Mega post: WikiLeaks

braziu.org 15:53 | 04/12/2010

Leandro Demori – Itália

Seguiu a lógica de uma bela capa de jornal a bomba de documentos revelados pelo WikiLeaks: uma notícia importante para a manchete, uma notícia importante para a segunda linha e um maço de gossip para companhia. As pessoas amam.

Quando eu era editor do Terra conseguia fotografar cada minuto da alma do brasileiro olhando para as estatísticas de acessos das notícias na capa do portal. A notícia importante em destaque, em fonte grandona e com várias linhas de apoio tomava uma surra do gossip que mostrava a mais nova briga de um reality show qualquer publicado no rodapé do site.

Não precisamos que a diplomacia americana nos diga que Berlusconi é um babá do sexo, que Angela Merkel é pragmática, que Sarkozy usa Carla Bruni para ajudar nas negociações com outros países ou que Hugo Chávez é um maluco. Mas o gossip foi justamente aquilo que chamou a atenção das pessoas para o vazamento dos dados. Quem se importa com o programa nuclear do Irã ou com a presença do Hammas e do Hezbolah na fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai? É tática, e vencedora.

A coluna de fofocas oficializadas pelos embaixadores americanos pelo mundo não significa que a diplomacia americana seja fútil e pior do que a dos outros países. A única diferença entre a diplomacia americana em relação às outras é que seus documentos foram a público. Bastou meia dúzia de documentos saídos do Brasil para mostrar que um ministro do governo brasileiro, Nelson Jobim, estava dando lá suas rasteiras em seus pares de salão. Se abrir o Itamaraty todo não sai coisa muito diferente disso.

É claro que é tudo mentira. Jobim já negou, imagina, que bobagem. Como diz o filósofo, inauguramos a fase do Descartes pós-ideológico: “Nego tudo, portanto existo”. O próximo passo será o Galileu pós-wikilítico: “eppur si muove”, gritará alguém, jurando que a Terra gira, sim, em torno do sol — apesar dos desmentidos oficiais — antes de ser declarado inimigo do povo.

Sérgio Leo: Oliveira, o canalha da redação: “ih, é verdade mesmo, o governo já divulgou até nota de desmentido”. Na capa da Folha online de quatro dias atrás, ao mesmo tempo, três notícias se acotovelavam logo abaixo de uma manchete sobre o WikiLeaks: “Dados são ‘insignificantes’, diz Lula; Jobim nega ter dito que colega ‘odeia os EUA’; Bolívia nega que Evo tenha tumor.” É a Tríplice Confirmação da Verdade.

A China bloqueou acesso aos documentos. O jornal Le Figaro, de propridedade do sarkozista Dassault — vendedor dos caças para o combo Jobim/Lula/Viumanão gosta da Wikileaks. Hillary Clinton acha .

Batendo datas com notícias, parece que a maior preocupação americana na sudamerica continua sendo Hugo Chávez. Desperdício. Oito telegramas saem da embaixada de Brasília pros EUA no dia em que Chávez mandou o embaixador americano embora da Venezuela. Rolam umas boas pesquisas (e teorias da conspiração) com esse método: pega-se os docs. que saem de Brasília, olha-se os dias com bom volume de correspondências e bate-se com os acontecimentos daquele dia em uma simples pesquisa no Google.

Muitos docs. saem de Brasília no dia 12/8/2005, por exemplo. Dá pra especular sobre o motivo: aqui e aqui. Pode-se também ter algumas pistas sobre os novos cenários possíveis de guerra envolvendo os EUA (e os motivo$).

Uma das grandes questões agora é saber quem são os informantes das embaixadas, o que pode dizer mais sobre tudo do que os documentos em si. No caso do Brasil, um dos principais, por hora, é o ministro da Defesa Nelson Jobim, pintado como uma espécie de lobbista e cagueta [palavra pra ficar no clima Rio de Janeiro da semana]. São 250 mil documentos, quase nada ainda veio a público. Teremos semanas tórridas.

Pedro Augusto – Alemanha

Público x impublicável

Nem tudo o que o Estado faz pode ou deve ser público e/ou publicado. Assim como em um relacionamento não se revela absolutamente tudo o que se pensa sobre o companheiro, também nas relações entre os países alguma medida de sigilo e segredo é necessária para uma convivência pacífica.

Nas relações entre duas nações soberanas, os direitos individuais são apenas mediatamente afetados. Desta forma, não há que se falar em um direito individual à informação sobre todos os passos estatais. A própria política, com seus instrumentos de controle e limitação, deve ditar os passos deste tipo de segredo estatal. Isso não quer dizer, de forma alguma, que todos os atos estatais devam ser públicos. Até hoje, como se sabe, os arquivos da Guerra do Paraguai e muitos dos arquivos da ditadura militar ainda estão sob segredo, ficando vedada a sua consulta.

Se tal foi decidido, deve haver razões suficientemente fortes para que se mantenham longe do alcance público. Concordando ou discordando disso, o fato é que qualquer mudança deve se dar pelos meios legítimos da democracia, com votação pelo parlamento ou por mandamento dos tribunais. (Aos entusiastas do vazamento: Imagine que o leitor tenha um processo correndo em segredo de justiça, envolvendo uma briga familiar. O vazamento da WikiLeaks desse processo deve ser comemorado?!)

Na atual lógica, após Wikileaks, não existe mais segredo estatal. Por mais sensível que seja, tudo pode ser público e publicado. Independentemente das consequências (nota necessária: por alguma razão desconhecida, a maioria dos documentos secretos publicados dizem respeito aos Estados Unidos. Teóricos da conspiracão terão meses, quiçá anos, para exercer suas atividades).

Não se tira, obviamente, uma função positiva desses vazamentos. Se isso servir como forma de controle para que atividades de escutas ilegais não sejam ordenadas por chanceleres, estamos dentro do terreno do desenvolvimento das instituições democráticas no plano internacional. Se o vazamento levar à descoberta de agentes infiltrados num país como a Coréia do Norte, que serão invariavelmente torturados e mortos, fica a dúvida se isso, realmente, ajuda no fortalecimento dessas mesmas instituições. Exemplos não faltam.

Maurício Boff – Argentina

Os sete pecados do governo argentino (segundo a diplomacia norte-americana)

“Almost as if according to some natural law, in every century there seems to emerge a country with the power, the will, and the intellectual and moral impetus to shape the entire international system in accordance with its own values”.

Henry Kissinger, em Diplomacy

Em plena efervescência do debate em torno do vazamento dos telegramas trocados entre diplomatas norte-americanas e o QG da Secretaria de Estado, em Washington, confesso que fiquei perdido, atordoado, emocionado, irritado, satisfeito, desinformado e, ao final, soltei um sorriso-maroto-garoto típico de final de uma boa piada. Sedento por analisar cada comentário diplomático norte-americano sobre os presidentes sul-americanos, deixei de lado a leitura de Moby Dick (droga, não quero terminar meus dias como Leonardo Zelig), os estudos, a mulher, o cachorro, a horta de ervas-finas na sacada do apartamento, o trabalho e o show do João Bosco na quinta-feira.

Mentira. Mas sou brazileiro. Logo, nunca saberá, nem mesmo o serviço secreto norte-americano. Esqueça, portanto. Falo sério. Importa, sim, lançar algumas impressões quase uma semana depois de análises de jornalistas, historiadores, diplomatas, sociólogos e pessoas comuns por todo o mundo, sobre a organização de Julian Assange, o @WikiLeaks. A meu ver, concretiza-se um movimento de discussões que, até hoje, era imprevisível e no melhor estilo Black Swan.

Mas desconfie, e desconfie muito. Como já mencionei por aqui, estou mais para a turma da ponta de baixo na escala de 0 a 10 entre os expertos –- e não pretendo sair dessa zona. É muita responsabilidade. Troco-a pela autonomia do (não) pensar. Portanto, humildemente, convido-o a passear pelos meus sentimentos. Shanti.

+ Gula (telegrama 001235, em 09/11/2009)

“Tivemos várias conversas com os dois primeiros chefes de gabinete da [presidenta] Cristina Fernández de Kirchner (CFK), Alberto Fernández e Sérgio Massa. O embaixador tinha uma reunião introdutória em 28 de outubro com Alberto Fernández, que atuou como Chefe do Gabinete em administrações tanto de Néstor [Kirchner] e de CFK (…) O embaixador e DCM tiveram um jantar em novembro com o segundo-chefe de gabinete de CFK, Sérgio Massa, e sua esposa, a eleita vereadora, Malena Galmarini, na casa do ex-assessor de Massa na Casa Rosada, o empresário Jorge O’Reilly. Em cada uma das conversas, os dois peronistas, que durante seus mandatos na Casa Rosada trabalharam todos os dias com os Kirchners no andamento do governo argentino, foram bastante francos ao expressar seu estranhamento do casal Kirchner e seu pessimismo sobre as perspectivas políticas do ‘casal no. 1′ ['first couple', como os K são chamados nos telegramas]. (…) Massa foi contundente em sua crítica do ‘casal no. 1′, especialmente a Néstor. (…) Ele chamou Néstor de ‘psicopata’, ‘um monstro’, e ‘covarde’ cuja abordagem política mascara um profundo sentimento de insegurança e inferioridade. (A esposa de Massa mostrou-se alarmada frente a tais comentários desinibidos ao ponto de pedir que ‘pare de fazer caretas para mim.’) Ele contestou o argumento de que Néstor merecia crédito como um estrategista astuto, e descreve o ex-presidente como equivocado e tão convencido de seu brilho próprio que certamente voltaria a fazer seus erros. (…) Ele disse que Néstor não poderia relacionar-se com quem estivesse fora de suas ambições políticas: ‘Kirchner não é um gênio perverso’, concluiu Massa. ‘Ele é apenas um perverso’.”

+ Avareza (telegrama 001017, em 10/09/2009)

“Aníbal Fernández [chefe de gabinete de CFK] tem sido para nós o membro mais acessível e inclinado do gabinete da presidenta Cristina Fernández de Kirchner, acolhendo governamentais dos Estados Unidos receberam treinamento policial e da cooperação. (…) Mais político do que diplomata, [Fernández] constrõe feudos e detesta perder o controle sobre esses recursos estratégicos. (…) Um interlocutor pragmático e politicamente esclarecido, Fernández prefere não envolver o seu pessoal em reuniões com funcionários da Embaixada [dos EUA]. Embora esteja sempre bem preparado, o seu discurso e comportamento podem às vezes ser grosseiro. Em mais de uma vez, ele fez evidentes comentários sobre uma atraente tradutora durante uma reunião com funcionários dos EUA que estavam de visita. Ele se referiu à existência de uma ‘procura local por órgãos genitais jovens’ enquanto explicava sobre os desafios que enfrenta sua pasta no combate ao tráfico humano com fins de exploração sexual.”

+ Luxúria (telegrama 000071, em 04/02/2010)

“Embora o orçamento militar argentino está mal preparado para qualquer curso de ação que envolva a projeção de poder, o governo da Argentina provavelmente assim se sentiria compelido a pressionar, por qualquer meio possível, a reivindicação histórica [sobre as Ilhas Malvinas/Falklands] logo de uma descoberta de petróleo. Uma estratégia de conversação dura, queixas em fóruns internacionais, e cartas de protesto são esperados, além de sanções econômicas aplicadas contra as empresas atuantes [no arquipélago], mesmo que isso possa prejudicar a produção argentina de petróleo e gás natural.”

+ Ira (telegrama 002345, em 14/12/2007)

“Em 14 de dezembro, a imprensa argentina continuou a dar ampla cobertura à furiosa reação do governo argentino às alegações do FBI de que os U$ 800 mil interceptados 04 de agosto por oficiais argentinos foi uma contribuição em dinheiro da BRV para a campanha presidencial de Cristina F. De Kirchner (CFK). (…) O embaixador usou uma recepção programada para antes das férias para mais de 100 jornalistas de jornal, rádio, TV no dia 14 de dezembro para a divulgação da orientação de Washington sobre o caso. Vários jornalistas de rádio utilizaram seus telefones celulares para transmitir no ar as palavras do embaixador, e muitos deixaram o encontro depois do embaixador concluiu a história. Várias histórias sobre o que disse o embaixador no encontro já bateu estão sendo divulgadas. Esperamos que as observações do embaixador na Argentina domine as manchetes no sábado. (…) O que começou como um dia negro para a imagem dos EUA na Argentina – com manchetes de ataque por CFK e outros sobre as nossas intenções supostamente escuras – está terminando com uma nota mais esperançosa, como um trabalho rápido por parte do Estado, da Justiça e do FBI de revisão e de orientação sobre a questão nos permitiu apresentar nossa versão para um grupo cativo de jornalistas argentinos. Como a primeira semana da administração CFK se aproxima do fim, demos aos pragmáticos informações sobre o governo argentino para que possam trabalhar pelo convencimento de CFK de que saia do precipío que se meteu e volte a dialogar com o governo norte-americano a partir da segunda semana de mandato presidencial. Veremos sua reação e resposta nos próximos dias.”

+ Melancolia (telegrama 000827, em 09/07/2009)

“Há um outro fator externo que faz improvável que a Argentina adote a política bolivariana – a influência crescente do Brasil aqui. O representante local do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o brasileiro Daniel Oliveira, disse ‘econoff’ recentemente que ‘a Argentina tornou-se tão importante para o Brasil como o México é para os Estados Unidos’. Com uma intercâmbio comercial de U$ 31 bilhões e mais de U$ 10 bilhões em investimentos brasileiros sendo injetados na economia argentina desde 1997, o Brasil está fortemente empenhado aqui, e não é tímido sobre a defesa de seus interesses. A imprensa local relatou que Lula chegou a dar telefonemas em julho de 2008 para evitar que os Kirchners abandonassem o poder na sua frustada tentativa de pressionar o Congreso a aumentar os impostos sobre as exportações agrícolas. Lula e seus associados continuarão a ser uma importante influência moderadora sobre os Kirchners.”

+ Preguiça (telegrama 000853, em 22/07/2009. substituída aqui por psicodrama. Leia e entenda)

“Outros observadores apontam fatores de estresse psicológico em suas previsões para uma muito próxima crise democrática. Esta linha de raciocínio encontra duas vertentes: a de que o poderoso Néstor Kirchner é bem centrado em seu conjunto de formas intransigentes de se adaptar, ou a de que ele (ou ele e CFK) estão se tornando cada vez mais instáveis e incapazes de governar. Como um bem relacionado banqueiro nos disse, o casal Kirchner poderia se recuperar alterando o rumo e adotando uma postura mais moderada, mas Néstor Kirchner, em especial, é incapaz de mudar. Em vez disso, ele vai embarcar numa lamúria desastrosa contra os ‘traidores’ os quais culpa pela derrota eleitoral, levando o governo ladeira abaixo. Em apoio desta tese, Fraga [Rosendo Fraga, analista político] defende que a personalidade de Néstor ‘não pode mudar’, mas que a opinião pública argentina pode. Ela não quer mais um lutador obstinado como fez Néstor Kirchner quando tomou posse em 2003; hoje, os argentinos querem uma liderança consensual que os Kirchners não pôdem e não vai proporcionar.”

+ Orgulho (telegrama 001311, em 09/12/2009)

“Mais uma vez, o governo Kirchner tem se mostrado extremamente sensível e intolerante às críticas que recebe. As preocupações sobre a fraqueza das instituições nacionais, e o Estado de Direito, em particular, é uma parte do que é relatado na imprensa argentina por acadêmicos, empresários, juízes, políticos da oposição, especialistas e organizações não-governamentais. Os argentinos são bastante conscientes de que a Argentina não está atraindo tanto investimento quanto Brasil, Chile e outros países da região. A ansiedade da comunidade empresarial sobre as mudanças arbritárias e caprichosas das regras do jogo é bem conhecida do público argentino e do governo. Somente quem é muito Kirchnerista concordará com a afirmação de Randazzo [ministro do Interior, Florencio Randazzo] de que a Argentina oferece ‘todas as garantias institucionais e jurídicas’, ou a afirmação do Ministério de Relações Exteriores de que não tem conhecimento de qualquer insatisfação por parte das empresas americanas. Para a maioria dos argentinos, isso é uma ironia ou declarações falsas e cínicas. Dito isto, esperamos que esses contratempos logo se esgotem, como já aconteceram em episódios semelhantes no passado.”

Não precisa usar a imaginação. Kissinger está com a razão: o ímpeto intelectual e moral norte-americano moldou com seus próprios valores o mundo. Essa é a natureza do Homem e ponto final.

Gabriel Brust – França

Sarkozy e suas mulheres

A reação da imprensa francesa ao cablegate passou por dois momentos diferentes desde domingo. A primeira, imediata, foi a negação escandalizada. Figaro e Liberation, direita e esquerda no espectro dos jornais, condenaram o vazamento. O primeiro com o frágil argumento da segurança internacional. O segundo, mais razoável, criticando o fato de o WikiLeaks mirar e tentar desestabilizar democracias, enquanto se cala ou pouco faz para investigar regimes totalitários. Regimes totalitários, aliás, que seriam o alvo principal do WikiLeaks segundo os conceitos iniciais do site, formulados por seu criador.

A revista eletrônica Rue89 resgatou os textos do blog de Julian Assange, não mais online, escritos antes do lançamento do WikiLeaks. Pelo tom de seus textos na época, parecia que Irã e Coréia do Norte teriam algo a temer diante de sua ideia. O tempo revelou o óbvio: é bem mais fácil (e totalmente legítimo, diga-se de passagem) brincar de justiceiro em democracias do que fazer uma pegadinha do Mallandro com o Kim Jong-Il.

A segunda etapa da reação francesa ao Cablegate é parecida com o que aconteceu no resto do mundo: o desdém em relação ao conteúdo dos arquivos assim que os primeiros foram revelados. De fato, como na maior parte do globo, não há nada que cause maiores estragos para a França nos telegramas revelados (até agora). Mas há material farto para o esporte preferido dos franceses – e da imprensa, principalmente –: praticar o bullying impiedoso de Nicolas Sarkozy.

Sobram passagens desabonadoras, no plano pessoal, para o chef d’état e suas mulheres. Sim, porque os yankees malvados, em seus telegramas, não pouparam nem o tema que o próprio Sarkozy reconhece como seu “calcanhar de aquiles”: a ex-mulher, Cecília Ciganer. Segundo o embaixador americano, em 2007, após o divórcio, havia dúvidas se Sarko teria estabilidade emocional para conduzir o país. Descreveu o presidente como dependente da ex-mulher. Quando começa o novo romance do galã, dessa vez com a modelete Carla Bruni, o embaixador fofoca para seu governo, em Washington, que as aparições públicas do presidente com a nova mulher são mais condizentes com um milionário excêntrico do que com um chefe de estado. Conversa de comadre das boas, para saborear com o chá da tarde.

E é justamente numa passagem sobre Carla Bruni que o Brasil aparece nos telegramas do embaixador americano em Paris. Segundo o diplomata, Sarkozy estaria usando a popularidade de sua mulher no Brasil para estreitar as relações com o país. Charles Rivkin diz que a há um “caso de amor” entre Lula e Sarkozy, e que a população brasileira aprecia muito o fato de o casal presidencial francês passar as farias no país. Particularmente, eu nunca soube que Bruni gozasse de qualquer popularidade no Brasil. Sua carreira como modelo está encerrada há tempos e seus chatíssimos discos, que eu saiba, nunca chegaram perto de serem populares no Brasil. Mas é provável que o embaixador saiba mais sobre a banânia do que eu.

Por fim, o último bulling da imprensa contra Sarkozy – debate dos jornais nesta quarta-feira — é acusá-lo de “cheerleader” dos yankees. Isso porque os telegramas comentam a vida privada de Sarkozy, mas pour outro lado o cobrem de elogios. O descrevem como “o presidente mais pró-Estados Unidos desde a Segunda Guerra”, afirmam que ele “se reconhece nos valores americanos” e teria se revelado, inclusive, ser um grande admirador de George W. Bush. Imperdoável para os franceses.

Érica Manssour – China

Tá tudo bem

A julgar pela cobertura da imprensa chinesa, não há qualquer envolvimento de Beijing com essa história ae. O site encontra-se devidamente bloqueado e o foco de notícias relacionadas ao tema é mais na acusação de estupro e na ordem de prisão do Julian Assange pela Interpol do que qualquer outra coisa. Tudo bem por aqui.

Preto matando preto

Leandro Demori | Itália 08:11 | 21/07/2010


Ilustração do Menezes, que faz isso pela simples busca da fama

A edição que recebo todas as manhãs do International Herald Tribune graças ao presente involuntário da americana que morava aqui antes de mim — e esqueceu de mudar o endereço da entrega — chama de roofers os jovens que formam uma das tribos da “subcultura” de Moscou. Os roofers passam os dias em silêncio, contemplando a cidade dos topos dos edifícios. Lá em cima, buscam algum tipo de paz perdida em meio ao caos dos mais de 10 milhões de habitantes da capital vermelha. Os roofers são invasores. Para entrar nos edifícios, testam combinações prováveis tentando quebrar as senhas das fechaduras eletrônicas predominantes. Em último caso, tocam em apartamentos aleatórios dizendo-se entregadores de qualquer coisa ou vizinhos descuidados que esqueceram a senha ou a chave.

É improvável que doa aos jovens russos de hoje serem mundialmente conhecidos por uma termo em inglês (o jornal sequer traz a palavra roofer em russo e diz que eles próprios se chamam assim). Certamente causa mais desilusão o fato de alguns novos roofers terem transformado a arte de se isolar em negócio: cobram de 13 a 80 dólares por pessoa para fazer um tour de invasões pelos prédios da cidade. Uma afronta.

Os roofers de Moscou fazem parte de uma minoria em extinção: a das pessoas que só querem ficar quietas no seu canto. E se incomodam quando são confundidos com vândalos ou arrombadores. Os roofers de Moscou não querem confusão, fama ou defender grandes ideais. Os roofers de Moscou sabem que só podem salvar o mundo deles mesmos e que isso exige dedicação extrema.

O exército do Sudão anuncia semanalmente uma lista de mortos como se fosse uma empresa dando satisfações aos acionistas. Darfur é hoje o centro da mais brutal das guerras humanas em curso. Ninguém se importa com Darfur porque defender ideais pelas redes sociais não é diferente de buscar inserção social: os atores e autores precisam ser minimamente conhecidos. É inútil entupir o Twitter de convocações que ninguém atenderá. Israel x Palestina, por exemplo, é hype e garantia de tornar seu perfil público mais “humano”. Darfur é furada, é só “preto matando preto”.

Antes de querer salvar o mundo dos outros deveríamos aprender a salvar o mundo de nós mesmos.

Delcídio do RG e do CPF Amaral

Walter Valdevino | Brasil 14:00 | 03/05/2010

Todo mundo que já chegou a 150 metros de um computador conhece deveria conhecer o $enador mineiro Eduardo Azeredo (P$DB), aquele do Projeto Derrota Mental para a Internet do Braziu.

E o $enador Delcídio Amaral (PT-MS), todo mundo conhece?

Delcídio é este:

“A campanha mais curiosa que Duda [Mendonça] está prestes a comandar [nestas eleições de 2010] é a do senador Delcídio Amaral, do PT de Mato Grosso do Sul. Em 2005, quando Duda revelou ao país que recebeu dinheiro ilegal do PT [R$ 10,5 milhões em uma conta clandestina nas Bahamas], Delcídio Amaral estava sentado ao seu lado. O senador era o presidente da CPI dos Correios, cuja investigação levou ao indiciamento de Duda por sonegação fiscal e lavagem de dinheiro.

Há uma negociação para o Duda ser o marqueteiro de uma chapa que inclui governador e senador. Como eu sou o candidato ao Senado, ele inevitavelmente seria o marqueteiro da minha campanha também”, explica Delcídio Amaral. Algum constrangimento em razão das proezas de Duda Mendonça reveladas pela CPI, senador? “Absolutamente. Apesar do que aconteceu, Duda é reconhecidamente um publicitário brilhante. Além disso, nas reuniões que já tive com ele, Duda sempre fez questão de deixar claro que as coisas serão feitas com a mais absoluta transparência.”” (“Ele agora cobra 12 milhões“, Veja, 21/04/10)


“Absolutamente” (Foto: dessa tal de internet, sem CPF).

Como se percebe, o $enador Delcídio não tem um senso de moralidade – ou de qualquer coisa ligeiramente semelhante a isso – muito apurado. Mas agora percebe-se que seus problemas também ocorrem em outras áreas. A demência é de 2003, mas está galopando neste momento:

Prestadores de serviço de correio eletrônico poderão ser obrigados a manter, no mínimo por cinco anos, cadastro detalhado dos usuários de e-mail. Além de nome completo e endereço residencial, o cidadão terá de informar o número da carteira de identidade, acompanhado da data de expedição e do órgão expedidor, e de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas (CPF). Para as empresas serão exigidos razão social, endereço completo e número do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ). A proposta está na pauta da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).

A possibilidade de e-mail ser usado em larga escala para fins criminosos motivou o senador Delcídio Amaral (PT-MS) a apresentar esse projeto de lei (PLS 279/03), já aprovado pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE).”(Simone Franco/Agência Senado)

A a$$e$$oria do $enador siskeçeu de avisar o nobre engenheiro ex-funcionário do Grupo Shell (monstros imperialistas) que essa tal de internet parece ter invadido todo o universo e que não adianta o Braziu querer cagar lei cartorial a respeito.

Se Tico e Teco ainda não se deram as mãos, explico: este braziu.org, por exemplo, tem servidor nos Estados Unidos (monstros capitalistas). Mesmo que essa lei seja aprovada (não será), podemos criar o email peganomeucpf@braziu.org sem passar dado algum pra quem quer que seja.

PT, mensalão, Eduardo Azeredo, publicidade, demência digital, Delcídio Amaral, P$DB, Marcos Valério, Duda Mendonça = tudo a ver.

Vai um chá?

Fabricio Pontin | Estados Unidos 13:25 | 30/03/2010

ã. ã.

Pois é, diante das perguntas sobre o status do Tea Party Movement, ou dos Teabaggers, resolvemos elaborar um pequeno vídeo explicando o movimento para todo mundo. Assiste ao nosso vídeo aí para não ficar confuso sobre o que tá em jogo para esta turminha.

M.O. da censura chinesa

Érica Manssour | China 10:00 | 29/03/2010

O Google saiu e o governo chinês rosnou e choramingou – vocês podem ler inúmeras matérias a respeito disso na imprensa nacional e internacional (preguiça de linkar, aproveitem que vocês têm acesso a um Google que FUNCIONA e procurem se tiverem vontade). Mas outra coisa interessante aconteceu essa semana por aqui e que não foi tão divulgada: vazou uma série de recomendações do partidão aos meios de comunicação locais sobre como noticiar a questão do Google. As diretrizes presentes no documento permitem compreender um pouco melhor a dimensão da censura praticada pelo governo.


Google headquarters in Beijing. Foto: Liu Jin/Agence France-Presse — Getty Images”

Com base na versão original em chinês traduzida para o inglês pelo China Digital Times, fiz uso do meu inglês tupiniquim e traduzi a coisa toda para o português EXCLUSIVAMENTE para o Braziu.

A todos os editores chefe e gerentes:

O Google anunciou oficialmente sua retirada do mercado chinês. Este é um acontecimento de alto impacto. Desencadearam-se discussões por parte dos internautas que não se limitam ao âmbito comercial. Portanto, favor prestar rigorosa atenção aos seguintes requisitos de conteúdo durante este período:

A. Setor de Notícias

1. Utilizar apenas conteúdo dos principais meios de comunicação do Governo Central. Não utilizar conteúdos de outras fontes
2. Reproduções não devem alterar o título
3. Indicações de notícias devem remeter aos websites dos principais meios de comunicação do Governo Central
4. Não produzir páginas relevantes sobre o tópico; não criar seções de discussão; não conduzir reportagem investigativa relacionada [ao assunto]
5. Programas online com especialistas e estudiosos deste assunto devem solicitar permissão com antecedência. Produzir este tipo de programa de forma independente é estritamente proibido.
6. Gerenciar cuidadosamente os comentários postados nestas notícias.

B. Fóruns, blogs e outras tipos de mídia interativa

1. Não é permitido realizar discussões ou investigações sobre o tópico do Google
2. Seções interativas não devem referir-se a este tópico, não posicionar este tópico e comentários relacionados no topo [da página]
3. Todos os websites, favor limpar textos, imagens e sons e vídeos que ataquem o Partido, o Estado, agências do governo e políticas de Intenet que usem este evento como pretexto.
4. Todos os websites, favor limpar textos, imagens e som e vídeos que apoiem o Google, dediquem flores ao Google, peçam ao Google que permaneça, torçam pelo Google e outros que tenham um tom diferente da política governamental
5. Em tópicos relacionados ao Google, gerenciar cuidadosamente a troca de informações, comentários e outros meios de interação
6. Gerentes gerais em diferentes regiões, favor designar mão-de-obra específica para monitorar informações relacionadas ao Google; caso haja informações sobre incidentes em massa, favor reportar o quanto antes
Pedimos ao Grupo de Monitoração e Controle que inicie imediatamente ações de monitoração e controle de acordo com as orientações acima; uma vez que qualquer problema seja descoberto, favor comunicar-se com o departamento o quanto antes.

Instruções adicionais:

- Não participar de e nem noticiar comunicados de imprensa e informações vindos do Google
- Não noticiar sobre o Google exercendo pressão ao nosso país através de pessoas ou eventos
- Notícias relacionadas devem colocar [nossa história/perspectiva/informação] no centro, não fornecer material para que o Google ataque políticas relevantes do nosso país
- Utilizar tópicos sobre a saída do Google da China publicados pelos departamentos relevantes

Inimigos da internet

Walter Valdevino | Brasil 08:00 | 19/03/2010

Sexta-feira passada, dia 12 de março, por ocasião do Dia Mundial contra a Ciber Censura, a Repórteres sem Fronteiras (RSF) publicou sua tradicional lista de “Inimigos da internet”.

Os países que apresentaram os casos mais escabrosos de violação da liberdade de expressão na internet são:

- Arábia Saudita (filtragem pesada de conteúdo)
- Burma (limitação pesada do acesso à internet)
- China (controle pesado sobre conteúdo crítico)
- Coreia do Norte (limitação pesada do acesso à internet)
- Cuba (limitação pesada do acesso à internet)
- Egito (controle pesado sobre conteúdo crítico)
- Irã (controle pesado sobre conteúdo crítico)
- Usbequistão (filtragem pesada de conteúdo)
- Síria (controle pesado sobre conteúdo crítico)
- Tunísia (controle pesado sobre conteúdo crítico)
- Turcomenistão (limitação pesada do acesso à internet)
- Vietnã (controle pesado sobre conteúdo crítico)

Esses são os piores casos. Mas, segundo a RSF, igualmente preocupante é o fato de que, em 2009, chegou a 60 o número de países onde ocorreu alguma forma de censura na internet, praticamente o dobro do número registrado no ano anterior. As aberrações vão desde o fechamento de site de partidos e/ou grupos de oposição, passando pela vigilância da navegação, até chegar na prisão ou intimidação física de blogueiros e jornalistas.

Ainda segundo a associação, existem cerca de 120 internautas presos em todo o mundo porque ousaram abrir a boca e protestar contra os mais diversos tipos de demências, sendo que a maior parte deles, 72, se encontra enjaulada na China [Érica, procure falar só amenidades].

O problema é que países democráticos também foram citados. Austrália, França (como escrevi no meu último post), Itália e Grã-Bretanha são mencionados como países que, em nome do combate à pornografia infantil ou do desejo de reviver leis falidas de direitos autorais, adotaram ou estão tentando adotar políticas ridículas de controle.

Já entre as democracias cagadas que passaram a fazer parte da lista de países “sob vigilância” estão a Coreia do Sul, com tentativas de acabar com o anonimato, a Rússia, com tentativas de controle político da internet, e a Turquia, com tentativas de bloqueio de sites e perseguição judicial.

No sentido oposto, a Finlândia aprovou no ano passado uma lei que torna o acesso à internet um direito fundamental do cidadão, que terá direito à conexão mínima de 1 Mb/s até julho de 2010 e de 100 Mb/s até 2015. A Islândia, com o seu Icelandic Modern Media Initiative, pretende se tornar um paraíso da liberdade de expressão para blogueiros e jornalistas.

Enquanto isso, em um timing impre$$ionante, aqui perto do Braziu – país do Seu Azeredo e da intimidação chinela através da complacência da Ju$tiça – o Bufão Rei, o Hugo, se saiu com esta:

Li uma declaração da chanceler alemã, Angela Merkel. Ela disse algo muito correto, que a Internet não pode ser uma coisa livre onde se faça e se diga o que seja, cada país tem que aplicar suas regras.”

Com isso e mais a criação de uma tal de “comissão especial para investigar os administradores de páginas eletrônicas que desrespeitem o Código Penal ou a Constituição”, é melhor temer.

(quase) sem luz no fim do túnel

Érica Manssour | China 13:05 | 16/03/2010

Depois de algumas semanas de marasmo, a história do Google contra o baixo-astral (i.e. governo chinês) voltou a aparecer na imprensa. Só pra dar uma atualizada na situação, o que rolou foi o seguinte:
- O Financial Times publicou um artigo falando em 99% de chances de o Google encerrar a versão chinesa de sua ferramenta de busca.
- A Xinhua (agência de notícias estatal) resolveu dizer que a terra não iria parar de girar se o Google deixasse o país e que os internautas chineses continuariam online mesmo sem o Google.
- Autoridades chinesas advertiram empresas que possuem parceria com o Google de que elas devem seguir as lei de censura mesmo que o Google não o faça.
- Vazou a informação de que no dia 31 de março esgota-se o prazo para a renovação da licença de Provedor de Conteúdo na Internet do Google China

O Google ainda deu mais uma declarações mornas na linha do “continuamos buscando uma resolução para o impasse” e o governo chinês seguiu dizendo que sem censura não tem donut’s pro Google. Então, como todo mundo já tinha desconfiado antes, o desfecho mais provável é mesmo o falecimento do google.cn.

OKÁ. Agora, partindo da premissa que o PCC vai bancar o vingativo e bloquear todo e qualquer serviço oferecido pelo Google, me dêem as mãos e venham comigo imaginar uma vida sem ele.
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Sim, é assustador pensar em ter que voltar a usar o Outlook ou o Hotmail, a busca do Yahoo! ou do Bing, outro agregador de feeds, outro tradutor online, etc. Mas eu deixei a pior perda – ainda – hipotética por último: como preservar a brasilidade sem ter acesso ao Orkut? Pior pesadelo.

Categoria(s):  China, Tenéti
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A falência da lei HADOPI

Walter Valdevino | Brasil 08:00 | 10/03/2010

O Le Figaro (món$tró$ direiti$ta$) publicou ontem uma matéria sobre o primeiro estudo medindo a influência da lei HADOPI no comportamento dos internautas franceses.

A conclusão, como qualquer proprietário de dois neurônios poderia esperar, é óbvia: a pirataria aumentou.

Mas, antes de comentar o estudo, vamos às bananas.

Para quem anda um pouco ã e não sabe o que é a Lei HADOPI, lá vamos nós… Tudo começou em 2006, com a lei DADVSI (Loi relative au droit d’auteur et aux droits voisins dans la société de l’information, ou seja, Lei relativa ao direito autoral e aos direitos conexos na sociedade da informação), aprovada para que o Baguette se adequasse à European Union copyright directive, de 2001.

Em 2007 – já no governo do marido da Carla BruniChristine Albanel, ministra da Cultura e da Comunicação, encarregou Denis Olivennes – ex-diretor da FNAC (2003 a março de 2008) [sim, você está certo se chegou a pensar em algo próximo às palavras "parcialidade" e "intere$$e$"] e atual diretor de publicação do Nouvel Observateur – de elaborar um relatório para a criação de um órgão de punição a quem faz downloads ilegai$. O nome do tal órgão acabou nomeando a lei, a Haute autorité pour la diffusion des œuvres et la protection des droits sur internet (literalmente, Alta autoridade para a difusão de obras e proteção de direitos na internet), HADOPI.

O objetivo principal da lei, como você já deve ter percebido, é coibir qualquer espécie de troca, pela internet, de produtos que tenham direitos autorais (músicas, filmes, livros etc.). As penalidades funcionariam de acordo com o sistema de riposte graduée (em traduação livre, “corre, que o Sarkô vai te pegar”), ou seja, quando é detectada a pirataria, o provedor te manda um email, depois o Sarkô te manda uma cartinha (sim, papel, pelos Correios), até chegar à suspensão e ao corte do acesso à internet, caso a pirataria continue.

Pois bem, esse relatório deu origem a um acordo assinado por 46 empresas e organizações de representantes do mundinho cultural (cinema, música e televisão) e provedores de acesso à internet. Daí surgiu o texto básico da lei, que começou sua tramitação política em dezembro de 2007 (Conselho de Estado, Senado, zzz, Assembléia, comissões, ronc, novamente Assembléia), até parar no Conselho Constitucional em maio de 2009. O Conselho declarou inconstitucionais 11 pontos da lei. Foram encontrados problemas evidentes em relação à restrição do acesso à internet, inversão do ônus da prova, presunção de inocência, entre outros. A decisão final foi a de que um órgão de controle – a HADOPI – não poderia tomar decisões sobre suspensão ou corte do acesso à internet sem ter, antes, uma autorização judicial.

Com os aspectos mais aberrantes limados, a lei foi promulgada pelo Sr. Bruni em junho de 2009. Logo depois, o (des)governo francês ainda apresentou um projeto de lei complementar, em regime de urgência, que fez o mesmo percurso (zzz…) institucional até chegar novamente ao Conselho, que fez novos cortes no texto.

Se você está se perguntando coisas do tipo “mas como diabos por deu$ misericórdia esses franceses vão identificar pessoas físicas através de IPs?” ou “mesmo chegando na identificação de onde foi feito o acesso, como saber quem – por exemplo em uma família ou em uma rede wi-fi – praticou a mortal pirataria?” ou “quantos malditos milhões de euros serão gastos nessa demência?“, bom, parabéns, você está totalmente capacitado para entender a razão de a lei ainda encontrar-se em fase infinita de regulação, afundada na burocracia sem limites da Cnil (Comissão [independente] nacional de informática e liberdades).

O motivo de tanta derrota eterna nós, brazilêrus, conhecemos muito bem: os ilu$trí$$imo$ políticos franceses não fazem a menor ideia do que estão discutindo, votando e aprovando.

Em um post memorável de junho de 2009, o site Bakchich provou a completa ignorância de políticos “de direita”, “de esquerda”, “de centro”, “de cima”, “de baixo” e de todos os outros lados, perguntando o que diabos é peer to peer e streaming:

- Henri Plagnol (UMP, partido de Sarkozy): “É poder se conectar diretamente através de todas as tecnologias digitais a outras pessoas que estão na mesma situação que você. É uma coisa muito positiva que precisa ser encorajada.

- Jean-Pierre Grand (UMP): “Não [sei o que é]. Eu falo francês.

- Guénhaël Huet (UMP): “Já ouvi falar, mas não posso explicar, porque é uma questão técnica.

- André Vallini (PS, Partido $ociali$ta): “Sei o que é, mas é difícil explicar.

- Jacques Remiller (PS): “É a proteção da internet, a proteção da criação pela internet. É o sistema que permite downloads, me parece.

- Henri Jibrayel (UMP): “O que é o peer to peer?

- Charles de la Verpillière (UMP): “Não sei o que é, mas, aparentemente, meus filhos sabem. Tenho três filhos com 19, 17 e 14 anos e tenho dúvidas sobre como funciona um computador, mas vou verificar.

- Patrick Roy (PS): “É a troca de arquivos, é o streaming.

- Yves Cochet (Partido Verde): “O istrimingui [streaming]… é que, ao invés de fazer o download de um podecástem [podcast], nós o lemos diretamente na internet. Mas digamos que os bites digitais permanecem no site e não no HD.”

Bananada concluída, voltemos ao início post. O estudo (pdf) que mostra o aumento da pirataria na França depois da aprovação da lei, em setembro de 2009, foi feito pela Universidade de Rennes. Ao invés de se cagarem de medo com as ameaças (des)governamentais, a troca de arquivos com direitos autorais chegou a aumentar 3%, geralmente com a utilização de outras meios que não o P2P, já que a lei não aborda serviços de streaming nem de downloads diretos como Rapidshare ou Megaupload.

Como se não bastasse, a pesquisa também mostra o que outros milhares de estóóóódos já cansaram de dizer: as pessoas que mais fazem downloads de músicas e filmes são justamente as maiores compradoras online. Segundo essa pesquisa, supondo um corte hipotético da conexão de todo mundo que faz pirataria, haveria redução de 27% no mercado de produtos culturais legais pela internet.

É istrimingui ou é banana isso aí?

O twitter do Hu

Érica Manssour | China 06:58 | 25/02/2010

Aqui na China, o tópico mais comentado nos últimos dias não foi o encontro do Obama com o Dalai Lama, apesar de autoridades chinesas terem expressado, como era de se esperar, completo repúdio e indignação com o fato (zzz), mas a criação de uma conta em um serviço de micro-blogging chinês por ninguém menos do que Hu Jintao — ou pelo menos foi o que todo mundo pensou.

Na maior inocência, desde internautas chineses até a imprensa internacional (devo confessar, eu também), todos se alvoroçaram e correram pra conferir o perfil do dito cujo, que apesar de ainda não ter escolhido uma foto ou escrito sobre qualquer coisa, descrevia-se como “Secretário Geral do Comitê Central do PCC, Líder de Estado e Presidente da Comissão Militar Central”.

Desde que assumiu o cargo em 2003, o presidente já teria dito coisas emocionantes como “boa a sua sugestão, eu já pesquisei sobre isso na internet” a um médico e que lhe renderam um entusiasmado fã-clube nerd. A intimidade de Hu Jintao com a web é tamanha que, louvavelmente, em 2008 ele se dispôs a responder perguntas do povo chinês através de um fórum on-line. E vocês achando que o Obama era geek, com seu blackberry e conta no twitter atualizada por terceiros. Tsc, tsc.

Mas no país da GFW não demorou muito para vir o balde de água fria e cairmos todos na real: o perfil do presidente havia sido criado pelo próprio serviço de micro-blogging, tipo assim pra RESERVAR o lugar caso o tio Hu resolvesse querer falar sobre, sei lá, a última passada no salão pra manter a vasta e retinta cabeleira em ordem — característica praticamente compulsória pra qualquer um que ambicione seguir carreira política no país.


“Não foi dessa vez gente, malzaê.”

Em tempo: um dia depois da notícia do twitter chinês do Hu Jintao, um alento: @dalailama está entre nós ;P

Harmonia Chinesa

Érica Manssour | China 08:18 | 18/02/2010
“O Braziu já começa com a moral alta aqui na China…”

Desde o fim das Olimpíadas de Pequim, em agosto de 2008, que se observa uma escalada da censura na internet chinesa. Blogs, redes sociais, sites de compartilhamento de vídeo e até encurtadores de URL são bloqueados ou, como dizem os internautas chineses, “harmonizados” – em uma alusão debochada ao slogan do governo chinês de “construção de uma sociedade harmoniosa”.

Na prática, toda essa censura resulta em outro tipo de escalada, aquela que burla os esforços da chamada GFW (Great Firewall of China) de impedir o acesso e a difusão de determinadas informações consideradas “delicadas” pelo partido. Proxys e VPNs permitem que se tenha contato com outras versões da história – e não só aquela aprovada pelos oficiais.

Dia 12 de janeiro o Google anunciou que contas de e-mail de ativistas chineses pró-direitos humanos haviam sofrido ataques vindos de dentro do país. A empresa declarou não estar mais disposta a censurar o resultados de buscas do google.cn, ameaçando encerrar as atividades do site chinês e fechar seus escritórios no império do meio caso não seja possível oferecer uma versão sem filtros de sua ferramenta de buscas. Mais de um mês e um discurso da Hillary depois, a história parece ter esfriado e nada de concreto aconteceu. Em um evento do TED na semana passada, Sergey Brin teria dito que as negociações com o governo chinês talvez só obtenham algum tipo de sucesso em um ou dois anos, uma bela diferença em comparação com o “nas próximas semanas” citado inicialmente no blog oficial do Google.

Analistas especulam os motivos que levaram a esse ultimato: seria uma manifestação genuína da filosofia “don’t be evil” que a empresa defende ou apenas uma forma de encobrir a saída já planejada de um mercado onde enfrenta dificuldades? Para os usuários as razões são o que menos importa – ver alguém enfrentar o governo é sempre um prazer, independe da motivação -, o que pesa mesmo são as consequências que a saída do google pode ter.

Antes mesmo de toda essa história, o acesso ao Google já podia ser considerado intermitente – não são raras as vezes em que no meio da busca mais aleatória possível o usuário depara-se com mensagens de erro e só após atualizar a página algumas vezes consegue finalmente acessar os resultados. Se outros serviços da empresa já estão na lista negra há algum tempo, retaliar bloqueando o google.com, gmail e outros seria apenas o próximo, e mais óbvio, passo do governo chinês.

Em junho do ano passado o partido anunciou que todos os novos computadores vendidos no país deveriam trazer instalados o Green Dam Youth Escort, software de “controle de conteúdo” desenvolvido pelos camaradas. Após internautas se mostrarem descontentes e falhas graves de segurança no programa serem expostas, o governo voltou atrás na decisão e hoje ninguém mais ouve falar no assunto.

Ainda assim, simplesmente não vejo o governo chinês se curvando para uma empresa que detém apenas 30% do mercado — Baidu lidera com 60%. Eu diria, bem sombriamente, que dias piores na internet chinesa estão por vir.

“Banana pra vocês”
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