Bruxas!

Elvis Branchini, colaboração para o Braziu™ 10:00 | 13/12/2010

No site da Atea tem alguns momentos do movimento “ateus saindo do armário” pelo mundo afora, e agora no Brasil, com campanhas sugerindo que pode não existir deus algum, que o melhor é curtir a vida sem se preocupar com religiões e que ateus são até boas pessoas. Ao menos tentam sair do armário, já que aqui, assim como na Itália e Austrália, as mensagens não foram às ruas. As empresas responsáveis pelas veiculações em Porto Alegre e Salvador alegam leis municipais impedindo mensagens religiosas. Talvez seja uma boa lei, resta saber se é o caso, ou se a proibição sofre do mal que a própria campanha tenta combater.

A campanha tenta desmistificar um pouco do preconceito contra ateus. Sim, existe, e se alguém tem dúvidas do tamanho do problema dá uma olhada aqui. Quase metade dos brasileiros julga, antes de qualquer outro defeito que a pessoa possa apresentar, que o fato de não crer em deus a torna odiável. Cruel, insensato, amoral, imoral, devasso, canhestro, maldito, vitriólico, lazarento, desumano, eis um ateu.

Tenho dúvidas se a campanha ajuda de fato nessa desmistificação. Aposto no sim, apesar das mensagens mal construídas, apelativas e até meio agressivas (Hitler? sério? Lei de Godwin ninguém conhece?). Da forma como estão feitas, as mensagens sofrem de um mal que é recorrente no discurso ateísta: batem de frente com a fé e colocam o crente não na posição de alguém que pode vir a ser tolerante, mas de alguém que está sendo atacado.

Esse tipo de mensagem coloca até mesmo ateus mais apáticos (a maior parte) em desconforto. Não é isso que eles querem dizer, na verdade eles não querem dizer nada. São apáticos porque não faz sentido participar da discussão religiosa se não têm uma. Ateísmo não é outra religião, apesar de um certo zumbido que tenta colocar ateus, os mais exaltados ao menos, no mesmo barco que fundamentalistas religiosos. Ateísmo é oposto a teísmo. Religiões estão dentro do teísmo. Faça a conta.

Mas é possível entender que o discurso ateísta seja assim. Nas iniciativas de grupos discriminados buscando espaço na sociedade para sua causa, o primeiro movimento é sempre meio histérico, chocante, barulhento. E afinal tem que começar de algum lugar, vale ressaltar o mérito da Atea quanto a isso. Mas podiam ser melhores, mais sensatas e eficazes, as mensagens.

Além de dar o primeiro passo no trabalho, outra questão é por onde. É bem desconfortável, para não dizer prejudicial, assumir publicamente que se é ateu. Não é só a tia da fila olhando torto como se você tivesse dito um palavrão. Empregos, sentenças judiciais, notas escolares, eleições, muito mais coisas do que se imagina podem ser postas a perder a partir do momento que um ateu se posiciona publicamente como tal (sem eufemismo, ateu só se fode).

As pessoas não estão acostumadas com a hipótese de que alguém não acredite em um deus. É como uma criança que descobre a farsa do papai noel. Momentos de fúria, desespero e choro se seguem, a magia está perdida. Depois tudo tende a se acalmar e voltar ao normal, mas o começo é chocante. Como ninguém nunca desfaz a farsa de deus, a humanidade se apegou demais a ele. Qualquer tentativa é motivo para choradeira, e evidências e razões para se pensar que deus não existe são descartadas sem pensar duas vezes. Não servem, são feias, más, bobas.

Nesse contexto, como mostrar que essas encarnações do demônio que são os ateus podem ser boas pessoas, se não se partir da desconstrução da própria religião? Mais, como passar isso de uma forma rápida, numa mensagem de busdoor? Se imagino certo, a discussão sobre o que veicular deve ter começado mais ou menos por aqui, e daqui não deve ter saído, porque é tanta coisa a dizer que não tem gênio da propaganda que dê jeito. Optaram por contrariar algumas idéias do senso comum da fé. Só a religião pode formar seres morais, sem deus tudo é permitido, as respostas para as perguntas mais complexas da existência estão na fé, nessa linha.

É difícil dizer que escolher esse caminho ajuda a diminuir o preconceito contra ateus. Acho pouco provável e acho que a Atea sabe bem disso. O ponto aqui é abrir a discussão. Que venham os paladinos do discurso perfeito dizer que abrir a discussão não é descupa para escrever qualquer merda. Entendam, nesse caso, uma mensagem suave demais não faria qualquer efeito. A polêmica fará mais pelos ateus do que um discurso melhor encaixado. Não é o fim do mundo, essa meia dúzia de mensagens (4, na verdade). Não há alguém para sair perdendo com a resposta negativa da população, como foi o caso do aborto nas eleições.

Mais do que reeducar os religiosos para aceitar seus irmãozinhos desprovidos de deuses, é preciso fazer com que mais ateus tomem consciência do fato de são discriminados pelo que decidiram acerca de sua vida espiritual. É menos para desconverter fiéis e mais para unir infiéis, mostrar que o problema existe, que o grupo existe e que está alerta contra as investidas que vierem a sofrer. E nesse ponto, antes mesmo de ser veiculada, a campanha da Atea já começa a surtir efeito. Certamente a Atea já esperava o tipo de censura que está sofrendo. As matérias falando da proibição fazem mais pela causa do que a própria campanha faria.

Resta a questão legal sobre se ateus tem o direito de se manifestar dessa forma ou não. Meu desconhecimento do direito não me dá qualquer luz sobre o assunto, mas me parece bastante evidente que se o objetivo desse tipo de lei é evitar discursos de ódio e discriminação, este não é o caso.

Religião, aborto, voto unilateral e a democracia enquanto piada de mau gosto

Fabricio Pontin | Estados Unidos 13:16 | 18/10/2010

Uma vez, na universidade, eu coordenei uma mesa redonda onde dois professores com doutorado na Inglaterra discutiam alegremente questões de início e fim da vida. Em um certo momento, um dos dois professores, ao ser confrontado por uma pergunta sobre a questão do aborto e do infanticídio falou que,

“Essa questão do aborto não tem uma dimensão moral de verdade, ela é só poluída por fanáticos religiosos. Em verdade, até o décimo primeiro mês, não há problema moral algum em terminar uma gestação ou em matar um infante, se isso traz benefícios para a mãe”

“Décimo primeiro mês, professor?”

“Sim, segundo a definição Lockeana de pessoa” (Nota: a definição do velho Locke diz que uma pessoa é alguém capaz de conceber um passado e ter expectativa de um futuro)

“Décimo-primeiro-mês?”

“Logo vejo que nessa universidade os alunos foram cooptados pela ideologia da Opus Dei e não aceitam evidência científica incontestável. Antes do décimo primeiro mês não há qualquer evidência de processos de expressão de consciência individual, nem de estabelecimento de passado ou futuro para o infante. Aquilo não tem direitos.”

Uns três anos depois, estou passeando aqui pelo campus quando encontro flechas apontando para uma exposição sobre “the greatest holocaust ever made my man”. A exposição era em frente ao prédio onde estudo, de forma que não tinha muito como escapar da coisa. Uns vinte alunos vestidos de branco seguravam cartazes “GOD HATES THE SPILLING OF INNOCENT BLOOD” , “EMBRYO=BABY JESUS”, fotos de bebês loirinhos sorridentes com um balão de história em quadrinhos “I FEEL PAIN WHEN YOU ABORT ME” e “MAMMA DON’T ABORT ME”.

Fiquei curioso com o lance do holocausto, e fiquei procurando onde estavam as fotos da Shoa. Daí me dei conta. “Every year more than two million children are ASSASSINATED with support of the federal government” .

Aqui nos Estados Unidos eles chamam indivíduos que votam baseados em apenas uma questão de “single-issue voters”. Vou chamar de “voto unilateral” essa conduta. Funciona assim: tudo indica que você votaria no Obama; você apoia intervenção do Estado na Economia; você acha que programas sociais são importantes; acredita no aquecimento global; e se bobear até acha que escolas públicas não deveriam ensinar o criacionismo. Mas daí você descobre que o Obama é pro-choice (portanto, contra a criminalização do aborto) e de uma hora para outra todas as tuas outras opiniões sobre o Obama caem por terra. Especialmente quando você descobre que o outro cara é pro-life e tem como vice uma mulher muito parecida contigo.

Um voto unilateral pode vir de diferentes “perfis” ou “problemas” e com diferente força. Por exemplo: ninguém se elege nem síndico de prédio nos Estados Unidos sem falar que acredita em Deus. A questão da pena de morte pode ser decisiva para um lado ou para o outro, dependendo de qual estado você tá querendo seduzir. A questão da eutanásia também.

Isso vai variar, é claro, dependendo da eleição e de quem vai decidir a eleição no fim das contas. Eleições onde os indecisos são pessoas que votam em cima desses issues acabam indo para essa direção naturalmente. Eleições onde esses mesmos indecisos são irrelevantes se movem para um terreno diferente, são eleições que focam mais em políticas públicas e menos em valores. Digamos que o primeiro tipo de eleição geralmente é ganha por um democrata e o segundo é geralmente ganho por um republicano. Uma olhada na história dos Estados Unidos desde 1962 ilustra como o processo eleitoral geralmente funciona.

Enquanto isso, no Braziu, candidatos tentam seduzir a massa evangélica (cerca de 20% da população, no mínimo) sem tomar uma posição. Dilma e Serra se posicionam de forma covarde e tal qual uma gangorra ficam subindo e descendo em questões de liberdades civis e religiosas. Para os dois candidatos, a resposta à pergunta do casamento homossexual e do aborto depende, de forma geral, de quem está perguntando.

De qualquer forma, Dilma só precisa ganhar cinco por cento dos votos que permaneceram para Marina ou se abstiveram no primeiro turno. Serra tem uma missão mais complicada e precisa transformar o atual domínio em São Paulo em um domínio na região Sul e Sudeste, tentando engessar a candidatura da Dilma no Nordeste.

Talvez por isso seja mais fácil para Dilma aumentar o volume do apelo aos que votam de forma unilateral. Ao se apresentar como amiga dos evangélicos e mudar de forma vergonhosa a própria opinião sobre o aborto, Dilma confia que ainda que parte da população identifique esse recurso como uma retórica sem-vergonha, um número suficiente de pessoas vai apoiar a iniciativa e votar nela. Ela não precisa do voto da maior parte dos evangélicos ou dos que votaram na Marina no primeiro turno. Ela precisa de uma parte pequena, suficiente para se eleger.

Ao contrário da pena de morte, que considero um atraso intolerável em democracias modernas, a questão do aborto tem uma complexidade maior. Não acho que ser contra o aborto é uma aberração. Por sinal, boa parte das pessoas que se posicionam a favor da descriminalização do aborto não são favoráveis a prática. Acontece que existem elementos de saúde pública, de imprevisibilidade e sobretudo de coerência legislativa que precisam ser levados em conta. Um país que identifica a potencialidade de um embrião como uma “pessoa” não poderia permitir metade das práticas de pesquisa em genética que o Brasil permite. Um país que permite aborto em caso de estupro não pode argumentar que um feto já tem direitos enquanto pessoa (não tem se é resultado de estupro? Por favor, isso não faz o menor sentido).

O debate no Brasil precisa ser confrontado com a pobreza argumentativa dos dois lados. Não é uma questão tranquila essa de que “não existem problemas morais no aborto”. O professor que apelou para uma certa definição de pessoa tinha um argumento tão ridículo quanto o dos crentes na frente do prédio das Humanas da SIUC. É claro que é uma questão moral. Justamente por ser uma questão moral a gente acaba discutindo isso por tanto tempo. Mas a hipocrisia da legislação brasileira é notável. Existe um consenso em não punir mulheres que praticam aborto. Então por que a prática é considerada ilegal? Existe a permissibilidade do uso de embriões em pesquisa. Então porque o aborto embrionário é considerado ilegal? Permite-se o aborto em caso de estupro, mas se essa circunstância mitiga o interesse potencial do feto, porque outras circunstâncias não são relevantes? A vida decorrente de estupro é menos digna de proteção?

Por outro lado, perde-se tempo com essa discussão por motivos puramente eleitorais (enquanto sabemos que tanto Serra quanto Dilma parecem ser favoráveis à descriminalização da prática Brust me corrigiu ali nos comentários, mais detalhes aqui), quando poderia-se discutir, por exemplo, como diminuir o número de gravidez em menores de idade nas classes mais pobres. Pergunte para qualquer professor do ensino médio em uma escola pública quantas alunas grávidas ele vê todo semestre. Pergunte para um professor de sexta série. A questão é extremamente relevante. Jovens pobres no Brasil não usam preservativo, não sabem como usar a pílula e muitas vezes engravidam porque isso vai fazer o namorado parar de bater nelas – pelo menos por nove meses. Ao menos, poderíamos discutir como diminuir o número de gravidez indesejáveis, para que menos mulheres sequer precisem pensar em abortar. No entanto, o governo federal só se preocupa em falar de camisinha durante o carnaval. Ninguém discute isso, até porque ninguém decide o voto com esses problemas em mente. Ou melhor, não existem pessoas suficiente decidindo com isso em mente. Então é mais fácil dizer que Jesus é Rei, que Toda Vida É Sagrada e que Aborto é um Crime Horrível.

Acho especialmente interessante perceber como essa minoria acaba transformando o debate eleitoral. A gente espera que, de uma forma ou de outra, o processo democrático acabe representando uma certa vontade geral. De verdade, representa a vontade de quem quer ganhar mais. Tudo bem, o voto racional pode ser uma grande de uma piada, pode ser que a gente não saiba de verdade o motivo pelo qual as pessoas votam (ziriguidum comanda o universo, apud Valdevino, Walter). Ainda que a conduta dos candidatos seja baseada em uma ficção (e.g.: pessoas votam com apenas um problema em mente), a conduta desses candidatos passa a ser consistente com essa ficção.

Após um primeiro turno sobre o nada, agora temos um segundo turno onde os candidatos tentam desesperadamente agradar uma parte da população que não fala pela maioria, que não tem uma dimensão muito clara do que está em jogo nos assuntos que são discutidos (e, justiça seja feita, não é informada sobre assuntos de forma adequada) e, no entanto, sequestra o debate.

Serra merece perder (mas contratarei um pistoleiro de aluguel)

Leandro Demori | Itália 14:44 | 17/10/2010

No final dos anos 90, 14 dos 15 países da União Europeia eram governados pela esquerda. Hoje são apenas sete, e com uma Europa alargada; há mais países no bloco do que havia à época: 27. Para piorar, há governos de esquerda na Grécia, Espanha e em Portugal, países com economias destroçadas. O que aconteceu?

Não existem explicações simples para um post de domingo [ainda estou de pijama e não pretendo tirá-lo até segunda]. Ao menos não sou tão presunçoso quanto analistas políticos que orbitam por aí (ao final dos posts você tem a plena certeza de ter lido o sermão de um pastor evangélico). Duas macro razões podem ser descritas, entre um bocejo e outro.

Materialmente, perdeu-se e mão do Welfare State, a ilha de bem-estar social sonhada por aqui. O Estado deu muito e exigiu pouco. As pessoas não entendem e não têm obrigação de entender porque são, enfim, pessoas, mas o leite está minguando e não dá mais pra todo mundo ficar penduradinho na teta.

A briga na França é exemplar: a expectativa de vida ao nascer em 1980 (quando foi instituída a aposentadoria aos 60 anos) era de 73.7 anos. Hoje, é de 80.98 anos. Em 2050, deve alcançar os 84 anos. O governo queria alargar o pijama para 64 anos; como todo mundo chorou, reduziu o projeto para 62. Mesmo com choro geral, a lei deve passar. Precisa passar. Neste caso, a mudança de regras de um direito adquirido é fundamental para manter aquele próprio direito.

Mentalmente, a esquerda europeia esbanjou soberba, ‘subiu nas tamancas’. E pessoas não gostam de gente arrogante. Os operários, que antes votavam majoritariamente em partidos de orientação socialista, hoje votam na outra ponta, na extrema-direita, onde há partidos mais pragmáticos e menos retóricos. Ninguém quer ficar ouvindo político dizer o quanto ele (o político) é o bonzão.

Não por acaso, esse é um dos claros motivos pelos quais temos segundo turno no Brasil nessas eleições: a prepotência começava no alto e ia escorrendo pelas veias da militância. Se o segundo round serviu para algo (porque ainda acredito na vitória de Dilma) foi para baixar a bola do pessoal que já estava pregando o fim de todos os partidos que não assinaram o tratado da verdade única.

Discursos em que se fala mal dos ricos de modo hipócrita acabarão porque, um dia, no país imaginário desses senhores, seremos todos “ricos”. O discurso terá que mudar, e mudará, porque políticos, como bons papagaios de gaiola, repetem as frases que fazem a plateia sorrir. Polly just want a cracker e paga o preço que for preciso.

Até meses atrás, víamos uma disputa entre dois partidos de centro-esquerda no Brasil. Petistoides tinham dificuldades em defender como o PSDB (“um partido de direita”) tinha um presidente que pregava a descriminalização da maconha, por exemplo. E sim, isso é ponto fundamental para a definição — você jamais verá um partido ‘de direita’, conservador, defender coisas como essa. Jamais.

Além desse, outros preceitos do PSDB representados por boa parte de seus fundadores o colocavam na centro-esquerda do velho espectro de classificação de ordens políticas. Se você quer modernizar o que seria a direita (aka adaptar o conceito a seus inimigos) então chame-a de outra coisa.

Com o avanço da disputa eleitoral — e com o enorme esforço do próprio PSDB em fazer José Serra perder a eleição — o que se viu foi um festival de apatia e, depois, de desorientação política. Panfletinhos com a foto de Serra e uma frase de Jesus? Qual é? Serra se agarra ao catolicismo como se tentasse escalar um pau-de-sebo.

Dilma fez examente a mesma coisa, ou até pior, porque até ontem era ateia e hoje acredita muito em Jesus no coração. Fico imaginando o que ela está pensando de olhinhos fechados em fotos como essa.

A diferença entre ambos é que a campanha de José Serra se apegou somente a isso, ele parece não ter mais nada a oferecer ao Brasil. Talvez tenha, mas se nem mesmo ele próprio acredita nisso, não me peça para acreditar. Se no início da campanha eu tinha certeza de que ele era ‘o mais preparado’ (e ainda é), hoje isso pesa muito pouco na balança. A campanha, que deveria ter sido feito em cima dessas competências, não foi. [aqui vai um link mostrando São Paulo para os petistas que amam tanto falar de números ultimamente]

Os candidatos, ambos, são um desastre. Isso é ponto pacífico. Uma das coisas que mais me faz rir é ver as reações pós-debates, sobretudo de petistas (que são mais passionais, logo, mais engraçados). “Dilma deu show!!! !!!” | “Nossa gente ke emoçaum Dilma no debate!!!“. O parâmetro de ‘show’ e ‘emoção’ desse pessoal deve ser o Zorra Total. É nego que chora ouvindo uma piada do Ary Toledo, imagino.

Dilma não merece ganhar, mas Serra merece perder. E merece perder para ver se o PSDB acorda e areja seus quadros, volta minimamente a ser um partido com ares de século XXI como um dia acreditou ser.

Para manter a tradição que eu mesmo me impus desde 2002, vou abster go$toso meu voto. Serra merece perder e você será meu pistoleiro de aluguel. Se tudo ficar como está, Dilma vencerá e o PSDB, caso não capitule ao governo e não seja uma oposição tão inútil como nos últimos 8 anos, terá tempo para repensar o universo. E não votarei em Dilma porque tenho restrições profundas à sua candidatura — a começar pela falta de primárias para decidir o candidato em um partido que se promete democrático.

A principal força de centro-esquerda da Itália, o Partito Democratico, faz eleições internas onde todos os cidadãos italianos que possuem título de eleitor podem votar para definir quem será o candidato. Isso mesmo: é uma primária aberta aos italianos, e não somente aos militantes. No PT, nem isso. Se eu fosse filiado e deixasse parte dos meus ganhos no caixa do partido me sentiria um idiota útil.

Uma das frases clássicas no mercado de trabalho aqui na Bota é “mi manda papà” (“me manda papai”), que resume bem como são as relações de poder em um país que é descendente direto do Império Romano, onde a meritocracia não existia. Dilma subirá a rampa no dia da posse e, lá de cima, dirá ao brasileiros: “mi manda papà”, certamente com espaços de 10 segundos entre cada palavra. Desculpem se não consigo levar a sério toda essa gente.

Os nossos muçulmanos estão certos

Leandro Demori | Itália 09:43 | 13/10/2010

Leandro viaja pelo mundo cobrindo guerras. Leandro não sou eu, é um outro. Quando esteve no Líbano pouco antes da invasão de 2006, fez o que frequentemente faz quando viaja: foi a uma escola conversar com crianças sobre religiões, Ocidente e Oriente Médio. Antes de começar a falar, Leandro sempre pede que as crianças escrevam em um papel uma resposta simples à pergunta “Quem você é?”. Recolhe todos os bilhetinhos e lê as respostas somente no final da lição — quando então pede para que as crianças confirmem a resposta, ou a mudem.

A coisa que mais chama sua atenção quando viaja a lugares como o Líbano é o padrão das respostas. Ao ouvirem a pergunta “quem você é?”, a maior parte das crianças desses países respondem em uma só palavra: “muçulmano”. Nenhuma criança responde “cristão” quando Leandro faz a mesma brincadeira em território ocidental; preferem dizer que são “filhos de alguém”, “estudantes” ou “jogadores de algum time de futebol”.

No Brasil de hoje, mais de 30 milhões de pessoas se declaram “evangélicos”. Evangélicos, sobretudo os neopentecostais, são os nossos muçulmanos. Não existe ‘evangélico não-praticante’, modalidade criada por cristãos apostólicos romanos para ficar de bem com o cara lá de cima ao mesmo tempo em que batem a carteira de alguém aqui em baixo.

Os ‘nossos muçulmanos’ são, além de numerosos, ativos em todas as camadas da sociedade. Esse ‘tipo de religião’ não é ‘coisa de pobre’, como a imagem estereotipada e já desgastada pelo tempo que nos acostumamos a ver. É um grupo heterogêneo, de poder aquisitivo crescente e espalhado pelo país.

Os evangélicos, em regra, são contra o aborto, e têm todo o direito de defender essa trincheira. Seus generais, os pastores, estão guiando as tropas contra qualquer projeto que permita alargar a lei atual. Gente como Silas Malafaia está em sintonia com seu povo, mas não somente com ele: apenas 7% dos brasileiros acreditam que a prática deva deixar de ser punida pela lei.

Brasileiros não são ‘conservadores’ (no sentido de ‘retrógrados’); na mesma pesquisa, 7 em cada 10 declara que a legislação deve ficar como está — e a legislação permite o procedimento para fetos que ponham em risco a vida da mãe ou em casos de estupro. Considero a legislação brasileira sobre o tema uma das melhores do mundo. Mesmo sendo contra o aborto por motivos pessoais, não sou a favor de levar aos tribunais mulheres que o praticarem nessas duas circunstâncias.

Repare que há diferenças fundamentais entre ser ‘contra o aborto’ e a favor da ‘criminalização’. Você pode ser contra o ato de abortar, como eu, e acreditar que a prática é um crime em qualquer circunstância, por exemplo; ou ser contra mas defender o direito de toda mulher poder abortar até os três meses de gravidez sem sanções penais. Uma coisa não está ligada a outra.

Os motivos eleitoreiros pelos quais o assunto ganhou os holofotes são do jogo, e o jogo foi, é e sempre será esse. Política nos moldes democráticos e representativos é a arte da garganta pura e simples (e que vença o menos pior). Nem por isso os candidatos podem achar justo se esquivar da conversa porque ela foi puxada pelo mais bêbado da mesa. In vino veritas.

Argumentar que vivemos em um Estado laico para dizer que os religiosos estão errados em defender suas ideias é, veja só, errado. A separação entre Estado e Igreja no Ocidente teve sua pá de cal com a unificação italiana e todo mundo do lado de cá do planeta parece ter entendido bem o recado. Tanto que os pastores não estão postulando que o Estado emposse um bispo como chefe da nação — estão defendendo sua ética de comunidade com pressões no Executivo e Legislativo, democraticamente, assim como fazem as bancadas das armas, dos ruralistas, dos sindicalistas, dos direitos humanos, dos GLS, dos…

O laicismo não excomunga Deus da vida social, apenas o põe em seu lugar, mantendo sua voz e seu direito de defender dogmas que para nós, ateus, são muito similares a historinhas de gnomos e potes de ouro no fim do arco-íris. O bom da religião é que ela abre precedentes para que eu possa acreditar em todas as lendas cantadas nas músicas do Black Sabbath, Iron Maiden ou Pink Floyd, no que agradeço imensamente e de coração.

Na Itália, a pressão política da poderosa Igreja nem sempre traz resultados. Aqui, o aborto é consentido na rede pública até o terceiro mês de gravidez, apoiado em uma lei aprovada em 1978 e que passou por um histórico plebiscito popular em 1981, quando 68% dos italianos disseram ‘sim’ à prática, ferindo gravemente o coração do Vaticano. A pílula do dia seguinte, apesar de todos os protestos do mundo católico, começou a ser distribuída neste ano.

Em Roma, não se caminha 200 metros sem passar por uma propriedade da Santa Sé, representada por seu escudo. Nem por isso, Roma — e a Itália — são uma ‘teocracia’. Evite a retórica do desespero e pare de acreditar que algum bispo de voz rouca e gel no cabelo dará um golpe de Estado. Caso se torne presidente por meio do voto em um futuro não muito distante haverá pouco para chorar; as regras do jogo estão aí para todos, inclusive pro pessoal que acredita em duendes.

Apelo divino

Mario Camera | França 09:33 | 08/10/2010
A desfaçatez dos candidatos que sobraram nesta reta final da campanha pela presidência da República já não parece chocar mais ninguém. Com o palhaço oficial já vitorioso e recolhido para aprender o be-á-bá antes da prova final, os holofotes do circo podem jogar luz sobre os dois únicos protagonistas no picadeiro. Serra e Dilma podem brilhar sozinhos, sem precisar dividir espaço com ninguém. No entanto, ambos são conscientes da mediocridade de suas campanhas, do constrangimento que seus sorrisos falsos e amarelados causam ao público e da sensação de vazio a que leva o debate de seus projetos mal explicados. Diante de um quadro onde reina a total falta de confiança nos próprios ideais (isso existe?), os dois decidiram apelar para um convidado especial, numa tentativa de evitar uma debandada dos espectadores. Respeitável público, queira dar as boas vindas a Deus!

A entrada de Deus no debate político aumenta as chances de atrair de volta a atenção do eleitor médio e entediado para o centro do picadeiro político. Chega de Serra e Dilma fingirem passes de mágica ultrapassados, tirando milhões de empregos da cartola e fazendo desaparecer todos os problemas do país com um toque de varinha mágica. Se o convidado especial tem o poder de lançar pragas ou te mandar pro inferno, porque deixar o espetáculo da democracia nas mãos de dois cidadãos comuns e sem graça nenhuma? O povo quer sangue e sexo! Ou sexo misturado com sangue. Tanto faz. Como tanto faz o fato de Serra e Dilma entrarem em igreja ou templo somente para casamento ou missas de sétimo dia. Ninguém está ligando pra isso. O importante é defender os valores cristãos diante da sociedade, é dizer “não ao aborto” e “sim ao direito à vida”.

A impossibilidade de uma candidatura divina à presidência (não existe foto de Deus para colocar na urna eleitoral, além disso, pelo que ouvi, Ele é monarquista) relegou aos dois candidatos oficiais a responsabilidade de ser porta-voz do projeto comum de “direito à vida” outorgado pelo Todo Poderoso.

Quem está ligando para os já tão batidos problemas básicos de saúde, saneamento, violência, educação e corrupção que continuam sendo um freio para o desenvolvimento da sociedade brasileira? A moda agora é falar de aborto! Deus não tá nem aí se você morre de fome ou de hepatite na fila do SUS. O que ele não perdoa é a sua filha de 14 anos abortar um feto que ela não poderá criar, deixando, assim, de perpetuar a sua miséria. Não, meu caro, a coisa aqui é séria. Levante você também a bunda do sofá, desligue a TV de plasma comprada em 36 parcelas e saia por aí defendendo a vida, que, por sinal, não é a sua… “Graças a Deus”.

Exclu$ivo: governo brasileiro, o Vaticano e Silas Malafaia = guerra

Leandro Demori | Itália 11:15 | 07/10/2010

Poucas coisas no mundo são mais sigilosas do que os acordos de Estado que envolvem o Vaticano. Desde 2007, o Brasil anda às voltas com um deles, promulgado, por fim, em fevereiro deste ano.

Entre os temas presentes no documento estariam a preservação de igrejas, isenções fiscais, concessão de vistos para missionários e o ensino de religião nas escolas. O acordo faz com que o Governo Brasileiro, entre outras coisas, seja responsável por restaurar igrejas, mesmo que a posse das mesmas continue sendo da Santa Sé. O Governo também permitiria que o Vaticano não reconhecesse direitos trabalhistas a quem dedica a vida à Obra do $enhor: padres, irmãos, freiras, missionários.

De acordo com o jornal Valor Econômico de hoje [conteúdo fechado para assinantes], Lula teria dito que pode “revisar” o acordo caso Je$us continue a fazer campanha potencialmente prejudicial à Dilma. Dilma não venceu a campanha no primeiro turno porque, como todo mundo sabe, Deus não quis.

Além desse tratado, há outro, no entanto, assinado recentemente e que pode ter provocado o enxofre dos céus por parte de outros cristãos. No mês passado, em visita à Itália, o Ministro do Turismo, Luiz Barretto, teve uma reunião na Santa Sé. Lá, foi decidido que o governo brasileiro dará suporte à Igreja Católica para que a Opera Romana possa trabalhar com turismo religioso no Brasil — levar gente para visitar, por exemplo, Aparecida, o Beto Carreiro do senta-levanta.

O que deixou de ser contado é o pano de fundo dessa história, que este Braziu dá de modo exclu$ivo para você [nooooooo$$a como eles são furões]: o objetivo da Sé, baseado em números fornecidos pelo Brasil, é conter a sangria de fiéis provocada pelo pessoal do dinheiro na sacolinha (“ou dá ou desce”). Parte desse pessoal naturalmente detestou a ideia de que o governo estará ajudando oficialmente a Igreja a combater seus inimigus (eles). Estaria aí um o motivo pelo qual muitos religiosos começaram a bater em Dilma? Naum çei nada de nada e nego tudo sempre.

ps. A informação me foi dada em off. Não comentem com ninguém, ok? Confio em vocês.

O 20 de setembro é uma das mais importantes datas da história

Leandro Demori | Itália 13:36 | 20/09/2010

O Estado Vaticano, esse pequeno pedaço de terra cercado de muros que convive com Roma em seu entorno, já foi algo muito maior e mais representativo do que jardins, palácios e museus de uma Igreja.

Após o fim do Império Romano, uma encarniçada guerra entre povos do norte da Europa tomou conta da península — fatiada e distribuída ao norte e ao sul. A região central, no entanto, foi sendo lentamente dominada pela Igreja. Grosso modo (e não pretendo me alongar nesse episódio que pode ser consultado em outras e abundantes fontes) a faixa que se estende do Tirreno ao Adriático, de Ferrara a cidades ainda mais ao sul de Roma é considerada, a partir de 752, Estado Pontifício.

Nessas terras, o Papa possuía os poderes religioso e político, e usava ambos com tamanha maestria que levou seu Estado avante por mais de mil anos.

Os domínios papais no centro da Itália operavam de forma organizada e violenta.

Vivo perto dos Arsenais Vaticanos aqui em Roma, por exemplo, onde o exército da Igreja mantinha suas armas. Nas redondezas havia o porto de Roma, de onde chegavam e saiam mercadorias. O Estado Pontifício exportava ferro, grãos, vinho e pequenos objetos manufaturados; importava armas, ouro, espécies, mármores e jóias.

Foi uma potência política tão forte que chegou a fazer súditos oficiais importantes como o Reino da Inglaterra, o Reino de Portugal e a família Aragão da Espanha (que mais tarde dominaria o sul da Itália na tomada de Napoli).

Os papas escolhidos ao longo daquele tempo obedeciam a interesses muito mais terrenos do que os de hoje: eram de famílias ricas, influentes, direcionadas ao poder e aproveitadoras do espólio que o Império Romano havia deixado por aqui.

Estou lendo um livro chamado I papi e il sesso (Os papas e o sexo), escrito pelo jornalista Eric Frattini. É um livro importante para clarificar que os papas, ao longo da história, foram notáveis pedófilos, estupradores, assassinos, sádicos seviciadores de escravos e doentes mentais crônicos que usavam sem limites o poder que possuíam. Não é de hoje que os corredores da Igreja exalam podridão.

São inúmeros os trechos incisivos sobre sexualidade, muitos como esse:

O Papa Leão X, homossexual, tinha que andar de lado na cela do cavalo devido às úlceras anais das quais sofria, consequência de seus numerosos encontros amorosos pelas vielas escuras de Roma.

O contornos sexuais ajudam a entender as poucas luzes de uma época em que o Vaticano exercia poder direto sobre a vida e a morte. Nepotismo, corrupção e despotismo viveram momentos sem precedentes sob as ordens de papas. Com as chaves de Pedro nas mãos e uma população assustada no bolso, a canalhice exalava por todos os poros.

Benedetto IX era neto de Giovanni XIX, que por sua vez havia sucedido seu irmão, Benedetto VII, neto de Giovanni XIII; Giovanni XI era filho ilegítimo de Sergio III; Giovanni XIII era filho ilegítimo de um bispo; Paolo I sucedeu seu irmão, Stefano II; papa Silvero era filho de papa Ormisda; Innocenzio I era fruto de papa Anastasio I; Bonifacio VI era filho de um bispo; papa Romano era irmão de papa Martino e ambos eram filhos de um sacerdote.

Os trechos acima, de tradução livre feita por mim para este post, mostram a eterna festa de carnaval sádica e nepotista da Igreja ao longo dos séculos. Não existe pecado do lado de lá do Rio Tibre. Era quase uma família Guerra.

O Estado Vaticano atravessou toda a Idade Média e viu impérios importantes nascerem e morrerem antes de ser derrotado. O ocaso dos domínios papais aconteceu exatamente em 20 de setembro de 1870, em um evento que ficou conhecido como Presa di Porta Pia (Tomada de Porta Pia). A Itália estava unida desde 1861, mas faltava Roma, domínio papal protegido pelos próprios exércitos e por tropas de Napoleão III.

Em 4 de setembro de 1870, por causa da guerra contra a Prússia, o Terceiro Império francês cai. As tropas de Napoleão III se retiram de Roma e os unificadores veem a chance de atacar. O governo italiano tentou, antes, negociar. Diante das negativas do papa, o então Reino da Itália abriu um buraco de 30 metros no muro perto de uma das portas e ocupou a cidade. Era o fim do Estado Pontifício.

A derrota imposta ao Vaticano abriu uma crise entre a Sé e a Itália chamada Questão Romana, resolvida somente em 1929 por Benito Mussolini, que criou o Estado Vaticano.

O 20 de setembro, portanto, é uma das datas mais importantes da história da humanidade por conta da Tomada de Porta Pia e do fim da era das úlceras anais — somente atrás, em importância, é claro, da Revolução Farroupilha.

Nove anos depois

Fabricio Pontin | Estados Unidos 21:53 | 11/09/2010

Todo mundo que eu conheço tem uma história bacaninha de como ficou sabendo dos atentados. Eu não lembro direito. Tudo que eu lembro é que estava na faculdade e ouvi algo sobre um incêndio no World Trade Center. Depois, no ônibus, tinha uma turma rindo e dizendo que parecia que uns nove outros aviões tinham sido sequestrados. Cheguei em casa, a primeira torre já tinha caído e a outra estava lá enquanto o repórter da CNN surtava no vídeo.

Os dias que se seguiram os atentados foram um festival de informação desencontrada. Ninguém realmente acreditava que os Estados Unidos iam demorar mais de um ano para capturar o Osama, ninguém realmente pensava que trilhões de dólares seriam gastos em duas guerras e que o presidente dos Estados Unidos financiaria uma delas com dinheiro chinês (o que certamente vai passar para a história como um dos piores erros estratégicos de uma administração norte-americana).

Nove anos depois, ninguém sabe se Osama está vivo ou morto, e pouco importa. A guerra no Iraque foi um desastre inconclusivo: ainda que houvesse razões para invadir o território e arrancar o Saddam de lá, o erro americano foi parecido com o cometido no Vietnam: ao pensarem que seriam saudados como libertadores, foram recebidos como invasores sem legitimidade.

No Afeganistão, depois de nove anos de ataques e planos, tudo que os americanos conseguiram é garantir a administração de um setor de Kabul, o resto do território tendo sido largado na mão de lutas tribais e uma expansão preocupante do radicalismo via bin-Laden na fronteira com o Paquistão.

Nos Estados Unidos, o noticiário passa as notícias de nove anos atrás sem parar. Enquanto isso, o Congresso discute se os bombeiros, policiais e paramédicos que responderam as chamadas de emergência nos prédios têm direito a tratamento especial para as doenças que eles pegaram durante a operação. Na última votação, o Congresso decidiu que não.

Mais que isso: nesses nove anos, a direita religiosa, que tinha adquirido legitimidade no governo Reagan (que, justiça seja feita, era inteligente o suficiente para usar aquela gente, mas nunca para ser usado por eles), se tornou a vanguarda do partido republicano, empurrando o conservadorismo fiscal para escanteio e criando uma noção delirante de imperialismo democrático aliada com populismo de valores. A chamada Bush Doctrine consiste justamente na articulação dessas duas frentes, que só foram elaboradas após os ataques. Bush alegou, em 2000, ser um conservador amável. Essa faceta foi rapidamente abandonada por um discurso totalmente diferente e o país ainda sofre as consequências dessa reestruturação.

Uma economia no lixo

Os anos Clinton criaram uma sensação enorme de otimismo nos Estados Unidos. Durante os oito anos do governo do bonitão, os americanos gastaram e compraram como nunca. Eles também criaram uma série de expectativas completamente insanas sobre os próprios bens e planos de vida. Criou-se a chamada “loucura dos seis dígitos”, de uma hora para outra, qualquer casa em um subúrbio de Chicago, Nova Iorque ou Los Angeles custava um milhão de dólares.

Essa tendência não foi revertida por Bush, pelo contrário. Um dia depois dos ataques, Bush foi a público dizer para os americanos comprarem mais, consumirem intensamente. Naquele momento, Bush poderia ter tentado reproduzir Roosevelt em 1939, e pedido austeridade, calma e trabalho. Ele pediu o contrário: consumo, ansiedade e lazer. Seis anos depois, os Estados Unidos começavam a pior crise de empregos desde 1981 e a pior crise fiscal desde 1929.

Uma derrota anunciada, uma nova liderança

Com um desastre econômico, duas guerras indo para lugar algum e um desastre ecológico nas costas, Bush começou um processo de queda vertiginosa, que acabou determinando que a grande eleição de 2007 não seria a entre um republicano e um democrata, mas entre os democratas. As primárias entre Hillary e Obama foram sensivelmente mais importantes que a eleição geral, justamente por não existir qualquer chance de eleição para um candidato republicano.

No entanto, os neo-cons encontraram em Sarah Palin um veiculo ainda mais poderoso que Bush. Palin era um grande quadro em branco onde os neo-cons poderiam escrever o que bem entendessem. Ela era perfeita. E melhor ainda, a mídia liberal odiava ela. Os republicanos sabem que a estratégia política pós 9/11 depende da criação de antagonismos, e não poderiam perder a oportunidade de explorar esse cenário.

Com isso, a Sarah Palin surgiu como a grande liderança de oposição, mobilizando uma voz única de negativas às políticas democráticas. Mesmo com um Congresso favorável, Obama se viu cercado de democratas com medo de perder seus respectivos cargos, e foi incapaz de liderar, no primeiro ano de governo, uma politica de situação homogenea.

Resultado: enquanto os republicanos votavam em bloco, os democratas votavam de forma desordenada e sem uma contra-partida aos republicanos. Em dois anos, Obama baixou para a linha dos 40% de aprovação e agora começa a brincar com os 35%, com níveis de rejeição similares aos de Bush em 2006.

Empregos, estrutura e um elitista

Muita gente boa sustenta que o pior da crise econômica já passou. Do ponto de vista da austeridade fiscal, sem dúvida. Mas tem um lado que ninguém tá falando: os empregos perdidos durante a crise não estão voltando. As pessoas continuam sem emprego, sem condições de pagar pelas coisas que adquiriram durante o otimismo dos anos Clinton, na terceira ou quarta hipoteca da segunda ou teceira casa…

Com isso, a estrutura do país está em crise. Em Detroit, os pedidos de falência individual continuam crescendo, um passeio rápido pelas ruas de Memphis ou St. Louis denuncia uma série de negócios fechando e prédios que são abandonados por falta de pessoas para alugar salas.

Enquanto isso, Obama demonstra uma incapacidade notável de articular uma ponte entre a habilidade de fazer discursos geniais com uma comunicação efetiva com o grande público. Ao contrário de Clinton, Obama não tem, hoje, qualquer simpatia com os democratas do meio-oeste, que têm um perfil mais de classe-média baixa, operária-industrial. Enquanto isso, Palin apela forte para o público de direita. Agora, Obama olha para o mapa eleitoral e vê os republicanos com chance de eleger governadores em 30 dos 50 estados, e com alta possibilidade de reverter a maioria democrata no Congresso, e diminuir a vantagem no senado.

Tolerância de mão única

Entre as discussões bobas da mesquita próxima do ground zero e a suposta queima do Corão por um pastor imbecil (pleonasmo, eu sei) na Flórida, uma coisa fica clara sobre o cenário pós 9/11, e que talvez seja a maior vitória dos atentados: os americanos estão extremamente dispostos a abrir mão de liberdades civis conquistadas nos últimos 100 anos em nome da suposta segurança nacional.

Por um lado, existe a tentativa de legitimar o Islã no contexto norte-americano após os ataques. Depois dos abusos praticados pelo governo Bush contra prisioneiros de guerra e o evidente estabelecimento de elementos religiosos dentro do Imperialismo Democrático da doutrina Bush, agora o esforço passa por legitimar o Islã. Exceto que tentar legitimar algo já presume a ilegitimidade da coisa. E ai temos a primeira dimensão do problema, ao tentar justificar as atividades normais de muçulmanos nos Estados Unidos, surge a pergunta “porque esses indivíduos precisam justificar essas atividades, quando outros não precisam?”.

Do outro lado, existe uma preocupação especial com as sensibilidades do Islã. Todas as religiões podem ser objeto de chacota, menos o Islã. Esse tratamento especial acaba denotando a construção de uma via de mão única, onde se permitem a construção de mesquitas, mas se aceita que essas mesmas mesquitas não permitam que cachorros passem na frente do estabelecimento (cachorros são animais impuros, entenda). Nada disso ajuda no processo de integração, pelo contrário.

Acontece que Obama não tem exatamente um histórico fabuloso na questão de direitos humanos. Guantánamo continua ativa, prisioneiros são mantidos no local sem julgamento e sem direito a Habeas Corpus. E aí?

Um país na encruzilhada

Sem dúvida, a eleição de Obama foi um evento extremamente relevante do ponto de vista socio-cultural, Obama venceu em estados onde 40 anos atrás um negro não poderia sentar na mesma mesa de um branco. Mas o momento de euforia com a eleição se esvaziou antes da posse do Obama. Já no terceiro mês, a aprovação de Obama era normal, e depois de um ano, a queda começou a se tornar vertiginosa.

Parece que houve, sim, uma mudança substancial no país, mas não era a que os democratas esperavam. Pelo contrário, a eleição mobilizou os conservadores e rapidamente frustrou os democratas. Agora, Obama vai ter que lidar com a potencial eleição de republicanos extremamente conservadores para o Congresso (os moderados estão sendo obliterados pela Palin), e esperar que essa tendência não se reverta na eleição da Palin como presidente em 2012 (o que sigo achando pouco provável).

Ainda assim, o crescimento do conservadorismo religioso enquanto vanguarda política é um fato incontestável desde 2001, e Obama perdeu a chance de parar essa tendência no momento da posse. Agora, ela retornou com mais força e mais poder de organização e talvez possa desenhar uma mudança política maior que a protagonizada por Reagan.

Se eu perder, não brinco mais

Fabricio Pontin | Estados Unidos 15:47 | 12/08/2010

Para começar, um pouco de contexto:

Na Califórnia, e em vários estados aqui na terra do Tio Sam, o camarada que arrumar um certo número de assinaturas pode colocar uma proposta de lei entre os ítens para serem votados em uma determinada eleição. Em 2008, as seguintes propostas entraram em campo:

1A) Aprovar o financiamento público de um trem-bala de Los Angeles para San Francisco
2) Implementar padrões mínimos para o tratamento ético de animais em confinamento
3) Autorizar o financiamento público e benefícios fiscais para hospitais de crianças
4) Emenda constitucional (na constituição do Estado da Califórnia, bem entendido) regulando autorização paternal para abortar gravidez de menores de idade
5) Novo estatuto regulando fiança, sentença e liberdade condicional para crimes não violentos
6) Implementação de um financiamento para um novo programa de penas criminais e segurança pública
7) Implementação de um programa de energia renovável na Califórnia
8 ) Emenda constitucional (no Estado da Califórnia, de novo) definindo casamento como a união entre um homem e uma mulher e banindo o casamento homossexual.
9) Emenda constitucional sobre sistema criminal, especialmente direitos das vítimas e punição de crimes violentos.
10) Autorização para implementar títulos públicos de financiamento de energia renovável e combustível renovável.
11) Emenda constitucional regulando mudança de endereço
12) Autorização para implementar títulos públicos para financiar a compra de imóveis para ex-veteranos.

Pois bem, o primeiro choque foi que quase todas as legislações progressistas levaram um sonoro não. Os californianos decidiram que não iam financiar legislação ambiental alguma, não iam diminuir o volume do poder punitivo do Estado sobre a vida nua dos cidadãos desfavorecidos que são hordienamente massacrados pela malha Estatal-Soberana, impositora de um certo domínio higiênico-populacional de regras (que na realidade expressam o caráter de exceção do regime de poder Estatal) de forma agônica e atemporal.

Um choque, mas nem tanto, afinal, a Califórnia tem uma população carcerária enorme e elegeu Conan para governador (isso depois de ter eleito o Cowboy do Brooklyn).


pega na minha espada

Mas a coisa realmente deu polêmica com a tal da Proposta 8. A que define casamento como a união entre papai e mamãe, que nem Jesus disse e a Bíblia falou. Todo o beautiful people californiano (pensem no Sean Pean, na Susan Sarandon, enfim, no povo de Hollywood) começou um gritedo sem limite na hora que a legislação foi introduzida para ser votada. Algumas organizações de direitos civis entraram na Justiça, requisitando que a proposta fosse retirada da ordem do dia. A Suprema Corte da Califórnia se manifestou dizendo que não via nada de errado no formato da proposta e que ela tinha todos os requerimentos para entrar na ordem do dia. Ou seja: vai ter voto.

Acontece que o Estado da Califórnia já estava casando homossexuais. A proposta 8 buscava justamente cessar a prática e os efeitos dos casamentos realizados desde a implementação da legislação anterior. O slogan da campanha era “restaure o casamento” e focava nos efeitos nocivos (!!!) do casamento homossexual para a sociedade e os bons costumes.

Mas pera aí, a Califórnia não era o paraíso liberal?

A imagem que a maior parte das pessoas tem da Califórnia se confunde com a imagem de Hollywood e de São Francisco. Algo mais ou menos assim:


Demori, me liga!

Acontece que a Califórnia, sozinha, tem o quinto maior PIB do mundo. Boa parte dos conservadores fiscais dos Estados Unidos ou moram na Califórnia, ou tem negocios lá. Fora do centro de influência de Hollywood e São Francisco (as cidades universitárias, as comunidades hippies e os paraísos para os podres de rico), o Estado é extremamente conservador. Uma boa olhada na lista de governadores desde 1953 dá um quadro da coisa: apenas três governadores democratas. Poderia-se argumentar que os Republicanos que governam a Califórnia são conservadores fiscais, mas não de valores. Isso era verdade até a transformação profunda que o Partido Republicano sofreu nos últimos quinze anos. Hoje, um republicano que é apenas um conservador fiscal é um republicano sem grana para financiar a campanha.

The Big Money

A restituição dos valores de família, tradição e propriedade falou muito alto para todo mundo que não era da panelinha Hollywood-San Francisco e mesmo com o Arnold dizendo que achava melhor votar contra a proposta, os proponentes da restituição do casamento “tradicional” foram direto ao ponto:

Traduzindo tudo: “quem vai proteger nossas crianças desse bando de pervertido?”. Isso é o canto da sereia para a dona de casa entediada do Vale do Silício, que não aguenta mais ver o professor do jardim de infância do filho dela desfilando de sunga na parada gay pride de São Francisco. A dona de casa, então, fala para o marido magnata dar a grana para a campanha e vai votar. Ela também vai falar com todas as amigas dela, igualmente de saco cheio, irem votar.

Somem a isso o fato de que os conservadores fiscais que injetam grana na economia californiana são, em boa parte, de Utah. E Utah, sabe-se, acredita que homossexualidade é uma doença e oferece tratamento para pessoas acometidas da enfermidade (até 1980, sodomia era crime no Estado inteiro, hoje, é considerada uma contravenção leve e os praticantes são remetidos a clínicas de re-habilitação). Com isso, a campanha tinha muito dinheiro para queimar.

Participação, interesse e resultados

Ainda assim, não dá para acreditar que o lobby pró-casamento tradicional tinha mais dinheiro que o lobby contra a passagem da lei. Se os conservadores fiscais têm muito dinheiro, Hollywood tem muito mais. Ainda que as donas de casa chateadas com o professor gay tenham mandado cheques de 10$ para a campanha pela familia tradicional, o sindicato dos professores da Califórnia doou 1.5 milhão de dólares para a campanha contra. No mínimo, houve um empate na quantidade de grana investida.

Só que não houve mobilização significativa do lado contra a legislação. Enquanto os conservadores cooptavam diversos setores da sociedade (inclusive Democratas religiosos, como os Batistas), o outro lado ficava em uma lenga-lenga aborrecida sobre igualdade formal, fugindo desesperadamente do debate sobre a questão da homossexualidade, focando nos direitos iguais. Claramente, a disputa era pelo voto dos negros e dos latinos na Califórnia, que são em grande parte religiosos e teriam mais simpatia pelo discurso da igualdade, mas talvez nem tanta sobre a parte envolvendo os homossexuais.

Isso foi um erro estratégico por parte dos opositores da proposta oito. Alguns homossexuais se sentiram alienados da campanha e o assunto perdeu uma identidade, perdeu o rosto. Ninguém sabia quem é que eram essas pessoas que perderiam o direito a casar, porque a campanha escondia isso. Enquanto isso, em São Francisco e em LA ninguém realmente acreditava que os conservadores tinham chance. Resultado: não foram votar.

Do outro lado, todo mundo votou. Os negros e latinos de forma decisiva com os conservadores. Mesmo com a indicação contrária do Obama, do Arnold e do Sean Penn, a proposta 8 passou como lei.

Assim não brinco mais

No dia seguinte, os liberais de Hollywood e São Francisco acordaram da festa do dia anterior e descobriram que, bem, eles tinham esquecido de ir votar. Seguiu-se grande comoção pública. De uma hora para a outra, a questão adquiriu o rosto que não tinha na época da campanha. Uma das melhores iniciativa foi “não divorcie meus pais”:

Organizaçõs de direitos civis novamente entraram na justiça, dessa vez para pedir a inconstitucionalidade da proposta e sustar os efeitos da lei imediatamente. Semana passada o pedido foi reconhecido por uma corte distrital na Califórnia e agora a lei será julgada pela Suprema Corte californiana. Se a Suprema Corte californiana negar o pedido e revalidar a decisão do referendo, o único caminho para as organizações civis na Califórnia seria apelar para a Suprema Corte de Washington, com base em princípios constitucionais.

Acontece que a decisão da corte distrital foi claramente política e a Suprema Corte da Califórnia pode, sim, reverter a decisão do tribunal. Na realidade, ela deve reverter a decisão, já que ela foi mobilizada antes do referendo e disse que a matéria sendo discutida não era inconstitucional. O que mudou?

De certa forma o que mudou foi a pressão social. A decisão sobre a legalidade do referendo foi recebida com relativa calma na Califórnia, já que as organizações de direitos civis acreditavam poder ganhar o jogo. Uma vez que elas perderam, resolveram apelar novamente.

E se fosse o contrário?

O problema todo é o seguinte: se o referendo foi ilegal, ele foi ilegal para os dois lados. E se a decisão tivesse privilegiado o interesse dos que favorecem o casamento homossexual? Onde estariam essas organizações de direitos civis agora? Continuariam alegando a ilegalidade do referendo?

Parece que, e eu lamento dizer isso, o pessoal não está sabendo perder. A atitude correta, do ponto de vista procedimental, seria esperar pela próxima eleição e inserir uma proposta cancelando a legislação anterior.

Ainda assim, existe uma chance da Suprema Corte tomar uma decisão política hoje e voltar atrás na decisão tomada há poucos meses. Qualquer que seja o resultado, existe um risco da parte que perder ir apelar para a Suprema Corte em Washington. Mas é um risco grande, uma vez que a Suprema Corte em DC pode decidir por nem receber o protesto – para evitar uma posição nacional sobre o casamento homossexual; ou pode receber e julgar o protesto válido, tornando qualquer legislação banindo casamento homossexual inconstitucional, em qualquer lugar dos Estados Unidos.

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