O mundo é uma porcaria (às vezes menos)

Leandro Demori | Itália 08:36 | 19/10/2010

Muitas pessoas acham que morar na Europa é viver em férias permanentes. Não é. As únicas pessoas em férias permanentes por aqui são os próprios europeus, pouco afeitos ao trabalho. O que se tem é um tanto a mais de civilização — dá pra voltar bêbado do boteco a pé e sozinho sem medo de ser esquartejado por um Zumbi do Crack, por exemplo; essas coisas fundamentais na vida.

O mundo, que no geral é uma bela porcaria, acaba se salvando aqui e acolá porque alguns seres da espécie que domina o terreno se esforçam um pouco mais pra deixar as coisas menos piores. Os suecos e a relação com seus parlamentares, por exemplo.

Religião, aborto, voto unilateral e a democracia enquanto piada de mau gosto

Fabricio Pontin | Estados Unidos 13:16 | 18/10/2010

Uma vez, na universidade, eu coordenei uma mesa redonda onde dois professores com doutorado na Inglaterra discutiam alegremente questões de início e fim da vida. Em um certo momento, um dos dois professores, ao ser confrontado por uma pergunta sobre a questão do aborto e do infanticídio falou que,

“Essa questão do aborto não tem uma dimensão moral de verdade, ela é só poluída por fanáticos religiosos. Em verdade, até o décimo primeiro mês, não há problema moral algum em terminar uma gestação ou em matar um infante, se isso traz benefícios para a mãe”

“Décimo primeiro mês, professor?”

“Sim, segundo a definição Lockeana de pessoa” (Nota: a definição do velho Locke diz que uma pessoa é alguém capaz de conceber um passado e ter expectativa de um futuro)

“Décimo-primeiro-mês?”

“Logo vejo que nessa universidade os alunos foram cooptados pela ideologia da Opus Dei e não aceitam evidência científica incontestável. Antes do décimo primeiro mês não há qualquer evidência de processos de expressão de consciência individual, nem de estabelecimento de passado ou futuro para o infante. Aquilo não tem direitos.”

Uns três anos depois, estou passeando aqui pelo campus quando encontro flechas apontando para uma exposição sobre “the greatest holocaust ever made my man”. A exposição era em frente ao prédio onde estudo, de forma que não tinha muito como escapar da coisa. Uns vinte alunos vestidos de branco seguravam cartazes “GOD HATES THE SPILLING OF INNOCENT BLOOD” , “EMBRYO=BABY JESUS”, fotos de bebês loirinhos sorridentes com um balão de história em quadrinhos “I FEEL PAIN WHEN YOU ABORT ME” e “MAMMA DON’T ABORT ME”.

Fiquei curioso com o lance do holocausto, e fiquei procurando onde estavam as fotos da Shoa. Daí me dei conta. “Every year more than two million children are ASSASSINATED with support of the federal government” .

Aqui nos Estados Unidos eles chamam indivíduos que votam baseados em apenas uma questão de “single-issue voters”. Vou chamar de “voto unilateral” essa conduta. Funciona assim: tudo indica que você votaria no Obama; você apoia intervenção do Estado na Economia; você acha que programas sociais são importantes; acredita no aquecimento global; e se bobear até acha que escolas públicas não deveriam ensinar o criacionismo. Mas daí você descobre que o Obama é pro-choice (portanto, contra a criminalização do aborto) e de uma hora para outra todas as tuas outras opiniões sobre o Obama caem por terra. Especialmente quando você descobre que o outro cara é pro-life e tem como vice uma mulher muito parecida contigo.

Um voto unilateral pode vir de diferentes “perfis” ou “problemas” e com diferente força. Por exemplo: ninguém se elege nem síndico de prédio nos Estados Unidos sem falar que acredita em Deus. A questão da pena de morte pode ser decisiva para um lado ou para o outro, dependendo de qual estado você tá querendo seduzir. A questão da eutanásia também.

Isso vai variar, é claro, dependendo da eleição e de quem vai decidir a eleição no fim das contas. Eleições onde os indecisos são pessoas que votam em cima desses issues acabam indo para essa direção naturalmente. Eleições onde esses mesmos indecisos são irrelevantes se movem para um terreno diferente, são eleições que focam mais em políticas públicas e menos em valores. Digamos que o primeiro tipo de eleição geralmente é ganha por um democrata e o segundo é geralmente ganho por um republicano. Uma olhada na história dos Estados Unidos desde 1962 ilustra como o processo eleitoral geralmente funciona.

Enquanto isso, no Braziu, candidatos tentam seduzir a massa evangélica (cerca de 20% da população, no mínimo) sem tomar uma posição. Dilma e Serra se posicionam de forma covarde e tal qual uma gangorra ficam subindo e descendo em questões de liberdades civis e religiosas. Para os dois candidatos, a resposta à pergunta do casamento homossexual e do aborto depende, de forma geral, de quem está perguntando.

De qualquer forma, Dilma só precisa ganhar cinco por cento dos votos que permaneceram para Marina ou se abstiveram no primeiro turno. Serra tem uma missão mais complicada e precisa transformar o atual domínio em São Paulo em um domínio na região Sul e Sudeste, tentando engessar a candidatura da Dilma no Nordeste.

Talvez por isso seja mais fácil para Dilma aumentar o volume do apelo aos que votam de forma unilateral. Ao se apresentar como amiga dos evangélicos e mudar de forma vergonhosa a própria opinião sobre o aborto, Dilma confia que ainda que parte da população identifique esse recurso como uma retórica sem-vergonha, um número suficiente de pessoas vai apoiar a iniciativa e votar nela. Ela não precisa do voto da maior parte dos evangélicos ou dos que votaram na Marina no primeiro turno. Ela precisa de uma parte pequena, suficiente para se eleger.

Ao contrário da pena de morte, que considero um atraso intolerável em democracias modernas, a questão do aborto tem uma complexidade maior. Não acho que ser contra o aborto é uma aberração. Por sinal, boa parte das pessoas que se posicionam a favor da descriminalização do aborto não são favoráveis a prática. Acontece que existem elementos de saúde pública, de imprevisibilidade e sobretudo de coerência legislativa que precisam ser levados em conta. Um país que identifica a potencialidade de um embrião como uma “pessoa” não poderia permitir metade das práticas de pesquisa em genética que o Brasil permite. Um país que permite aborto em caso de estupro não pode argumentar que um feto já tem direitos enquanto pessoa (não tem se é resultado de estupro? Por favor, isso não faz o menor sentido).

O debate no Brasil precisa ser confrontado com a pobreza argumentativa dos dois lados. Não é uma questão tranquila essa de que “não existem problemas morais no aborto”. O professor que apelou para uma certa definição de pessoa tinha um argumento tão ridículo quanto o dos crentes na frente do prédio das Humanas da SIUC. É claro que é uma questão moral. Justamente por ser uma questão moral a gente acaba discutindo isso por tanto tempo. Mas a hipocrisia da legislação brasileira é notável. Existe um consenso em não punir mulheres que praticam aborto. Então por que a prática é considerada ilegal? Existe a permissibilidade do uso de embriões em pesquisa. Então porque o aborto embrionário é considerado ilegal? Permite-se o aborto em caso de estupro, mas se essa circunstância mitiga o interesse potencial do feto, porque outras circunstâncias não são relevantes? A vida decorrente de estupro é menos digna de proteção?

Por outro lado, perde-se tempo com essa discussão por motivos puramente eleitorais (enquanto sabemos que tanto Serra quanto Dilma parecem ser favoráveis à descriminalização da prática Brust me corrigiu ali nos comentários, mais detalhes aqui), quando poderia-se discutir, por exemplo, como diminuir o número de gravidez em menores de idade nas classes mais pobres. Pergunte para qualquer professor do ensino médio em uma escola pública quantas alunas grávidas ele vê todo semestre. Pergunte para um professor de sexta série. A questão é extremamente relevante. Jovens pobres no Brasil não usam preservativo, não sabem como usar a pílula e muitas vezes engravidam porque isso vai fazer o namorado parar de bater nelas – pelo menos por nove meses. Ao menos, poderíamos discutir como diminuir o número de gravidez indesejáveis, para que menos mulheres sequer precisem pensar em abortar. No entanto, o governo federal só se preocupa em falar de camisinha durante o carnaval. Ninguém discute isso, até porque ninguém decide o voto com esses problemas em mente. Ou melhor, não existem pessoas suficiente decidindo com isso em mente. Então é mais fácil dizer que Jesus é Rei, que Toda Vida É Sagrada e que Aborto é um Crime Horrível.

Acho especialmente interessante perceber como essa minoria acaba transformando o debate eleitoral. A gente espera que, de uma forma ou de outra, o processo democrático acabe representando uma certa vontade geral. De verdade, representa a vontade de quem quer ganhar mais. Tudo bem, o voto racional pode ser uma grande de uma piada, pode ser que a gente não saiba de verdade o motivo pelo qual as pessoas votam (ziriguidum comanda o universo, apud Valdevino, Walter). Ainda que a conduta dos candidatos seja baseada em uma ficção (e.g.: pessoas votam com apenas um problema em mente), a conduta desses candidatos passa a ser consistente com essa ficção.

Após um primeiro turno sobre o nada, agora temos um segundo turno onde os candidatos tentam desesperadamente agradar uma parte da população que não fala pela maioria, que não tem uma dimensão muito clara do que está em jogo nos assuntos que são discutidos (e, justiça seja feita, não é informada sobre assuntos de forma adequada) e, no entanto, sequestra o debate.

Boca de urna em Paris

Mario Camera | França 14:06 | 03/10/2010

Pra botar na baguette

Em 2014, espero encontrar o vendedor de churrasquinho de gato e o cara do isopor de cerveja. Juntos com o rapaz do pandeiro avistado pelo Gabriel, faremos uma grande e verdadeira “Festa da democracia” para aguentar uma hora e meia de fila pra votar.

Por que votar?

Fabricio Pontin | Estados Unidos 16:44 | 02/10/2010

O Demori já colocou alguns argumentos dele aqui, mas eu queria deslocar a discussão um pouco. Eu não quero perguntar para vocês por que não votar, mas quero perguntar por que diabos alguém se dá o trabalho de levantar a bunda da cadeira e ir votar, tendo em vista que a possibilidade de fazer a diferença na eleição, ou, pior ainda, conseguir qualquer vantagem material no ato de votar, é próxima de zero (ou negativa).

A coleguinha ranhenta, ou, “a democracia não assoa o nariz”

Nesse domingo todo mundo que está no Braziu tem a obrigação cívica de ir votar. A tal da festa da democracia é uma festa organizada por uma menina remelenta que joga areia na tua cara segunda-feira se você não apareceu no domingo. Boa parte da população certamente preferia ir para a praia, passar a tarde com os filhos no parque ou ir para uma dungeon levar uns tapas da Sra. Pepperwhip do que ter que escolher entre o vampiro brasileiro, a caminhoneira da adamantium, a jardineira de Jesus e o vovô Simpson. Muita gente interpreta essa vontade de ir fazer alguma outra coisa como um desinteresse na classe política, uma alienação ou algum outro lugar comum daquele tipo que tu ouve teus coleguinhas de centro acadêmico repetindo para reclamar da falta de engajamento.

Na realidade, é espantoso que alguém se dê o trabalho de votar. Para início de conversa, o papo de que “todo voto importa” é de uma simplicidade argumentativa comovente. Não, não importa. A maior parte das eleições são disputadas entre dois candidatos com diferenças mínimas do ponto de vista ideológico, e a eleição de um ou de outro causa uma diferença mínima no governo futuro. Pensem na atual eleição no Brasil. O “coeficiente ideológico” (espaço para risos) entre os candidatos é tão pequeno que o último debate foi, de fato, uma disputa para ver quem se aproximaria mais de um governo do Lula, sem o Lula (percebam, estou colocando o Sr. Plínio como alívio cômico). Qualquer um procurando razões ideológicas para votar em x, y, z ou p saiu do último debate mais confuso do que entrou (e talvez deva revisar o universo, já que as ideologias deram tchau-tchau quando o muro de Berlim caiu).

Não vote

Em 1957 um economista norte-americano chamado Anthony Downs (Toni Downs, para os íntimos) escreveu um livrinho chamado uma teoria econômica da democracia. No livrinho, Downs desenvolve uma fórmula (na realidade, é um axioma, mas quero evitar falar difícil) para definir a racionalidade no ato de votar. É assim ó:

ff (p[VpX+{-VpY}]+[D-{C}])>0, then Vote.

onde

[Vpx+{-VpY}] é o índice de aprovação do voto em um indivíduo X comparado com o indíce de rejeição de um indíviduo Y. Chamarei este fator de pV daqui para frente.

D são os incentivos diretos e selectionados (sociais e econômicos) de votar (em geral, do ato de voto, não do voto em X ou Y e da rejeição de X ou Y, mas da implicação social de levantar a bunda da cadeira e ir votar)

C são os custos (sociais e econômicos) de votar, ou seja, as razões para ficar em casa.

Quando são somadas todas as variáveis e o valor é maior que zero, vai em frente e vota!

Traduzindo: eleitores que votam baseados em ideologia vão focar em pV. Para esses eleitores é realmente decisivo que o indivíduo X seja eleito e não Y. Inversamente, se eles não encontrarem motivos para votarem em X , eles simplesmente não irão comparecer às urnas. Isso pode ser decorrente de uma constatação de que muito embora o discurso ideológico seja ‘B” ou “C”, a prática é “A”, independentemente do discurso. Pode também ser decorrente de uma estagnação no discurso político que leva o indíviduo a não perceber qualquer valor distintivo na ideologia de X ou Y – isso pode ser bastante ilustrativo do cenário das eleições americanas, onde poucos eleitores se sentem motivados a irem votar por não verem grande diferença material entre as ideologias e práticas correntes de X ou Y: “it’s all smoke and mirrors” ou, “é muita semiótica” (cit Marlon, 2010 in conversa pessoal). Esse cenário de estagnação é um dos cenários mais desejáveis em termos democráticos.

Por quê? Porque ao contrário do que se pensa, ele não demonstra uma estagnação positiva, mas uma confiança no processo democrático. As pessoas podem votar, mas escolhem não votar por não sentirem uma diferença fundamental. O cenário atípico, aqui, implica em uma polarização radical dos indivíduos X contra Y. No cenário norte-americano, isso parece ter acontecido nas eleições de 2000 e 2004, no cenário brasileiro, isso claramente aconteceu em 1989, na França, o efeito Le Pen polarizou o eleitorado o suficiente para que individuos votassem em massa em Chirac, especialmente para evitar a eleição de Le Pen, que havia chegado no segundo turno devido à segmentação da esquerda francesa – e também pelo efeito ‘tanto faz’, que possibilitou que uma minoria de eleitores extremistas votassem em bloco, enquanto eleitores centrados votaram de forma segmentada ou ficaram em casa fumando.

Deixa eu dar um exemplo pessoal. Para mim, a próxima eleição no Brasil é optativa. Minha situação nos Estados Unidos me permite justificar o voto sem maiores problemas. Pois bem. Hoje, dadas as alternativas, eu prefiro o Serra. Mas vamos colocar isso em perspectiva, eu gosto do Serra só um pouco mais do que da Marina e um tantinho mais do que da Dilma. Eu realmente gosto muito mais do Serra do que do Ciro. Em termos racionais, os custos de ir até Chicago para votar, arriscar perder aula, perder tempo útil que posso gastar traduzindo e pesquisando, não justifica uma viagem desse tamanho. Agora, me pergunta de novo se eu iria até Chicago para votar no caso de ser uma eleição entre Marina ou Serra e o Ciro? Digamos, em um segundo turno entre Marina ou Serra e Ciro, eu vou até Chicago votar, porque não quero ter que olhar para minha sobrinha no futuro e ter que dizer que me omiti em uma eleição dessas. Esta eleição, como está, não me motiva em termos ideológicos ou pessoais a tirar minha bunda da cadeira (e percebam, minha justificativa para votar é completamente baseada na minha antipatia ao Ciro).

Pensando bem, melhor votar…

Gente que se comporta como eu acaba motivando os candidatos a jogarem com a polarização artificial do cenário, para motivar mais indivíduos movidos a ideologia a participarem da eleição (ou desmotivando a participação dos moderados), criando assim o efeito de “bloco” – política extremamente bem sucedida por Bush em 2004, que manejou o bloco conservador a votar com ele em massa, enquanto Kerry foi incapaz de motivar a base ideológica dos democratas o suficiente.

Socialmente, no entanto, verificamos uma pressão para o voto com base nos elementos D e C. Isso porque existe uma parte grande do eleitorado que não é motivada ideologicamente, mas por vantagens diretas no ato de votar. Os indivíduos moderados não procuram motivos ideológicos para o voto, mas vantagens em votar. Via de regra, esses indivíduos vão dizer “tanto faz”.

Daí a necessidade de incentivos materiais para tirar esses indivíduos da cadeira. Sejam eles através de campanhas (Rock the Vote!, por exemplo) ou de criação de mecanismos sociais de isolamento dos não-votantes: “a festa da democracia” ou “vote ou seja um alienado”. Outra forma de fazer isso é determinar a obrigatoriedade do voto, para obrigar os moderados a votarem – o que seria uma forma de evitar a influência direta de blocos. Nesse tipo de cenário, indivíduos votariam, simplesmente, por não gostarem das consequencias de não votar (tipo, pagar a multa), não pelas vantagens do ato de votar.

… no Tiririca!

Por isso que candidatos folclóricos fazem tanto sucesso no cenário brasileiro: Olívio Dutra, Sarah Palin e Garotinho são bons exemplos. Eles falam alto para certas bases ideológicas que vão votar sempre que estes indivíduos aparecerem. Isso é porque eles valorizam certos fatores de forma tão exacerbada, que os custos materiais de votar são obliterados pela vantagem pessoal “votei no meu camarada Olívio!”. Para as eleições de deputados, os candidatos folclóricos recebem mais votos porque o cara chega na urna sem saber o que diabos um deputado faz, como ele faz ou por que ele faz. Então vota no mais engraçado ou em alguém de quem ele “ouviu falar”.

Mas e a eleição de domingo com isso?

A eleição amanhã tem uma série de implicações relacionadas com o que eu escrevi aí em cima. Primeiro lugar, muitas pessoas irão para o litoral e “esquecerão” de votar. Aproveitar o feriado, para essas pessoas, é mais vantajoso do que votar (ainda que seja economicamente mais caro não votar, indivíduos preferem arcar com os custos e passear com a família). Essa parte da população, portanto, acaba constituindo um bloco que precisa ser “seduzido” a mudar de ideia. Um fator para prestar atenção é se as recentes denúncias contra o PT podem motivar essas pessoas a votarem contra a Dilma (uma aposta arriscada, já que existe uma grande possibilidade de ninguém mais dar a mínima importância para esses escândalos ou “é tudo um bando de ladrão mesmo, não faz diferença, vou prá praia beber ceva”).

Outra questão é o quanto indivíduos associam os benefícios sociais ao PT. Na formulazinha do Downs, isso entra nas vantagens econômicas de votar. Lembram quando o Lula olhou para o Alckmin no debate em 2006 e disse para a câmera “olha, o Alckmin quer tirar comida da tua boca”? Pois é, ali ele tava jogando com essas “vantagens”. Se pessoas o suficiente pensarem que ao eleger Dilma elas mantém as vantagens econômicas adquiridas no governo Lula, a eleição é decidida no domingo. Se essas vantagens econômicas não forem associadas diretamente a Dilma (“ah, mas a Marina também vai manter, e ela é da religião, vou votar nela”) poderemos ter um segundo turno entre Dilma e Serra (duvido muito que Marina consiga ir para o segundo turno, no entanto, o que pode ser uma má notícia para quem quer a oposição no poder).

Mais do que nunca, a eleição tá na mão da relação entre vantagens e desvantagens materiais em votar. Isso é um fator relativamente novo no Brasil, já que as eleições de 1989 até 1997 sempre focaram na rejeição de um candidato. Agora, as razões parecem ser estritamente econômicas (claro, a economia sempre foi fundamental, especialmente na eleição do FHC, que conseguiu se associar diretamente com à conquista de uma estabilidade econômica no país e ao aumento das condições materiais de vida. “O brasileiro está comendo mais frango”, lembram? Mas ainda assim, FHC se segurou tanto na estabilidade econômica quanto na rejeição de Lula, que sempre foi alta). O fator novo é a baixa rejeição de todos candidatos e a centralidade do atual presidente para a campanha (a popularidade do Lula, de uma forma ou de outra, pautou a eleição). Por enquanto, não sei se ainda tem alguma chance do Serra virar e desconfio que havendo um segundo turno podemos ter um “efeito Alckmin”, onde o candidato consegue ter menos votos no segundo turno do que no primeiro.

Uma última coisa: democracia só é reduzida ao exercício do voto por motivos retóricos. Quem quer que seja eleito, as coisas não devem mudar muito no país – até porque nem um desastre de proporções cósmicas tira o Senado e a Câmara do domínio direto do PMDB. Esse papo de “festa da democracia” no ato do voto é bobagem. Votar no candidato “menos” pior ou no candidato “mais escandaloso” ou “mais pra esquerda” não muda muita coisa, e talvez isso seja um motivo para a gente comemorar a entrada do Brasil no time das democracias “maduras”. Por outro lado, não dá para saber exatamente o que tá em jogo nessa eleição (e os últimos eventos no Equador podem servir como lembrete da facilidade com a qual voltamos para o status de uma república de bananas). Mas isso não é decidido só na hora de colocar o voto na urna, e associar política apenas com esse ato indica o quanto a gente ainda tem que amadurecer.

Gol

Leandro Demori | Itália 11:16 | 29/09/2010

Na frente do palácio de governo há um cartaz com a face de Sakineh Mohammadi Ashtiani. É grande — uns 5 metros de altura, calculo. Não sei ao certo porque está lá no alto. No pé do impresso se destaca o brasão do Ministério das Relações Exteriores.

O ministro, nos últimos dias, vem “trabalhando duro” pela causa de Sakineh, condenada à morte por apredejamento no Irã, “uma nação amiga”. O presidente também já intercedeu por ser considerado “influente na região”. Juram que não é a última do português. Explicam que em outras oportunidades já se cogitou até mesmo que o presidente assumisse as negociações de paz no Oriente Médio por essa suposta influência.

Eu olho para os olhos de Sakineh Mohammadi Ashtiani no cartaz e sorrio tenso de compaixão. “Pobre dela que está na mão dessa gente”. É a única coisa que consigo pensar.

O presidente e o ministro abraçaram a causa por ela ser ‘popular e humanitária’. Abraçaram porque, no fim, são uns canalhas da política. A vida de Sakineh, para eles, é o que menos importa. Desde 1979, 109 pessoas morreram apedrejadas no Irã.

Nos últimos meses, o presidente vem acusando a imprensa de atacá-lo de forma maldosa e sistemática. Rebate sempre, muitas vezes perde a linha; usa o apoio incondicional e bem pago da mídia amiga para defendê-lo, exaltar seus dotes de estadista e bombardear os adversários. Sakineh Mohammadi Ashtiani vem a reboque. Sakineh Mohammadi Ashtiani é um bibelô político.

O presidente vislumbra uma eleição pela frente e sabe dos perigos que corre. Sempre que se aproxima desse ponto, procura cumprir causas “nobres” como a de Sakineh, falar sobre futebol, reclamar da mídia e atacar adversários.

Suas declarações causam impacto e admiração, mas depois que morde, assopra. Hoje mesmo, como em outras vezes, disse que “o amor vencerá o ódio”. Não se interessa por discussão política relevante, sequer parece levar a sério seu próprio plano de governo. Leva a sério, isso sim, um plano de poder, e polariza cada vez mais o eleitorado em busca do jogo do Bem contra o Mal: se está comigo, está, se não vota nos meus, é inimigo.

O bipolarismo é desejado a todo o custo. “Há mais paixão, rivalidade, envolvimento e idolatria em uma cidade onde há somente dois grandes times ou em outra em que três ou quatro disputam a liderança?”, deve se perguntar, apaixonado que é por futebol. É nessa hora que você grita gol.

A Telecom Italia é o meu Coliseu

Leandro Demori | Itália 10:22 | 27/09/2010

A banca da empresa de telefonia e internet Fastweb na estação central de trens de Roma foi montada cedo pela manhã. São 11h04 e a placa maleável feita de acrílico que transforma a base de aço em um balcão aparentemente sólido já começa a se desprender da estrutura.

Logo chega alguém com cara de gerente sambarilóvi trazendo uma fita durex em mãos. Remenda tudo fazendo com que a estrutura pareça novamente bella e sólida, não sem antes soltar um olhar fixado para as atendentes atrás do balcão promocional improvisado. São gostosas e de aspecto selvagem; vendem acesso rápido à internet com os peitos.

‘Fastweb, un passo avanti.’

Os clientes entendem bem o slogan da empresa. Alguns dão tantos passos avanti que quase afundam o nariz nos imensos patrimônios históricos das italianas. Elas sorriem fingindo gostar enquanto batem a carteira de alguém vendendo promessas de amor e felicidade em fibra ótica que jamais se concluirão.

A Fastweb é uma companhia privada, recentemente envolvida em um esquema de evasão de divisas, fraudes e lavagem de dinheiro. Seu presidente, Silvio Scaglia, teve ordem de prisão decretada mas se declarou impossibilitado de se apresentar — estava no Rio de Janeiro admirando nossos monumentos históricos em alguma praia ensolarada assim como fazem seus potenciais clientes no balcão de atendimento remendado com durex na estação de trens de Roma.

Quando foi divulgada a operação policial que prendera o administrador da Fastweb eu era cliente da empresa. Temi ficar sem acesso à internet, impedido de estudar história online. Por sorte, algum gerente com cara de sambarilóvi deve ter estirado dois ou três pedaços de durex no sistema e nada aconteceu.

Mudamos de casa semanas após o ‘escândalo Fastweb’ (alguém ainda se escandaliza com roubalheira?). Como era mais caro transferir o sinal do que assinar um outro, mudamos também o provedor de serviços de banda larga e telefonia. Agora, somos felizes clientes Telecom Italia. A Telecom Italia é a mesma que opera celulares no Brasil sob o nome TIM.

Ser cliente Telecom não me deixa mais tranquilo do que ser cliente Fastweb. A Telecom é objeto de um extenso processo judicial que envolve espionagem, corrupção pública e privada, lobby ilegal e o Brasil. Em março deste ano, Fábio Ghioni — um ex-executivo do grupo de espionagens da Telecom Italia — disse à juíza Mariolina Panassiti no Tribunal de Justiça de Milão que, dos 120 milhões de euros ilegais gastos em todo o mundo, 10 milhões foram destinados ao Brasil. O dinheiro teria sido usado para “corromper políticos e agentes federais”, incluindo a Polícia Federal.

Uma boa diversão para a semana seria tentar entender quem se deu bem com essa sujeira toda no Brasil. É o processo que envolve Daniel Dantas. Ele você já odeia e tem certeza de que é “o maior corruptor do país”. E o resto? Juro que é bastante interessante reconstruir alguns caminhos para entender que oposição e governo não se engalfinham assim a fundo na luta do Bem contra o Mal quanto querem fazer crer à militância. Deixam a briga de dedo-no-olho pro andar de baixo, onde reina a ingenuidade.

Adoraria poder explicar tudo, mas não posso. Estou baixando verdadeiras enciclopédias (na casa do terabytes) com fotos e mais fotos de monumentos históricos. Gosto muito de monumentos históricos — não posso arriscar ficar sem vê-los caso a Telecom Italia saia do ar. Um homem precavido vale por dois. Nesse caso, vale por vocês todos.

Reflexão qualquer de um domingo qualquer

Leandro Demori | Itália 23:32 | 26/09/2010

Ato contra tudoissoqueestaaí

Leandro Demori | Itália 15:59 | 23/09/2010

Entrei por curiosidade no site da Federação Nacional dos Jornalistas para saber se há algo sobre o “ato contra o golpismo mediático” de hoje. , obviamente.

A notícia divulgada pela Fenaj destaca que o “ato” é “pluripartidário”. A informação está correta na mesma medida em que é desonesta: vários partidos participam da manifestação, todos, no entanto, pró-governo. O “pluripartidário” quer dar um evidente tom de concordância popular; os 81% dos brasileiros que estão contentes com a imprensa discordam.

O site da Fenaj, mantido por jornalistas, faz jus à fama de tratar de forma desonesta a informação. A mentira dos outros, é claro, é sempre mais mentira.

Em outra época, os militares queriam calar a imprensa, e a União Nacional dos Estudantes junto aos partidos “de esquerda” — como se dizem esses do “ato” — pediam liberdade de expressão. Hoje, o Clube Militar realiza evento sobre a liberdade, e a militância revolucionária?

O manifesto de convocação do ato considera que a campanha presidencial no Brasil enveredou por um caminho perigoso. “Não se discutem mais os reais problemas do Brasil, nem os programas dos candidatos para desenvolver o país e para garantir maior justiça social. Incitada pela velha mídia, o que se nota é uma onda de baixarias, de denúncias sem provas, que insiste na ‘presunção da culpa’, numa afronta à Constituição que fixa a ‘presunção da inocência’”, registra o documento.

Não sei em que bolha de sobrevivência essa gente viveu nos últimos anos, mas no país que eu conheço as eleições sempre foram exatamente como são hoje: um festival de baixarias por parte dos candidatos, e outro festival de denúncias e matérias “bombásticas” por parte da imprensa. Para manter a tradição da edição desonesta que tanto diz combater, os organizadores do “ato” também divulgam um texto desonesto. Vai ver é piada interna.

A “manifestação” contra o “golpismo mediático” ocorrerá no auditório do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. A Fenaj e o Sindicato dos Jornalistas são apenas mais duas das associações bancadas pelo dinheiro estatal — ou seja, o seu — para defender o governo. A utilidade social ou para a classe dos jornalistas que a Fenaj ou os sindicatos representam é zero.

Tento renovar minha carteira de jornalista há meses, mas só quero fazer a carteira internacional, já que moro fora do Brasil. É impossível. Eu teria que fazer a nacional e, depois de pronta, a internacional. A grande jogada? Essa (email recebido do Sindicato dos Jornalistas do RS):

“Ola,
Tens que ter a carteira nacional na validade (xerox), e também a xerox da carteira internacional vencida, 01 foto 3×4 recente e fundo branco (foto para documento), estar em dia com as mensalidades e pagar 40 euros (cotação do dia).”

A sindicalização não é obrigatória, e essa informação foi omitida no e-mail. Não quero me sindicalizar e ajudar com minhas suadas liras a sustentar esses “movimentos sociais” que defendem bandeiras de acordo com o que quer a diretoria de plantão. Não ajoelho na mesma fé da Turma do Paletó na Cadeira. Sindicatos de jornalistas me parecem sempre algo como a Academia Brasileira de Letras: um bando de gente sem talento tentando aliar prestígio a benesses pessoais.

Custo para fazer a carteira nacional: “Não Sindicalizados – R$ 300,00″

Ou seja: primeiro você versa trezentinho no caixa da companherada, depois, mais 40 euros. Agora me explica:

1) no bolso de quem eu enfio a carteira nacional se ela é inútil para quem mora no exterior?
2) e por que motivo preciso fazê-la se o que me interessa é somente a internacional?

É gente assim que vai lá gritar e espernear contra a Mídia Má, essa gente honesta e cheia de boas intenções; proba a ilibada, sempre preocupada com algo maior.

Outra coisa lamentável de espisódios como esse dorme nas faculdades. Até 2002, os alunos eram formados por professores de maioria petista e/ou “de esquerda” que enchiam as jovens cabecinhas com o discurso de que o governo deveria ser tratado como “inimigo”, como algo a ser desvendado e exposto. Em tese, os aprendizes não deveriam se interessar por FHC ou por Lula, mas pelo Presidente da República e pelas instituições abaixo dele. Deveriam ser, na medida fiscalizadora — e não eleitoral — uma espécie de eterna oposição.

Hoje, com a companherada no pudê, os professores petistas continuam no mesmo lugar, e o que as faculdades mais criam é aluno com blog que defende o status quo. Formar peleguismo é o hype do momento.

Cola para votação: imprima e escreva o nome de seus candidatos atrás

Leandro Demori | Itália 14:24 | 23/09/2010

[enviada pelo leitor goLLpista marlon]

Clima Titanic. Bom dia

Leandro Demori | Itália 08:00 | 22/09/2010

Every night in my dreams I see you, I feel you.
That is how I know you go on.
Far across the distance and spaces between us
You have come to show you go on.

Near, far, wherever you are.
I believe that the heart does go on.
Once more, you open the door
And you’re here in my heart.
And my heart will go on and on.

Love can touch us one time and last for a lifetime.
And never let go till we’re gone.
Love was when I loved you, one true time I hold to
In my life we’ll always go on.

Near, far, wherever you are.
I believe that the heart does go on.
Once more, you open the door
And you’re here in my heart.
And my heart will go on and on.

You’re here, there’s nothing I fear.
And I know that my heart will go on.
We’ll stay forever this way.
You are safe in my heart.
And my heart will go on and on.

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