Em desenvolvimento

Leandro Demori | Itália 15:26 | 09/12/2010

Minha história com a WikiLeaks vem de outro carnaval, um tanto distante do #cablegate das últimas duas semanas. Em 2008, recebi documentação que predizia uma bomba em um setor econômico importante no Brasil. Sondei alguns jornais e algumas revistas buscando saber sobre a possibilidade de investigação aprofundada em cima do que eu tinha em mãos. Estava basicamente atrás de uma parceria: algum jornalista brasileiro que ajudasse com a reportagem no Brasil, já que moro na Itália. Não encontrei.

Fiquei pensando em um modo de fazer a reportagem, mas sobretudo em uma forma de vendê-la para alguém que segurasse a barra em possíveis processos judiciais (que eu tinha certeza, viriam). Como eu disse, é um setor econômico importante, anuncia pesadamente em rádios, TV e impresso, tem boa participação no PIB e penetração nos governos. Quer dizer: é um tipo de reportagem que não interessa a ninguém mesmo, exceto ao público. Esse setor já matou gente.

Busquei pela rede possíveis projetos que investissem em reportagens como aquela que eu queria fazer. Existem vários fundos — sobretudo americanos mas também europeus — que tutelam esse tipo de trabalho e pagam para que você o faça. Vivo disso, afinal, e jamais arriscaria postar nada daquilo em um blog, de graça, correndo altos riscos por isso.

Foi por essas buscas que conheci o WikiLeaks, que na época atuava através de uma organização chamada Sunshine Press. Havia várias formas de entrar em contato com eles, usei um chat criptografado que garantiria minha privacidade. Conversei por cerca de 20 minutos com alguém na outra ponta, que disse que o site tinha interesse no material, que o considerava importante e prioritário, mas que havia um problema: os pagamentos por reportagens estavam suspensos por seis meses. E de graça eu não estava disposto a trabalhar.

O que o Sr. Sunshine me explicou é que os fundos que os financiavam tinham secado por conta da crise nos EUA, e que temiam, inclusive, que o WikiLeaks fosse fechar por falta de grana. Fiquei com o contato para enviar o material, e ele ficou de me avisar quando (e se) a grana recomeçasse a entrar. Nunca mais obtive resposta.

Quando o WikiLeaks voltou com força divulgado dados sobre a guerra infinita e um vídeo de militares matando gente a esmo, entendi tudo. O foco, que antes era regionalizar investigações, tinha sido ampliado e restrito ao mesmo tempo: a metralhadora fora apontada para os EUA em particular.

Não sei quem é Julian Assange e nem de onde veio a grana que manteve o WikiLeaks em pé. Estamos no meio de um processo importante para a informação, mesmo que eu acredite que seja utópico um mundo onde toda e qualquer movimentação diplomática seja pública. País algum fará isso, jamais.

No mesmo ano de 2008, eu e uns amigos investigamos a movimentação financeira das contas de publicidade do governo do Rio Grande do Sul por termos certeza de que algo cheirava mal. Mais tarde se “descobriu” que fedia. Conversamos com políticos, promotores, procuradores, jornalistas. Queríamos ver os contratos, quem pagava e quem recebia, quanto recebia e, sobretudo, qual era a medida para avaliar o mérito dos gastos.

As dúvidas eram simples: o que faz o governo gastar dinheiro público, o meu dinheiro, com publicidade? Um governo que precisou pedir 1,1 bilhão de dólares emprestado para não falir e gasta 168 milhões de reais com anúncios. Por que isso é tão prioritário assim? Como se mede o quanto vale um banner em um site, por exemplo? Audiência? Relevância? Público-alvo?

Este post explica um pouco a situação que fotografamos na época.

O valor bruto de um banner em um site no RS era de 60 mil reais por ano. Um site. Um banner. Eram (e são ainda) vários e insignificantes sites, como você pode ler no post acima. Tempos depois, o valor foi retirado do ar (os banners não). Como a gente volta e meia usa Tico & Teco, fizemos print screen de tudo e deixamos aqui, público, novamente, no melhor espírito WikiLeaks.

O que conseguimos arrancar da “Transparência” oficial na época? Nada. Nem mesmo os deputados do PT com quem conversamos se mostraram dispostos e colaborar. Eram da oposição, deveriam querer alguma transparência, certo? Não seria na base do governo, no PSDB, que conseguiríamos as coisas. Demoramos para entender que o modus operandi que hoje beneficia Chico amanhã pode ser usado por Francisco.

Para terminar de modo leve, deixamos aqui algumas dicas culturais para você. Dicas patrocinadas pela bondade do dinheiro público, esse lindão. Caso a página saia do ar, podem pegar o print. Mas confiamos que ficará onde está há 3 anos, exatamente da mesma forma, “em desenvolvimento” eterno. Igualzinho à transparência no Braziu.

Mega post: WikiLeaks

braziu.org 15:53 | 04/12/2010

Leandro Demori – Itália

Seguiu a lógica de uma bela capa de jornal a bomba de documentos revelados pelo WikiLeaks: uma notícia importante para a manchete, uma notícia importante para a segunda linha e um maço de gossip para companhia. As pessoas amam.

Quando eu era editor do Terra conseguia fotografar cada minuto da alma do brasileiro olhando para as estatísticas de acessos das notícias na capa do portal. A notícia importante em destaque, em fonte grandona e com várias linhas de apoio tomava uma surra do gossip que mostrava a mais nova briga de um reality show qualquer publicado no rodapé do site.

Não precisamos que a diplomacia americana nos diga que Berlusconi é um babá do sexo, que Angela Merkel é pragmática, que Sarkozy usa Carla Bruni para ajudar nas negociações com outros países ou que Hugo Chávez é um maluco. Mas o gossip foi justamente aquilo que chamou a atenção das pessoas para o vazamento dos dados. Quem se importa com o programa nuclear do Irã ou com a presença do Hammas e do Hezbolah na fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai? É tática, e vencedora.

A coluna de fofocas oficializadas pelos embaixadores americanos pelo mundo não significa que a diplomacia americana seja fútil e pior do que a dos outros países. A única diferença entre a diplomacia americana em relação às outras é que seus documentos foram a público. Bastou meia dúzia de documentos saídos do Brasil para mostrar que um ministro do governo brasileiro, Nelson Jobim, estava dando lá suas rasteiras em seus pares de salão. Se abrir o Itamaraty todo não sai coisa muito diferente disso.

É claro que é tudo mentira. Jobim já negou, imagina, que bobagem. Como diz o filósofo, inauguramos a fase do Descartes pós-ideológico: “Nego tudo, portanto existo”. O próximo passo será o Galileu pós-wikilítico: “eppur si muove”, gritará alguém, jurando que a Terra gira, sim, em torno do sol — apesar dos desmentidos oficiais — antes de ser declarado inimigo do povo.

Sérgio Leo: Oliveira, o canalha da redação: “ih, é verdade mesmo, o governo já divulgou até nota de desmentido”. Na capa da Folha online de quatro dias atrás, ao mesmo tempo, três notícias se acotovelavam logo abaixo de uma manchete sobre o WikiLeaks: “Dados são ‘insignificantes’, diz Lula; Jobim nega ter dito que colega ‘odeia os EUA’; Bolívia nega que Evo tenha tumor.” É a Tríplice Confirmação da Verdade.

A China bloqueou acesso aos documentos. O jornal Le Figaro, de propridedade do sarkozista Dassault — vendedor dos caças para o combo Jobim/Lula/Viumanão gosta da Wikileaks. Hillary Clinton acha .

Batendo datas com notícias, parece que a maior preocupação americana na sudamerica continua sendo Hugo Chávez. Desperdício. Oito telegramas saem da embaixada de Brasília pros EUA no dia em que Chávez mandou o embaixador americano embora da Venezuela. Rolam umas boas pesquisas (e teorias da conspiração) com esse método: pega-se os docs. que saem de Brasília, olha-se os dias com bom volume de correspondências e bate-se com os acontecimentos daquele dia em uma simples pesquisa no Google.

Muitos docs. saem de Brasília no dia 12/8/2005, por exemplo. Dá pra especular sobre o motivo: aqui e aqui. Pode-se também ter algumas pistas sobre os novos cenários possíveis de guerra envolvendo os EUA (e os motivo$).

Uma das grandes questões agora é saber quem são os informantes das embaixadas, o que pode dizer mais sobre tudo do que os documentos em si. No caso do Brasil, um dos principais, por hora, é o ministro da Defesa Nelson Jobim, pintado como uma espécie de lobbista e cagueta [palavra pra ficar no clima Rio de Janeiro da semana]. São 250 mil documentos, quase nada ainda veio a público. Teremos semanas tórridas.

Pedro Augusto – Alemanha

Público x impublicável

Nem tudo o que o Estado faz pode ou deve ser público e/ou publicado. Assim como em um relacionamento não se revela absolutamente tudo o que se pensa sobre o companheiro, também nas relações entre os países alguma medida de sigilo e segredo é necessária para uma convivência pacífica.

Nas relações entre duas nações soberanas, os direitos individuais são apenas mediatamente afetados. Desta forma, não há que se falar em um direito individual à informação sobre todos os passos estatais. A própria política, com seus instrumentos de controle e limitação, deve ditar os passos deste tipo de segredo estatal. Isso não quer dizer, de forma alguma, que todos os atos estatais devam ser públicos. Até hoje, como se sabe, os arquivos da Guerra do Paraguai e muitos dos arquivos da ditadura militar ainda estão sob segredo, ficando vedada a sua consulta.

Se tal foi decidido, deve haver razões suficientemente fortes para que se mantenham longe do alcance público. Concordando ou discordando disso, o fato é que qualquer mudança deve se dar pelos meios legítimos da democracia, com votação pelo parlamento ou por mandamento dos tribunais. (Aos entusiastas do vazamento: Imagine que o leitor tenha um processo correndo em segredo de justiça, envolvendo uma briga familiar. O vazamento da WikiLeaks desse processo deve ser comemorado?!)

Na atual lógica, após Wikileaks, não existe mais segredo estatal. Por mais sensível que seja, tudo pode ser público e publicado. Independentemente das consequências (nota necessária: por alguma razão desconhecida, a maioria dos documentos secretos publicados dizem respeito aos Estados Unidos. Teóricos da conspiracão terão meses, quiçá anos, para exercer suas atividades).

Não se tira, obviamente, uma função positiva desses vazamentos. Se isso servir como forma de controle para que atividades de escutas ilegais não sejam ordenadas por chanceleres, estamos dentro do terreno do desenvolvimento das instituições democráticas no plano internacional. Se o vazamento levar à descoberta de agentes infiltrados num país como a Coréia do Norte, que serão invariavelmente torturados e mortos, fica a dúvida se isso, realmente, ajuda no fortalecimento dessas mesmas instituições. Exemplos não faltam.

Maurício Boff – Argentina

Os sete pecados do governo argentino (segundo a diplomacia norte-americana)

“Almost as if according to some natural law, in every century there seems to emerge a country with the power, the will, and the intellectual and moral impetus to shape the entire international system in accordance with its own values”.

Henry Kissinger, em Diplomacy

Em plena efervescência do debate em torno do vazamento dos telegramas trocados entre diplomatas norte-americanas e o QG da Secretaria de Estado, em Washington, confesso que fiquei perdido, atordoado, emocionado, irritado, satisfeito, desinformado e, ao final, soltei um sorriso-maroto-garoto típico de final de uma boa piada. Sedento por analisar cada comentário diplomático norte-americano sobre os presidentes sul-americanos, deixei de lado a leitura de Moby Dick (droga, não quero terminar meus dias como Leonardo Zelig), os estudos, a mulher, o cachorro, a horta de ervas-finas na sacada do apartamento, o trabalho e o show do João Bosco na quinta-feira.

Mentira. Mas sou brazileiro. Logo, nunca saberá, nem mesmo o serviço secreto norte-americano. Esqueça, portanto. Falo sério. Importa, sim, lançar algumas impressões quase uma semana depois de análises de jornalistas, historiadores, diplomatas, sociólogos e pessoas comuns por todo o mundo, sobre a organização de Julian Assange, o @WikiLeaks. A meu ver, concretiza-se um movimento de discussões que, até hoje, era imprevisível e no melhor estilo Black Swan.

Mas desconfie, e desconfie muito. Como já mencionei por aqui, estou mais para a turma da ponta de baixo na escala de 0 a 10 entre os expertos –- e não pretendo sair dessa zona. É muita responsabilidade. Troco-a pela autonomia do (não) pensar. Portanto, humildemente, convido-o a passear pelos meus sentimentos. Shanti.

+ Gula (telegrama 001235, em 09/11/2009)

“Tivemos várias conversas com os dois primeiros chefes de gabinete da [presidenta] Cristina Fernández de Kirchner (CFK), Alberto Fernández e Sérgio Massa. O embaixador tinha uma reunião introdutória em 28 de outubro com Alberto Fernández, que atuou como Chefe do Gabinete em administrações tanto de Néstor [Kirchner] e de CFK (…) O embaixador e DCM tiveram um jantar em novembro com o segundo-chefe de gabinete de CFK, Sérgio Massa, e sua esposa, a eleita vereadora, Malena Galmarini, na casa do ex-assessor de Massa na Casa Rosada, o empresário Jorge O’Reilly. Em cada uma das conversas, os dois peronistas, que durante seus mandatos na Casa Rosada trabalharam todos os dias com os Kirchners no andamento do governo argentino, foram bastante francos ao expressar seu estranhamento do casal Kirchner e seu pessimismo sobre as perspectivas políticas do ‘casal no. 1′ ['first couple', como os K são chamados nos telegramas]. (…) Massa foi contundente em sua crítica do ‘casal no. 1′, especialmente a Néstor. (…) Ele chamou Néstor de ‘psicopata’, ‘um monstro’, e ‘covarde’ cuja abordagem política mascara um profundo sentimento de insegurança e inferioridade. (A esposa de Massa mostrou-se alarmada frente a tais comentários desinibidos ao ponto de pedir que ‘pare de fazer caretas para mim.’) Ele contestou o argumento de que Néstor merecia crédito como um estrategista astuto, e descreve o ex-presidente como equivocado e tão convencido de seu brilho próprio que certamente voltaria a fazer seus erros. (…) Ele disse que Néstor não poderia relacionar-se com quem estivesse fora de suas ambições políticas: ‘Kirchner não é um gênio perverso’, concluiu Massa. ‘Ele é apenas um perverso’.”

+ Avareza (telegrama 001017, em 10/09/2009)

“Aníbal Fernández [chefe de gabinete de CFK] tem sido para nós o membro mais acessível e inclinado do gabinete da presidenta Cristina Fernández de Kirchner, acolhendo governamentais dos Estados Unidos receberam treinamento policial e da cooperação. (…) Mais político do que diplomata, [Fernández] constrõe feudos e detesta perder o controle sobre esses recursos estratégicos. (…) Um interlocutor pragmático e politicamente esclarecido, Fernández prefere não envolver o seu pessoal em reuniões com funcionários da Embaixada [dos EUA]. Embora esteja sempre bem preparado, o seu discurso e comportamento podem às vezes ser grosseiro. Em mais de uma vez, ele fez evidentes comentários sobre uma atraente tradutora durante uma reunião com funcionários dos EUA que estavam de visita. Ele se referiu à existência de uma ‘procura local por órgãos genitais jovens’ enquanto explicava sobre os desafios que enfrenta sua pasta no combate ao tráfico humano com fins de exploração sexual.”

+ Luxúria (telegrama 000071, em 04/02/2010)

“Embora o orçamento militar argentino está mal preparado para qualquer curso de ação que envolva a projeção de poder, o governo da Argentina provavelmente assim se sentiria compelido a pressionar, por qualquer meio possível, a reivindicação histórica [sobre as Ilhas Malvinas/Falklands] logo de uma descoberta de petróleo. Uma estratégia de conversação dura, queixas em fóruns internacionais, e cartas de protesto são esperados, além de sanções econômicas aplicadas contra as empresas atuantes [no arquipélago], mesmo que isso possa prejudicar a produção argentina de petróleo e gás natural.”

+ Ira (telegrama 002345, em 14/12/2007)

“Em 14 de dezembro, a imprensa argentina continuou a dar ampla cobertura à furiosa reação do governo argentino às alegações do FBI de que os U$ 800 mil interceptados 04 de agosto por oficiais argentinos foi uma contribuição em dinheiro da BRV para a campanha presidencial de Cristina F. De Kirchner (CFK). (…) O embaixador usou uma recepção programada para antes das férias para mais de 100 jornalistas de jornal, rádio, TV no dia 14 de dezembro para a divulgação da orientação de Washington sobre o caso. Vários jornalistas de rádio utilizaram seus telefones celulares para transmitir no ar as palavras do embaixador, e muitos deixaram o encontro depois do embaixador concluiu a história. Várias histórias sobre o que disse o embaixador no encontro já bateu estão sendo divulgadas. Esperamos que as observações do embaixador na Argentina domine as manchetes no sábado. (…) O que começou como um dia negro para a imagem dos EUA na Argentina – com manchetes de ataque por CFK e outros sobre as nossas intenções supostamente escuras – está terminando com uma nota mais esperançosa, como um trabalho rápido por parte do Estado, da Justiça e do FBI de revisão e de orientação sobre a questão nos permitiu apresentar nossa versão para um grupo cativo de jornalistas argentinos. Como a primeira semana da administração CFK se aproxima do fim, demos aos pragmáticos informações sobre o governo argentino para que possam trabalhar pelo convencimento de CFK de que saia do precipío que se meteu e volte a dialogar com o governo norte-americano a partir da segunda semana de mandato presidencial. Veremos sua reação e resposta nos próximos dias.”

+ Melancolia (telegrama 000827, em 09/07/2009)

“Há um outro fator externo que faz improvável que a Argentina adote a política bolivariana – a influência crescente do Brasil aqui. O representante local do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o brasileiro Daniel Oliveira, disse ‘econoff’ recentemente que ‘a Argentina tornou-se tão importante para o Brasil como o México é para os Estados Unidos’. Com uma intercâmbio comercial de U$ 31 bilhões e mais de U$ 10 bilhões em investimentos brasileiros sendo injetados na economia argentina desde 1997, o Brasil está fortemente empenhado aqui, e não é tímido sobre a defesa de seus interesses. A imprensa local relatou que Lula chegou a dar telefonemas em julho de 2008 para evitar que os Kirchners abandonassem o poder na sua frustada tentativa de pressionar o Congreso a aumentar os impostos sobre as exportações agrícolas. Lula e seus associados continuarão a ser uma importante influência moderadora sobre os Kirchners.”

+ Preguiça (telegrama 000853, em 22/07/2009. substituída aqui por psicodrama. Leia e entenda)

“Outros observadores apontam fatores de estresse psicológico em suas previsões para uma muito próxima crise democrática. Esta linha de raciocínio encontra duas vertentes: a de que o poderoso Néstor Kirchner é bem centrado em seu conjunto de formas intransigentes de se adaptar, ou a de que ele (ou ele e CFK) estão se tornando cada vez mais instáveis e incapazes de governar. Como um bem relacionado banqueiro nos disse, o casal Kirchner poderia se recuperar alterando o rumo e adotando uma postura mais moderada, mas Néstor Kirchner, em especial, é incapaz de mudar. Em vez disso, ele vai embarcar numa lamúria desastrosa contra os ‘traidores’ os quais culpa pela derrota eleitoral, levando o governo ladeira abaixo. Em apoio desta tese, Fraga [Rosendo Fraga, analista político] defende que a personalidade de Néstor ‘não pode mudar’, mas que a opinião pública argentina pode. Ela não quer mais um lutador obstinado como fez Néstor Kirchner quando tomou posse em 2003; hoje, os argentinos querem uma liderança consensual que os Kirchners não pôdem e não vai proporcionar.”

+ Orgulho (telegrama 001311, em 09/12/2009)

“Mais uma vez, o governo Kirchner tem se mostrado extremamente sensível e intolerante às críticas que recebe. As preocupações sobre a fraqueza das instituições nacionais, e o Estado de Direito, em particular, é uma parte do que é relatado na imprensa argentina por acadêmicos, empresários, juízes, políticos da oposição, especialistas e organizações não-governamentais. Os argentinos são bastante conscientes de que a Argentina não está atraindo tanto investimento quanto Brasil, Chile e outros países da região. A ansiedade da comunidade empresarial sobre as mudanças arbritárias e caprichosas das regras do jogo é bem conhecida do público argentino e do governo. Somente quem é muito Kirchnerista concordará com a afirmação de Randazzo [ministro do Interior, Florencio Randazzo] de que a Argentina oferece ‘todas as garantias institucionais e jurídicas’, ou a afirmação do Ministério de Relações Exteriores de que não tem conhecimento de qualquer insatisfação por parte das empresas americanas. Para a maioria dos argentinos, isso é uma ironia ou declarações falsas e cínicas. Dito isto, esperamos que esses contratempos logo se esgotem, como já aconteceram em episódios semelhantes no passado.”

Não precisa usar a imaginação. Kissinger está com a razão: o ímpeto intelectual e moral norte-americano moldou com seus próprios valores o mundo. Essa é a natureza do Homem e ponto final.

Gabriel Brust – França

Sarkozy e suas mulheres

A reação da imprensa francesa ao cablegate passou por dois momentos diferentes desde domingo. A primeira, imediata, foi a negação escandalizada. Figaro e Liberation, direita e esquerda no espectro dos jornais, condenaram o vazamento. O primeiro com o frágil argumento da segurança internacional. O segundo, mais razoável, criticando o fato de o WikiLeaks mirar e tentar desestabilizar democracias, enquanto se cala ou pouco faz para investigar regimes totalitários. Regimes totalitários, aliás, que seriam o alvo principal do WikiLeaks segundo os conceitos iniciais do site, formulados por seu criador.

A revista eletrônica Rue89 resgatou os textos do blog de Julian Assange, não mais online, escritos antes do lançamento do WikiLeaks. Pelo tom de seus textos na época, parecia que Irã e Coréia do Norte teriam algo a temer diante de sua ideia. O tempo revelou o óbvio: é bem mais fácil (e totalmente legítimo, diga-se de passagem) brincar de justiceiro em democracias do que fazer uma pegadinha do Mallandro com o Kim Jong-Il.

A segunda etapa da reação francesa ao Cablegate é parecida com o que aconteceu no resto do mundo: o desdém em relação ao conteúdo dos arquivos assim que os primeiros foram revelados. De fato, como na maior parte do globo, não há nada que cause maiores estragos para a França nos telegramas revelados (até agora). Mas há material farto para o esporte preferido dos franceses – e da imprensa, principalmente –: praticar o bullying impiedoso de Nicolas Sarkozy.

Sobram passagens desabonadoras, no plano pessoal, para o chef d’état e suas mulheres. Sim, porque os yankees malvados, em seus telegramas, não pouparam nem o tema que o próprio Sarkozy reconhece como seu “calcanhar de aquiles”: a ex-mulher, Cecília Ciganer. Segundo o embaixador americano, em 2007, após o divórcio, havia dúvidas se Sarko teria estabilidade emocional para conduzir o país. Descreveu o presidente como dependente da ex-mulher. Quando começa o novo romance do galã, dessa vez com a modelete Carla Bruni, o embaixador fofoca para seu governo, em Washington, que as aparições públicas do presidente com a nova mulher são mais condizentes com um milionário excêntrico do que com um chefe de estado. Conversa de comadre das boas, para saborear com o chá da tarde.

E é justamente numa passagem sobre Carla Bruni que o Brasil aparece nos telegramas do embaixador americano em Paris. Segundo o diplomata, Sarkozy estaria usando a popularidade de sua mulher no Brasil para estreitar as relações com o país. Charles Rivkin diz que a há um “caso de amor” entre Lula e Sarkozy, e que a população brasileira aprecia muito o fato de o casal presidencial francês passar as farias no país. Particularmente, eu nunca soube que Bruni gozasse de qualquer popularidade no Brasil. Sua carreira como modelo está encerrada há tempos e seus chatíssimos discos, que eu saiba, nunca chegaram perto de serem populares no Brasil. Mas é provável que o embaixador saiba mais sobre a banânia do que eu.

Por fim, o último bulling da imprensa contra Sarkozy – debate dos jornais nesta quarta-feira — é acusá-lo de “cheerleader” dos yankees. Isso porque os telegramas comentam a vida privada de Sarkozy, mas pour outro lado o cobrem de elogios. O descrevem como “o presidente mais pró-Estados Unidos desde a Segunda Guerra”, afirmam que ele “se reconhece nos valores americanos” e teria se revelado, inclusive, ser um grande admirador de George W. Bush. Imperdoável para os franceses.

Érica Manssour – China

Tá tudo bem

A julgar pela cobertura da imprensa chinesa, não há qualquer envolvimento de Beijing com essa história ae. O site encontra-se devidamente bloqueado e o foco de notícias relacionadas ao tema é mais na acusação de estupro e na ordem de prisão do Julian Assange pela Interpol do que qualquer outra coisa. Tudo bem por aqui.

Braziu TV, ao vivo e mais cedo, HOJE 18/11

Leandro Demori | Itália 14:21 | 17/11/2010

Atenção, começaremos mais cedo hoje a nossa já clássica e de suce$$o Braziu TV, ao vivo aqui no blog lá pelas 20h (horário do Bananão).

O Comitê de Pautas (Computa) deste Braziu já deliberou sobre alguns assuntos possíveis (abaixo). Sugiram outros na caixa de comentários (ordem).

- Casos de agressão a homossexuais no Brasil + lei sobre o assunto nos EUA e a PL 122/2006, a lei da homofobia no Brasil.
- Falência da Europa, que passou uma semana nebulosa com Portugal e Irlanda sendo colocados na parede pelo BCE para pegarem empréstimos
- Obama na Ásia: namorando os indianos e deixando o Paquistão com ciúmes
- Lançamento da biografia de Geisy Arruda (mentira, mas verdade)

“Eu fui arrebatado em espírito no dia do Senhor, e ouvi por detrás de mim uma grande voz, como de trombeta,” Apocalipse, 1:10 [ns]

Mais dinheiro. Ponto

Pedro Augusto | Alemanha 01:33 | 09/11/2010

É possível ser a favor de algum imposto? Sim, claro que é possível. Em um país com uma carga tributária como a nossa, ainda assim é possível ser a favor da criação de um imposto? Novamente a resposta é afirmativa. Até para o mais ferrenho dos liberais a mera extirpação do sistema tributário é algo que não deve ser colocado na mesa, já que as alternativas aos tributos são ainda piores, como já demonstrou a história (até mesmo Ayn Rand aceita a tributação como forma de financiamento estatal).

A discussão da CPMF (Contribuição Provisória sobre a Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Financeira) começa a tomar corpo na política brasileira pós-eleição. Com serviços em padrões africanos e tributação padrão escandinavo, pode-se, ainda assim, dizer sim a instituição da CPMF? Com algumas condições, claro que sim.

A CPMF surge em 1994, ainda como Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira (IPMF), conhecido popularmente como “imposto do cheque”. Depois de um julgamento conturbado no Supremo Tribunal Federal, o referido imposto foi declarado inconstitucional (pouparei o nobre leitor e a bela leitora das tecnicalidades jurídicas que dão um sono…). Passados dois anos ela volta, com uma emenda constitucional, agora sob outra figura tributária: a contribuição. Passada a barreira estipulada pelo STF, a CPMF passa de provisória a permanente. Para honrar o nome ela era instituída com prazo de início e prazo de término. Sempre que o prazo final se aproximava, as “lideranças políticas” se juntavam e aprovavam a sua prorrogação (essa continuação, inclusive, deu ensejo para uma das discussões mais surreais já havidas no plenário do STF, que também ficará de fora para evitar mais bocejos).  De continuação em continuação, a provisória CPMF foi provisoriamente cobrada de 1997 a 2007 de todos nós, a cada cheque assinado, a cada saque efetuado, a cada depósito recebido. Do forma provisória, nada escapava, nada ficava imune à cobrança.

Numa destas discussões pela continuação, governo e oposição se digladiaram tanto que, mesmo com maioria no Senado, o governo não conseguiu aprovar a continuação do imposto, no que foi considerada uma das maiores (entre as pouquíssimas) derrotas do presidente Lula e da sua gigantesca base de apoio no Congresso. À época as discussões pendiam entre dois extremos: do lado da oposição, os brados de que o cidadão não aguenta mais tanto imposto, o que é uma simplificação grotesca; do lado governista, os berros de que a saúde ficaria sem a sua principal fonte de custeio, já que a CPMF fora criada apenas para esse fim. Discussão foi e discussão veio e, com votos dos próprios governistas, a prorrogação da CPMF não foi aprovada.

Agora, uma vez mais, a gritaria começa novamente, com os mesmos argumentos: excesso de tributação e necessidade de financiamento da saúde. Alguns senadores e deputados eleitos já acenam positivamente com o retorno da CPMF enquanto outros, tentando fazer caixa político, esbravejam contra mais um “imposto que tira dinheiro do cidadão de bem”.

E qual a importância disso tudo? Quase nenhuma. Dependendo de como se dará a regulamentação da nova CPMF, podemos ter uma fonte confiável que realmente aumentará o investimento em saúde ou apenas mais uma fonte para a pantagruélica necessidade estatal por dinheiro.

No Brasil, uma parte das receitas, mesmo aquelas arrecadadas com uma finalidade específica (por exemplo, saúde), entra no que se convencionou chamar de DRU, ou desvinculação das receitas da União. O que a DRU faz nada mais é do que pegar 20% das receitas que deveriam ir para um determinado fim e jogar no caixa comum, onde não será gasto para o que foi arrecadado, mas, sim, comporá o “superávit primário” que tão bem faz ao Brasil, mesmo que seja parte do tão temido e odiado “Consenso de Washington”.

Clica e repara na coluna lilás

Por outro lado, em uma manobra financeiro-contábil, o dinheiro que atualmente vai para a saúde será substituído pelas receitas advindas da nova CPMF, trocando exatamente a dúzia por doze. Se antes se investia 30 bilhões em saúde dos cofres do Estado, caso aprovada a nova CPMF, os mesmos 30 bilhões serão investidos, apenas vindo de uma fonte conhecida, ficando o que antes vinha do caixa único livre para os fins que o governo julgar mais apropriado (este Braziu tem uma sugestão modesta: mais publicidade estatal).

Sem que a CPMF seja aprovada com mecanismos que possam fazer com que os investimentos em saúde permaneçam no mesmo nível atual e as receitas advindas da CPMF sejam integralmente direcionados para a saúde, a aprovação da CPMF não passará de mais um instrumento para colocar a mão no bolso dos cidadãos.

Da mesma forma, se não houver uma regra proibindo que as receitas da nova CPMF integrem o montante que entra nos valores da DRU, esse aumento será apenas mais uma forma de aumentar o financiamento estatal para o que aprouver as lideranças, a saúde ficando –- como é a tradição -– depois de muitas outras prioridades estatais muito mais prementes.

O limite do Tea Party

Fabricio Pontin | Estados Unidos 11:52 | 04/11/2010

Quando eu falei sobre o Tea Party pro Braziu, aqui, uma das coisas que me deixavam curioso era até onde a influência do grupo da Sarah Palin e do Glenn Beck poderia atrapalhar o domínio democrata no Congresso e no Senado. Ontem deu para ter uma dimensão do problema.

Um Congresso na mão dos conservadores, de novo

A política norte-americana é feita com mapas. A natureza da eleição aqui, com a divisão dos delegados por Estado, obriga uma divisão estratégica do voto. Em diversos sentidos o posicionamento ideológico da Pennsylvania é mais importante que o de Nova Iorque para os candidatos. Principalmente porque o posicionamento de Nova Iorque não está em jogo (votará Democratas na próxima eleição), enquanto o da Pennsylvania pode decidir o jogo para um lado ou para o outro.

Agora olhem bem para esse mapa:

Os vermelinhos são os Republicanos, os azuis são os Democratas [em caso de daltonismo, os verdinhos são Republicanos e os vermelinhos são os Democratas, ok?]. Agora respirem fundo e digam com o Obama:

fodeu

Os Democratas perderam em uma noite o domínio completo do Congresso. Para vocês terem uma ideia, no momento da eleição do Obama o domínio dos Democratas era tão grande que permitia que qualquer legislação fosse aprovada apenas com os votos dos democratas. Além de dependerem somente de si, os Democratas podiam ainda catapultar qualquer projeto dos Republicanos para fora da pauta do Congresso. Bastava votar em bloco.

Então qual foi a dificuldade do Governo para passar os projetos pelo Congresso?

É difícil para quem está de fora entender algumas peculiaridades do sistema norte-americano, especialmente do vínculo ideológico e do comportamento dos políticos dentro do Partido Democrata. O que levaria um democrata a votar contra o projeto mais importante do governo Obama (no caso, a reforma do sistema de saúde)?

A resposta está na chamada “política de base”. Os Democratas eleitos por Estados mais conservadores e que pretendiam se reeleger olhavam para a base que iria votar nessa eleição e pensavam: “se eu votar com o Obama nesse plano de saúde, estou frito”. Votaram contra. Daí a dificuldade em passar projetos.

Assim, os projetos que Obama conseguiu passar no Congresso foram exaustivamente negociados com a base Republicana (ainda que minoritária) e com os Democratas “conservadores” que sabiam que tinham uma eleição em um ano. Para os que votaram na plataforma de “hope and change” (tradução livre: “pão e circo”) isso foi uma decepção horrível; para os que já não gostavam do Obama, foi a confirmação de que ele é um incapaz de lidar com política executiva. Os resultados estão no mapa ali de cima.

Ontem foi dia normal aqui nos Estados Unidos, nenhum professor liberou aluno para ir votar, nenhum chefe deu dia livre para quem comprovasse voto. Chegou atrasado? Te rala. Ficou na fila e não conseguiu ir ao trabalho? Perdeu o dia e talvez perdeu o cargo. Nesse contexto, o cara tem que estar muito motivado para ir votar. Vi uma pessoa falando que chegou atrasado por ter ido votar. Compreender a derrota dos Democratas no Congresso passa por entender a motivação para votar.

Mas e o Senado?

Pois é. Com todo o gritedo dos conservadores, toda a campanha para mostrar o completo fracasso do Governo Federal em passar legislação e a desmotivação dos militantes em levantar a bunda e ir votar, o Senado continua na mão dos Democratas. Mas muito menos decisivamente do que no ano passado e com muitos democratas com medo de perder o cargo para um conservador na próxima eleição.

Eis o mapa:

A grande má notícia para Obama nesse mapa: Ohio, Pennysilvania, Indiana, Florida, North Carolina e Winsconsin votaram em senadores republicanos. Se isso for uma tendência, preparem-se para presidente Palin em 2012. Todos esses Estados deram a vitória para Obama em 2008. E, sem exceção, são todos swing states, ou seja, Estados que mudam de lado de uma eleição para outra.

No entanto, várias dessas vitórias foram por margens pequenas de votos e a eleição para o Senado e Congresso, por definição, atrai menos gente que uma eleição presidencial. Ou seja: o Tea Party conseguiu mobilizar a base conservadora a votar em Estados com potencial de virar o jogo, mas não redesenhou o mapa eleitoral no Senado, apenas elegeu candidatos republicanos em estados que historicamente elegem senadores republicanos. Grande coisa.

E os Estados?

A derrota de Toni Tancredo [melhor nome] no Colorado e eleições extremamente disputadas no Sul dos Estados Unidos indicam que os latinos viraram uma força política importante nas eleições norte-americanas. Mais que isso: uma força decisiva. Se em uma eleição “menor” o voto latino empurra todos os candidatos democratas para a casa dos 40% no Sul (não é pouca coisa, se a gente pensar que esses Estados são, nos últimos trinta anos, o parque de diversão dos republicanos), imaginem o que eles podem fazer em uma eleição “grande”.

Toni Tancredo é o grande nome da política anti-imigração e anti-imigrante nos Estados Unidos. A derrota dele é um recado claro para os republicanos de que continuar o discurso da ampliação dos muros na fronteira e da política de exigência de documentos nos Estados com maior influxo de hispânicos pode custar aos republicanos a perda dos votos do latinos, da mesma forma que as políticas segregatórias dos anos sessenta custaram os votos dos afro-americanos.

A história se repete

A história, sabe-se, acontece como tragédia, se repete como farsa e depois de umas quinhentas vezes vira circo no interior da Ucrânia (eu ia dizer Bulgária, mas me deu preguiça de ser chamado de classe média revoltada com a vitória da Dilma). A eleição de um Congresso de oposição ao Executivo, nos Estados Unidos, é uma tendência antiga.

Ela também é óbvia em um país com dois partidos políticos. O camarada vence a eleição, as pessoas se decepcionam, a oposição vence as eleições distritais. A oposição não faz lá grandes coisas diferentes, o presidente é reeleito. O Congresso e o Senado ficam na mão da oposição. O presidente não consegue governar. Quatro anos depois um candidato da oposição vence. Repita a história até cansar.

Com exceção de Reagan, que elegeu o sucessor, e Bush I e Carter, que perderam a campanha para a reeleição, isso tem sido a regra nos Estados Unidos desde Nixon. Carter e Bush são exceções porque perderam, além da Câmara, o Senado — e também sofreram com eventos externos que comprometeram a imagem do chefe de governo. Reagan elegeu o sucessor por ter ganho a Guerra Fria.

Então muita calma ao dizer que o domínio do Congresso pelos Republicanos marca o fim do governo Obama. Os conservadores esperavam uma vitória maior, por mais que estejam comemorando como se já tivessem ganho a próxima eleição presidencial. É claro que as notícias são ruins — péssimas — para os Democratas, especialmente considerando a dificuldade que Obama tem em comunicar as vitórias do próprio governo. Mas os Republicanos também precisam refletir sobre o limite da política dos conservadores vinculados ao Tea Party, que já começam a se dividir em facções.

Os Republicanos sabem onde podem chegar com a atual estratégia: domínio do Congresso e vitória onde conservadores sempre podem vencer. Mas isso não é suficiente para a eleição presidencial. Paradoxalmente, é o limite do Tea Party.

Live Blogging | Eleições 2010, Segundo Turno | Votação, Apuração e Resultados

Fabricio Pontin | Estados Unidos 16:00 | 31/10/2010

Plantão Braziu: EUA em estado de alerta; caças escoltam avião de passageiros

Fabricio Pontin | Estados Unidos 17:40 | 29/10/2010

O serviço secreto americano lançou um aviso dizendo que diversos objetos suspeitos foram encontrados em aviões de carga da UPS. Os dispositivos em questão são, até onde consegui entender, algo como cartuchos de impressora alterados para parecerem detonadores de bomba.

Tem um avião sendo revistado em um aeroporto na Pennsylvania e agora tem dois aviões da força aérea norte-americana dando cobertura para um avião de passageiros.

Estou no meu escritório, em um PC velho, com a CNN passando muito mal e porcamente. Vou tentar achar um canal alternativo e atualizar aqui conforme as coisas acontecerem (usando nos updates o horário local, 3 horas a menos que no Brasil). Se a coisa ficar mais feia, eu e Dr. Rocco Demori abriremos um live-stream aqui mesmo.

Na semana que vem tem os mid-terms (eleições) aqui nos Estados Unidos e essa histeria por conta desses explosivos deve acabar com qualquer chance que os Democratas tinham de tentar virar a tendência de domínio Republicano no Congresso e no Senado.

Update 1 (2:45 PM – Central Time) Sinagogas e centros culturais judaicos estão em nivel máximo de alerta. Algumas pessoas já começaram a largar “bombas-de-mentirinha” em lugares estratégicos, questão doméstica querendo potencializar o alcance das potenciais bombas dos aviões que, até agora, parecem ser uma questão de interferência externa (mas nunca dá para saber nos Estados Unidos).

Update 2 (2:47 PM – Central Time) A CNN acaba de mandar a manchete: Emirates flight 201 lands at New York’s JFK airport escorted by fighter jets. Ou seja, pousou o avião no JFK. To ligando meu netbook aqui, sem condições de abrir duas ou mais abas nesse computador

Update 3 (2:52) Governo lança nota atribuindo ao Yemen e à Al-Qaeda o incidente. Por enquanto a terminologia gira em torno de “scare” e não “threat”.

Update 4 (2:55) Passageiros saindo do aviao da Emirates ao vivo em vídeo.

Update 5 (2:58) Obama vai falar ao publico em quinze minutos. Ao vivo aqui.

Update 6 (3:04) Destino final do avião seria O’hare, em Chicago.

Interessante que aviões seguem pousando no aeroporto na Filadelfia. (acabou de pousar um doméstico no vídeo aqui). Pelo visto, estão tentando evitar uma parada total das capacidades aereas do pais, como aconteceu em 2001.

Update 7 (3:15) Avião seria procedente de Dubai, não do Yemen, dizem as autoridades americanas para a CNN. “”Emirates Flight EK201, which has just landed at JFK, originated in Dubai not in Yemen, as reported in the US media. More information will follow as soon as we have it. Emirates is co-operating fully with the US authorities.”

Update 8 (3:18) BBC dando (só ela) que não havia bomba alguma no avião. A revista The Atlantic se pergunta se “terroristas do Yemen estariam praticando para uma situacao real de bomba”.

Update 9 (3:23) BBC e MSNBC: o pacote foi retirado em Newark e aberto; dentro havia um cartucho de impressora e um certo pó branco. A teoria da policia é que seria um teste para ver a resposta do Governo Americano diante da situação. As infos no entanto são bem ESPECULATIVAS até agora. MSNBC: mais de uma dúzia desse tipo de dispositivos foram colocados em aviões da UPS no mundo todo.

Discurso do Obama:
“Os pacotes realmente contêm material explosivo, pelo menos em alguns casos”
[Pelo que entendi, esses foram pegos ainda antes do embarque em vôos. Foram pacotes identificados como suspeitos.]

“Os pacotes realmente vieram do Yemen. E pelas mãos da Al Qaeda. Falamos com o presidente do Yemen, que prometeu cooperar”
[fim do que importa no discurso]

that’s all, folks. Voltem depois pro live que importa, o do debate.

História real

Pedro Augusto | Alemanha 22:33 | 26/10/2010

Semana passada minha mulher me pegou nu, na cama, com uma loura formosa, seios fartos, panturrilha definida, corpo bem torneado e boca carnuda. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, saí-me com o clássico:
- Não é nada disso que tu estás pensando, querida. Eu posso explicar.

Ela, não acreditando que eu ainda tinha sequer coragem de falar, aos berros, disse:
- Fala, Pedro, o que aconteceu para tu estares pelado na cama com essa vagabunda?

Parei por um milésimo de segundo e arrisquei:
- Foi em nome da governabilidade, meu amor. Sem transar com ela, não conseguiria aprovar nada lá no trabalho.

Ainda incrédula e babando de raiva ela me atirou um tamanco que me atingiu na testa. Pensei mais um tempo e experimentei uma segunda frase:
-Amor, isso nada mais é do que pragmatismo sexual. Eu fui obrigado pelas circunstâncias a me deitar com essa rapariga.

Vendo que não funcionava, que ela era muito mais inteligente do que muitos dos analistas brasileiros, tentei o que pensei ser a última das desculpas da noite:
- Amor, isso é a Realpolitik sexual; eu tenho o sexo como vocação, Geschlechtsverkehr als Beruf (caprichei no sotaque alemão, por achar que essa era a língua do amor).

Sem conseguir me defender, o segundo tamanco acertou em cheio meu olho direito. Quase chorando consegui balbuciar o que me pareceu a resposta que acabaria com aquela discussão:
- Amor, essa mulher deitada aqui ao lado nada mais é do que um factoide (caprichei no ó, já que a maioria das pessoas escreve a palavra com acento) da imprensa golpista, que sempre tenta de tudo para nos separar.

Minha esposa continuava furiosa e logo vi o abajur se aproximando da minha testa. Ainda me recuperando da pancada , fui ao que pensava ser o fundo do poço das desculpas esfarrapadas:
- Amor e mulher da minha vida, essa loura é mais uma jogada magistral neste tabuleiro de xadrez que transformou as relações interpessoais que são visadas pela velha Igreja.

Objetos continuavam voando em direção à minha cabeça e, infelizmente, a maioria deles me acertava em cheio. Os lençóis já começavam a ficar vermelhos de sangue. Pensando que minha mulher se lembraria da minha bola de boliche guardada no armário, fui ao desespero e lasquei:
- Paixão, eu não conheço essa mulher. Me disseram que o nome dela era Maria Branca, mas eu só a conhecia como Maria da Silva. Aquele apelido era preconceituoso e elitista, por isso que ela está aqui.

Vendo que um vaso de flores se dirigia até a minha têmpora esquerda, gritei antes do baque:
- Flor da minha vida, isso nada mais é do que uma tentativa de golpe no nosso casamento, por aqueles que não aceitam que um gordinho baixinho como eu coma louras peitudas por em virtude da minha imensa popularidade.

Não surtindo o efeito desejado, juntei as mãos, olhei aos céus, e disse, já sentindo o gosto do sangue que me inundava a boca:
- Minha gatinha, o pastor da igreja mandou que eu lesse a Bíblia; eu li e lá consta o “crescei e multiplicai-vos.” Como sou contra o aborto, resolvi engravidar essa perua para provar que eu sou um cristão temente a Deus.

Ela começou a se dirigir ao armário e eu percebia que a bola de boliche seria o próximo objeto a me arrebentar o crânio. Pensei em tudo o que tinha vivido e visto, em tudo que tinha aprendido, em todas as desculpas que eu tinha ouvido em minha vida. Tentei mais uma:
- Fui traído, minha linda. Essa loura jurou que era minha esposa, que me era fiel, e eu não tenho como controlar tudo que acontece na minha vida.

A bola de boliche já estava nas mãos da minha esposa e ela se preparava para arremessá-la quando eu tive uma luz e, com olhos de perdão, disse:
- Eu não sabia de nada!

Nesse momento a bola de boliche já havia saído das mãos da minha esposa e se dirigia ao centro da minha testa. Percebendo o enorme erro que cometera, minha esposa gritou:

- Pedro, se tu dizes que não sabia de nada, eu acredito.

Pena que era tarde demais.

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência”

Política e religião na Finlândia

Gabriel Brust | França 20:59 | 20/10/2010

O debate cristão, graças a Deus, parece estar arrefecendo na campanha eleitoral brasileira e voltando para seus guetos religiosos. Silas Malafaia, da Assembléia de Deus, e Edir Macedo, da Igreja Universal, travam agora um embate pessoal – briga de pastor, sem ringue de gel nem biquíni, mas ainda assim divertida.

Enquanto isso, uma polêmica sobre o tema inquieta um pessoal lá daquelas bandas geladas para onde o mundo, e mesmo a Europa, não costuma olhar muito: os países nórdicos. Mais especificamente, a Finlândia. Nos últimos sete dias, nada menos do que 25 mil fieis abandonaram a Igreja Luterana da Finlândia, após assistirem a um debate na televisão. Na ocasião, a líder do partido Democrata-Cristão, ligado à igreja, fez duras críticas à legislação do país, que permite a união legal de casais homossexuais e a adoção de crianças.

Da polêmica, surge uma informação provavelmente desconhecida para muitos: o país, um dos mais desenvolvidos do mundo, tem duas igrejas consideradas “nacionais”: a Igreja Ortodoxa da Finlândia (com apenas 1% dos finlandeses entre seus fieis) e a Igreja Luterana da Finlândia (a qual pertence 80% da população). Nesta condição, ambas estão habilitadas a cobrar o dízimo através dos impostos estatais. A porcentagem do imposto-dízimo é proporcional à renda do cidadão. Quem não quer mais ter seu imposto descontado, basta pedir, mas a imensa maioria dos finlandeses paga. Calcula-se que a fuga em massa de fieis desta semana deve trazer um preju de 7 milhões de euros. Além de terem seus orçamentos atrelados ao do Estado, as duas igrejas ocupam um papel importante em cerimônias nacionais.

Não só a Finlândia, mas boa parte dos nórdicos, como Islândia, Dinamarca e Noruega, ainda têm igrejas nacionais. A Suécia teve até recentemente. O curioso é que a proximidade entre igreja e Estado acabou por forçar a adaptação da igreja ao comportamento moderno, e não o contrário. A Igreja Luterana Finlandesa, por exemplo, aceita o divórcio e o casamento de pessoas divorciadas. Em relação ao aborto, é parecida com a lei brasileira: aceita em caso de estupro, ameaça à vida da mãe ou deformações graves. Em 2009, a Igreja aceitou que um de seus pastores, pai de família, passasse por uma operação de mudança de sexo, sem prejuízo para suas funções religiosas. Desde 1986 a igreja aceita pastoras mulheres, e há pouco elegeu sua primeira bispa. Tanto homens quanto mulheres precisam ter um “master degree” para se tornarem pregadores, quase como no mercado de trabalho convencional.

A questão da homossexualidade é a bola da vez e, assim como todas as outras questões que foram sendo superadas ao longo do século 20, deve acabar sendo aceita pela igreja. É o que indica esta enorme pressão popular após as declarações da líder partidária e religiosa no tal programa de televisão.

O que parece acontecer na Finlândia é que a igreja vem se adaptando às resoluções do Estado, com o qual mantém um relacionamento mais próximo do que aquele que observamos na maioria dos países ocidentais. Enfim, um modelo que não me parece o ideal, mas que dá o que pensar.

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