The Australopithecus Times | ed. 2 | Sakineh morrerá

Leandro Demori | Itália 16:33 | 03/11/2010

As duas grandes vertentes dramáticas da antiguidade eram a comédia e a tragédia. Resumindo de modo simplista e raso [meu default cerebral], a comédia era a história com final feliz — e não necessariamente a que fazia rir. A tragédia trazia o desfecho fatalista, a dor, a perda, a separação, a morte. A tragédia nas artes é o mais fiel registro histórico da humanidade desde que aprendemos a registrar a história. A vida de cada um de nós é uma tragédia inescapável culminada com a morte e sem espaços para finais felizes.

O único momento cômico concedido pela tragédia é o de fazer o espectador ter a chance de desconfiar dos personagens que querem salvar o mundo, defender a vida, lutar pela felicidade alheia — e pela a própria –, vencer o mal e prolongar a existência porque essas, tragicamente, são batalhas perdidas. Defensores e defendidos, vencedores e arrasados, todos estão destinados ao desaparecimento e ao escuro.

A complacência da tragédia com a humanidade tem um propósito que pode parecer paradoxal para quem não acredita em tragédias. Aceitar que a felicidade não existe, que o dia de hoje será pior do que o de ontem, que seu corpo está envelhecendo, sua memória se apagando e sua beleza se despedindo é a receita admitida para aproveitar ao máximo o café de agora, o vento na cara e o olhar sincero dos poucos australopithecus nos quais você pode confiar e os quais pode amar.

Teerã, Irã: “Sakineh pode ser executada nesta quarta-feira”, diz um australopithecus de uma ONG.

Bruxelas, Bélgica: “União Europeia pede que Sakineh seja salva”, dizem os australopithecus reunidos.

Em um anfiteatro qualquer da Grécia ou da Roma antiga, Sakineh seria morta a pedradas porque a história humana não poderia negar sua própria essência. Ninguém ousaria mudar o rumo das coisas e pedir aos deuses que poupassem aquela vida. Afinal, seria inútil: aquela vida — e todas as outras — foram acesas com o único propósito de serem apagadas. A finalidade de nascer é morrer, e você só tem nas mãos o poder de decidir o que fazer entre um compromisso e outro.

A tragédia rege o fim de todos os atores, mas reconhece de forma quase piedosa os esforços de quem faz sacrifícios cotidianos para tentar vencê-la. Os esforços trágicos não poupam a vida material de ninguém, mas a transformam em outra coisa. Em troca do corpo, que morre, você pode ganhar espaço na memória permanente dos australopithecus que continuaram a vagar por aí até que a hora da morte deles também chegue.

Sakineh pode morrer hoje, amanhã, ou no mês que vem — e pode até ser solta e viver até os 90 anos. Para a tragédia da vida real, nada disso importa. Neste momento, a força de vontade de tentar derrotar a antecipação do trágico já garantiu a ela uma espécie de vida eterna. Mas a ela, e só a ela, e exatamente por isso jamais se deve acreditar nos caras que dizem ‘defender a vida’; a vida só pode ser defendida com nossas próprias mandíbulas ou com a ajuda dos dentes daqueles poucos australopithecus que dariam a própria vida deles pela nossa. Os outros, os que sobem em tribunas, só querem lhe convencer que você veio ao mundo para encenar uma comédia e viver feliz para sempre.

A tendência natural dos australopithecus é acreditar que a melhor forma de morrer é sorrindo. E estamos certos. O único estado de arte que pode nos dar esse sorriso, no entanto, é a tragédia. Quem frequenta as plateias das comédias passa tanto tempo de olhos fechados acreditando nas piadas e no final feliz que nem percebe quando levam embora até mesmo sua dentadura.

The Australopithecus Times | ed. 1

Leandro Demori | Itália 15:30 | 29/10/2010

Nanterre, França: carros virados, comércio fechado, lojas sendo depredadas, população em casa. Passo manteiga no pão, puxo a coberta e bebo um gole de café. Na mira da polícia, uma multidão de jovens australopithecus que sai correndo ao som da primeira bomba de efeito moral. Não querem levar mais dois anos para se aposentar e enxergam na depredação a melhor forma de expressar esse sentimento.

Terzigno, Itália: 30 jovens senhores representantes de algo próximo aos australopithecus franceses mostram mais uma vez como a boa vontade de uns poucos pode tomar uma cidade inteira, destruir carros da polícia, ferir policiais — ali em número muito superior – e queimar dezenas de caminhões. Mordo o primeiro pedaço do pão ainda quentinho. Os australopithecus italianos são contra um aterro de lixo perto da cidade onde moram. Pela manhã, famílias de homo sapiens se reúnem nas ruas e conversam com autoridades; à noite, os homo sapiens se recolhem, e os australopithecus chegam com motos e molotovs.

Caxemira, fronteira da Índia com o Paquistão: australopithecus treinados e fardados de um lado atiram com seus fuzis contra australopithecus treinados e fardados do outro. O jornal se cobre pouco a pouco de farelo.

Okinawa, Japão: um festival tribal mostra australopithecus vestidos com palhas coloridas compondo uma figura análoga a dos índios brasileiros. Simulam uma disputa e depois erguem uma grande tocha. A carregam até um que parece ser o chefe espiritual da tribo; ele está em chamas (mesmo). Os australopithecus súditos gritam, batem tambores, dançam.

Moscou, Rússia: uma ex-007 do Kremlin mostra seus dotes corpóreos em uma revista destinada a australopithecus heterossexuais. Bebo ainda o café enquanto viajo nas curvas e convenções. Há até um aplicativo para iPhone: “Jogue pôquer com Anna Chapman”. Num vídeo em sua página no Facebook, Anna promete “fotos quentes”, trajando vestidos extrovertidos enquanto aponta um kalashnikov para o meu peito.

Fecho o jornal por um segundo.

É o mesmo jornal todos os dias desde antes mesmo de existir jornal.

Tempos atrás se dançava antes das guerras. Hoje se dança e joga molotov ao mesmo tempo; “se é pra morrer que seja agora”, diz um dos australopithecus italianos. Tempos atrás também se comprava uma Marajó ou uma Honda CB 400 pra ‘agitar uns lados’.

Os australopithecus dançam, jogam bombas, aceleram e são fuzilado pela Anna Chapman todos os dias, na tentativa desesperada de provar para a própria espécie que somos mesmo aquele machão que o papai australopithecus sempre sonhou.

ps. Apareçam no live blogging de hoje. Faremos.

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