200 países, 200 anos, 4 minutos
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O serviço secreto americano lançou um aviso dizendo que diversos objetos suspeitos foram encontrados em aviões de carga da UPS. Os dispositivos em questão são, até onde consegui entender, algo como cartuchos de impressora alterados para parecerem detonadores de bomba.

Tem um avião sendo revistado em um aeroporto na Pennsylvania e agora tem dois aviões da força aérea norte-americana dando cobertura para um avião de passageiros.
Estou no meu escritório, em um PC velho, com a CNN passando muito mal e porcamente. Vou tentar achar um canal alternativo e atualizar aqui conforme as coisas acontecerem (usando nos updates o horário local, 3 horas a menos que no Brasil). Se a coisa ficar mais feia, eu e Dr. Rocco Demori abriremos um live-stream aqui mesmo.
Na semana que vem tem os mid-terms (eleições) aqui nos Estados Unidos e essa histeria por conta desses explosivos deve acabar com qualquer chance que os Democratas tinham de tentar virar a tendência de domínio Republicano no Congresso e no Senado.
Update 1 (2:45 PM – Central Time) Sinagogas e centros culturais judaicos estão em nivel máximo de alerta. Algumas pessoas já começaram a largar “bombas-de-mentirinha” em lugares estratégicos, questão doméstica querendo potencializar o alcance das potenciais bombas dos aviões que, até agora, parecem ser uma questão de interferência externa (mas nunca dá para saber nos Estados Unidos).
Update 2 (2:47 PM – Central Time) A CNN acaba de mandar a manchete: Emirates flight 201 lands at New York’s JFK airport escorted by fighter jets. Ou seja, pousou o avião no JFK. To ligando meu netbook aqui, sem condições de abrir duas ou mais abas nesse computador
Update 3 (2:52) Governo lança nota atribuindo ao Yemen e à Al-Qaeda o incidente. Por enquanto a terminologia gira em torno de “scare” e não “threat”.
Update 4 (2:55) Passageiros saindo do aviao da Emirates ao vivo em vídeo.
Update 5 (2:58) Obama vai falar ao publico em quinze minutos. Ao vivo aqui.
Update 6 (3:04) Destino final do avião seria O’hare, em Chicago.
Interessante que aviões seguem pousando no aeroporto na Filadelfia. (acabou de pousar um doméstico no vídeo aqui). Pelo visto, estão tentando evitar uma parada total das capacidades aereas do pais, como aconteceu em 2001.
Update 7 (3:15) Avião seria procedente de Dubai, não do Yemen, dizem as autoridades americanas para a CNN. “”Emirates Flight EK201, which has just landed at JFK, originated in Dubai not in Yemen, as reported in the US media. More information will follow as soon as we have it. Emirates is co-operating fully with the US authorities.”
Update 8 (3:18) BBC dando (só ela) que não havia bomba alguma no avião. A revista The Atlantic se pergunta se “terroristas do Yemen estariam praticando para uma situacao real de bomba”.
Update 9 (3:23) BBC e MSNBC: o pacote foi retirado em Newark e aberto; dentro havia um cartucho de impressora e um certo pó branco. A teoria da policia é que seria um teste para ver a resposta do Governo Americano diante da situação. As infos no entanto são bem ESPECULATIVAS até agora. MSNBC: mais de uma dúzia desse tipo de dispositivos foram colocados em aviões da UPS no mundo todo.
Discurso do Obama:
“Os pacotes realmente contêm material explosivo, pelo menos em alguns casos”
[Pelo que entendi, esses foram pegos ainda antes do embarque em vôos. Foram pacotes identificados como suspeitos.]
“Os pacotes realmente vieram do Yemen. E pelas mãos da Al Qaeda. Falamos com o presidente do Yemen, que prometeu cooperar”
[fim do que importa no discurso]
that’s all, folks. Voltem depois pro live que importa, o do debate.
São 20h15 quando Eva chega ao antigo hospital abandonado. Sherzaad não lembra a data em que pediu o asilo político, só lembra que era inverno. Pega o telefone celular e liga para o que ele chama de “uma amiga em Bari”. Fala com ela por breves segundos antes de passar a ligação para Eva.
Giovanna conversa com um homem que esteve na Noruega. Ao contrário de todas as expectativas, ter estado na Noruega é péssimo. O asilo é um cabo-de-guerra em que ninguém faz força, uma luta entre países para provar quem tem as piores condições de conceder casa e comida. Quem vence, perde; países que podem oferecer melhores condições devem se responsabilizar pelo refugiado, gastar parte do caixa público para mantê-lo. Ninguém quer se responsabilizar pelos efeitos colaterais da guerra.
O “cara da Noruega” se chama Zahbi e quer ficar na Itália.
Zahbi e Sherzaad são afegãos, fugitivos de uma guerra que já dissolveu quase uma década de suas vidas. Zahbi e Sherzaad não contam como vieram parar na Itália — não querem ter vida pregressa.
“Aqui é bom, tem até restaurante”, brinca Sherzaad, apontando para duas caixas térmicas onde pratos pré-prontos de massa típica italiana são armazenados. Nasceu em Jalalabad, cuja foto que ilustra o verbete em inglês da Wikipedia faz se assemelhar a um moderno centro de uma cidade normal. Sherzaad não parece ter fugido de Jalalabad por medo da modernidade.
Os afegãos de Roma fazem parte de uma minoria mongol levada à região pelos exércitos de Gengis Khan a partir do século XIII; são chamados de Hazaras e formavam um quinto da população do país antes da invasão militar. Após a perda de controle territorial em algumas regiões do país por parte dos exércitos invasores, os hazaras começaram a se espalhar pelo mundo. Hoje, um em cada quatro refugiados que vagam pelo planeta são afegãos hazaras.
Para que fiquem na Itália, Sherzaad e Zhabi não podem ser pegos pela polícia nos próximos 18 meses. Ambos pediram asilo em países que têm melhores condições de abrigo (Noruega e Alemanha) e, pela lei europeia, precisam voltar para lá. Se quiserem viver aqui, devem acordar todas as manhãs por um ano e meio como se não existissem. Cumprido o período fantasma, fazem novo pedido de asilo. Precisam, na prática, fazer com que sua ‘vida europeia’ seja apagada e recomece do zero. Olhando nos olhos de Sherzaad e Zhabi, acreditei que seria bom se recomeçasse de verdade.
Sherzaad desembarcou na Europa em 2008. Veio pela Grécia e rumou para a Inglaterra. Pego pela polícia, foi deportado novamente para a Grécia. Fugiu, rodou por Áustria e Eslovênia até chegar à Itália. Conta a história e ri, mas não gosta de contar a toda hora.
Sherzaad quer ficar na Itália mesmo sabendo que não há emprego. “Qui si sta bene”. Aprendeu logo uma das expressões mais utilizadas na península, um certo conformismo italiano típico que busca justificar o índice de desenvolvimento do país na última década — inferior ao da Europa do lado de lá dos Alpes — com seus monumentos históricos, suas belas paisagens de praias e montanhas, o bom clima, a excelente comida, o ar que se respira.
Eva a Giovanna ouvem tudo pacientemente. Têm fome. São 21h30, não comem nada desde o meio-dia. Ambas são voluntárias freelance: vêm todas as semanas, nas quartas-feiras, ao antigo hospital transformado em abrigo de refugiados para ajudar gente como Sherzaad e Zahbi a colocar a documentação em dia. Os pedidos de asilo estão em desordem assustadora.
Eva é tradutora, versa palestras e conversações do inglês para o italiano. Giovanna é consultora legal. Nenhuma delas ganha uma lira pelo trabalho das quartas. Se fizesse algum extra naqueles dias, Eva talvez conseguisse trocar o Fiat surrado com três camadas visíveis de pintura em tons mal calibrados por um carro mais novo. Eva não parece se importar.
Afegãos têm um jeito peculiar de comprimentar. Apertam sua mão e depois a batem no próprio peito, espalmada, como quisessem tocar o próprio coração. Olham para você enquanto fazem isso, e sorriem.
Eva explica algo em italiano para um deles, que traduz para o outro.
Sherzaad e Zahbi, assim como todos os outros 70 conacionais que ali estão, se vestem com camisolões longos e calças largas, brancos. Não usam barbas ou turbantes como a imagem clássica dos afegãos espalhada no período pós-invasão. Aqueles, os de barba e turbante, em um mundo falsamente simples de ser explicado, são os inimigos.
Perseguidos e tratados como linhagem inferior pela maioria afegã, os hazaras são, além de mongóis, muçulmanos xiitas –- minoria dentro da população sunita afegã. Os hazaras xiitas são, portanto, a minoria da minoria. Após o início dos conflitos, foram escurraçados violentamente pelo Taleban, que tomou suas casas e suas mulheres. Quem não fugiu, morreu.
Se aproxima o Ramadã*, o que, para um muçulmano naquelas condições, representa um problema. Pouco antes de serem transferidos para o hospital, os afegãos ocupavam uma área aberta onde haviam formado um campo de refugiados. Precisaram de socorro por conta do calor bestial de Roma no pico do verão: não havia mais onde buscar água. No Ramadã, precisam ficar até 16 horas por dia sem comer ou beber, do nascer do sol ao poente.
Faz 40 graus em Roma, não há um fio de vento e a estrutura que os abriga fecha durante o dia. Não podem ficar lá dentro, ao reparo do sol. Precisam ir para a rua. Sobreviver ao Ramadã será uma prova de fé.
São 22h10 e Eva e Giovanna ainda estão sentadas desconfortavelmente em duas cadeiras de plástico no pátio externo do prédio. Giovanna ensina a polir o italiano enquanto ouve histórias de vida e fuga. A maioria dos contadores fala rudimentarmente. Um deles chama Giovanna de “Giovanni”. Ela, vaidosa, o repreende. “Giovanni é nome de homem”.
Eva e Giovanna continuam a preencher fichas.
Nome:
Sobrenome:
Cidade de partida:
Cidade de chegada:
Telefone para contato:
Todos os afegãos têm celular.
Chega outro, Fahim al-Ahari. Perdeu todos os documentos. É informado de que precisa prestar queixa na polícia. Encosta mais um na mesma situação para ouvir atentamente, perdeu tudo e também não fez a queixa. Muitos afegãos perdem seus documentos. Fahim diz que a polícia inglesa ficou com seus papéis quando foi pego ilegalmente no país e deportado para a Itália. Ao longo da noite, chegarão outros sem documentos e sem denúncias à polícia, sem papéis e deportados.
São 22h51, Giovanna e Eva se levantam. A vida legal dos afegãos de Roma precisa ser suspensa até a próxima quarta-feira. É sempre quarta-feira na vida dos afegãos de Roma.
*O Ramadã já acabou. Comecei a escrever o texto em julho, quando visitei o centro de refugiados.
Todo mundo que eu conheço tem uma história bacaninha de como ficou sabendo dos atentados. Eu não lembro direito. Tudo que eu lembro é que estava na faculdade e ouvi algo sobre um incêndio no World Trade Center. Depois, no ônibus, tinha uma turma rindo e dizendo que parecia que uns nove outros aviões tinham sido sequestrados. Cheguei em casa, a primeira torre já tinha caído e a outra estava lá enquanto o repórter da CNN surtava no vídeo.
Os dias que se seguiram os atentados foram um festival de informação desencontrada. Ninguém realmente acreditava que os Estados Unidos iam demorar mais de um ano para capturar o Osama, ninguém realmente pensava que trilhões de dólares seriam gastos em duas guerras e que o presidente dos Estados Unidos financiaria uma delas com dinheiro chinês (o que certamente vai passar para a história como um dos piores erros estratégicos de uma administração norte-americana).
Nove anos depois, ninguém sabe se Osama está vivo ou morto, e pouco importa. A guerra no Iraque foi um desastre inconclusivo: ainda que houvesse razões para invadir o território e arrancar o Saddam de lá, o erro americano foi parecido com o cometido no Vietnam: ao pensarem que seriam saudados como libertadores, foram recebidos como invasores sem legitimidade.
No Afeganistão, depois de nove anos de ataques e planos, tudo que os americanos conseguiram é garantir a administração de um setor de Kabul, o resto do território tendo sido largado na mão de lutas tribais e uma expansão preocupante do radicalismo via bin-Laden na fronteira com o Paquistão.
Nos Estados Unidos, o noticiário passa as notícias de nove anos atrás sem parar. Enquanto isso, o Congresso discute se os bombeiros, policiais e paramédicos que responderam as chamadas de emergência nos prédios têm direito a tratamento especial para as doenças que eles pegaram durante a operação. Na última votação, o Congresso decidiu que não.
Mais que isso: nesses nove anos, a direita religiosa, que tinha adquirido legitimidade no governo Reagan (que, justiça seja feita, era inteligente o suficiente para usar aquela gente, mas nunca para ser usado por eles), se tornou a vanguarda do partido republicano, empurrando o conservadorismo fiscal para escanteio e criando uma noção delirante de imperialismo democrático aliada com populismo de valores. A chamada Bush Doctrine consiste justamente na articulação dessas duas frentes, que só foram elaboradas após os ataques. Bush alegou, em 2000, ser um conservador amável. Essa faceta foi rapidamente abandonada por um discurso totalmente diferente e o país ainda sofre as consequências dessa reestruturação.
Uma economia no lixo
Os anos Clinton criaram uma sensação enorme de otimismo nos Estados Unidos. Durante os oito anos do governo do bonitão, os americanos gastaram e compraram como nunca. Eles também criaram uma série de expectativas completamente insanas sobre os próprios bens e planos de vida. Criou-se a chamada “loucura dos seis dígitos”, de uma hora para outra, qualquer casa em um subúrbio de Chicago, Nova Iorque ou Los Angeles custava um milhão de dólares.
Essa tendência não foi revertida por Bush, pelo contrário. Um dia depois dos ataques, Bush foi a público dizer para os americanos comprarem mais, consumirem intensamente. Naquele momento, Bush poderia ter tentado reproduzir Roosevelt em 1939, e pedido austeridade, calma e trabalho. Ele pediu o contrário: consumo, ansiedade e lazer. Seis anos depois, os Estados Unidos começavam a pior crise de empregos desde 1981 e a pior crise fiscal desde 1929.
Uma derrota anunciada, uma nova liderança
Com um desastre econômico, duas guerras indo para lugar algum e um desastre ecológico nas costas, Bush começou um processo de queda vertiginosa, que acabou determinando que a grande eleição de 2007 não seria a entre um republicano e um democrata, mas entre os democratas. As primárias entre Hillary e Obama foram sensivelmente mais importantes que a eleição geral, justamente por não existir qualquer chance de eleição para um candidato republicano.
No entanto, os neo-cons encontraram em Sarah Palin um veiculo ainda mais poderoso que Bush. Palin era um grande quadro em branco onde os neo-cons poderiam escrever o que bem entendessem. Ela era perfeita. E melhor ainda, a mídia liberal odiava ela. Os republicanos sabem que a estratégia política pós 9/11 depende da criação de antagonismos, e não poderiam perder a oportunidade de explorar esse cenário.
Com isso, a Sarah Palin surgiu como a grande liderança de oposição, mobilizando uma voz única de negativas às políticas democráticas. Mesmo com um Congresso favorável, Obama se viu cercado de democratas com medo de perder seus respectivos cargos, e foi incapaz de liderar, no primeiro ano de governo, uma politica de situação homogenea.
Resultado: enquanto os republicanos votavam em bloco, os democratas votavam de forma desordenada e sem uma contra-partida aos republicanos. Em dois anos, Obama baixou para a linha dos 40% de aprovação e agora começa a brincar com os 35%, com níveis de rejeição similares aos de Bush em 2006.
Empregos, estrutura e um elitista
Muita gente boa sustenta que o pior da crise econômica já passou. Do ponto de vista da austeridade fiscal, sem dúvida. Mas tem um lado que ninguém tá falando: os empregos perdidos durante a crise não estão voltando. As pessoas continuam sem emprego, sem condições de pagar pelas coisas que adquiriram durante o otimismo dos anos Clinton, na terceira ou quarta hipoteca da segunda ou teceira casa…
Com isso, a estrutura do país está em crise. Em Detroit, os pedidos de falência individual continuam crescendo, um passeio rápido pelas ruas de Memphis ou St. Louis denuncia uma série de negócios fechando e prédios que são abandonados por falta de pessoas para alugar salas.
Enquanto isso, Obama demonstra uma incapacidade notável de articular uma ponte entre a habilidade de fazer discursos geniais com uma comunicação efetiva com o grande público. Ao contrário de Clinton, Obama não tem, hoje, qualquer simpatia com os democratas do meio-oeste, que têm um perfil mais de classe-média baixa, operária-industrial. Enquanto isso, Palin apela forte para o público de direita. Agora, Obama olha para o mapa eleitoral e vê os republicanos com chance de eleger governadores em 30 dos 50 estados, e com alta possibilidade de reverter a maioria democrata no Congresso, e diminuir a vantagem no senado.
Tolerância de mão única
Entre as discussões bobas da mesquita próxima do ground zero e a suposta queima do Corão por um pastor imbecil (pleonasmo, eu sei) na Flórida, uma coisa fica clara sobre o cenário pós 9/11, e que talvez seja a maior vitória dos atentados: os americanos estão extremamente dispostos a abrir mão de liberdades civis conquistadas nos últimos 100 anos em nome da suposta segurança nacional.
Por um lado, existe a tentativa de legitimar o Islã no contexto norte-americano após os ataques. Depois dos abusos praticados pelo governo Bush contra prisioneiros de guerra e o evidente estabelecimento de elementos religiosos dentro do Imperialismo Democrático da doutrina Bush, agora o esforço passa por legitimar o Islã. Exceto que tentar legitimar algo já presume a ilegitimidade da coisa. E ai temos a primeira dimensão do problema, ao tentar justificar as atividades normais de muçulmanos nos Estados Unidos, surge a pergunta “porque esses indivíduos precisam justificar essas atividades, quando outros não precisam?”.
Do outro lado, existe uma preocupação especial com as sensibilidades do Islã. Todas as religiões podem ser objeto de chacota, menos o Islã. Esse tratamento especial acaba denotando a construção de uma via de mão única, onde se permitem a construção de mesquitas, mas se aceita que essas mesmas mesquitas não permitam que cachorros passem na frente do estabelecimento (cachorros são animais impuros, entenda). Nada disso ajuda no processo de integração, pelo contrário.
Acontece que Obama não tem exatamente um histórico fabuloso na questão de direitos humanos. Guantánamo continua ativa, prisioneiros são mantidos no local sem julgamento e sem direito a Habeas Corpus. E aí?
Um país na encruzilhada
Sem dúvida, a eleição de Obama foi um evento extremamente relevante do ponto de vista socio-cultural, Obama venceu em estados onde 40 anos atrás um negro não poderia sentar na mesma mesa de um branco. Mas o momento de euforia com a eleição se esvaziou antes da posse do Obama. Já no terceiro mês, a aprovação de Obama era normal, e depois de um ano, a queda começou a se tornar vertiginosa.
Parece que houve, sim, uma mudança substancial no país, mas não era a que os democratas esperavam. Pelo contrário, a eleição mobilizou os conservadores e rapidamente frustrou os democratas. Agora, Obama vai ter que lidar com a potencial eleição de republicanos extremamente conservadores para o Congresso (os moderados estão sendo obliterados pela Palin), e esperar que essa tendência não se reverta na eleição da Palin como presidente em 2012 (o que sigo achando pouco provável).
Ainda assim, o crescimento do conservadorismo religioso enquanto vanguarda política é um fato incontestável desde 2001, e Obama perdeu a chance de parar essa tendência no momento da posse. Agora, ela retornou com mais força e mais poder de organização e talvez possa desenhar uma mudança política maior que a protagonizada por Reagan.
Durante sua fala dominical (o Angelus), o Papa Bento XVI expressou ontem “muita satisfação pela entrada em vigor do tratado pelo não-uso das Cluster Bombs“, leio agora no Corriere della Sera [impresso].
Cluster bomb é um armamento militar — uma bomba — que, após lançada de aviões ou do solo, se separa em diversas outras pequenas bombas, causando uma estrago dissipado no alvo.

O problema das Cluster bombs é que, ao tocarem o solo, muitas ogivas não explodem. Permanecem ali por anos até serem descobertas por animais ou pessoas. Muitas são as vítimas no pós-guerra, invariavelmente civis.

A Cruz Vermelha Internacional estima em 100 milhões o número de ogivas plantadas em antigos campos de guerra pelo mundo.
O Angelus papal foi direcionado à convenção porque o Vaticano foi um dos Estados que pressionou na ONU pelo fim do uso das Cluster Bombs. As expectativas, no entanto, foram resfriadas por um dado importante: “mesmo sendo assinada por 107 nações, não foi reconhecida por países como Estados Unidos, China, Rússia, Israel, Índia, Paquistão e Brasil. Entre os 107 presentes, somente 37 já ratificaram a convenção”, traz o Corriere.
Estados Unidos, Rússia e China são produtores das bombas, vendem a países como Israel (que as usou contra o Líbano, por exemplo), Paquistão e Índia (que brigam pela região da Caxemira).
O Brasil não está em guerra, [mas também produz Cluster Bombs <-- updated 19h54] e não deve espantar o fato de o país ter deixado de assinar o documento. Já que estamos entrando no mundo dos adultos, nada mais natural do que se acostumar com as brincadeiras da parte de cima do beliche.
Dormir em baixo é roubada.
O Real Clear Politics, da CNN, mandou a primeira bomba: 49% da população acha que o Obama não está fazendo um bom trabalho. Depois, os números gerais sobre a reeleição: Obama: 37 – Um Republicano Qualquer: 42. Finalmente, a Gallup lança um mapa com a aprovação do Obama por Estado:
Pois bem, comparem este mapa com o mapa que deu a vitória ao Obama. O que acontece é o seguinte: se os lugares onde o Obama tem a aprovação abaixo de 50% votassem AGORA, ele perderia a eleição.
O elemento mais crítico das eleições nos Estados Unidos são os swing states — os Estados que mudam de voto mais facilmente. Qualquer candidato Republicano sabe que não tem chance em Illinois ou em Nova Iorque na próxima eleição e nem o depoimento de Jesus em pessoa consegue fazer um Democrata ganhar no Tennessee ou em Kentucky. Mas a coisa muda de figura em estados como Ohio, Indiana, North Dakota, Pennsylvania, West Virginia e Florida: nesses Estados, um detalhe na propaganda eleitoral ou uma mudança na situação econômica podem alterar o voto de parte da população. No mapa, já dá para perceber que Obama tem uma aprovação baixa em alguns desses Estados, o suficiente para colocá-los no campo de influência dos Republicanos.
Obrigado, Carter
Os Republicanos começam a se movimentar agressivamente para tornar o Obama o novo Carter. A missão é mais fácil do que parece: Obama está tendo um ano terrível. Apesar de ter passado duas reformas importantes (a financeira e a do sistema de saúde), ninguém parece lá muito otimista com o estado da economia, e os crescimentos foram muito pequenos para criar qualquer mudança de perspectiva na população. Mesmo com um Congresso de maioria Democrata, Obama parece estar de mãos atadas e, de quebra, tem uma dificuldade enorme em comunicar as suas vitórias.
Para alguém com uma capacidade enorme de fazer discursos memoráveis, Obama tem mostrado uma incapacidade notável na hora de falar ao público. A reforma do sistema de saúde foi uma vitória importante, mas ninguém entendeu o novo sistema. Obama passou semanas, talvez meses, tentando explicar como tudo funciona. De nada adiantou. Uma olhada rápida no website do New York Times sobre o assunto dá uma medida do tamanho da complicação: a reforma foi aprovada meses atrás e detalhes da implementação continuam sendo discutidos, pessoas continuam fazendo perguntas simples e recebendo respostas mirabolantes. A reforma do sistema financeiro surtiu efeito parecido: passou alguma coisa no Senado, mas os efeitos da passagem da reforma não foram sentidos no dia-a-dia.
Os Republicanos têm aproveitado isso para polarizar ainda mais a eleição de 2012. A pergunta deles parece ser: “se esse cara não consegue nem mobilizar um Congresso favorável e se comunicar com os eleitores, como a gente espera que ele consiga ganhar duas guerras e resolver a maior crise econômica institucional desde 1929?”. É uma boa pergunta.
A militancia e “the big fat Clinton money machine”
Algumas das grandes críticas da Hillary a Obama, ainda da época da definição do candidato dos Democratas, têm se confirmado: Obama tem muita capacidade de fala, mas falta poder de definição; Obama tem pouca experiencia, e “hope” não é uma estratégia assim como “change” não é uma política; e por aí vai.
No entanto, foi para os Clintons que o Obama correu quando foi eleito. Isso depois de tudo que a Hillary havia feito durante as primárias para a eleição de 2012.
Mas qual o motivo para isso?
Em primeiro lugar, não foi uma opção do Obama. Foi uma necessidade. Ainda que a campanha de 2007 tenha sido marcada pela participação de voluntários e uma chuva de dinheiro de doadores de pequeno porte, assim que Obama foi eleito ficou claro que a quantidade de dinheiro que eles eram capazes de arrecadar online era patética diante da grana que os congressistas precisavam para poder prometer apoio. E mais patética ainda diante das campanhas necessárias para passar a reforma do sistema de saúde, por exemplo.
Com isso, Obama teve que ir para onde está o dinheiro. E o dinheiro está com os Clintons. Acontece que isso comprometeu o apoio de parte da militância do “hope”, que queria uma mudança na politica externa e uma reforma radical do sistema financeiro. Com os Clintons, a politica externa mudaria pouco e o sistema financeiro menos ainda.
No entanto, Obama continuou sendo tachado de socialista radical, possivelmente muçulmano e totalmente preto pela oposição Republicana. Enquanto ele perdia tempo se defendendo — dizendo que era um liberal clássico, totalmente batista e só preto na parte camarada e cantora de soul music –, os Republicanos foram aumentando o volume da critica, usando o pessoal do Tea Party como idiotas úteis [vídeo: O que é o Tea Party movement].
A volta do pop-conservadorismo

“Die, monster, die”
Essa senhora aí em cima é a Karen Handel, futura governadora da Georgia, um dos Estados mais desiguais dos Estados Unidos. A dona Handel é apenas uma das diversas mulheres que fazem parte de uma espécie de tropa de choque de apoio a Sarinha Palin em 2012. Em uma entrevista recente, a Palin caracterizou a dona Handel como “pro-life, pro-Constituição e cumpridora”, essas três qualidades que, podemos dizer, são o pacote mais importante para eleger um Republicano no sul dos Estados Unidos. Não que seja difícil eleger um Republicano no sul dos Estados Unidos, é claro.
Por muito tempo, desde a eleição de Bush I, os Republicanos têm uma estratégia clara para ganhar eleições. A chamada “deep south strategy” consiste em garantir os Estados ao sul de Illinois e ganhar em outros quatro ou cinco Estados (incluindo a Califórnia). A estratégia falhou toda vez que a situação econômica não beneficiava os Republicanos: em 1992, Bush I perdeu a eleição por uma crise econômica atribuída ao presidente. Em 96, Clinton foi reeleito com uma boa margem de vantagem, em um clima econômico fantástico. Em 2000, Bush II foi derrotado por Al Gore em uma eleição insossa que acabou sendo decidida pela Suprema Corte, em favor de Bush II. Bush acabou sendo reeleito por um reconhecimento da liderança durante o período dos atentados e também pela completa falta de carisma de John Kerry, seu opositor. Com as crises econômicas de 2007, nenhum candidato Republicano teria qualquer chance. McCain foi para o sacrifício, sabendo que perderia a eleição, e os Republicanos usaram a campanha para lançar novas lideranças, esperando poder ganhar em 2012 – redesenhando o mapa eleitoral nos termos de 1988.
Para isso, os republicanos estão reciclando a ideia do “amavel conservador” (“compasionate conservative), que ganhou as eleições para Bush I e II. A ideia é focar em valores do candidato como “gente como a gente”, e consolidar o opositor como um elitista incapaz de plantar uma alface. Nesse sentido, e em muitos outros, a estratégia dos Republicanos lembra muito a do Partido dos Trabalhadores para eleger Lula. Focar nos pontos pessoais, elaborar uma política econômica de relativa austeridade e prometer desenvolvimento social. No entanto, a diferença é que, enquanto no Brasil um candidato não pode, sob pena de suicídio político, falar contra políticas sociais governamentais, os republicanos podem montar plataformas inteiras demonizando a própria ideia de política social governamental.

“Olhe para os meus olhos”
As mulheres que surgem agora, na surdina da Palin, são o exemplo mais bem elaborado dessa estratégia. São, todas elas, mulheres casadas, religiosas, com filhos, que sabem atirar, sabem pilotar caminhão e “nunca precisaram do governo para nada na vida”. As eleições regionais estão cheias dessas mulheres que surgem na cola da Sarah Palin, imitando o estilo. Nos Estados ao sul, a vitória dessas candidatas é lógica. Mas a surpresa (para o horror dos Democratas) é que algumas pessoas com esse perfil têm tido sucesso fora do bible belt.

“Manterei minhas armas, liberdade & dinheiro. Você pode ficar com o ‘troco’”. [Clique para ampliar]
Cronica de uma derrota anunciada?
Devemos esperar a Presidente Palin em 2012?
Em geral, o clima é de decepção com o governo Obama. O papelão na administração do desastre do Golfo do México certamente não pode ser atribuída ao governo passado e a estagnação no Iraque, a derrota no Afeganistão e as duas batidas na trave de atentados em território americano (somados ao ataque bem-sucedido no Kansas) certamente não ajudam. De quebra, a situação econômica não melhorou.
No entanto, seria um equívoco pensar que os republicanos vão ganhar essa eleição facilmente. Sarah Palin é uma piada ambulante e pode perder o pleito em alguma declaração desastrada. As outras lideranças Republicanas parecem ter alguma cautela ao entrar na próxima eleição e arriscar uma derrota que acabaria com suas reputações. A tendência é que Palin seja a candidata em 2012 para incomodar Obama e criar um antagonismo ainda maior – perdendo a eleição, mas mobilizando os Republicanos para eleger um Congresso claramente oposto aos Democratas e inviabilizando o segundo mandato do Obama na prática. Com isso, o caminho estaria livre para Huckabee ou Mitt Romney em 2016.
A politica externa não será tão importante quanto a interna. Qualquer que seja a impressão sobre Obama nas questões internas, ela vai ser repassada para a externa. Se ele for visto como incapaz de liderar e decidir internamente, essa vai ser a impressão para a política externa. Esse não é um fenômeno da próxima eleição americana, mas de qualquer eleição. Um papelão na política externa de Clinton não o impediu de ser reeleito, e Reagan, que deve ser responsável por 90% da confusão que os americanos armaram no Afeganistão, foi reeleito com uma margem de votos impressionante. Ambos têm em comum um período de bonança na política interna.
Com isso, é fácil presumir que as próximas eleições vão mudar o mapa eleitoral americano sensivelmente, indicando a perda de popularidade de Obama e dos Democratas. Mas o quadro ainda está longe de ser definitivo. Se Obama seguir perdendo popularidade, talvez Mitt ou Huckabee decidam concorrer na próxima eleição. Os Republicanos teriam um novo Reagan depois do novo Carter.

Ilustração do Menezes, que faz isso pela simples busca da fama
A edição que recebo todas as manhãs do International Herald Tribune graças ao presente involuntário da americana que morava aqui antes de mim — e esqueceu de mudar o endereço da entrega — chama de roofers os jovens que formam uma das tribos da “subcultura” de Moscou. Os roofers passam os dias em silêncio, contemplando a cidade dos topos dos edifícios. Lá em cima, buscam algum tipo de paz perdida em meio ao caos dos mais de 10 milhões de habitantes da capital vermelha. Os roofers são invasores. Para entrar nos edifícios, testam combinações prováveis tentando quebrar as senhas das fechaduras eletrônicas predominantes. Em último caso, tocam em apartamentos aleatórios dizendo-se entregadores de qualquer coisa ou vizinhos descuidados que esqueceram a senha ou a chave.
É improvável que doa aos jovens russos de hoje serem mundialmente conhecidos por uma termo em inglês (o jornal sequer traz a palavra roofer em russo e diz que eles próprios se chamam assim). Certamente causa mais desilusão o fato de alguns novos roofers terem transformado a arte de se isolar em negócio: cobram de 13 a 80 dólares por pessoa para fazer um tour de invasões pelos prédios da cidade. Uma afronta.
Os roofers de Moscou fazem parte de uma minoria em extinção: a das pessoas que só querem ficar quietas no seu canto. E se incomodam quando são confundidos com vândalos ou arrombadores. Os roofers de Moscou não querem confusão, fama ou defender grandes ideais. Os roofers de Moscou sabem que só podem salvar o mundo deles mesmos e que isso exige dedicação extrema.
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O exército do Sudão anuncia semanalmente uma lista de mortos como se fosse uma empresa dando satisfações aos acionistas. Darfur é hoje o centro da mais brutal das guerras humanas em curso. Ninguém se importa com Darfur porque defender ideais pelas redes sociais não é diferente de buscar inserção social: os atores e autores precisam ser minimamente conhecidos. É inútil entupir o Twitter de convocações que ninguém atenderá. Israel x Palestina, por exemplo, é hype e garantia de tornar seu perfil público mais “humano”. Darfur é furada, é só “preto matando preto”.
Antes de querer salvar o mundo dos outros deveríamos aprender a salvar o mundo de nós mesmos.