Bruxas!

No site da Atea tem alguns momentos do movimento “ateus saindo do armário” pelo mundo afora, e agora no Brasil, com campanhas sugerindo que pode não existir deus algum, que o melhor é curtir a vida sem se preocupar com religiões e que ateus são até boas pessoas. Ao menos tentam sair do armário, já que aqui, assim como na Itália e Austrália, as mensagens não foram às ruas. As empresas responsáveis pelas veiculações em Porto Alegre e Salvador alegam leis municipais impedindo mensagens religiosas. Talvez seja uma boa lei, resta saber se é o caso, ou se a proibição sofre do mal que a própria campanha tenta combater.
A campanha tenta desmistificar um pouco do preconceito contra ateus. Sim, existe, e se alguém tem dúvidas do tamanho do problema dá uma olhada aqui. Quase metade dos brasileiros julga, antes de qualquer outro defeito que a pessoa possa apresentar, que o fato de não crer em deus a torna odiável. Cruel, insensato, amoral, imoral, devasso, canhestro, maldito, vitriólico, lazarento, desumano, eis um ateu.
Tenho dúvidas se a campanha ajuda de fato nessa desmistificação. Aposto no sim, apesar das mensagens mal construídas, apelativas e até meio agressivas (Hitler? sério? Lei de Godwin ninguém conhece?). Da forma como estão feitas, as mensagens sofrem de um mal que é recorrente no discurso ateísta: batem de frente com a fé e colocam o crente não na posição de alguém que pode vir a ser tolerante, mas de alguém que está sendo atacado.
Esse tipo de mensagem coloca até mesmo ateus mais apáticos (a maior parte) em desconforto. Não é isso que eles querem dizer, na verdade eles não querem dizer nada. São apáticos porque não faz sentido participar da discussão religiosa se não têm uma. Ateísmo não é outra religião, apesar de um certo zumbido que tenta colocar ateus, os mais exaltados ao menos, no mesmo barco que fundamentalistas religiosos. Ateísmo é oposto a teísmo. Religiões estão dentro do teísmo. Faça a conta.
Mas é possível entender que o discurso ateísta seja assim. Nas iniciativas de grupos discriminados buscando espaço na sociedade para sua causa, o primeiro movimento é sempre meio histérico, chocante, barulhento. E afinal tem que começar de algum lugar, vale ressaltar o mérito da Atea quanto a isso. Mas podiam ser melhores, mais sensatas e eficazes, as mensagens.
Além de dar o primeiro passo no trabalho, outra questão é por onde. É bem desconfortável, para não dizer prejudicial, assumir publicamente que se é ateu. Não é só a tia da fila olhando torto como se você tivesse dito um palavrão. Empregos, sentenças judiciais, notas escolares, eleições, muito mais coisas do que se imagina podem ser postas a perder a partir do momento que um ateu se posiciona publicamente como tal (sem eufemismo, ateu só se fode).
As pessoas não estão acostumadas com a hipótese de que alguém não acredite em um deus. É como uma criança que descobre a farsa do papai noel. Momentos de fúria, desespero e choro se seguem, a magia está perdida. Depois tudo tende a se acalmar e voltar ao normal, mas o começo é chocante. Como ninguém nunca desfaz a farsa de deus, a humanidade se apegou demais a ele. Qualquer tentativa é motivo para choradeira, e evidências e razões para se pensar que deus não existe são descartadas sem pensar duas vezes. Não servem, são feias, más, bobas.
Nesse contexto, como mostrar que essas encarnações do demônio que são os ateus podem ser boas pessoas, se não se partir da desconstrução da própria religião? Mais, como passar isso de uma forma rápida, numa mensagem de busdoor? Se imagino certo, a discussão sobre o que veicular deve ter começado mais ou menos por aqui, e daqui não deve ter saído, porque é tanta coisa a dizer que não tem gênio da propaganda que dê jeito. Optaram por contrariar algumas idéias do senso comum da fé. Só a religião pode formar seres morais, sem deus tudo é permitido, as respostas para as perguntas mais complexas da existência estão na fé, nessa linha.
É difícil dizer que escolher esse caminho ajuda a diminuir o preconceito contra ateus. Acho pouco provável e acho que a Atea sabe bem disso. O ponto aqui é abrir a discussão. Que venham os paladinos do discurso perfeito dizer que abrir a discussão não é descupa para escrever qualquer merda. Entendam, nesse caso, uma mensagem suave demais não faria qualquer efeito. A polêmica fará mais pelos ateus do que um discurso melhor encaixado. Não é o fim do mundo, essa meia dúzia de mensagens (4, na verdade). Não há alguém para sair perdendo com a resposta negativa da população, como foi o caso do aborto nas eleições.
Mais do que reeducar os religiosos para aceitar seus irmãozinhos desprovidos de deuses, é preciso fazer com que mais ateus tomem consciência do fato de são discriminados pelo que decidiram acerca de sua vida espiritual. É menos para desconverter fiéis e mais para unir infiéis, mostrar que o problema existe, que o grupo existe e que está alerta contra as investidas que vierem a sofrer. E nesse ponto, antes mesmo de ser veiculada, a campanha da Atea já começa a surtir efeito. Certamente a Atea já esperava o tipo de censura que está sofrendo. As matérias falando da proibição fazem mais pela causa do que a própria campanha faria.
Resta a questão legal sobre se ateus tem o direito de se manifestar dessa forma ou não. Meu desconhecimento do direito não me dá qualquer luz sobre o assunto, mas me parece bastante evidente que se o objetivo desse tipo de lei é evitar discursos de ódio e discriminação, este não é o caso.
Tags: Atea, ateísmo, ateus, busdoor, Chaplin, direito, Hitler, Porto Alegre, propaganda, Salvador
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