pensar.
Tags: aborto, Eleições, finlândia, Religião
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