O Demori já colocou alguns argumentos dele aqui, mas eu queria deslocar a discussão um pouco. Eu não quero perguntar para vocês por que não votar, mas quero perguntar por que diabos alguém se dá o trabalho de levantar a bunda da cadeira e ir votar, tendo em vista que a possibilidade de fazer a diferença na eleição, ou, pior ainda, conseguir qualquer vantagem material no ato de votar, é próxima de zero (ou negativa).
A coleguinha ranhenta, ou, “a democracia não assoa o nariz”
Nesse domingo todo mundo que está no Braziu tem a obrigação cívica de ir votar. A tal da festa da democracia é uma festa organizada por uma menina remelenta que joga areia na tua cara segunda-feira se você não apareceu no domingo. Boa parte da população certamente preferia ir para a praia, passar a tarde com os filhos no parque ou ir para uma dungeon levar uns tapas da Sra. Pepperwhip do que ter que escolher entre o vampiro brasileiro, a caminhoneira da adamantium, a jardineira de Jesus e o vovô Simpson. Muita gente interpreta essa vontade de ir fazer alguma outra coisa como um desinteresse na classe política, uma alienação ou algum outro lugar comum daquele tipo que tu ouve teus coleguinhas de centro acadêmico repetindo para reclamar da falta de engajamento.
Na realidade, é espantoso que alguém se dê o trabalho de votar. Para início de conversa, o papo de que “todo voto importa” é de uma simplicidade argumentativa comovente. Não, não importa. A maior parte das eleições são disputadas entre dois candidatos com diferenças mínimas do ponto de vista ideológico, e a eleição de um ou de outro causa uma diferença mínima no governo futuro. Pensem na atual eleição no Brasil. O “coeficiente ideológico” (espaço para risos) entre os candidatos é tão pequeno que o último debate foi, de fato, uma disputa para ver quem se aproximaria mais de um governo do Lula, sem o Lula (percebam, estou colocando o Sr. Plínio como alívio cômico). Qualquer um procurando razões ideológicas para votar em x, y, z ou p saiu do último debate mais confuso do que entrou (e talvez deva revisar o universo, já que as ideologias deram tchau-tchau quando o muro de Berlim caiu).
Não vote
Em 1957 um economista norte-americano chamado Anthony Downs (Toni Downs, para os íntimos) escreveu um livrinho chamado uma teoria econômica da democracia. No livrinho, Downs desenvolve uma fórmula (na realidade, é um axioma, mas quero evitar falar difícil) para definir a racionalidade no ato de votar. É assim ó:
ff (p[VpX+{-VpY}]+[D-{C}])>0, then Vote.
onde
[Vpx+{-VpY}] é o índice de aprovação do voto em um indivíduo X comparado com o indíce de rejeição de um indíviduo Y. Chamarei este fator de pV daqui para frente.
D são os incentivos diretos e selectionados (sociais e econômicos) de votar (em geral, do ato de voto, não do voto em X ou Y e da rejeição de X ou Y, mas da implicação social de levantar a bunda da cadeira e ir votar)
C são os custos (sociais e econômicos) de votar, ou seja, as razões para ficar em casa.
Quando são somadas todas as variáveis e o valor é maior que zero, vai em frente e vota!
Traduzindo: eleitores que votam baseados em ideologia vão focar em pV. Para esses eleitores é realmente decisivo que o indivíduo X seja eleito e não Y. Inversamente, se eles não encontrarem motivos para votarem em X , eles simplesmente não irão comparecer às urnas. Isso pode ser decorrente de uma constatação de que muito embora o discurso ideológico seja ‘B” ou “C”, a prática é “A”, independentemente do discurso. Pode também ser decorrente de uma estagnação no discurso político que leva o indíviduo a não perceber qualquer valor distintivo na ideologia de X ou Y – isso pode ser bastante ilustrativo do cenário das eleições americanas, onde poucos eleitores se sentem motivados a irem votar por não verem grande diferença material entre as ideologias e práticas correntes de X ou Y: “it’s all smoke and mirrors” ou, “é muita semiótica” (cit Marlon, 2010 in conversa pessoal). Esse cenário de estagnação é um dos cenários mais desejáveis em termos democráticos.
Por quê? Porque ao contrário do que se pensa, ele não demonstra uma estagnação positiva, mas uma confiança no processo democrático. As pessoas podem votar, mas escolhem não votar por não sentirem uma diferença fundamental. O cenário atípico, aqui, implica em uma polarização radical dos indivíduos X contra Y. No cenário norte-americano, isso parece ter acontecido nas eleições de 2000 e 2004, no cenário brasileiro, isso claramente aconteceu em 1989, na França, o efeito Le Pen polarizou o eleitorado o suficiente para que individuos votassem em massa em Chirac, especialmente para evitar a eleição de Le Pen, que havia chegado no segundo turno devido à segmentação da esquerda francesa – e também pelo efeito ‘tanto faz’, que possibilitou que uma minoria de eleitores extremistas votassem em bloco, enquanto eleitores centrados votaram de forma segmentada ou ficaram em casa fumando.
Deixa eu dar um exemplo pessoal. Para mim, a próxima eleição no Brasil é optativa. Minha situação nos Estados Unidos me permite justificar o voto sem maiores problemas. Pois bem. Hoje, dadas as alternativas, eu prefiro o Serra. Mas vamos colocar isso em perspectiva, eu gosto do Serra só um pouco mais do que da Marina e um tantinho mais do que da Dilma. Eu realmente gosto muito mais do Serra do que do Ciro. Em termos racionais, os custos de ir até Chicago para votar, arriscar perder aula, perder tempo útil que posso gastar traduzindo e pesquisando, não justifica uma viagem desse tamanho. Agora, me pergunta de novo se eu iria até Chicago para votar no caso de ser uma eleição entre Marina ou Serra e o Ciro? Digamos, em um segundo turno entre Marina ou Serra e Ciro, eu vou até Chicago votar, porque não quero ter que olhar para minha sobrinha no futuro e ter que dizer que me omiti em uma eleição dessas. Esta eleição, como está, não me motiva em termos ideológicos ou pessoais a tirar minha bunda da cadeira (e percebam, minha justificativa para votar é completamente baseada na minha antipatia ao Ciro).
Pensando bem, melhor votar…
Gente que se comporta como eu acaba motivando os candidatos a jogarem com a polarização artificial do cenário, para motivar mais indivíduos movidos a ideologia a participarem da eleição (ou desmotivando a participação dos moderados), criando assim o efeito de “bloco” – política extremamente bem sucedida por Bush em 2004, que manejou o bloco conservador a votar com ele em massa, enquanto Kerry foi incapaz de motivar a base ideológica dos democratas o suficiente.
Socialmente, no entanto, verificamos uma pressão para o voto com base nos elementos D e C. Isso porque existe uma parte grande do eleitorado que não é motivada ideologicamente, mas por vantagens diretas no ato de votar. Os indivíduos moderados não procuram motivos ideológicos para o voto, mas vantagens em votar. Via de regra, esses indivíduos vão dizer “tanto faz”.
Daí a necessidade de incentivos materiais para tirar esses indivíduos da cadeira. Sejam eles através de campanhas (Rock the Vote!, por exemplo) ou de criação de mecanismos sociais de isolamento dos não-votantes: “a festa da democracia” ou “vote ou seja um alienado”. Outra forma de fazer isso é determinar a obrigatoriedade do voto, para obrigar os moderados a votarem – o que seria uma forma de evitar a influência direta de blocos. Nesse tipo de cenário, indivíduos votariam, simplesmente, por não gostarem das consequencias de não votar (tipo, pagar a multa), não pelas vantagens do ato de votar.
… no Tiririca!
Por isso que candidatos folclóricos fazem tanto sucesso no cenário brasileiro: Olívio Dutra, Sarah Palin e Garotinho são bons exemplos. Eles falam alto para certas bases ideológicas que vão votar sempre que estes indivíduos aparecerem. Isso é porque eles valorizam certos fatores de forma tão exacerbada, que os custos materiais de votar são obliterados pela vantagem pessoal “votei no meu camarada Olívio!”. Para as eleições de deputados, os candidatos folclóricos recebem mais votos porque o cara chega na urna sem saber o que diabos um deputado faz, como ele faz ou por que ele faz. Então vota no mais engraçado ou em alguém de quem ele “ouviu falar”.
Mas e a eleição de domingo com isso?
A eleição amanhã tem uma série de implicações relacionadas com o que eu escrevi aí em cima. Primeiro lugar, muitas pessoas irão para o litoral e “esquecerão” de votar. Aproveitar o feriado, para essas pessoas, é mais vantajoso do que votar (ainda que seja economicamente mais caro não votar, indivíduos preferem arcar com os custos e passear com a família). Essa parte da população, portanto, acaba constituindo um bloco que precisa ser “seduzido” a mudar de ideia. Um fator para prestar atenção é se as recentes denúncias contra o PT podem motivar essas pessoas a votarem contra a Dilma (uma aposta arriscada, já que existe uma grande possibilidade de ninguém mais dar a mínima importância para esses escândalos ou “é tudo um bando de ladrão mesmo, não faz diferença, vou prá praia beber ceva”).
Outra questão é o quanto indivíduos associam os benefícios sociais ao PT. Na formulazinha do Downs, isso entra nas vantagens econômicas de votar. Lembram quando o Lula olhou para o Alckmin no debate em 2006 e disse para a câmera “olha, o Alckmin quer tirar comida da tua boca”? Pois é, ali ele tava jogando com essas “vantagens”. Se pessoas o suficiente pensarem que ao eleger Dilma elas mantém as vantagens econômicas adquiridas no governo Lula, a eleição é decidida no domingo. Se essas vantagens econômicas não forem associadas diretamente a Dilma (“ah, mas a Marina também vai manter, e ela é da religião, vou votar nela”) poderemos ter um segundo turno entre Dilma e Serra (duvido muito que Marina consiga ir para o segundo turno, no entanto, o que pode ser uma má notícia para quem quer a oposição no poder).
Mais do que nunca, a eleição tá na mão da relação entre vantagens e desvantagens materiais em votar. Isso é um fator relativamente novo no Brasil, já que as eleições de 1989 até 1997 sempre focaram na rejeição de um candidato. Agora, as razões parecem ser estritamente econômicas (claro, a economia sempre foi fundamental, especialmente na eleição do FHC, que conseguiu se associar diretamente com à conquista de uma estabilidade econômica no país e ao aumento das condições materiais de vida. “O brasileiro está comendo mais frango”, lembram? Mas ainda assim, FHC se segurou tanto na estabilidade econômica quanto na rejeição de Lula, que sempre foi alta). O fator novo é a baixa rejeição de todos candidatos e a centralidade do atual presidente para a campanha (a popularidade do Lula, de uma forma ou de outra, pautou a eleição). Por enquanto, não sei se ainda tem alguma chance do Serra virar e desconfio que havendo um segundo turno podemos ter um “efeito Alckmin”, onde o candidato consegue ter menos votos no segundo turno do que no primeiro.
Uma última coisa: democracia só é reduzida ao exercício do voto por motivos retóricos. Quem quer que seja eleito, as coisas não devem mudar muito no país – até porque nem um desastre de proporções cósmicas tira o Senado e a Câmara do domínio direto do PMDB. Esse papo de “festa da democracia” no ato do voto é bobagem. Votar no candidato “menos” pior ou no candidato “mais escandaloso” ou “mais pra esquerda” não muda muita coisa, e talvez isso seja um motivo para a gente comemorar a entrada do Brasil no time das democracias “maduras”. Por outro lado, não dá para saber exatamente o que tá em jogo nessa eleição (e os últimos eventos no Equador podem servir como lembrete da facilidade com a qual voltamos para o status de uma república de bananas). Mas isso não é decidido só na hora de colocar o voto na urna, e associar política apenas com esse ato indica o quanto a gente ainda tem que amadurecer.